Mya-Lecia Naylor (2002 – 2019)
A atriz britânica Mya-Lecia Naylor, de apenas 16 anos de idade, morreu no último dia 7 de abril. Segundo a agência da atriz, ela teria falecido após sofrer um colapso súbito, mas a causa da morte não foi especificada. Ela fez sua estreia na TV britânica em 2004, aos dois anos de idade, na série clássica “Absolutely Fabulous”, onde viveu Jane, a neta da protagonista Jennifer Saunders. E aos oito anos virou protagonista de sua primeira série, a infantil “Tati’s Hotel” (2011), em que interpretou a Tati do título. Naylor ainda estrelou as séries teen britânicas “Millie Inbetween” (2014-2018) e “Almost Never” (2019), além de ter participado do longa “A Viagem” (2012) ao lado de Tom Hanks e Halle Berry. A jovem havia recentemente gravado uma participação na ainda inédita série “The Witcher”, da Netflix. Além de atriz, Mya também era cantora e dançarina, e mantinha um canal no YouTube. Alice Webb, diretora da BBC Children, canal da televisão britânica onde a artista atuava, afirmou que a morte deixou a equipe da BBC abalada e muito triste. “Ela brilhava muito em nossas telas, e é difícil pensar que ela não será parte da nossa jornada futuramente”, disse Webb. “Ela era muito popular com nossa audiência, uma atriz, dançarina e cantora muito talentosa, e um verdadeiro ícone para seus fãs mais jovens”. Segundo o roteirista da BBC Simon Underwood, ele havia cotado Mya-Lecia para ser uma das protagonistas em uma nova série, que está escrevendo atualmente.
Georgia Engel (1948 – 2019)
Georgia Engel, a atriz com voz de bebê que interpretou a namorada e eventual esposa do apresentador de TV Ted Baxter na série clássica “Mary Tyler Moore”, morreu na sexta-feira (12/4) aos 70 anos em Princeton, Nova Jersey. Engel ficou conhecida e foi indicada a dois Emmys de Melhor Atriz Coadjuvante por seu trabalho em “Mary Tyler Moore”. Ela se juntou à série em 1972, durante a 3ª temporada, como Georgette Franklin, logo após fazer sua estreia no cinema na comédia “Procura Insaciável” (1971), de Milos Forman. “Seria apenas um episódio”, ela recordou ao The Toronto Star em 2007, “e eu deveria ter algumas falas em uma cena de festa, mas eles continuavam me dando mais e mais coisas para fazer”. Assim, sua personagem se tornou recorrente e depois integrante fixo da produção, que marcou época como a primeira série assumidamente feminista da TV americana. Após o fim de “Mary Tyler Moore” em 1977, a atriz ainda apareceu como Georgette no spin-off “Rhoda” e seguiu carreira na televisão, participando de muitas outras séries: no elenco fixo de “The Betty White Show” (1977-1978) e “Goodtime Girls” (1980) e como integrante recorrente de “Coach” (entre 1991 e 1997) e “Everybody Loves Raymond”. Ela entrou em “Everybody Loves Raymond” em 2003, durante a 7ª temporada do sitcom de Ray Romano, no papel de Pat MacDougall, a sogra do personagem de Brad Garrett. Também era para ser uma aparição simples, que acabou virando recorrente e lhe rendeu mais três indicações ao Emmy, desta vez como Melhor Atriz Convidada. Depois disso, continuou a aparecer em sitcoms populares da TV americana, recorrendo em vários episódios de “The Office”, “Two and a Half Men” e “Hot in Cleveland”. Também dublou três longas animados da franquia “O Bicho Vai Pegar” (de 2006 a 2010) e integrou o elenco da comédia “Gente Grande 2” (2013), como a mãe de Kevin James. Até encerrar a carreira com uma participação na série “One Day at a Time”, da Netflix, no ano passado.
