Parasita tem vitória histórica no Oscar 2020



Bong Joon Ho não tem hora para parar de celebrar. Ele avisou duas vezes que pretendia comemorar com bebidas, ao receber os troféus de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Filme Internacional por “Parasita”, na premiação do Oscar 2020, que aconteceu na noite de domingo (9/2) no Dolby Theatre, em Los Angeles.

Ainda não tinha começado o primeiro drinque quando ouviu seu nome ser chamado novamente, como Melhor Diretor. Em estado de legítima perplexidade, conseguiu citar como Martin Scorsese influenciou sua carreira, além de agradecer a Quentin Tarantino por sempre falar de seus filmes quando ninguém o conhecia. E saiu do palco extasiado, acreditando ter feito História com sua participação na cerimônia. Mas estava enganado. Precisou voltar mais uma vez, quando “Parasita” venceu o Oscar de Melhor Filme do ano.

O cineasta sul-coreano foi responsável pela maior surpresa dos 92 anos da História do Oscar. Isto porque nunca antes um filme falado em língua estrangeira tinha vencido o troféu principal da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos EUA. “Parasita” venceu o troféu principal da cerimônia… e mais três. Individualmente, Bong Joon Ho ficou com quatro Oscars, o que também é um feito histórico – anteriormente, apenas Walt Disney tinha vencido quatro troféus na mesma cerimônia, mas todos como produtor e por filmes diferentes em 1954.

É interessante reparar o contexto que tornou possível essa reviravolta espetacular. Ao buscar maior inclusão, após a recepção negativa da falta de representatividade racial entre os indicados ao Oscar 2016, a Academia decidiu aumentar a presença de minorias em seus quadros e ampliou convites para artistas internacionais. Cineastas, roteiristas, produtores, técnicos e atores de mais países passaram a votar na premiação, fazendo disparar a quantidade de membros da Academia, que somou quase dois mil novos eleitores do Oscar em quatro anos. Isso, sem dúvida, mexeu com o DNA do troféu.

Os eleitores estrangeiros não fazem parte das panelinhas de Hollywood, não trabalharam anteriormente com os indicados e não avaliam os filmes pelo ponto de vista da indústria cinematográfica americana. Em outras palavras, seus votos desconsideram interesses do mercado local dos EUA.

É fato que a vitória do francês “O Artista” em 2012 já tinha aberto uma brecha. Mesmo assim, aquele filme não era falado em idioma estrangeiro (era cinema mudo) e fazia uma homenagem a Hollywood. O sinal de que algo estava mudando foi dado apenas no ano passado, com as três vitórias do mexicano “Roma”. O filme falado em espanhol venceu, entre outros, um prêmio de Melhor Direção.

A conquista de “Parasita”, claro, é muito maior, incomparável. O Melhor Filme do ano é estrelado por atores sul-coreanos que não fazem parte do SAG, realizado por um equipe estrangeira não filiada aos sindicatos hollywoodianos e exibido nos cinemas dos EUA com legendas.

Se a consagração de “Moonlight”, um filme indie com diretor negro, elenco negro e temática LGBTQ+, causou um terremoto nos bastidores da premiação em 2017 – a rede ABC exigiu mais filmes populares em nome da audiência – , a vitória de “Parasita” deve trazer consequências ainda maiores. Os otimistas podem imaginar uma abertura definitiva do prêmio – e do mercado americano – para o resto do mundo. Os realistas, porém, já devem estar calculando o tamanho da reação do mercado, dos sindicatos e dos estúdios americanos contra essa internacionalização. O slogan “America First” não venceu uma eleição nos EUA por acaso.

Curioso, ainda, que “Parasita” tenha sido tão bem-recebido, em proporção inversa ao desdém dispensado a “A Despedida” (The Farewell), de Lulu Wang, barrado no Oscar. O vencedor do Spirit Awards (o “Oscar” do cinema independente) no sábado (8/2) também tinha cineasta e elenco asiático e foi exibido com legendas. Mas, diferente da obra sul-coreana, era uma produção americana, com diretora americana e diversos atores nascidos no país.

Neste sentido, a eleição de “Parasita” também pode ser vislumbrada como um voto de protesto contra a seleção de concorrentes feita pela Academia – “A Despedida” não foi o único longa injustiçado.

A verdade é que a tão evidente falta de diversidade entre os indicados se deu como efeito colateral da pressão de bastidores por uma seleção de filmes populares. Dentre as opções oferecidas, “Parasita” era um dos poucos filmes (ao lado de “Adoráveis Mulheres”) que não contava histórias de homens brancos heterossexuais, geralmente em luta – às vezes em guerra – por ideais masculinos de poder e superioridade.

