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Divulgação/Globo

TV|7 de julho de 2026

Morre Benedito Ruy Barbosa, autor de “Pantanal” e “O Rei do Gado”

Novelista marcou a TV brasileira com sagas rurais, histórias de imigração e clássicos como “Renascer” e “Terra Nostra”

Pipoque pelo Texto ocultar
1 Autor mudou a paisagem das novelas
2 Autor morreu em São Paulo
3 Família negou doença neurodegenerativa
4 Como a carreira começou?
5 Estreia na Globo criou a novela das 6
6 No interior da novela das seis
7 A infância no campo
8 Cinema também passou pelo interior
9 Desvio pela cidade grande
10 O primeiro épico rural
11 Novela atravessou décadas da história brasileira
12 Lançou uma geração de atores na TV
13 Band conseguiu furar domínio da Globo
14 Volta às novelas das 6
15 Os imigrantes em São Paulo
16 A origem de “Pantanal”
17 “Renascer” e a conquista do horário nobre
18 “O Rei do Gado” e a era dos clássicos
19 Imigração italiana volta em “Terra Nostra”
20 A única minissérie da carreira
21 Remakes marcaram a fase final na Globo
22 Último grande projeto
23 Legado atravessou gerações

Autor mudou a paisagem das novelas

Morreu nesta terça (7/7), aos 95 anos, Benedito Ruy Barbosa, um dos autores mais importantes da história da televisão brasileira. Criador de “Pantanal”, “Renascer”, “O Rei do Gado” e “Terra Nostra”, ele construiu uma dramaturgia marcada pelo Brasil rural, por sagas familiares, pela força da cultura popular e por personagens ligados à terra.

Autor morreu em São Paulo

A morte foi confirmada pela assessoria do HCor, hospital onde o autor estava internado. Em boletim, a instituição informou que o dramaturgo morreu em decorrência de complicações de insuficiência renal crônica. Benedito convivia havia três anos com o diagnóstico e tinha histórico de internações por infecções recorrentes do trato urinário.

Em janeiro, ele permaneceu 19 dias internado para tratar uma infecção urinária associada ao quadro renal.

Família negou doença neurodegenerativa

Nos últimos anos, os problemas de saúde reduziram as aparições públicas de Benedito. Mesmo assim, familiares negaram rumores de que ele tivesse Alzheimer ou outra doença neurodegenerativa.

Segundo a família, o autor permanecia lúcido. Por orientação médica, deixou o sítio onde vivia no interior paulista e passou a morar mais perto dos parentes na capital. A mudança encerrou uma rotina associada ao campo, ambiente que também marcou parte central de sua obra.

Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, Benedito levou para a televisão um universo que até então aparecia com menos frequência no horário nobre. Suas novelas trocavam o apartamento urbano pela paisagem rural, a encenação cenográfica por locações naturais e a vida cotidiana do Rio por conflitos históricos e épicos por terra e pertencimento.

Como a carreira começou?

Benedito nasceu em Gália, no interior de São Paulo, em 17 de abril de 1931. Antes de se tornar sinônimo de novela rural, trabalhou como jornalista e publicitário, além de escrever para teatro e cinema.

Sua aproximação com a o texto de ficção começou no teatro, com a peça “Fogo Frio”, encenada pelo Teatro de Arena de São Paulo. A estreia como autor de novelas aconteceu em 1966, na TV Tupi, com “Somos Todos Irmãos”. Ainda nos anos 1960, também escreveu novelas para a Record, em um período de formação da TV brasileira.

Estreia na Globo criou a novela das 6

A entrada de Benedito Ruy Barbosa na Globo aconteceu com “Meu Pedacinho de Chão”, exibida entre 1971 e 1972. A novela teve importância histórica dupla: marcou a estreia do autor na emissora e inaugurou a faixa das 18h, que se tornaria uma das mais tradicionais da programação televisiva.

A produção foi coproduzida pela Globo e pela TV Cultura, com exibição simultânea nas duas emissoras. Benedito escreveu a trama em parceria com Teixeira Filho e já colocava ali os elementos que se tornariam sua assinatura. “Meu Pedacinho de Chão” deslocava o centro da novela para uma pequena comunidade rural, tratava de desigualdade social, coronelismo, educação, conflitos familiares e relações de poder no interior.