Seymour Cassel (1935 – 2019)
O ator Seymour Cassel, que foi um importante parceiro do diretores John Cassavetes e Wes Anderson, morreu nesta segunda-feira (8/4) aos 84 anos, por complicações do mal de Alzheimer. A carreira de Cassell começou no final dos anos 1950, quando respondeu a um anúncio nos jornais de Los Angeles para trabalhar como assistente de produção no filme “Sombras” (1958), de John Cassavetes. Forjando amizade com o diretor, Cassel acabou ganhando também um papel de figurante no longa, que deu início a uma e produtiva parceria. Dez anos depois, em 1968, Cassel recebeu sua primeira e única indicação ao Oscar, como Melhor Ator Coadjuvante por “Faces”, outro filme dirigido por Cassavetes. Após esse marco na carreira, Cassavetes lhe deu maior destaque em “Assim Falou o Amor” (1971), como protagonista num papel criado especialmente para ele – contracenando com a esposa do diretor, Gene Rowlands. Com a fama, passou a atuar cada vez mais, sendo disputado por diretores renomados, ainda que sempre para papéis de coadjuvante. Seu rosto inconfundível deu vida a muitas figuras de autoridade, de gângsteres a chefes da polícia e empresários. Sua impressionante filmografia inclui mais de cem filmes, entre eles alguns clássicos como “Os Assassinos” (1964) e “Meu Nome é Coogan” (1968), ambos de Don Siegel, “O Último Magnata” (1976), de Elia Kazan, “Comboio” (1978), de Sam Peckinpah, “Colors – As Cores da Violência” (1988), de Dennis Hopper, “Track 29” (1988), de Nicolas Roeg, “Dick Tracy” (1990) de Warren Beatty, e “Proposta Indecente” (1993), de Adrian Lyne, em esquecer os filmes de Cassavetes – “Canção da Esperança” (1961), “A Morte de Um Bookmaker Chinês” (1976), “Noite de Estreia” (1977) e “Amantes” (1984). Após a morte precoce de Cassavetes em 1989, aos 59 anos, Cassel só foi firmar nova parceria em 1998, ao participar de “Três é Demais”, de Wes Anderson. Depois disso, entrou na confraria de atores com quem o cineasta costuma trabalhar, atuando em “Os Excêntricos Tenembaums” (2001) e “A Vida Marinha de Steve Zissou” (2004). Ele também apareceu em muitas séries desde os anos 1960, como “Além da Imaginação”, “O Fugitivo”, “Batman”, “Viagem ao Fundo do Mar”, “Os Invasores”, “Galeria do Terror”, “Matlock”, “Star Trek: A Nova Geração” e até às mais recentes “Plantão Médico” e “Flight of the Conchords”. Cassel seguiu trabalhando até 2015, mas sem o mesmo sucesso. O último filme que completou foi “Silver Case”, lançado direto em VOD.
Nadja Regin (1931 – 2019)
A atriz Nadja Regin, que apareceu em dois filmes da franquia “007”, morreu aos 87 anos. A notícia foi confirmada pela conta oficial da saga James Bond no Twitter, que postou uma homenagem à atriz sérvia, sem dar maiores detalhes sobre sua morte. Ela começou a carreira em 1959 em filmes da então Iugoslávia, usando seu nome completo: Nadja Poderegin. Fez oito produções elogiadíssimas, antes de cruzar a Cortina de Ferro para trabalhar na Alemanha Ocidental e no Reino Unido, onde a qualidade das obras desabou, mas lhe deu maior visibilidade. Os dois filmes de James Bond foram os únicos trabalhos de sua filmografia lançados no Brasil. Em “Moscou Contra 007” (1963), estrelado por Sean Connery, Regin viveu a amante do personagem Karim Bey (Pedro Armendáriz), chefe da “estação T” do Serviço Secreto Britânico em Istambul (Turquia). Sua segunda aparição, em “007 Contra Goldfinger” (1964), teve mais destaque. Novamente ao lado de Connery, ela aparece como a personagem Bonita, uma dançarina sedutora que tenta enganar o espião. Regin continuou atuando durante os anos 1960, aparecendo em séries britânicas como “Danger Man”, “The Third Man” (O Terceiro Homem) e “The Saint” (O Santo). Até se aposentar em 1968, fundando a editora literária Honeyglen Publishing com sua irmã, Jelena.
