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Etc,  Filme|19 de fevereiro de 2020

José Mojica Marins (1936 – 2020)

O cineasta José Mojica Marins, mais conhecido como seu personagem Zé do Caixão, morreu nesta quarta (19/2) em São Paulo, aos 83 anos de idade. O cineasta estava internado desde o dia 28 de janeiro para tratar de uma broncopneumonia. A informação foi confirmada por Liz Marins, filha do diretor.

Filho de espanhóis, o paulistano Mojica iniciou a carreira em 1949 com uma câmera de 8mm que ganhou de seu pai em seu aniversário de 12 anos, quando fez seu primeiro “filme”: “O Juízo Final”, curta sci-fi sobre uma invasão alienígena. Ele também dirigiu o primeiro longa-metragem em formato Cinemascope (a tela widescreen original) do Brasil: o faroeste “Sina de Aventureiro” (1957). Mas a façanha que mais costuma ser celebrada em sua carreira é o fato de ter virado o maior nome do terror nacional, conhecido mundialmente pela criação de Zé do Caixão – ou Coffin Joe, como chamam os americanos – , personagem icônico que lançou em 1964, no clássico “A Meia Noite Levarei a Sua Alma”.

Vilão amoral, sádico e irredimível, Zé do Caixão era o dono de um funerária do interior que desafiava Deus e o diabo com sua única crença: a continuidade do sangue. Ele quer ser o pai de uma criança superior a partir do cruzamento com a “mulher perfeita”, alguém que ele considere intelectualmente à sua altura – isto é, que não se deixe aterrorizar por bobagens, como aranhas vivas caminhando sobre seu corpo, nem acredite em superstições, como a Bíblia. Na busca por esta mulher, ele se mostra sempre pronto a torturar candidatas e matar quem tentar impedir sua missão.

O impacto do personagem, uma criação original, rendeu fama a Mojica, que acabou confundido com o próprio Zé do Caixão ao explorar o personagem em novas continuações – como “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” (1967) e “Encarnação do Demônio” (2008) – , derivados – como “O Mundo Estranho de Zé do Caixão” (1968) e “Exorcismo Negro” (1974) – , aparições na TV e até nos quadrinhos.

Mojica contou que o monstro famoso de unhas compridas lhe apareceu num pesadelo, no início de 1963. Ele já tinha dois longas-metragens no currículo, o citado “Sina de Aventureiro” e o drama “Meu Destino em Suas Mãos” (1961), quando se viu arrastado para uma cova por um homem todo de preto, com seu rosto. Ao acordar, ele decidiu transformar o pesadelo em filme, dando origem ao coveiro Josefel Zanatas, que seus detratores em “A Meia Noite Levarei a Sua Alma” batizaram de Zé do Caixão.

Seu último filme como Zé do Caixão foi “Encarnação do Demônio”, de 2008. Originalmente previsto para ser o desfecho da trilogia original, ele deveria ter sido rodado em 1967, mas foi interrompido por problemas com a censura federal. A ditadura militar passou a considerar os filmes de Mojica muito perturbadores e passou a proibir a exibição de novos filmes de terror do diretor, como “Ritual dos Sádicos” (1969), também chamado de “O Despertar da Besta”, e “Finis Hominis” (1971).

Mas Mojica se manteve na ativa, dirigindo filme eróticos na Boca do Lixo durante os anos 1970 e 1980 – de títulos sugestivos como “Quinta Dimensão do Sexo”, “48 Horas de Sexo Alucinante”, “Dr. Frank na Clínica das Taras” e “24 Horas de Sexo Explícito”. Um destes filmes, “A Virgem e o Machão”, tornou-se um de seus maiores sucessos comerciais, visto por 1,3 milhão de brasileiros.

De vez em quando, porém, voltava ao terror, em alguns curtas e lançamentos em vídeo, até ressurgir com impacto em “Encarnação do Demônio”, seu primeiro filme de grande orçamento, que venceu o Festival de Paulínia. Mas apesar de elogios rasgados da crítica, o filme implodiu nas bilheterias.

O diretor conquistou maior público e notoriedade ao expandir a presença de Zé do Caixão para outras mídias, apresentando programas que marcaram quatro décadas de telespectadores, como “Além, Muito Além do Além” (1967-68), na Bandeirantes, “Show do Outro Mundo” (1981), na Record, “Cine Trash” (1996), de novo na Band, e “O Estranho Mundo do Zé do Caixão” (2008), um talk show que durou sete temporadas no Canal Brasil.

A presença televisiva inspirou a redescoberta de seus filmes originais. Depois de anos vivendo às margens do mercado cinematográfico brasileiro, Mojica se tornou cultuado e sua obra foi amplamente revisitada, em busca de pérolas perdidas. E havia muitos trabalhos de Mojica que o mercado desconhecia, como “Exorcismo Negro” (1974), talvez a grande obra-prima do diretor.

Na virada para o século 21, Mojica virou fenômeno pop. Foi tema de livros, como “Maldito!” (1998), cinebiografia escrita pelos jornalistas André Barcinski e Ivan Finotti, recebeu homenagem do Festival de Sundance, nos EUA, com uma retrospectiva de sua carreira em 2001, inspirou desfiles de escolas de samba – no carnaval carioca de 2011 e no paulista de 2018 – e teve a vida transformada em série televisiva: “Zé do Caixão” (2015), em que foi encarnado por Matheus Nachtergaele.

Ele seguia dirigindo e atuando em segmentos de coletâneas de terror, ao lado de outros cineastas, como a produção internacional “The Profane Exhibit” (2013) e a nacional “As Fábulas Negras” (2015). Atuou até na comédia “Entrando Numa Roubada” (2015). Mas a saúde debilitada começou a preocupar a família. Após infarto e paradas cardíacas em 2014, diminuiu o ritmo e passou a ser pouco visto desde então.

Seu legado inclui cerca de 40 filmes como diretor e mais de 60 produções como ator, entre longas, curtas, documentários e séries.

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Marcel Plasse

Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News, produziu discos indies e é criador e editor do site Pipoca Moderna.

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