Era o primeiro desenho claro do Brasil profundo que ele transformaria em matéria-prima dramática, mostrando que o campo podia ser mais do que cenário.

No interior da novela das seis

Benedito voltou à faixa das 18h com histórias que reforçavam sua ligação com o interior, ainda que por caminhos diferentes. Em 1976, adaptou “O Feijão e o Sonho”, romance de Orígenes Lessa sobre o choque entre idealismo e sobrevivência material. Benedito transformou esse conflito em melodrama popular, acompanhando um poeta incapaz de sustentar a família e uma mulher obrigada a lidar com as necessidades práticas da casa.

No ano seguinte, ele também esteve ligado a “À Sombra dos Laranjais”, novela ambientada em uma cidade pequena marcada por disputas familiares, política local e memória afetiva. A obra foi iniciada por Sylvan Paezzo, mas Benedito assumiu a escrita ao longo da exibição. Vilas, famílias tradicionais, conflitos políticos locais e personagens presos a uma terra de origem formavam um repertório que ele ampliaria nas décadas seguintes.

Última novela da década, “Cabocla” consolidou ainda mais a presença do interior nos folhetins das 18h. Adaptada do romance de Ribeiro Couto, a novela se passava em Vila da Mata e girava em torno do romance entre Zuca e Luís Jerônimo, vivido na primeira versão por Glória Pires e Fábio Júnior. A trama retomava elementos que se tornariam recorrentes em Benedito: coronéis em disputa, famílias tradicionais, doença, deslocamento urbano-rural, romance marcado por diferenças sociais e um Brasil interiorano com códigos próprios de honra.

A infância no campo

Benedito também participou da primeira versão da Globo de “Sítio do Picapau Amarelo”, uma das produções infantis mais marcantes da televisão brasileira. A série lançada em 1977, com a chegada de Pedrinho, vindo de São Paulo, ao sítio da família, adaptava o universo de Monteiro Lobato e ficou no ar por quase uma década, entre fantasia, folclore, aventura e vida no campo.

“Sítio do Picapau Amarelo” colocava crianças, adultos, criaturas fantásticas, animais falantes, personagens do folclore e referências literárias dentro de um espaço rural reconhecível, onde a imaginação nascia da convivência com a terra, a casa, o quintal, o rio e a oralidade popular.

Cinema também passou pelo interior

A ligação de Benedito Ruy Barbosa com o Brasil rural não ficou restrita à televisão. Entre os anos 1970 e 1980, ele também escreveu ou desenvolveu argumentos para filmes que exploravam ambientes interioranos e cultura caipira.

Em “O Dia em que o Santo Pecou”, lançado em 1975, Benedito assinou roteiro, argumento e diálogos, além de atuar na produção e na assistência de direção. A história se passava em São Sebastião e misturava drama popular, violência, fé e a reação de uma comunidade diante de um episódio tratado como milagre.

Pouco depois, escreveu “Mágoa de Boiadeiro”, drama estrelado por Sérgio Reis sobre um peão revoltado com a chegada do progresso a uma pequena cidade do interior paulista. A trama colocava caminhões no lugar das antigas comitivas de boiadeiros e transformava a perda de trabalho, identidade e modo de vida em conflito central.

Esse interesse pelo impacto da modernização sobre personagens ligados à terra reapareceria muitas vezes em sua televisão. Em Benedito, o progresso raramente era apenas avanço: também podia significar ruptura, desenraizamento e apagamento de uma cultura.

Desvio pela cidade grande

Depois de consolidar na faixa das 18h da Globo uma dramaturgia ligada ao interior, Benedito Ruy Barbosa optou por rumo oposto ao chegar à Band para tentar emplacar uma faixa de novelas na emissora. “Pé de Vento”, exibida em 1980, levava o protagonista interiorano para São Paulo e apostava em conflitos urbanos, ambição profissional, vida familiar e comédia de costumes.

A virada da televisão coincidiu com uma fase de intensa circulação pelo cinema popular brasileiro. No fim dos anos 1970 e início dos anos 1980, Benedito assinou ou colaborou em filmes que dialogavam com gêneros de grande apelo comercial da época, afastando-se temporariamente da imagem de autor rural.