Roberta Haynes (1927 – 2019)
A atriz Roberta Haynes, que estrelou “A Volta ao Paraíso” (1953) ao lado de Gary Cooper, morreu na quinta-feira (4/4) em sua casa em Delray Beach, na Flórida, aos 91 anos. Nascida Roberta Schack em 19 de agosto de 1927, em Wichita Falls, Texas, ela se mudou para Los Angeles ainda criança, acompanhando sua família, e ao completar a maioridade passou a buscar trabalho como atriz. Hayes estreou no cinema com papéis não creditados em dois filmes de 1949, “O Crime não Compensa”, de Nicholas Ray, e “Resgate de Sangue”, de John Huston. E após uma passagem pela Broadway em 1950, conseguiu maior destaque no drama noir “The Fighter” (1952), que foi filmado no México. No ano seguinte, ela emplacou seu primeiro filme como protagonista feminina, interpretando uma nativa polinésia em “A Volta ao Paraíso”, que se envolvia e tinha um filho com Gary Cooper. Com seus cabelos escuros, olhos escuros e pele morena, Haynes costumava interpretar mulheres mexicanas, nativas americanas ou polinésias no cinema. “Eu queria ser uma atriz séria, para interpretar os papéis que Ingrid Bergman desempenhou. Mas eu sempre fui rotulada como uma ‘mexicana ardente'”, disse ela em uma entrevista em 2017 para o site Vulture . “Os papéis da ‘boa garota’ sempre foram para atrizes de cabelos loiros e olhos azuis.” Sua carreira vinha crescendo e no mesmo ano ela ainda apareceu em dois westerns: “Irmãos Inimigos” (1953), dirigido por Raoul Walsh, e “O Valente de Nebraska” (1953), em que voltou a ter papel de protagonista. Mas um acidente envolvendo tiros e explosões no set prejudicou seriamente sua visão. Ela não trabalhou por vários anos até que as operações restaurassem a maior parte de sua visão. Com a trajetória cinematográfica encurtada, ela passou a participar de séries de TV, sem papel fixo, e fazer pequenas aparições no cinema, como no thriller “À Queima-Roupa” (1967), de John Boorman, e “Reencontro do Amor” (1972), de Martin Ritt. Seu último papel foi como figurante na comédia “Loucademia de Polícia 6: Cidade em Estado de Sítio”, em 1989. Ela teve um relacionamento com Marlon Brando e um caso com Richard Burton, além de três maridos. O último foi o ator Larry Ward (da série clássica “The Dakotas”), de quem se divorciou em 1971.
Georgiy Daneliya (1930 – 2019)
O diretor russo Georgiy Daneliya morreu na quinta-feira (4/4) aos 88 anos, após parada cardíaca, seguindo um período de quase dois meses de internação por pneumonia em um hospital de Moscou. Considerado um dos maiores cineastas russos e premiado durante sua carreira em três dos principais festivais de cinema do mundo, Berlim, Veneza e Karlovy Vary, Daneliya era um arquiteto que virou cineasta ao lançar dois curtas no final dos anos 1950. A aclamação veio logo no primeiro longa-metragem, “O Mundo Novo de Serginho” (1960), que venceu o Globo de Cristal em Karlovy Vary, mais importante festival do Leste Europeu. O drama do menino que se vê subitamente valorizado pelo novo padrasto também foi considerado um dos melhores filmes estrangeiros do ano pela National Board of Review americana. Ele voltou a se destacar com “24 Horas em Moscou” (1964), sobre um jovem em visita à capital russa, que faz novos amigos adolescentes. O longa foi selecionado para a disputa da Palma de Ouro no Festival de Cannes. A Cortina de Ferro dificultou que sua filmografia se tornasse mais conhecida. E também houve certa resistência do Ocidente a seu trabalho, por ser alinhado à ideologia comunista. Daneliya chegou ser eleito “Artista da República Russa” em 1977 e “Artista do Povo da União Soviética” em 1989 pelo governo soviético. O cineasta também venceu o Festival de Moscou em 1977 com “Mimino”, sobre um piloto de helicóptero do interior que sonha comandar aviões e se torna amigo de um motorista de trator durante um curso na capital. A lenta e gradual abertura soviética permitiu maior circulação a seus filmes. E ele acumulou prêmios internacionais em sua obra seguinte, “Maratona de Outono” (1979), conquistando o Leão de Ouro do Festival de Veneza, a Concha de Ouro do Festival de San Sebastian e o prêmio da Mostra Fórum do Festival de Berlim com a história de um professor infiel. Foi o ponto alto de sua carreira, que, a partir daí, tornou-se menos internacional. Seus filmes seguintes foram mais celebrados no mercado doméstico, geralmente vencendo os prêmios Nika (o Oscar russo), como “Passaporte” (1990), que lhe rendeu o troféu de Melhor Roteiro. Ele também diversificou sua obra, fazendo comédias (“Nastya”, “Heads and Tails” e “Fortuna”) e até uma animação, “Ku! Kin-dza-dza”, seu último trabalho, lançado em 2013, que venceu o Nika da categoria.
