
Divulgação/Globo
Gracindo Jr., ator pioneiro da Globo, morre aos 83 anos
Filho do famoso ator Paulo Gracindo começou no rádio aos 15 anos e construiu carreira de mais de seis décadas no teatro, TV e cinema
Mais de seis décadas de carreira
O ator e diretor Gracindo Jr. morreu na manhã desta quarta-feira (2/9), aos 83 anos, em sua casa, no Rio de Janeiro. A informação foi confirmada por seu filho, Pedro Gracindo, ao g1. A causa da morte ainda não foi divulgada.
Como Gracindo Jr. começou a carreira?
Filho de Paulo Gracindo (1911-1995), um dos maiores nomes da história da TV brasileira, Epaminondas Xavier Gracindo construiu uma trajetória própria que começou ainda adolescente no rádio e atravessou teatro, cinema e diferentes fases da televisão brasileira, da inauguração da Globo à dramaturgia da Manchete e da Record.
Gracindo entrou para a Rádio Nacional em 1959, aos 15 anos, depois de fazer um teste na emissora onde seu pai vivia o auge da carreira. Em vez de ocupar apenas a posição de “filho de Paulo Gracindo”, trabalhou em diferentes funções: foi ator, redator e disc-jóquei. Chegou a cursar Psicologia, mas abandonou a perspectiva de exercer a profissão para seguir definitivamente a carreira artística.
Ditadura interrompeu trabalho
A trajetória profissional sofreu uma ruptura em 1964. Militante do Partido Comunista, Gracindo Jr. foi um dos artistas atingidos pela ditadura militar e perdeu a possibilidade de continuar trabalhando na Rádio Nacional. O afastamento ocorreu numa lista que também atingiu nomes como Dias Gomes e Mário Lago.
Naquele momento, porém, ele já havia começado a trabalhar no teatro e na televisão. Antes da Globo, acumulou passagens por TV Rio, TV Excelsior e TV Tupi. A mudança definitiva de meio aconteceu justamente quando a nova emissora começava a ser montada no Rio.
Gracindo foi contratado pela Globo em dezembro de 1964, quatro meses antes da inauguração oficial do canal. “Eu entrei no início da TV Globo. Ela estreia em abril de 1965, mas em dezembro de 1964 eu já estava contratado”, contou décadas depois em depoimento ao Memória Globo.
Gracindo participou dos primeiros anos da Globo
Integrante do primeiro elenco da emissora, participou de “Rosinha do Sobrado” (1965), em 1965, uma das primeiras novelas produzidas pelo canal. Vieram depois “Padre Tião” (1965), “A Rainha Louca” (1967), “A Próxima Atração” (1970), “Uma Rosa com Amor” (1972), “O Bem-Amado” (1973), “Os Ossos do Barão” (1973) e “Supermanoela” (1974).
A carreira proporcionou também diversos encontros profissionais com Paulo Gracindo. Um dos momentos mais lembrados foi em “O Bem-Amado”, clássico de Dias Gomes, no qual Paulo eternizou o prefeito Odorico Paraguaçu.
Mas a parceria familiar ganhou uma dimensão ainda mais curiosa três anos depois.
“O Casarão” uniu pai e filho no mesmo personagem
Em “O Casarão” (1976), novela de Lauro César Muniz construída em três períodos históricos, Gracindo Jr. interpretou o artista plástico João Maciel entre 1926 e 1936. Um dos trabalhos de maior destaque da primeira fase da carreira do ator, o personagem era um pintor e escultor de espírito anárquico que se apaixonava por Carolina, vivida por Sandra Barsotti, depois de usá-la como modelo para uma escultura religiosa.
O diferencial da novela era que a narrativa acompanhava os mesmos personagens em épocas diferentes sem obedecer a uma estrutura linear. No período contemporâneo da trama, João se tornava um artista plástico consagrado e reaparecia interpretado por Paulo Gracindo, enquanto Yara Cortes assumia a Carolina madura.
O recurso permitiu que pai e filho compartilhassem não apenas uma novela, mas literalmente o mesmo personagem em momentos diferentes da vida. A produção se tornou uma das experiências narrativas mais ousadas da Globo nos anos 1970 – alguns diriam até em todos os tempos.
Ator também passou para trás das câmeras
A década de 1970 marcou ainda a expansão de Gracindo para a direção. No teatro, estreou como diretor com “A Longa Noite de Cristal”, de Oduvaldo Vianna Filho, autor com quem manteve uma relação artística importante. Também atuou em textos de Vianinha como “Dura Lex Sed Lex”, “Allegro Desbum” e “Corpo a Corpo”.
