
Instagram/Rodrigo Cassol Lima
PL destina R$ 450 mil para documentário de ex-secretários da Cultura de Bolsonaro
Prestação de contas do partido revela repasses para entidade que também recebeu emendas de Eduardo Bolsonaro e Mario Frias
Contas do partido revelam repasses
A executiva nacional do Partido Liberal (PL) realizou o pagamento de R$ 450 mil à Associação Passos da Liberdade ao longo deste ano, revelou reportagem do portal Metrópolis nesta quinta-feira (21/5). A entidade é de propriedade do advogado Rodrigo Cassol Lima, que atua como pré-candidato a uma vaga na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul pela mesma legenda. Os repasses financeiros foram efetuados em parcelas mensais fixas de R$ 150 mil e constam de forma oficial na prestação de contas partidária enviada à Justiça Eleitoral.
Qual foi o destino da verba?
De acordo com as cláusulas do contrato de prestação de serviços anexado aos recibos de pagamento, a quantia de R$ 150 mil mensais é destinada à cobertura de duas frentes de atuação: o gerenciamento da assessoria de comunicação do diretório do PL no estado de Minas Gerais e o custeio técnico para a produção de um filme documentário intitulado “Problemas Nacionais – Reflexões Locais”.
Que filme é este?
No braço cinematográfico do projeto, os comprovantes fiscais discriminam que a equipe responsável pelo andamento do documentário é composta pelo diretor e roteirista Gustavo Lopes, pelo diretor de imagem e editor Anderson Rodrigues e pelo próprio Rodrigo Cassol Lima, encarregado de coordenar os trâmites jurídicos e burocráticos da produção audiovisual.
A equipe destaca nomes responsáveis pela área da Cultura durante o governo Bolsonaro. Cassol atuou como o número dois na hierarquia da Secretaria Nacional de Desenvolvimento Cultural durante o mandato do ex-presidente Jair Bolsonaro. Por sua vez, o diretor do filme, Gustavo Lopes, ocupou a cadeira de titular da Secretaria Nacional do Audiovisual no mesmo período da gestão federal.
Mário Frias criticava incentivos a artistas
Durante a gestão Bolsonaro, a estrutura da Secretaria Especial da Cultura foi pautada pelo conceito de “guerra cultural”. O principal alvo da cúpula da pasta era o modelo tradicional de incentivo fiscal da Lei Rouanet, descrito publicamente pelos gestores como um “balcão de negócios” e um “palanque político” voltado a beneficiar artistas consagrados de esquerda. Para reformular o mecanismo, a gestão editou uma nova Instrução Normativa que reduziu drasticamente o teto de captação de projetos.
Na época, Mario Frias, chefe da Secretaria, utilizava as redes sociais e pronunciamentos no Palácio do Planalto para mobilizar sua base de apoiadores com slogans de impacto, afirmando repetidamente que “a mamata acabou” e que a Lei Rouanet havia virado “um caso de polícia”.
Em contrapartida ao bloqueio de verbas para o setor artístico tradicional, o braço de fomento da pasta, então gerido pelo capitão da PM André Porciuncula, chegou a anunciar publicamente o direcionamento de recursos da Rouanet para a produção de conteúdos de temática sacra e relacionados a armas de fogo.
Mario Frias também é roteirista, produtor e ator no longa “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro, que, de acordo com declarações à GloboNews de sua produtora, Karina Ferreira da Gama, teve 90% de sua realização viabilizada por apoio de Daniel Vorcaro, banqueiro preso em operação que apura suspeitas de lavagem de dinheiro, fraudes financeiras e corrupção. O deputado do PL é alvo de questionamentos do ministro Flávio Dino no Supremo Tribunal Federal (STF), devido a suspeitas de irregularidades na destinação de emendas parlamentares para uma ONG ligada à produtora deste filme.
Outros projetos
Segundo o Metrópolis, os repasses da estrutura partidária não são as únicas fontes de receita pública mapeadas na organização de Rodrigo Cassol Lima, ex-subordinado de Frias. A Associação Passos da Liberdade também foi beneficiada com o recebimento de R$ 860 mil em emendas parlamentares. Os pagamentos foram efetuados nos dias 7 e 11 de fevereiro de 2025, conforme informações do Portal da Transparência.
O direcionamento da verba orçamentária foi assinado pelos deputados federais Mario Frias (PL-SP) e Marcos Pollon (PL-MS), além do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Os recursos dessas emendas foram carimbados para o financiamento de outra obra audiovisual do grupo, batizada com o nome de “Genocidas”.
Em seus canais digitais de divulgação, Lopes se identifica como sócio-proprietário da empresa Pampa Audiovisual e revela um portfólio de documentários. Entre eles, há uma produção institucional focada nas ações de distribuição do auxílio emergencial, veiculada nas contas oficiais da Secretaria de Comunicação da Presidência da República durante o governo Bolsonaro, o curta-metragem “Tradição”, voltado à cultura do Rio Grande do Sul, e o documentário “Acolhidos”, que aborda a situação de refugiados vindos da Venezuela para o Brasil, transmitido no canal do YouTube do ativista de direita Paulo Figueiredo.
Aberto para posicionamentos
O Metrópolis informou que sua equipe de reportagem tentou contato direto com o advogado Rodrigo Cassol Lima para que o dirigente esclarecesse o andamento técnico e os critérios de aplicação das verbas públicas nos filmes institucionais. O presidente da associação não quis repassar detalhes por telefone e solicitou que os questionamentos formais fossem formalizados por e-mail. As perguntas foram enviadas pela redação conforme o combinado com o gestor, mas não foram respondidas até o fechamento da edição.
O envolvimento de políticos do PL com a produção de projetos cinematográficos têm gerado repercussão nas últimas semanas. O tema está em constante atualização e o espaço segue em aberto para posicionamentos, declarações e reparos das partes citadas, que queiram responder, refutar ou acrescentar detalhes em relação ao que foi noticiado.