Tania Mallet (1941 – 2019)
A modelo Tania Mallet, que viveu uma das primeiras “Bond girls” dos filmes do agente 007, morreu aos 77 anos, de causa não revelada. Ela ficou conhecida pelo papel de Tilly Masterson no filme “007 contra Goldfinger” (1964), o terceiro e um dos mais famosos da franquia, em que contracenou com Sean Connery no papel do protagonista. Mallet era modelo e por causa de uma foto de biquíni na revista Vogue chamou atenção do produtor Albert Broccoli, que a convidou a participar de um teste para o segundo longa de James Bond, “Moscou Contra 007” (1963). Ela disputou o papel de Tatiana Romanova, que acabou vivido pela italiana Daniela Bianchi. Mas não foi uma perda de tempo, porque lhe rendeu participação no filme seguinte. Em “007 contra Goldfinger”, sua personagem queria se vingar do vilão do título (Gert Fröbe) pela morte de sua irmã, mas acaba sendo morta pelo icônico chapéu mortal do capanga Oddjob (Harold Sakata). Após atuar em “Goldfinger”, porém, ela decidiu se concentrar no trabalho como modelo – que, segundo contou, pagava muito melhor. Assim, só voltou a atuar uma única vez, numa pequena participação num episódio da série britânica “The New Avengers”, de 1976, que fazia referência à “Goldfinger”.
Shane Rimmer (1929 – 2019)
O ator e dublador Shane Rimmer, que deu voz ao piloto Scott Tracy na série de marionetes “Thunderbirds”, morreu em sua casa na madrugada desta sexta (29/3). Ele tinha 89 anos. Canadense, nascido em Toronto em 1929, Rimmer se mudou para o Reino Unido na década de 1950, onde trabalhou em várias séries (incluindo “Doctor Who”) e iniciou uma carreira repleta de figurações no cinema, iniciada pelo clássico “Dr. Fantástico” (1964), de Stanley Kubrick, e com direito a três filmes de 007 nos anos 1970 – “007 – Os Diamantes São Eternos” (1971), “Com 007 Viva e Deixe Morrer” (1973) e “007: O Espião que me Amava” (1977), sempre como personagens diferentes. Rimmer também tinha uma relação afetiva com as adaptações da DC Comics. Após aparecer nos três primeiros filmes de “Superman” estrelados por Christopher Reeve, ainda figurou em “Batman Begins” (2005). Sua ficha no IMDb cita 165 créditos, incluindo “Guerra nas Estrelas” (1977) e o vencedor do Oscar “Gandhi” (1982), mas a maioria de seus papéis de cinema foi tão pequena que nem sequer tinha nome – em vez disso, eram identificados como o “técnico mais velho”, o “treinador”, o “coronel”, o “comentarista”. Seu trabalho mais consistente se deu nas séries do produtor Gerry Anderson. Além de dar voz ao líder da tripulação dos Thunderbirds entre 1964 e 1966, ele também dublou personagens de outras duas atrações famosas de bonecos, “Capitão Escarlate” (1967-68) e “Joe 90” (1968-69). Para completar, apareceu em carne e osso nas séries live-action de ficção científica do produtor, “Projeto UFO” (1970-71) e “Espaço: 1999” (1975–1977). Um de seus últimos trabalhos foi uma minissérie em que voltou a dublar o líder dos Thunderbirds. Foram três episódios lançados em 2015. Entretanto, quando a série original foi refeita no mesmo ano, os novos produtores não o chamaram de volta, encerrando sua longa ligação com o legado de Gerry Anderson (1929–2012).