Joaquin Phoenix, que assimilou perfeitamente a mensagem de “Coringa”, fez um discurso sensível nesse sentido, ao aceitar seu Oscar de Melhor Ator. Ao falar das diferentes causas sociais que engajam seus colegas, ele sintetizou: “Lutamos contra a noção de que uma nação, um povo, uma raça, um gênero ou uma espécie tem o direito de dominar, controlar, usar e explorar a outra com impunidade”.

A vitória de “Parasita” rechaçou o viés conservador ensaiado para o Oscar 2020, representado pelas histórias de homens heterossexuais brancos, que dominaram as indicações – como se esse tipo de narrativa fosse mais indicado a prêmios. Exceção gritante, o filme sul-coreano não tinha apenas etnia diversa, mas equilíbrio entre papéis masculinos e femininos, além de franco questionamento social – “marxismo cultural”, já que trata da luta de classes. A ressaca de Bong Joon Ho também é, portanto, fruto de resistência cultural. Ao barrar o cinema indie, a Academia deixou aberta uma fresta para o cinema mundial, que se transformou em saída. E, ironicamente, a empresa que trouxe o longa sul-coreano para os EUA foi um estúdio indie, o Neon, completando a vingança.

Importante destacar ainda outro aspecto da internacionalização da Academia, menos evidente que a vitória de “Parasita”. No domingo, várias conquistas foram celebradas por artistas estrangeiros também em filmes americanos. Para citar alguns, o neozelandês Taika Waititi venceu a categoria de Melhor Roteiro Adaptado por “Jojo Rabbit” e a islandesa Hildur Guðnadóttir assinou a Melhor Trilha em “Coringa”. Tratam-se de vitórias com alcances duradouros, que vão além da entrega dos troféus.

Lembrem-se que a simples indicação ao Oscar costuma render convite para os nomeados ingressarem na Academia. A brasileira Petra Costa, por exemplo, não venceu a disputa de Melhor Documentário – o único candidato americano faturou a categoria, numa inversão em relação ao troféu de Melhor Filme – , mas ajudará a escolher o vencedor de 2021. Mais estrangeiros estarão votando no próximo ano. Assim, se a Academia superar as pressões do mercado americano, a tendência é o Oscar continuar surpreendendo. Mas pressões, com certeza, virão.

A propósito, os que comemoraram a derrota do “marxismo cultural” representado por “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa, podem não ter percebido, mas o discurso da vencedora da categoria, a cineasta Julia Reichert, de “Indústria Americana”, encerrou-se com uma citação ao “Manifesto Comunista”. “Os trabalhadores têm cada vez mais dificuldade hoje em dia, e acreditamos que as coisas vão melhorar quando os trabalhadores do mundo se unirem”, disse a americana, parafraseando o slogan “Trabalhadores do mundo, uni-vos”, que se tornou célebre na obra de Karl Marx e Friederich Engels.

Para completar sem alongar demais, omitindo comentários para outras categorias remanescentes, vale ressaltar, mesmo que rapidamente, o reconhecimento à brilhante fotografia do inglês Roger Deakins, verdadeiro motivo de “1917” ter sido considerado, de véspera, o maior favorito ao Oscar.

A lista completa dos filmes premiados pode ser conferida abaixo.

Melhor Filme

– “Parasita”
“Ford vs Ferrari”
“O Irlandês”
“Jojo Rabbit”
“Coringa”
“Adoráveis Mulheres”
“História De Um Casamento”
“1917”
“Era Uma Vez Em Hollywood”

Melhor Direção

– Bong Joon Ho – “Parasita”
Sam Mendes – “1917”
Martin Scorsese – “O Irlandês”
Quentin Tarantino – “Era Uma Vez Em Hollywood”
Todd Phillips – “Coringa”

Melhor Atriz

– Renée Zellweger – “Judy”
Cynthia Erivo – “Harriet”
Scarlett Johansson – “História De Um Casamento”
Saoirse Ronan – “Adoráveis Mulheres”
Charlize Theron – “O Escândalo”



Melhor Ator

– Joaquin Phoenix – “Coringa”
Antonio Banderas – “Dor e Glória”
Adam Driver – “História De Um Casamento”
Jonathan Pryce – “Dois Papas”
Leonardo DiCaprio – “Era Uma Vez Em Hollywood”