“Amada Amante”, de 1978, título que ecoava o sucesso romântico de Roberto Carlos, acompanhava uma família do interior que se mudava para o Rio de Janeiro e se desagregava diante de novos desejos, relações extraconjugais e choques morais.

No mesmo ano, ele assinou “Sábado Alucinante”, filme embalado pelo imaginário das discotecas e pela cultura jovem urbana do período. O filme dialogava com um Brasil muito diferente daquele de suas primeiras novelas.

A fase também incluiu uma entrada mais áspera no cinema de crime e exploração adulta com “A Mulher, a Serpente e a Flor”, também identificado em algumas filmografias como “O Orgasmo da Serpente”. Adaptação da escritora Cassandra Rios, o título marca um contraste forte com a imagem posterior de Benedito como autor das grandes sagas familiares, envolvendo lesbianismo, estupro, sadismo e vingança durante o auge da pornochanchada nos cinemas brasileiros.

O primeiro épico rural

A experiência parecia apontar para uma ruptura com a matriz rural. Mas a mudança durou pouco. Na segunda novela que escreveu para a Band, Benedito criou seu primeiro épico histórico, focando na formação do Brasil e no destino de famílias ao longo de décadas.

“Os Imigrantes” foi a primeira novela do horário nobre criada por Benedito e a mais longa de sua carreira. A principal novela da história da Band, lançada em 1981, não apenas devolveu Benedito ao terreno das tramas de época, como ampliou seu alcance ao transformar a chegada de portugueses, italianos e espanhóis ao Brasil em um verdadeiro épico televisivo.

A trama acompanhava a chegada de três estrangeiros ao país no fim do século 19: o italiano Antonio Di Salvio, o espanhol Antonio Hernández e o português Antonio Pereira. Eles desembarcavam no Brasil em 1892, atraídos pela promessa de trabalho nas lavouras de café. A chegada, porém, não tinha nada de idílica. Eles iam parar nas terras de Décio Coutinho, fazendeiro autoritário que tratava os trabalhadores imigrantes com desprezo e reproduzia, em nova forma, a violência social deixada pelo regime escravista.

A primeira fase colocava os três Antonios diante do mesmo ponto de partida: pobreza, exploração e necessidade de adaptação. A partir daí, cada um seguia um caminho. Di Salvio tentava construir uma vida em torno da família e do trabalho. Hernández se aproximava das lutas políticas e sindicais. Pereira buscava ascensão econômica, mas carregava frustrações afetivas e marcas da juventude.

Novela atravessou décadas da história brasileira

A estrutura se mostrou geracional. A novela avançou no tempo para acompanhar os filhos, os netos e os efeitos das escolhas feitas pelos primeiros imigrantes. Depois da abertura em 1892, a trama saltava para 1917. Essa segunda fase introduzia temas como movimento operário, imigração japonesa, famílias árabes, conflitos de classe e a Gripe Espanhola. Benedito usava a trajetória das famílias para mostrar a transformação de São Paulo e do país: a lavoura de café, a cidade em crescimento, a chegada de novos grupos de imigrantes e a passagem de uma sociedade rural para uma estrutura mais urbana e industrial.

A terceira fase levava a história para 1932. A Revolução Constitucionalista entrava diretamente na novela, deslocando os conflitos familiares para um cenário político mais amplo.

A quarta fase avançava para 1954, depois da morte dos três Antônios. O foco passava para os descendentes, especialmente os netos das famílias Di Salvio, Hernández e Pereira. A trama acompanhava disputas de herança, ressentimentos antigos e relações amorosas formadas sobre segredos familiares.

Com esse salto, Benedito mostrava como a imigração deixava de ser apenas experiência dos que chegaram ao Brasil e passava a definir a identidade de seus descendentes, que se tornaram brasileiros. Tudo isso ao longo de quase 500 capítulos!

Lançou uma geração de atores na TV

Para contar esta história, Benedito construiu um elenco enorme, cheio de astros conhecidos da TV como Yoná Magalhães, Rubens de Falco, Luiz Armando Queiroz, Dionísio Azevedo, Jussara Freire e rostos famosos do cinema, como Othon Bastos, Nicole Puzzi, Norma Bengell numa rara novela, além do cantor Agnaldo Rayol, do humorista Ary Toledo e do apresentador Rolando Boldrin. Mas, principalmente, lançou uma geração de atores que dominaria a TV nos anos seguintes.

