Crítica: Cargo troca a tensão dos filmes de zumbis pela emoção

Está faltando aquele filme de zumbi para dar uma sacudida nesse estilo tão amado desde que George A. Romero o popularizou com “A Noite dos Mortos-Vivos” há 50 anos atrás. Houve boas tentativas como a comédia britânica “Todo Mundo Quase Morto” (2004), a americana “Zumbilândia” (2009) e até o recente longa sul-coreano “Invasão Zumbi” (2016), mas nenhuma contribuição neste século foi tão relevante para a cultura pop quanto o game “The Last of Us” (2013). A série “The Walking Dead”? Cansou, não?

Dirigido por Ben Howling e Yolanda Ramke, com base num curta homônimo da dupla, o longa australiano “Cargo”, disponibilizado por streaming pela Netflix, é um surpresa agradável, mas não é aquele filmaço de zumbis que será lembrado por décadas. Basicamente, gira em torno da situação de um pai desesperado em um cenário insólito. Martin Freeman (“O Hobbit”) interpreta Andy, que perambula pelo outback australiano devastado pelo apocalipse zumbi.

Basta você saber que Andy fará de tudo para proteger sua bebê antes que ele mesmo vire mais um morto-vivo. Se eu fosse você não assistiria nem mesmo ao trailer, porque a narrativa é muito bem construída, com a devida paciência, camada por camada, até que o espectador entenda o verdadeiro plot.

Por exemplo, eu chamei “Cargo” carinhosamente de “filme de zumbi” e isso já é spoiler, porque Ben Howling e Yolanda Ramke insinuam uma ameaça que jamais dá as caras nos primeiros 20 e poucos minutos. Um desavisado quanto à sinopse pode levar um belo susto (para o bem ou para o mal) quando descobrir no que se meteu ao notar o primeiro zumbi em cena. Claro que a melhor forma de ver um filme é não saber absolutamente nada sobre ele, uma coisa dificílima nos dias de hoje. E “Cargo” é um exemplo perfeito dessa tese.

Mesmo assim, não é possível dizer que se trata de um ótimo filme. A sensação de que falta fica ainda mais evidente quando sabemos que a ideia saiu de um curta-metragem de sete minutos. Mas “Cargo” não deixa de ser um exercício interessante de narrativa muito bem-vindo numa era em que o cinema privilegia cada vez mais cortes rápidos e um fiapo de história – fiapo no pior sentido, porque uma trama pode ser simples, mas muito bem contada, como é a de “Cargo”.

O problema do longa é outro. É que filme com zumbi precisa ser tenso e esse aqui é provavelmente o mais singelo que você verá na vida. Tente segurar uma lágrima no final se for capaz. Não que “Cargo” busque comoção apelativa. As emoções surgem da capacidade de envolvimento com a situação limite do protagonista e toda a surpreendente questão social desenvolvida com louvor ao longo do filme – méritos dos diretores e do grande Martin Freeman.

Há, de fato, méritos na proposta de sair do lugar-comum. E o filme até explora um susto aqui, outro ali, além de um pouco de tensão. Mas falta aquele nervosismo do terror. Isto porque existe uma contradição básica na premissa: fazer filme de zumbis num deserto ensolarado e sem quase carne alguma pelo caminho para as criaturas comerem meio que tira a graça do gênero.

Otávio Almeida é formado em Publicidade e Propaganda e Jornalismo. Nasceu no Rio de Janeiro, mora em São Paulo, mas sempre torcerá pelo Flamengo. É fã de Star Wars, Steven Spielberg, Stanley Kubrick, Blade Runner, Martin Scorsese, Indiana Jones, Frank Capra, Billy Wilder, John Ford, Clint Eastwood, O Senhor dos Anéis, Woody Allen, George Lucas, Lawrence da Arábia, Quentin Tarantino, Rocco e Seus Irmãos, James Cameron e Chinatown. Além de editor do Hollywoodiano, escreve sobre cinema como colaborador da revista Preview.

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