Melhor Atriz Coadjuvante

– Laura Dern – “História De Um Casamento”
Margot Robbie – “O Escândalo”
Kathy Bates – “O Caso Richard Jewell”
Scarlett Johansson – “Jojo Rabbit”
Florence Pugh – “Adoráveis Mulheres”

Melhor Ator Coadjuvante

– Brad Pitt – “Era Uma Vez Em Hollywood”
Tom Hanks – “Um Lindo Dia na Vizinhança”
Al Pacino – “O Irlandês”
Joe Pesci – “O Irlandês”
Anthony Hopkins – “Dois Papas”

Melhor Roteiro Adaptado

– Taika Waititi – “Jojo Rabbit”
Greta Gerwig – “Adoráveis Mulheres”
Anthony McCarten – “Dois Papas”
Todd Phillips & Scott Silver – “Coringa”
Steven Zaillian – “O Irlandês”

Melhor Roteiro Original

– Bong Joon Ho e Han Jin Won – “Parasita”
Noah Baumbach – “História De Um Casamento”
Rian Johnson – “Entre Facas e Segredos”
Quentin Tarantino – “Era Uma Vez Em Hollywood”
Sam Mendes & Kristy Wilson-Cairns – “1917”

Melhor Fotografia

– Roger Deakins – “1917”
Jarin Blaschke – “O Farol”
Rodrigo Pietro – “O Irlandês”
Robert Richardson – “Era Uma Vez Em Hollywood”
Lawrence Sher – “Coringa”

Melhor Figurino

– Jacqueline Durran – “Adoráveis Mulheres”
Arianne Phillips – “Era Uma Vez Em Hollywood”
Sandy Powell e Christopher Peterson – “O Irlandês”
Mayes C. Rubeo – “Jojo Rabbit”
Mark Bridges – “Coringa”

Melhor Edição

– Andrew Buckland e Michael McCusker – “Ford vs Ferrari”
Yang Jinmo – “Parasita”
Thelma Schoonmaker – “O Irlandês”
Tom Eagles – “Jojo Rabbit”
Jeff Groth – “Coringa”

Melhor Maquiagem e Cabelo

– “O Escândalo”
“Coringa”
“Judy”
“Malévola: Dona do Mal”
“1917”

Melhor Trilha Sonora

– Hildur Guðnadóttir – “Coringa”
Alexandre Desplat – “Adoráveis Mulheres”
Randy Newman – “História de um Casamento”
Thomas Newman – “1917”
John Williams – “Star Wars: A Ascensão Skywalker”

Melhor Canção Original

– (I’m Gonna) Love Me Again – “Rocketman”
I’m Standing With You – “Superação: O Milagre da Fé”
Into the Unknown – “Frozen 2”
Stand Up – “Harriet”
I Can’t Let You Throw Yourself Away – “Toy Story 4”

Melhor Design de Produção

– “Era Uma Vez Em Hollywood”
“1917”
“Parasita”
“O Irlandês”
“Jojo Rabbit”

Melhor Edição de Som

-“Ford vs. Ferrari”
“Era Uma Vez Em Hollywood”
“Coringa”
“1917”
“Star Wars: A Ascensão Skywalker”

Melhor Mixagem de Som

– “1917”
“Ford vs Ferrari”
“Coringa”
“Era Uma Vez Em Hollywood”
“Ad Astra”

Melhores Efeitos Visuais

– “1917”
“Vingadores: Ultimato”
“O Irlandês”
“O Rei Leão”
“Star Wars: A Ascensão Skywalker”

Melhor Animação

– “Toy Story 4”
“Como Treinar o seu Dragão 3”
“Perdi Meu Corpo”
“Link Perdido”
“Klaus”

Melhor Documentário

– “Indústria Americana”
“The Cave”
“Democracia em Vertigem”
“For Sama”
“Honeyland”

Melhor Filme Internacional

– “Parasita” (Coreia do Sul)
“Les Misérables” (França)
“Dor e Glória” (Espanha)
“Corpus Christi” (Polônia)
“Honeyland” (Macedônia)

Melhor Curta Animado

– “Hair Love”
“Kitbull”
“Dcera (Daughter)”
“Memorable”
“Sister”

Melhor Curta Documentário

– “Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl)”
“Life Overtakes Me”
“In the Absence”
“St. Louis Superman”
“Walk Run Cha-Cha”

Melhor Curta Live-Action

– “The Neighbors’ Window”
“Brotherhood”
“Nefta Football Club”
“Saria”
“A Sister”
Louise Alves



Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News, produziu discos indies e é criador e editor do site Pipoca Moderna



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