Herson Capri apareceu como o jovem Antonio Di Salvio na primeira fase. Lúcia Veríssimo viveu Isabel Coutinho jovem. Paulo Betti entrou na quarta fase como André adulto, personagem ligado à descendência dos Di Salvio. Norton Nascimento estreou como Afonso, antes de ganhar projeção nacional nos anos 1990. A estreante Solange Couto apareceu na primeira fase como Biá da Silva jovem, personagem que na fase adulta era vivida por Chica Xavier. Até a novata Lília Cabral integrou a saga como Angelina, ligada aos núcleos italiano e português.

Band conseguiu furar domínio da Globo

“Os Imigrantes” foi uma das produções mais importantes da história da Band. A novela teve audiência expressiva, chegou a ser vendida para outros países e venceu prêmios relevantes, incluindo o Troféu Imprensa de Melhor Novela.

O resultado tinha peso especial porque mostrava uma emissora fora da Globo disputando espaço com uma produção longa, histórica e popular. A escala da trama, o elenco numeroso e a reconstrução de períodos diferentes davam à obra uma ambição rara na TV brasileira.

Para Benedito, “Os Imigrantes” abriu uma frente que ele retomaria depois em “Vida Nova”, “Terra Nostra” e “Esperança”. A imigração se tornaria um dos temas recorrentes de sua carreira, ao lado do Brasil rural.

Volta às novelas das 6

Consagrado como autor capaz de fazer sucesso fora da Globo, Benedito Ruy Barbosa foi procurado pela emissora ainda durante a reta final de “Os Imigrantes”. A Band manteve a novela no ar com continuidade de outros autores, enquanto ele reassumiu a faixa das 18h da Globo.

O retorno aconteceu com “Paraíso”, exibida entre 1982 e 1983. A novela recuperava de forma direta o ambiente rural, agora com uma história de amor acompanhada por religiosidade popular, superstição e disputa familiar. O casal central era formado por José Eleutério, vivido por Kadu Moliterno, e Maria Rita, interpretada por Cristina Mullins. Ele era chamado de “filho do diabo” por causa da fama do pai, o velho coronel Eleutério (Cláudio Corrêa e Castro). Ela era tratada como santa por causa de supostos milagres atribuídos à infância e vivia sob o controle da mãe beata, Dona Mariana (Eloísa Mafalda). A novela tinha peões, coronelismo, fé popular, casamento impedido e uma pequena sociedade rural em que boatos tinham força de lei.

Em 1983, Benedito voltou a um título fundador de sua trajetória. “Voltei pra Você” funcionava como sequência de “Meu Pedacinho de Chão”, levando para a vida adulta personagens que haviam aparecido crianças na trama de 1971. A obra também recuperou personagens da novela original, tornando-se a primeira continuação oficial de uma novela da Globo.

Ele ainda criou o argumento de “De Quina pra Lua”, mas seu próximo trabalho como autor foi “Sinhá Moça” (1986), adaptação livre do romance de Maria Dezonne Pacheco Fernandes que abordava o período escravocrata, com foco na luta abolicionista e nas relações de poder dentro de uma fazenda. Lucélia Santos interpretou a protagonista, filha do Barão de Araruna (Rubens de Falco), e Marcos Paulo fez Rodolfo, jovem advogado abolicionista que se envolvia com ela. A novela tratava da escravidão sem abandonar o melodrama central. Havia romance, confronto familiar, violência senhorial e militância política.

“Sinhá Moça” também deixou marca duradoura na Globo. A história ganhou nova versão em 2006, novamente com Benedito na autoria e colaboração de Edmara Barbosa e Edilene Barbosa.

Os imigrantes em São Paulo

No fim da década, Benedito escreveu “Vida Nova”, exibida entre 1988 e 1989. A novela voltava ao tema da imigração, mas agora em outra chave: São Paulo no fim da Segunda Guerra Mundial, com foco no bairro do Bixiga e nas transformações da cidade. A trama tinha direção de Luiz Fernando Carvalho, que se tornou grande parceiro do autor, e ficou marcada como o último trabalho de Lauro Corona na televisão.

