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Divulgação/Globo

TV|10 de janeiro de 2026

Morre Manoel Carlos, criador das Helenas e mestre das novelas da Globo, aos 92 anos

Autor de clássicos como "Laços de Família" e "Por Amor" estava internado no Rio de Janeiro e teve morte confirmada neste sábado pela família


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1 Luto na teledramaturgia brasileira
2 O criador das Helenas e do Leblon
3 De auxiliar de escritório a gigante da TV
4 Tramas marcantes e temas sociais

Luto na teledramaturgia brasileira

O Brasil perdeu neste sábado (10/1) um dos maiores contadores de histórias da televisão. Manoel Carlos, o Maneco, faleceu aos 92 anos no Rio de Janeiro. A informação foi confirmada pela produtora Boa Palavra, administrada por sua filha, a atriz Júlia Almeida, que não confirmou a causa da morte. O autor, diretor e produtor foi diagnosticado com Parkinson em 2018 e estava afastado dos holofotes.

O criador das Helenas e do Leblon

Maneco consagrou-se como um especialista na alma feminina e nos dramas familiares, eternizando a figura da “Helena” como protagonista recorrente de suas tramas. Inspiradas na mitologia grega como símbolo de força e sacrifício, essas personagens foram interpretadas por grandes atrizes e marcaram gerações. A primeira surgiu em “Baila Comigo” (1981), com Lílian Lemmertz, e o ciclo se encerrou em “Em Família” (2014), com Julia Lemmertz, filha da primeira intérprete, numa homenagem emocionante.

Entre as Helenas mais memoráveis estão as de Maitê Proença em “Felicidade” (1991), Vera Fischer em “Laços de Família” (2000), Christiane Torloni em “Mulheres Apaixonadas” (2003) e Taís Araújo em “Viver a Vida” (2009). No entanto, foi Regina Duarte quem mais encarnou o papel, vivendo a heroína em três ocasiões: “História de Amor” (1995), “Por Amor” (1997) e “Páginas da Vida” (2006).

O autor também transformou o bairro do Leblon, na Zona Sul do Rio, em um personagem à parte. Suas novelas retratavam o cotidiano à beira-mar, onde dramas profundos aconteciam sob a luz do sol carioca. “Situo as minhas novelas no Rio de Janeiro. Faço coisas muito fortes, sob um céu muito azul. As tragédias e os dramas acontecem, mas o dia está lindo. A praia e o espírito carioca dão uma coloração rosa ao contexto cinzento, mas o público acaba absorvendo as tramas de maneira mais leve”, explicou ele em depoimento ao Memória Globo.

De auxiliar de escritório a gigante da TV

Nascido em São Paulo em 14 de março de 1933, Manoel Carlos Gonçalves de Almeida começou a trabalhar cedo, aos 14 anos, como auxiliar de escritório. Sua paixão pela arte floresceu na Biblioteca Municipal de São Paulo, onde integrava o grupo “Adoradores de Minerva”, grupo que discutia literatura e incluía futuros ícones como Fernanda Montenegro e Antunes Filho. Sua carreira artística iniciou-se como ator na TV Tupi em 1951, evoluindo rapidamente para direção e produção.

Maneco também teve passagens pela TV Record, onde criou programas icônicos da década de 1960 como o musical “O Fino da Bossa” e a comédia “Família Trapo”, com Jô Soares e Ronald Golias. Na Globo, estreou em 1972 como diretor do “Fantástico” e só foi escrever sua primeira novela, “Maria, Maria”, em 1978, estrelada por Nívea Maria. No mesmo ano, adaptou “A Sucessora”, de Carolina Nabuco, com elenco estelar formado por Susana Vieira, Rubens de Falco e Arlete Salles, que se tornou uma das novelas da seis mais famosas de todos os tempos.

Um ano antes de lançar as Helenas, ele ainda escreveu episódios do seriado “Malu Mulher” (1980), protagonizado por Regina Duarte, e dividiu com Gilberto Braga a autoria de “Água Viva”, trama que deu muito o que falar e lançou as bases de sua estética carioca. A obra é considerada o marco zero da estética solar que consagraria Maneco, introduzindo o cotidiano da Zona Sul carioca e a atmosfera do Leblon como elementos narrativos centrais. Foi a primeira novela a mostrar (ou tentar mostrar) o topless nas praias cariocas, que era a moda do verão de 1980. Isso gerou muito debate moral na sociedade e tesouradas da censura, assim como relacionamentos muito abertos e trocas de parceiros que chocaram a parte mais conservadora do público. A novela contava com Lucélia Santos, Reginaldo Faria, Raul Cortez, Betty Faria, Tônia Carreiro e Glória Pires.

Sua obra não se limitou às novelas. Ele também assinou minisséries de enorme sucesso e repercussão, como “Presença de Anita” (2001) e “Maysa: Quando Fala o Coração” (2009).

Tramas marcantes e temas sociais

Entre suas tramas mais famosas, “Por Amor” abordou o sacrifício de uma mãe que troca seu bebê vivo pelo neto morto para poupar a filha, juntando na tela mãe e filha da vida real, Regina e Gabriela Duarte. Tema similar embalou “Laços de Família”, em que Vera Fischer viveu a mãe que abre mão do namorado pela filha e decide engravidar do ex-marido para salvar a jovem com leucemia. A novela trouxe a icônica cena de Carolina Dieckmann raspando a cabeça, personagem também escrita especialmente para a atriz, que rendeu prêmios como Troféu Imprensa e Troféu Internet.

Maneco também exaltou a força feminina em “Mulheres Apaixonadas”, com Christiane Torloni. A novela chegou a ser associada à criação de três leis. A repercussão dos maus-tratos de Dóris (Regiane Alves) contra os avós Leopoldo (Oswaldo Louzada) e Flora (Carmem Silva) foi apontada como um fator que acelerou o debate e a tramitação do Estatuto do Idoso (sancionado em 1º de outubro de 2003 e rebatizado em 2022 como Estatuto da Pessoa Idosa), enquanto as cenas de violência doméstica sofrida por Raquel (Helena Ranaldi) nas mãos de Marcos (Dan Stulbach) impulsionaram discussões que voltariam à pauta com a Lei Maria da Penha, aprovada três anos após o fim da novela. Para completar, a comoção com a sequência em que Téo (Tony Ramos) e Fernanda (Vanessa Gerbelli) são atingidos por balas perdidas no trânsito — culminando na morte de Fernanda e deixando Salete (Bruna Marquezine) órfã — também foi relacionada ao debate que resultou no Estatuto do Desarmamento, aprovado em dezembro de 2003.

Esses alinhamentos demonstram que, além de entregar entretenimento, as tramas do autor frequentemente abraçavam causas sociais, inserindo debates importantes nos capítulos que chegavam diariamente nos lares brasileiros. Entre outros temas, suas novelas também falaram sobre síndrome de Down, alcoolismo, violência doméstica e doação de medula óssea no horário nobre, gerando impacto real na sociedade brasileira.

Ele ainda foi responsável por transformar Taís Araujo na primeira protagonista negra de uma novela das nove na Globo, como a Helena de “Viver a Vida”.

Manoel Carlos deixa cinco filhos, incluindo a atriz Júlia Almeida, e um legado inestimável que definiu a identidade da telenovela brasileira contemporânea.

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