Crítica: Francofonia é um filme sofisticado, que dá margem a muitas reflexões


História e Arte são elementos centrais do trabalho do cineasta russo Alexandr Sokurov. Em 2002, em “A Arca Russa”, ele percorreu o museu Hermitage, em São Petersburgo, num único plano-sequência, mostrando as obras de arte associadas a elementos da história russa, sendo encenados à medida em que a visita acontecia.

Agora, o foco de seu interesse é o Museu do Louvre, em Paris, num momento delicado de sua história: o da ocupação nazista. “Francofonia – O Louvre sob Ocupação” nos oferece a oportunidade de conhecer um pouco da história desse museu emblemático, que reflete a própria história da França, exibe algumas de suas obras pictóricas e esculturas, abordando as relações entre poder e arte e os significados associados aos acervos culturais.

Os museus representam a própria civilização em seu momento mais glorioso: o da criação artística. Para Sokurov, não há nada mais importante do que eles. O que significaria a França sem o Louvre, ou a Rússia, sem o Hermitage? É isso o que talvez explique a luta pela preservação de obras de arte em meio às guerras.

Esta, porém, não é uma questão a ser entendida linearmente. “Francofonia” mostra que o poder nazista pretendia incorporar a cultura e a arte francesas a um suposto Estado francogermânico, que se sucederia aos conflitos da 2ª Guerra Mundial. Daí a reverência, o respeito e o desejo de preservar o patrimônio artístico-cultural francês.

Já quanto ao acervo cultural soviético, não havia qualquer preocupação de preservação. Esse era o inimigo a ser eliminado, varrido do mapa civilizatório. A justificativa para o combate à arte degenerada, tal como mostra muito bem o documentário “Arquitetura da Destruição” (1992), de Peter Cohen, é puramente ideológica. O combate ao comunismo soviético levaria tudo para essa categoria de avaliação.

Considere-se, ainda, que preservar, aqui, significa também roubar, saquear, como resultado das guerras. A própria figura de Napoleão Bonaparte é chamada em encenação do filme não só apreciar a arte em que ele figurava, mas para jactar-se de ter amealhado todo aquele acervo maravilhoso para a França.


Obras de grande valor artístico também têm de ser transportadas e estão sujeitas a todo tipo de risco, como o representado pelos temporais que atingem os navios. De qualquer modo, os bombardeios são fatais. E foi preciso deslocar a maior parte das peças do Louvre, durante a guerra, para evitar um possível desastre.

Se alguém se preocupa seriamente com essas coisas, tanto estando do lado dos invasores quanto dos invadidos, é sinal de que há esperança e civilização possíveis. Em “Francofonia”, isso é mostrado pela relação entre o diretor do Louvre do período, Jacques Jaujard (1895-1967), interpretado por Louis-Do de Lencquesaing, que continuou seu trabalho junto ao governo colaboracionista de Vichy, e o conde Wolff Metternich (1893-1978), vivido por Benjamin Utzerath, o interventor que, em nome do governo alemão, tinha a tarefa de controlar o acervo artístico e, quando solicitado, enviá-lo para a Alemanha. O que ele evitou de forma consciente que, de fato, se concretizasse.

A parceria de Jaujard e Metternich em nome da arte, em plena guerra, transforma até o sentido de palavras como colaboracionismo, obediência e patriotismo, tão comuns em referências bélicas, porque surge uma ética que se superpõe a essas questões, em nome da humanidade e da cultura universal.

“Francofonia” é um filme rico, que dá margem a muitas reflexões de toda ordem e é criativo, do ponto de vista cinematográfico, além de visualmente muito bonito. Cenas documentais filmadas na época se acoplam a encenações atuais, por meio das tonalidades fotográficas. Passado e presente se integram em panorâmicas da cidade de Paris e do Louvre, os personagens dialogam com as obras de arte dentro do museu e o próprio filme se faz à nossa frente, contando com as explicações narradas por Sokurov.

É um filme sofisticado, que não tem a pretensão de atingir grandes bilheterias. É daquelas coisas pelas quais os cinéfilos babam, mas muito gente acha simplesmente tedioso. Fazer o quê? Não é todo mundo que consegue apreciar uma obra de arte.



Antonio Carlos Egypto é psicólogo educacional e clínico, sociólogo e crítico de cinema. Membro fundador do GTPOS - Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual. Autor de "Sexualidade e Transgressão no Cinema de Pedro Almodóvar","No Meu Corpo Mando Eu","Sexo, Prazeres e Riscos", "Drogas e Prevenção: a Cena e a Reflexão" e "Orientação Sexual na Escola: um Projeto Apaixonante", entre outros. Cinéfilo desde a adolescência, que já vai longe, curte tanto os clássicos quanto o cinema contemporâneo de todo o mundo. Participa da Confraria Lumière, é associado da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e edita o blog Cinema com Recheio



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