Apesar da trajetória consolidada, o autor sofreu em seguida uma grande decepção com a Globo, que quase impediu seu maior sucesso de vir à tona.

A origem de “Pantanal”

A história de “Pantanal” já circulava dentro da emissora desde meados dos anos 1980, com o título provisório “Amor Pantaneiro”, e chegou a entrar em preparação para a faixa das 18h. Entretanto, ela foi descartada pela empresa, que não acreditava na praticidade de gravar em locação no Pantanal.

Contrariado, Benedito levou a ideia para a Manchete, onde finalmente pôde realizar a novela com Jayme Monjardim.

“Pantanal” estreou em 1990 com uma escala visual que a Globo nunca tinha bancado e que os brasileiros também jamais tinham visto numa novela.

A novela transformou a paisagem do Mato Grosso do Sul em personagem, popularizando figuras lendárias como Juma Marruá, a mulher que virava onça, e o Velho do Rio. Também mostrou que havia público para uma dramaturgia de ritmo contemplativo, visual exuberante e forte ligação com a natureza.

A trama marcou a televisão brasileira por desafiar a hegemonia da Globo no horário nobre. “Pantanal” virou fenômeno de audiência e crítica, projetou nomes como Cristiana Oliveira, Marcos Winter, Marcos Palmeira e Paulo Gorgulho, e se tornou uma referência duradoura de novela ambiental e rural.

O impacto foi tão grande que a própria Globo assumiu o erro de não fazer o que Benedito queria na época. Em 2022, o folhetim ganhou uma nova versão escrita por Bruno Luperi, neto do autor, reafirmando a permanência da obra no imaginário nacional.

“Renascer” e a conquista do horário nobre

Depois do fenômeno de “Pantanal”, Benedito voltou à Globo com carta branca e espaço cativo no horário nobre, que ele ocupou com grande estilo com “Renascer”, sua primeira novela das oito na emissora, exibida em 1993. A trama acompanhava a saga de José Inocêncio, fazendeiro da região cacaueira de Ilhéus, na Bahia, e misturava drama familiar, misticismo, violência, paixão e disputa de herança.

A produção reforçou a parceria do autor com Luiz Fernando Carvalho, responsável pela direção geral, trazendo para a tela da Globo o visual exuberante consagrado na Manchete, reunindo atores importantes da trajetória de Benedito, como Antônio Fagundes, Marcos Palmeira, Adriana Esteves, Patricia Pillar, Osmar Prado, Maria Luísa Mendonça, Jackson Antunes e até Fernanda Montenegro, entre outros nomes.

Tornou-se um novo fenômeno, marcando época com personagens como Buba, Tião Galinha, Jacutinga e João Pedro, e também ganhou remake em 2024, novamente adaptado por Bruno Luperi.

“O Rei do Gado” e a era dos clássicos

Em 1996, Benedito escreveu outro clássico do horário nobre: “O Rei do Gado”. A novela partia da rivalidade entre as famílias Mezenga e Berdinazzi para discutir poder, terra, herança, identidade e reforma agrária.

Com Antônio Fagundes, Patricia Pillar, Raul Cortez, Glória Pires, Fábio Assunção e Stênio Garcia no elenco, o enredo atravessava gerações e colocava o agronegócio, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e a política no centro de s drama.

“O Rei do Gado” se tornou uma das novelas mais lembradas da década de 1990. Também consolidou a capacidade de Benedito de transformar temas sociais amplos em melodrama de grande alcance, sem abrir mão de personagens marcantes e conflitos familiares fortes.

Imigração italiana volta em “Terra Nostra”

Em 1999, Benedito voltou ao tema dos imigrantes com “Terra Nostra”. A história de Matteo e Giuliana, vividos por Thiago Lacerda e Ana Paula Arósio, começava no navio que trazia imigrantes ao país no fim do século 19 e se espalhava por fazendas de café, casarões paulistas e núcleos familiares em transformação.

“Terra Nostra” repetiu os feitos da trajetória de Benedito e consolidou astros de grande presença na televisão, como Ana Paula Arósio, Thiago Lacerda e Maria Fernanda Cândido, além de reunir atores frequentes em sua dramaturgia, como Raul Cortez e Antonio Fagundes.