June Harding (1940 – 2019)
A atriz June Harding, que fez sucesso nos anos 1960, ao estrelar a comédia “Anjos Rebeldes” (1966), morreu no dia 22 de março em uma casa de repouso no Maine. Ela tinha 78 anos. Com aparência bem mais jovem que sua idade real, Harding registrou seu primeiro trabalho numa pequena participação na longeva novela “As the World Turns” aos 16 anos, de onde partiu para Nova York, buscando virar atriz de teatro. Após se apresentar em peças pequenas, ela estreou na Broadway aos 21 anos, em dezembro de 1961, como a filha mais nova de Art Carney na peça de sucesso “Take Her, She’s Mine”, mas logo voltou para a TV, virando integrante da série de antologia “The Richard Boone Show”, entre 1963 e 1964. Ela ainda apareceu em episódios de “Dr. Kildare”, “Os Defensores” e “O Fugitivo” antes de ser escalada em seu primeiro e único filme. Já tinha 26 anos quando protagonizou “Anjos Rebeldes” ao lado da estrelinha da Disney Hailey Mills, então com 19. No clássico dirigido por Ida Lupino, as duas viviam as personagens do título, estudantes espirituosas de um internato de meninas, administrado por uma Madre Superiora durona (Rosaland Russell). O filme fez grande sucesso e rendeu uma homenagem para a atriz em sua cidade natal de Emporia, na Virginia. Ela recebeu a chave da cidade e foi comemorada com um novo feriado municipal, o “Dia de June Harding”. Mas Harding não deu sequência na carreira, aposentando-se logo no começo dos anos 1970. Seu último papel foi no telefilme “The Cliff” (1970). Desde então, vinha se dedicando à pintura.
Agnès Varda (1928 – 2019)
A cineasta Agnès Varda, um dos maiores nomes da nouvelle vague, morreu na madrugada desta sexta (29/3), aos 90 anos, cercada por sua família e amigos, em consequência de um câncer. Feminista, diretora de cinema, artista plástica e também fotógrafa, ela assinou clássicos que ficaram conhecidos por suas ousadias, com estruturas e narrativas originais. “La Pointe-Courte” (1955), seu longa de estreia, por exemplo, tinha narração dupla, enquanto acompanhava histórias distintas de uma vila. Vários críticos citam este trabalho como precursor da nouvelle vague, já que foi lançado antes que seus colegas de geração (François Truffaut, Jean-Luc Godard, Alain Resnais, Claude Chabrol, Jacques Rivette, Éric Rohmer) filmassem suas obras mais famosas, desprendendo-se das convenções narrativas do cinema. Nascida Arlette Varda em 1928 numa região de Bruxelas, capital da Bélgica, ela estudou fotografia na Escola de Belas Artes de Paris e aos 21 anos desembarcou com a sua câmara fotográfica no Festival de Avignon, o mais antigo festival de artes da França e um dos maiores do mundo, do qual passou a ser a fotógrafa oficial em 1951. Em pouco tempo, passou das imagens estáticas para as de movimento, mas sua experiência fotográfica a acompanhou por toda a carreira. Ao fazer um filme, Varda também assumia a câmera, além do roteiro, edição e produção. Dizia que só assim conseguiria a coesão – e a autoria completa – sobre suas obras. Em 1954, criou sua produtora, a Ciné-Tamaris, por onde lançou “La Pointe-Courte”, que a tornou conhecida como “mãe” ou “madrinha” da nouvelle vague. Mas seu filme mais conhecido viria no auge do movimento, em 1962. Seu segundo longa, “Cléo das 5 às 7”, imprimiu um viés feminista ao cinema. A trama acompanhava a personagem-título por duas angustiantes horas pelas ruas de Paris, enquanto aguardava o resultado de um exame de câncer. Foi considerado o Melhor Filme do ano pelo sindicato dos críticos franceses. Seu terceiro lançamento, “As Duas Faces da Felicidade” (1965), vencedor do Prêmio Especial do Júri no Festival de Berlim, focava a hipocrisia masculina, mostrando uma família que seria perfeita, não fosse o patriarca um homem infiel, apesar de feliz no casamento. Depois de dirigir Catherine Deneuve