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Filme|19 de novembro de 2017

Exotismo de A Noiva desanda em clichês banais de terror

Ver um filme de horror de gosto duvidoso é uma arte que pode ser cultivada. Até os hoje cultuados terrores italianos dos anos 1970 e 1980 já foram mal recebidos: ou com pedradas ou com ignorância pela maior parte da crítica. Daí, assistir numa sala de cinema brasileira um terror russo dublado em inglês é algo quase inusitado.

A diversão já começa pela dublagem em inglês, tão vagabunda que permite vazar as diferentes fontes de áudio em diálogos entre personagens pelos ruídos de fundo. Mas apesar desse detalhe trash, o terceiro longa-metragem de Svyatoslav Podgaevskiy, “A Noiva”, jamais será confundido com um cult perdido, mesmo partindo de uma premissa perturbadora: o fato de que certas famílias pintam olhos nas pálpebras fechadas de seus entes queridos mortos para fotografá-los – uma tradição do século 19.

Não é o primeiro filme europeu que mostra fotografias de mortos. O excelente “Os Outros”, do espanhol Alejandro Amenábar, também destacou esse costume mórbido.

Mas “A Noiva” é mais inventivo, ao embutir na ideia de pintar os olhos uma superstição. Fotografar mortos poderia fazer com que suas almas os abandonassem. Assim, no prólogo do filme, que acontece no final do século 19, há o registro de uma tentativa de transferir o espírito de uma morta para o corpo de uma mulher jovem, que é arrancada à força de seu lar e enterrada viva, vestida de noiva. Esse prólogo poderia ser melhor explorado como uma boa história gótica de horror. Em vez disso, o filme prefere dar um salto para o mundo contemporâneo.

Na trama principal, uma moça é convidada a finalmente conhecer a família de seu noivo, que até então evitara o seu contato com seus pais. O encontro com a família acontece em um vilarejo afastado e longe de tudo, e logo fica claro que essa família guarda segredos bem peculiares, como uma pessoa que nunca sai de um quarto fechado. A situação se torna mais incômoda quando o noivo desaparece e ela não sabe o seu paradeiro.

Um dos destaques positivos do filme é a forma como é explorada a casa, cheia de paredes falsas, que supostamente seriam dutos de ventilação, mas que nos apresentam a um lugar maior e mais curioso. Outro momento positivo acontece quando a moça segue uma das familiares do noivo e acaba descobrindo o que não devia. O movimento de câmera, na evocação da sensação de medo, poderia muito bem caber em um filme de melhor qualidade, até pela boa fotografia e direção de arte.

Infelizmente, após o começo animador, tudo desanda com sustos fáceis, inspirados em clichês do horror ocidental, que dilapidam o suposto exotismo de “A Noiva” para transformá-lo num filme tão comum e vulgar quanto algumas das piores produções recentes do terror americano. Talvez por isso venha aí o remake.

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Ailton Monteiro

Ailton Monteiro é professor e vai ao cinema com frequência desde os 16 anos de idade. Mantém o blog Diário de um Cinéfilo, premiado com o Quepe do Comodoro de melhor blog de cinema em 2004.

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