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Filme|29 de fevereiro de 2020

Synonymes provoca com renúncia extrema ao patriotismo

Grande vencedor do Festival de Berlim de 2019, “Synonymes”, de Nadav Lapid, é uma dessas obras que provocam reações distintas na audiência, muitas vezes reações de dúvida sobre o que acabaram de ver ou sobre o quanto gostaram ou não gostaram do filme. Trata-se do terceiro longa-metragem de Lapid, que se inspirou em sua própria experiência de israelense morando em Paris para construir uma história sobre renúncia extrema ao patriotismo e reconstrução da própria identidade, ou de uma nova identidade.

A crítica à Israel vai além de questões relacionados ao exército israelense e ao tratamento dado aos palestinos. Em entrevista à revista Cinema Scope, Lapid diz declarar guerra à própria essência da alma israelense. Por isso, seu personagem quer esquecer todo o seu passado. Mas, ao mesmo tempo, o diretor apresenta um outro judeu que vive em Paris e que provoca passageiros no metrô cantando o hino de Israel, acreditando que todos os europeus são antissemitas.

Já chama a atenção o modo como começa “Synonymes”, ao apresentar o protagonista, o jovem Yoav (o estreante Tom Mercier), nu em um grande apartamento, e tendo suas roupas roubadas. É como se Yoav tivesse sido jogado em uma pátria totalmente estranha de para-quedas e sem roupas. Ele corre nu pelo prédio, com frio, desesperado, tentando se aquecer depois na banheira, e quase morrendo de frio. Um detalhe: essa cena foi a primeira gravada por Tom Mercier, e deixou Lapid e sua equipe impressionados com a performance do ator.

A estrutura da obra é uma sucessão de grandes cenas sem uma coesão muito visível, quase como se fosse uma excelente coleção de esquetes. Nesse sentido, é quase possível selecionar de maneira aleatória uma ou outra cena, de modo a apreciá-la separadamente. Algumas são muito empolgantes, como a passagem na danceteria, ao som de “Pump Up the Jam”, do Technotronic. Ver esta cena no cinema, com o som no talo, é uma experiência singular e muito divertida. Ao contrário de outras tantas, que adentram de maneira intensa a mente confusa de Yoav, e fazem aumentar a admiração pelo trabalho essencialmente cinematográfico do cineasta.

A tentativa do personagem de se livrar do passado, claro, é inútil, já que várias memórias costumam assombrá-lo. Mesmo quando ele tenta falar apenas em francês, há quem queira que ele diga algo em hebraico. A propósito, a cena de Yoav declamando a letra da Marselhesa é outro momento de intensidade, de destaque dessa dicotomia agressividade/sensibilidade do protagonista. Assim, por mais que ele tente se tornar menos israelense, mais ele percebe que é israelense. Até a cena final fantástica.

Um dado curioso aproxima “Synonymes” do Brasil atual: Israel conta com uma ministra da cultura de extrema direita, que criticou o filme sem entender se se tratava ou não de uma obra anti-israelense. Por outro lado, quando o filme venceu o Urso de Ouro, todos os jornais do país celebrara o feito, criando saia-justa com o governo.

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Ailton Monteiro

Ailton Monteiro é professor e vai ao cinema com frequência desde os 16 anos de idade. Mantém o blog Diário de um Cinéfilo, premiado com o Quepe do Comodoro de melhor blog de cinema em 2004.

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