em “As Criaturas” (1966), Varda e o marido, o também cineasta Jacques Demy, mudaram-se para Los Angeles, onde ela mergulhou “no espírito de revolta” da contracultura e se reinventou como documentarista. Querendo registrar o período, filmou diversos curtas sobre tópicos quentes, como os Panteras Negras, a revolução cubana, a guerra do Vietnã e o próprio feminismo. Só foi voltar à ficção em 1977, com “Uma Canta, a Outra Não”, história de duas amigas ao longo de uma década de reivindicações femininas. Mesmo assim, passou a se alternar-se entre registros de tudo o que lhe chamava atenção, como os murais grafitados das ruas de Los Angeles (o documentário “Mur, Murs”, 1981), e trabalhos em que se expressava por meio de atores, como o drama de uma jovem encontrada morta numa vala. Este foi o tema de “Os Renegados” (1985), estrelado por Sandrine Bonnaire, que venceu o Leão de Ouro como Melhor Filme do Festival de Veneza. Essa dualidade a permitiu filmar duas vezes a atriz Jane Birkin de forma completamente diferente no mesmo ano, como personagem no polêmico “Le Petit Amour” (1988), que flertava com a pedofilia, e como pessoa real no documentário “Jane B. por Agnès V.” (1988). A morte do marido em 1990 inspirou um de filmes seus mais belos, “Jacquot de Nantes” (1991), baseado na infância e juventude de Jacques Demy, em que transbordava amor. Também fez um documentário tocante sobre a carreira do diretor, “The World of Jacques Demy” (1995). Mas não foi tão feliz ao tentar contar as memórias do próprio cinema em “As Cento e uma Noites” (1995), um híbrido de ficção e documentário que a levou a se afastar de vez dos atores. A partir daí, só filmou pessoas reais, como os trabalhadores rurais e catadores de lixo em “Os Catadores e Eu” (2000), sempre inserindo-se no contexto, como ficava explícito pelos títulos. Ao abandonar os atores, passou a dar mais atenção à fotografia. Na verdade, ao aspecto mais artístico das imagens. “Se vocês prestarem atenção, minha carreira se divide em duas partes, a do século 20 e a do 21. Na primeira sou mais cineasta; na segunda, artista plástica”, explicou, no último Festival de Berlim. Em “As Praias de Agnès” (2008), começou a cuidar de seu legado, revendo cenas e lugares de sua vida – e, de quebra, conquistando uma porção de prêmios em diversos festivais, justamente pela plasticidade com que descreveu sua jornada. Em 2017, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos lhe rendeu homenagem com um Oscar honorário pelo conjunto de sua obra. “Musa Pioneira. Ícone. Uma mulher que lançou um movimento de cinema”, assim a apresentou o presidente da Academia, John Bailey, quando Varda se tornou a primeira mulher cineasta a ter a carreira reconhecida pelo Oscar. Mas, incansável, ela ainda voltou à premiação em 2018, quando concorreu ao Oscar de Melhor Documentário por “Visages, Villages”, tornando-se, aos 89 anos, a pessoa mais velha a ser indicada em uma categoria competitiva do principal troféu da indústria cinematográfica. Seu último trabalho como diretora foi uma minissérie biográfica, “Varda par Agnès – Causerie”, que após a première no Festival de Berlim no mês passado, foi exibida há 11 dias na França. A obra se encerra com um borrão branco, em forma de névoa, que engole a cena em que Agnès Varda contempla uma praia. Ela se preocupou até em deslocar os créditos de encerramento para outro lugar, de forma a não terminar seu último filme com uma tela preta, representando a escuridão, mas sim com a mais completa claridade. “Preciso me preparar para dizer adeus e achar a paz necessária para isso”, ela disse em sua última entrevista coletiva, no Festival de Berlim, 46 dias antes de morrer. Na tarde desta sexta-feira, ela ainda inauguraria uma exposição de fotografias e instalações de arte em Chaumont-sur-Loire, que será aberta sem ela.
