
Divulgação/Essential Jazz Classics
Sonny Rollins morre aos 95 e deixa legado gigante no jazz
Saxofonista gravou mais de 60 álbuns, venceu dois Grammys e virou referência com improvisos que marcaram o gênero
O colosso do sax
Sonny Rollins morreu na segunda-feira (25/5) em sua casa, em Woodstock, Nova York, aos 95 anos, após uma das carreiras mais influentes da história do jazz. O saxofonista, conhecido por improvisos potentes e pessoais, ajudou a transformar temas como “St. Thomas”, “Oleo”, “Doxy”, “Rent-Up House” e “Airegin” em standards do gênero. Ao longo de sete décadas, ele gravou mais de 60 álbuns e se consolidou como um dos músicos mais importantes do século 20.
Como tudo começou?
Nascido em Nova York em 7 de setembro de 1930, Theodore Walter Rollins era filho de imigrantes das Ilhas Virgens e cresceu no Harlem, perto do Apollo Theatre e de outros espaços históricos da música negra americana. Sua formação musical foi influenciada por Coleman Hawkins, um dos pioneiros do sax tenor no jazz, além de Charlie Parker e Thelonious Monk, figuras centrais do bebop, estilo que revolucionou a linguagem do gênero nos anos 1940.
Ainda adolescente, Rollins já tocava com nomes importantes da cena, como Babs Gonzalez, J. J. Johnson, Bud Powell e Miles Davis. No início dos anos 1950, passou a ser visto como um dos novos nomes do sax tenor na cena e acumulou trabalho com Miles, Monk e o Modern Jazz Quartet.
O salto artístico veio em 1954, quando gravou “Oleo”, “Airegin” e “Doxy” com um quinteto liderado por Miles Davis. Essas composições ajudaram a consolidar seu nome e continuam sendo tocadas até hoje. “Airegin”, por exemplo, é “Nigeria” escrito ao contrário, enquanto “St. Thomas” virou uma de suas músicas mais conhecidas por trazer forte influência do calipso, ritmo caribenho que marcou parte importante de sua obra.
Problemas pessoais e pausa
A carreira também teve interrupções importantes. Rollins enfrentou prisão por roubo à mão armada e lutou contra o vício em heroína. Em 1955, entrou no Federal Medical Center, em Lexington, Kentucky, onde participou de um tratamento experimental com metadona para abandonar a droga.
No mesmo período, integrou o quinteto de Clifford Brown e Max Roach, dois nomes decisivos do jazz moderno. Foi ali que ganhou o apelido “Newk”, por lembrar o arremessador Don Newcombe, do Brooklyn Dodgers. A partir de 1956, começou a assinar discos em nome próprio e lançou o primeiro de vários álbuns marcantes, entre eles “Saxophone Colossus”, que lhe rendeu o apelido de “colosso” do sax, “Way Out West”, “It Could Happen to You” e “Freedom Suite”.
Em 1959, no auge do reconhecimento, ele se afastou dos palcos por dois anos. Rollins dizia que precisava “aprimorar vários aspectos” de sua técnica e sentia que estava recebendo sucesso demais, rápido demais. Quando voltou, em 1961, lançou “The Bridge”, um dos marcos da sua discografia, repleto de improvisos quase sem pausa.
Estilo e inovação
Rollins tornou-se conhecido por longos solos ao vivo, cheios de variações, citações musicais e mudanças inesperadas de direção. Seu modo de improvisar era quase narrativo: ele partia de uma ideia simples e a desenvolvia como se estivesse contando uma história em tempo real.
Também foi inovador na forma de gravar. Em “Way Out West”, de 1957, fez um trio sem piano, só com saxofone, contrabaixo e bateria, o que dava mais espaço para liberdade harmônica. Em “Freedom Suite”, de 1958, apresentou uma obra que antecipava discussões políticas mais fortes no jazz dos anos 1960. A música ligou o jazz à luta por direitos civis dos negros nos Estados Unidos, num momento em que essa discussão ainda aparecia de forma rara na música. A peça foi apontada como uma das primeiras declarações explícitas do jazz sobre o tema e ajudou a abrir caminho para uma fase em que o gênero passaria a tratar com mais força temas como racismo, desigualdade e protesto social.
Improviso no cinema
Nos anos seguintes, ele trabalhou com Jim Hall, Don Cherry, Paul Bley e até com Hawkins. E foi parar no cinema. Ele assinou a trilha sonora do cultuadíssimo filme britânico “Como Conquistar as Mulheres” (Alfie, 1966), que transformou Michael Caine num dos principais atores do Reino Unido.
Sonny Rollins fez mais do que “assinar” a trilha: ele conduziu uma gravação muito pouco convencional para a época. A música do filme foi gravada em Londres, no Twickenham Film Studios, em apenas alguns dias de outubro de 1965, com Rollins e um grupo de músicos britânicos de primeira linha. Segundo relatos, eles improvisavam enquanto o filme passava na tela, com temas básicos e muito espaço para criação espontânea. Rick Laird, que participou das sessões, disse que quase não havia partitura: a equipe via as cenas e ia tocando em cima delas, o que ajuda a explicar o clima livre e cinematográfico da trilha.
Depois dessas sessões, Rollins voltou ao estúdio em janeiro de 1966 para registrar um álbum completo a partir do material do filme, agora com arranjos de Oliver Nelson e um elenco mais amplo de músicos. Esse disco consolidou “Alfie’s Theme” como uma das peças mais conhecidas do artista, mostrando um Rollins mais dramático, lírico e narrativo, tentando traduzir o personagem e a atmosfera do filme em música.
Ioga e Rolling Stones
Após a experiência cinematográfica, o músico voltou a fazer outra pausa, mergulhando em religião oriental e ioga, especialmente no zen-budismo. Ele passou por Japão e Índia antes de assinar com a gravadora Milestone em 1972, onde materializou a abertura estética que veio dessa fase de busca espiritual.
Rollins continuou ativo por décadas. Em 1986, foi tema do documentário “Saxophone Colossus”, dirigido por Robert Mugge, título que reforçou seu status de lenda do jazz.
Ele também gravou com outros grandes nomes da música e chegou a colaborar com os Rolling Stones em “Tattoo You” (1981), além de ter tocado com o cantor folk Leonard Cohen, mostrando a amplitude de sua influência.
h2>Reconhecimento e prêmios
Ao longo da carreira, Rollins recebeu prêmios e homenagens de grande peso, entre eles a Guggenheim Fellowship, a entrada no DownBeat Jazz Hall of Fame, o Grammy pelo conjunto da obra, o Polar Music Prize, a Medalha Nacional das Artes e o Kennedy Center Honors.
Ele também venceu dois Grammys competitivos: um em 2001, pelo álbum “This Is What I Do”, e outro em 2005, pelo solo em “Why Was I Born?”, do álbum ao vivo “Without a Song: The 9/11 Concert”. Essa gravação foi feita poucos dias após os ataques de 11 de setembro de 2001, um episódio que Rollins presenciou de perto em Nova York.
Últimos anos
Sua última apresentação pública ocorreu em 2012. Em 2013, mudou-se para Woodstock e no ano seguinte apareceu em “Os Simpsons”, anunciando em seguida a sua aposentadoria. Entre seus últimos lançamentos, estão os volumes três e quatro da série “Road Shows”, publicados em 2016.
Rollins deixa um repertório que ajudou a moldar o jazz moderno, tanto pelo impacto de suas composições quanto pela maneira singular de improvisar. Sua música combinava técnica, liberdade e uma identidade muito própria, que abriu fronteiras e influenciou gerações.
Relembre as músicas