Após “O Casarão”, viajou para Portugal como diretor de “É…”, de Millôr Fernandes, que permaneceu quatro meses em cartaz. Ao voltar ao Brasil, assumiu em 1978 a supervisão do núcleo de novelas das 18h da Globo, acompanhando montagem, edição, sonorização e trabalho dos atores.
Passou então a dividir com mais frequência atuação e direção. Trabalhou nas duas funções em “A Sucessora” (1978) e “Memórias de Amor” (1979) e dirigiu “Marron-Glacé” (1979). Nos primeiros anos da década de 1980, também esteve entre os diretores do “Fantástico” (1973), onde apresentou e dirigiu alguns dos primeiros videoclipes musicais feitos para o programa, e assumiu a direção de “Os Trapalhões” (1977).
Manchete deu novos papéis de protagonista
Em 1984, Gracindo participou da experiência que inaugurou a dramaturgia da recém-criada TV Manchete. Em “Marquesa de Santos” (1984), primeira produção dramatúrgica da emissora, interpretou Dom Pedro I ao lado de Maitê Proença, que viveu Domitila de Castro Canto e Melo. A minissérie de Wilson Aguiar Filho reconstituiu o romance entre o imperador e a mulher que se tornaria a Marquesa de Santos.
Dois anos depois, Gracindo e Maitê voltaram a formar o par central em “Dona Beija” (1986), uma das novelas mais emblemáticas da Manchete. Ele interpretou Antônio Sampaio, o grande amor de Ana Jacinta de São José, personagem de Maitê. Depois de ser sequestrada e afastada de Antônio, Beija retornava a Araxá e descobria que ele havia se casado, relação que alimentava boa parte dos conflitos da história.
O sucesso de “Dona Beija” ajudou a consolidar a Manchete como alternativa à Globo na produção de novelas e transformou a dupla num dos casais mais lembrados daquela fase da emissora. Gracindo ainda participou de “Tudo ou Nada” (1986) e, anos depois, de “74.5 – Uma Onda no Ar” (1994).
Retorno à Globo trouxe novelas e minisséries
A passagem pela Manchete não significou rompimento com a Globo. Gracindo voltou à emissora em “Tenda dos Milagres” (1985), adaptação de Jorge Amado, e continuou alternando produções das duas redes.
Na segunda metade dos anos 1980, esteve em “Mandala” (1987), adaptação livre do mito de Édipo escrita por Dias Gomes, e em “O Salvador da Pátria” (1989), de Lauro César Muniz, no qual interpretou Ricardo Ribeiro. Também passou por “Jogo da Vida” (1981), “Quem Ama Não Mata” (1982) e “Bandidos da Falange” (1983).
Nos anos 1990 e 2000, acumulou trabalhos como “Araponga” (1990), “Deus nos Acuda” (1992), “Explode Coração” (1995), “Anjo de Mim” (1996), “Chiquinha Gonzaga” (1999), “Esplendor” (2000), “Aquarela do Brasil” (2000), “Celebridade” (2003) e “Como uma Onda” (2004). Sua passagem pela Globo, portanto, se prolongou por quase quatro décadas.
Teatro permaneceu central na trajetória
Embora a televisão tenha lhe dado maior projeção popular, Gracindo nunca abandonou os palcos. Sua carreira ficou particularmente associada à dramaturgia brasileira contemporânea e a autores como Oduvaldo Vianna Filho, Leilah Assumpção, Millôr Fernandes, Lauro César Muniz e Wilson Sayão.
Entre os trabalhos de maior repercussão esteve “Paulo Gracindo, Meu Pai”, espetáculo que escreveu, dirigiu e produziu no início dos anos 1980 para celebrar a trajetória do pai. Mais tarde, seria ainda o diretor das duas últimas peças estreladas por Paulo Gracindo: “Num Lago Dourado”, em 1991, e “A História é uma História”, de Millôr Fernandes, em 1993.
Na década de 1990, dividiu o palco com Marília Pêra em “O Altar do Incenso”, de Wilson Sayão, sob direção de Moacir Chaves. A parceria retomou uma relação artística antiga dos dois, que já haviam atuado juntos em teatro e televisão.
Trabalho com Judy Garland rendeu indicação ao Shell
Gracindo continuou atuando no teatro depois dos 60 anos. Em 2011, integrou o elenco do musical “Judy Garland – O Fim do Arco-Íris”, protagonizado por Claudia Netto e dirigido por Charles Möeller e Claudio Botelho.
Ele interpretava Anthony, pianista e amigo de longa data de Judy Garland, contraponto sóbrio ao período de descontrole vivido pela estrela americana nos meses finais de sua vida. O desempenho rendeu a Gracindo uma indicação ao Prêmio Shell de Melhor Ator e outra ao Prêmio APTR.