Joseph Pilato (1949 – 2019)
Joseph Pilato, que ficou conhecido dos fãs de terror como o Capitão Rhodes do clássico “Dia dos Mortos” (1986), morreu na terça-feira (25/3) aos 70 anos de idade, enquanto dormia. Pilato era originalmente assistente de efeitos de maquiagem dos filmes de zumbis do mestre George A. Romero. Ele estreou diante das câmeras fazendo figuração como policial no cultuadíssimo “Despertar dos Mortos” (1978), mesmo filme que lançou a carreira de ator de seu chefe no departamento (Tom Savini). Os dois ainda trabalharam juntos em “Cavaleiros de Aço” (1981), novamente dirigidos por Romero. Mas em “Dia dos Mortos”, Pilato foi incentivado a assumir um papel maior, aproveitando bem sua pose de canastrão. Ele viveu o militar que comandava um abrigo subterrâneo em que cientistas buscavam uma cura para epidemia zumbi. Até que a claustrofobia do lugar e a paranoia crescente o levam a se voltar contra os civis, com consequências trágicas. “Eu sempre fui um cara de esquerda, politicamente”, disse o ator em entrevista recente. “Eu protestei contra a guerra do Vietnã, fui perseguido e agredido pela polícia em Boston e em Washington. Então, Rhodes era tudo o que eu abominava, o que fez com que interpretá-lo ficasse mais fácil” A morte do personagem, devorado vivo, estabeleceu um novo patamar para efeitos gore (sanguinolência extrema) e foi o ponto alto da carreira do ator, que, aliás, não foi curta. Após “Dia dos Mortos”, Pilato participou de inúmeros filmes B. Mas também foi lembrado por Quentin Tarantino para uma pequena aparição em “Pulp Fiction: Tempo de Violência”, que, entretanto, ficou fora da versão que foi parar nos cinemas. A maior parte de sua filmografia é composta por títulos de terror, entre eles “Segredos do Passado” (1992) e “O Mestre dos Desejos” (1997). Mas ele também esteve na comédia “Atração Irresistível” (1998), estrelada por Jude Law e foi dublador de desenhos animados e videogames. Era dele a voz em inglês de MetalGreymon na série animada (e no filme) “Digimon”, febre infantil da virada do século. Pilato continuou trabalhando até os últimos anos de vida. E além de atuar em horrores lançados direto em streaming, envolveu-se no desenvolvimento de uma publicação de terror em quadrinhos, chamada “Bottom Feeder”, cedendo seu visual para um personagem – e gravando frases do texto para a divulgação.
Larry Cohen (1941 – 2019)
O diretor Larry Cohen, criador da série clássica “Os Invasores” e da franquia de terror “Nasce um Monstro”, entre outras produções cultuadas, morreu no sábado (23/3) aos 77 anos, cercado de seus familiares. Maiores detalhes sobre sua morte não foram divulgados. Cohen começou a carreira como roteirista de TV nos anos 1960, e após demonstrar seu talento em episódios de séries famosas como “O Fugitivo” e “Os Defensores”, começou a criar suas próprias atrações televisivas. A maioria não passou da 1ª temporada, mas duas conseguiram completar o segundo ano: “Branded” (1965–1966), western estrelado por Chuck Connors, e “Os Invasores” (1967-1968). A série sci-fi de 1967 acompanhava a descoberta de uma invasão alienígena por um homem comum (interpretado por Roy Thinnes) e se tornou uma das mais cultuadas e influentes do gênero – inspiração de “Projeto UFO”, “Arquivo X” e várias outras. Apesar de ter só 43 episódios, eternizou-se em reprises, além de ter rendido uma minissérie derivada em 1995. A repercussão de “Os Invasores” o credenciou a escrever para o cinema, onde perseguiu o terror, aterrorizando mulheres em “A Psicose do Medo” (1969) e “Scream Baby Scream” (1969). Ambos traziam psicopatas focados em vítimas jovens. Mas o primeiro, em que a vítima abortou o filho de seu potencial assassino, também foi prelúdio do nascimento de sua obra mais conhecida. Entretanto, Cohen começou sua carreira de diretor num gênero muito diferente daquele que o popularizou. Ele se lançou na carona da blaxploitation, assinando comédias e dramas criminais de baixo orçamento, estrelados por astros negros. Em “Bone” (1972), mostrou Yaphet Cotto (de “Alien”) invadindo uma mansão de Beverly Hills para fazer seus