Crítica: A Noite Amarela ressalta variedade atual do terror brasileiro



O cineasta paraibano Ramon Porto Mota estreia “A Noite Amarela”, seu primeiro longa-metragem depois da experiência coletiva da antologia “O Nó do Diabo” (2018), em um momento especialmente feliz para o cinema de gênero brasileiro. Vejam só: na mesma semana em que o seu filme estreou, entrou em cartaz também em outras salas do país “Morto Não Fala”, de Dennison Ramalho, e “Amor Assombrado”, de Wagner de Assis. E na semana anterior foi lançado “O Clube dos Canibais”, de Guto Parente. Ou seja, o cinema de horror brasileiro está deixando de ser rejeitado e está sendo abraçado por uma parcela cada vez maior de espectadores, ao mesmo tempo em que estamos vivendo um momento político também singular.

Nas entrevistas de Mota, ele afirma que não tinha a menor intenção de que “A Noite Amarela” fornecesse metáforas para o momento político brasileiro. Mas acontece que a percepção da obra de arte, ainda mais essa do tipo mais livre e cheia de espaços, pode trazer interpretações diversas. E isso já não está mais nas mãos do artista. Além do mais, o artista costuma ter antenas que captam o espírito da época. Assim, o mal estar com o mundo contemporâneo se faz bastante presente na escuridão que invade a vida de seus protagonistas.

“A Noite Amarela” quase se desvincula de uma trama no sentido convencional, especialmente a partir de seu terço final, ao se deixar levar pela atmosfera de sonho/pesadelo, fazendo com que os personagens sejam engolfadas pela escuridão, por algo não muito fácil de ser compreendido. O escuro é um aspecto predominante no filme. Quase todas as cenas se passam à noite, desde o começo, quando jovens secundaristas chegam a uma ilha para relaxar e comemorar a formatura do ensino médio.

A opção de Ramon Porto Mota em adotar uma fotografia suja, áspera, com pouca iluminação, como se fosse um filme feito nas primeiras experiências com o digital, contribui para a sensação de que estamos vendo uma produção estranha a esses tempos em que as imagens são cada vez mais nítidas. Ao mesmo tempo, difícil não apreciar o belo trabalho de direção de arte e fotografia, com um uso de cores que remetem ao cinema italiano de horror dos anos 1970.


O filme é marcado por sua geografia, seu sotaque paraibano, seus diálogos aparentemente espontâneos, mas que na verdade foram memorizados pelos atores. O tipo de dramaturgia também é diferente, estranho. Nas entrevistas, Mota vem comentando que seu filme é mais herdeiro das experiências com o cinema de horror de Walter Hugo Khouri e Jean Garrett do que com o cinema de horror estrangeiro. De fato, quem viu os filmes de Khouri e Garrett sabe do que ele está falando e vai concordar. A intenção é fazer uma obra atemporal, cuja estranheza atravessará décadas.

Na trama, após o grupo de adolescentes chegar a uma ilha praticamente desabitada e sem sinal de celular, uma das meninas, Karina (Rana Sui), desaparece, e a missão da turma passa a ser procurar pela amiga pela noite escura. Eles resolvem se separar e acabam se deparando com estranhas coisas que lhes assombram, como a presença de duplos. No meio disso tudo, há um grande flashback que dá uma quebrada no filme, como se o tirasse do gênero horror e o colocasse em um daqueles filmes dos anos 1950, com jovens duelando. Isso contribui para a estranheza, mas não deixa de ser no mínimo divertido.

Além do mais, a presença desses jovens atores e de um cinema que não tem medo de experimentar traz um frescor necessário para este momento, em que filmes brasileiros de gênero começam a se tornar cada vez mais comuns no circuito. Quanto mais pluralidade, melhor.



Ailton Monteiro é professor e vai ao cinema com frequência desde os 16 anos de idade. Mantém o blog Diário de um Cinéfilo, premiado com o Quepe do Comodoro de melhor blog de cinema em 2004.



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