Cinema incluiu produção internacional
No cinema, Gracindo transitou por dramas autorais, comédias populares e produções internacionais. Esteve em “Os Homens que Eu Tive” (1973), de Tereza Trautman, um dos filmes brasileiros mais provocadores dos anos 1970, e participou de “As Moças Daquela Hora” (1974) e “O Dia Marcado” (1977).
Também integrou o universo de Os Trapalhões em “Os Trapalhões na Serra Pelada” (1982) e “O Trapalhão na Arca de Noé” (1983). Em 1985, entrou no elenco de “A Floresta de Esmeraldas” (1985), aventura dirigida pelo britânico John Boorman e filmada parcialmente no Brasil.
Mais tarde, participou de produções como “Bufo & Spallanzani” (2001), “O Primo Basílio” (2007), “Segurança Nacional” (2010), “Tainá – A Origem” (2013) e “Irmã Dulce” (2014), além de diversos outros longas ao longo da carreira.
A ligação profissional e afetiva com Paulo Gracindo ainda ganhou uma síntese no documentário “Paulo Gracindo – O Bem-Amado” (2009). Gracindo Jr. assumiu direção, roteiro e produção do longa, construído a partir de imagens de arquivo e depoimentos de artistas que conviveram com o pai.
Record abriu nova fase na televisão
A partir de 2006, Gracindo iniciou uma sequência de trabalhos na Record. Esteve em “Cidadão Brasileiro” (2006) e ganhou destaque como Don Caló Castellamare, patriarca da família mafiosa de “Poder Paralelo” (2009).
Em “Rei Davi” (2012),interpretou Saul, primeiro rei de Israel e personagem central da trajetória do jovem Davi. O trabalho voltou a aproximá-lo de Leonardo Brício, que havia interpretado seu filho em “Cidadão Brasileiro” e se tornou um amigo próximo fora dos estúdios.
Gracindo também participou de “Milagres de Jesus” (2014) e de outras produções da emissora durante esse período, mantendo uma presença constante na televisão mesmo depois de completar sete décadas de vida.
Últimos trabalhos incluíram produção portuguesa e HBO
Na fase final da carreira, Gracindo participou da novela portuguesa “Ouro Verde” (2017), vencedora do Emmy Internacional, como o fazendeiro Januário Cavalcanti.
No ano seguinte, integrou o elenco da série policial “Pacto de Sangue” (2018), produção do canal Space estrelada por Guilherme Fontes, Mel Lisboa, Paulo Miklos e Jonathan Haagensen.
Seu último trabalho na televisão foi na 3ª temporada de “Magnífica 70”, da HBO, exibida em 2018. Na série ambientada durante a ditadura militar, viveu o general Otto Pontes.
Despedida das telas
Depois de “Magnífica 70”, Gracindo ainda apareceu em 2019 num episódio de “Homens?”, série estrelada por Fábio Porchat. Seu último trabalho como ator, porém, foi no cinema. Em 2020, filmou “A Queda”, drama dirigido e escrito por Diego Rocha que só chegou comercialmente aos cinemas em julho de 2022.
No longa, Gracindo interpreta Gera, avô de Beto (Daniel Rocha), um fotógrafo forense que divide a rotina entre registrar cenas de crimes e cuidar do parente idoso e doente. Ao investigar por conta própria a queda de um homem de 75 anos do 7º andar de um hospital, Beto passa a confrontar também o medo de perder o avô.
Gracindo tinha 77 anos quando participou da produção e, depois dela, não voltou a atuar em novos filmes ou séries.
Por que Gracindo se afastou das telas?
Em 2021, sua filha Daniela Gracindo contou que o ator havia optado por uma rotina mais tranquila na Casa da Colina, pousada da família em Visconde de Mauá, adquirida por ele em 1990. Longe dos estúdios, passava parte do tempo tocando violão, em contato com a natureza e examinando possíveis trabalhos.
“Chegou nessa idade produzindo tanta arte, agora vem levando uma vida muito tranquila, quer um contato consigo mesmo, com a natureza”, contou Daniela na época.
Nos últimos anos, Gracindo passou a enfrentar limitações de locomoção e a usar cadeira de rodas, mas permaneceu lúcido. Quando Maitê Proença o visitou em julho de 2025, a atriz publicou registros do reencontro e afirmou que o antigo parceiro de “Dona Beija” estava saudável, bem-humorado e cercado pelo cuidado da mulher, Daisy Poli. “O olhar dele é cheio de vida. A gente vê que ele tem paz, tem alegria”, escreveu Maitê.