A trama focada na importância da terra retomou temas recorrentes na obra do autor, que ainda voltaria ao assunto da formação do Brasil em “Esperança”, em 2002, e em “Mad Maria”, de 2005, sua única minissérie, passada na Amazônia.

A única minissérie da carreira

Baseada no romance homônimo de Márcio Souza, “Mad Maria” retratava a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, em Rondônia, no início do século 20. A ferrovia ficou conhecida pela quantidade de mortes provocadas por doenças, acidentes, condições brutais de trabalho e abandono dos operários na selva amazônica, e voltou a juntar o autor com Ana Paula Arósio e Antônio Fagundes.

A série dividia o foco entre o drama dos trabalhadores na construção da ferrovia e os interesses políticos e financeiros que sustentavam a obra, e também tinha uma história antiga dentro da Globo. Benedito havia escrito a adaptação ainda nos anos 1980, mas ela ficou engavetada por falta de condições técnicas e só saiu do papel mais de duas décadas depois.

Remakes marcaram a fase final na Globo

A história de “Mad Maria” não foi a única resgatada pela Globo. A partir dos anos 2000, a emissora desenvolveu o hábito de revisitar o legado do autor, iniciando uma fase marcada por remakes e atualizações de novelas que já tinham lugar importante na memória do público.

A primeira retomada veio com “Cabocla”, em 2004, adaptada por Edmara Barbosa e Edilene Barbosa a partir da novela escrita pelo pai em 1979. O remake abriu caminho para uma sequência de retornos ao universo rural e histórico que ele havia criado nas décadas anteriores.

Em 2006, “Sinhá Moça” ganhou nova versão na faixa das 18h. Em 2009, foi a vez de “Paraíso”, seguida por “Meu Pedacinho de Chão” em 2014, desta vez com o próprio Benedito assinando a nova versão, em colaboração com Edilene Barbosa e Marcos Barbosa, e sob direção de Luiz Fernando Carvalho, que deu à releitura tratamento visual de fábula.

Último grande projeto

Benedito voltou às histórias inéditas em “Velho Chico”, exibida pela Globo no horário nobre em 2016. A novela, criada pelo autor e escrita com a filha Edmara Barbosa e o neto Bruno Luperi, tinha o Rio São Francisco como eixo dramático e retomava a relação entre natureza, família, poder político e conflito de gerações.

O enredo começava no fim dos anos 1960, com o conflito entre as famílias de Afrânio de Sá Ribeiro e Santo dos Anjos. O primeiro núcleo mostrava o jovem Afrânio, vivido por Rodrigo Santoro, retornando ao sertão depois da morte do pai e assumindo o lugar de coronel. Na fase adulta, o personagem passava a ser interpretado por Antônio Fagundes.

O folhetim também ficou marcado pela morte de Domingos Montagner, que se afogou no Rio São Francisco durante um intervalo nas gravações. A história foi concluída com alterações e se tornou o último trabalho inédito da carreira do dramaturgo.

“Velho Chico” teve peso adicional por marcar a consolidação de Bruno Luperi, neto de Benedito, como autor de novelas. Ele começou a trama ao lado da mãe, Edmara Barbosa, e do avô, que supervisionava o texto. Com a saída de Edmara da equipe, Bruno assumiu a condução da novela a partir da segunda fase.

Essa passagem de bastão foi decisiva para a etapa seguinte do legado de Benedito. Depois de “Velho Chico”, a obra do autor voltou ao horário nobre por meio de remakes escritos por Bruno Luperi, primeiro com “Pantanal”, em 2022, e depois com “Renascer”, em 2024.

Legado atravessou gerações

Benedito Ruy Barbosa deixa uma obra que ajudou a definir o imaginário da novela brasileira. Seus personagens carregavam nomes, sotaques, crenças e paisagens que ampliaram o repertório da televisão nacional.

Mais do que um autor de sucessos, ele foi responsável por transformar o interior do Brasil em cenário nobre das grandes novelas. Ao fazer do campo um espaço de paixão, disputa, memória e mito, Benedito criou novelas que resistiram à passagem do tempo e continuam vivas em reprises, remakes e na lembrança afetiva do público.

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