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Filme|29 de fevereiro de 2020

Jojo Rabbit é fábula moderna sobre os perigos da falta da empatia

Escrito e dirigido por Taika Waititi (“Thor: Ragnarok”), “Jojo Rabbit” é um retrato sensível da re-humanização necessária após a desumanização causada pela guerra.

A trama acompanha Jojo (Roman Griffin Davis), um garoto alemão prestes a ingressar na juventude hitlerista durante a 2ª Guerra Mundial. Vivendo sozinho com a mãe, depois da morte da irmã e do desaparecimento pai, o garoto busca segurança e conforto nas conversas com seu amigo imaginário: Adolf Hitler (interpretado pelo próprio diretor).

Jojo se fere durante seu treinamento militar e é enviado de volta casa. Certo dia, ele descobre que sua mãe abrigou uma jovem judia lá. A relação forçada com Elsa (Thomasin McKenzie) faz o protagonista começar a questionar seus ensinamentos nazistas, eventualmente enxergando os verdadeiros inimigos naquela batalha.

Mas “Jojo Rabbit” não é focado na guerra.

Por mais que a violência, a morte e o preconceito façam parte da rotina daquelas pessoas, Waititi prefere enxergar o lado bom da vida, dedicando mais atenção às relações entre os personagens.
E nisso, sua obra ganha força na atuação de Scarlett Johansson que, apesar do pouco tempo de tela, é essencial para demonstrar como pequenos atos de bondade, embora perigosos, são necessários.

Assim como Charles Chaplin fez em “O Grande Ditador”, Taika Waititi usa a comédia e a ridicularização do führer como forma de resistência.

Sua versão de Hitler, tal qual a de Chaplin, é uma figura infantilizada e risível. Isto contrasta com os registros da guerra exibidos ao longo do filme, nos quais se vê a adoração cega ao líder nazista.

Por mais que use a comédia com o intuito de trazer leveza à situação, o cineasta nunca esquece o contexto dramático que o cerca.

Esta mistura de drama e comédia não é novidade para Waititi, mas foi refinada. Em vez do humor escrachado, ele apresenta um olhar mais delicado.

Além disso, o diretor demonstra atenção aos detalhes ao filmar as janelas dos sótãos das casas para que pareçam olhos observando o protagonista. Porém, o exemplo mais significativo disto é o destaque dado aos sapatos de Rosie (Scarlett Johansson), mãe de Jojo. Tal recurso é necessário para sua identificação em uma cena-chave e emocionante.

O longa ainda brinca com a desinformação, a falta de conhecimento e a estereotipização em relação ao outro.

As descrições absurdas a respeito dos judeus, com seus chifres, suas escamas, suas asas de morcego em muito se parecem com as lendas a respeito dos comunistas do passado que, segundo diziam, comiam criancinhas. Ou, em tempos de “ideologia de gênero”, sobre kit gay e mamadeiras de pirocas.

“Jojo Rabbit” é uma história de amadurecimento. É um filme que trata do descobrimento em relação a si próprio e de reconhecimento do outro. E ainda que sua trama seja ambientada há mais de 70 anos, sua mensagem a respeito dos perigos da falta de empatia, infelizmente, continua atual.

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Daniel Medeiros

Daniel Medeiros é membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE) e doutor em Ciências da Linguagem. Na última década, tem se dedicado à pesquisa sobre o cinema de terror contemporâneo. Também comanda o blog, canal e podcast 7 Marte.

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