ricos moradores brancos de refém. Em “O Chefão de Nova York” (Black Caesar, 1973), orientou Fred Williamson (“Um Drink no Inferno”) a refazer os passos de Edward G. Robinson no clássico de gângster “Alma no Lodo” (1931) para coroá-lo como o rei do crime do Harlem. E ainda escreveu e dirigiu a sequência, “Inferno no Harlem” (1973), lançada apenas oito meses depois. Como filmes baratos não lhe rendiam muito, Cohen ainda escrevia episódios de “Columbo” (entre 1973 e 1974) quando teve a inspiração para parir seu maior clássico. “Nasce Um Monstro” (It’s Alive, 1974) acompanhava um bebê mutante assassino, materializado no set pelo rei dos efeitos de maquiagem de terror Rick Baker. E fez tanto sucesso que rendeu duas sequências, também escritas e dirigidas por Cohen: “A Volta do Monstro” (1978) e “A Ilha dos Monstros” (1987) – sem esquecer um remake em 2003. A partir daí, Cohen ficou conhecido por seus filmes de terror que invariavelmente viravam terrir (comédia de horror), como “Foi Deus Quem Mandou” (1976), “O Jovem Lobisomem” (1981), “Q – A Serpente Alada” (1982), “Efeitos Especiais” (1984) e especialmente “A Coisa” (1985), sobre uma sobremesa deliciosa que transformava seus consumidores em zumbis famintos por mais. Ainda dirigiu a adaptação de Stephen King “Os Vampiros de Salem, o Retorno” (1987) e “A Madrasta” (1989), último filme estrelado por Bette Davis. E, como se não bastasse, originou outra franquia famosa ao escrever o roteiro de “Maniac Cop” (1988) para o diretor William Lustig. A popularidade de “Maniac Cop” voltou a transformá-lo em roteirista requisitado por outros diretores. Entre muitos roteiros, assinou “Os Invasores de Corpos: A Invasão Continua” (1993) para Abel Ferrara, e conseguiu sucesso inesperado com as tramas tensas dos thrillers “Por um Fio” (2002), estrelado por Colin Farrell, e “Celular: Um Grito de Socorro” (2004), com o jovem Chris Evans. Depois de uma década sem filmar, Cohen se despediu dos sets com um episódio da série “Mestres do Terror” em 2006, antologia que reunia os maiores nomes do terror americano dos anos 1970 e 1980. O criador da série, Mick Garris, insistiu muito para Cohen interromper a aposentadoria para participar da produção-homenagem, reconhecendo a importância do cineasta não apenas pelo sucesso de seus filmes baratos, mas por sua capacidade de injetar comentários sociais de forma irônica em tramas de terror. “Eu queria tentar lidar com o que acontecia no mundo em meus filmes”, disse Cohen em entrevista à revista Diabolique em 2017. “Muitos dos filmes que fiz são extremamente voláteis e lidam com assuntos controversos como o racismo”, argumentou. “Meu primeiro longa, ‘Bone’, estava muito à frente de seu tempo – e continua polêmico até hoje, porque ainda não superamos o racismo”, disse, antes de destacar outro filme. “Veja outro exemplo, ‘A Coisa’, que era sobre produtos vendidos no supermercado que matavam pessoas. Ainda há inúmeros produtos nocivos para a saúde vendidos até hoje, e toda vez que anunciam uma pílula diferente de algum tipo, deixam para avisar só depois sobre os efeitos colaterais. ‘A Coisa’ foi uma alegoria ao consumismo e ao fato de que grandes corporações vão te vender qualquer coisa para conseguir seu dinheiro, mesmo que isso te mate”. Nos últimos anos, a obra de Cohen inspirou diversos documentários, com direito a comentários de Martin Scorsese, JJ Abrams, John Landis, Joe Dante e outros a quem o cineasta inspirou com sua criatividade. Filmes como “King Cohen: The Wild World of Filmmaker Larry Cohen” (2017), “Cohen on Cohen” (2017) e “Cohen’s Alive: Looking Back At The It’s Alive Films” (2018) convidam o público a conhecer as maiores obscuridades de sua carreira e descobrir porque Larry Cohen era cultuado por diretores que os cinéfilos chamam simplesmente de mestres.
Marlen Khutsiev (1925 – 2019)
O cineasta Marlen Khutsiev, considerado o pai da “new wave” do cinema soviético dos anos 1960, morreu em Moscou aos 93 anos, anunciou a União de Cineastas da Rússia nesta terça (18/3). “Viveu uma vida cheia de drama e alegria”, declarou a porta-voz da organização, Tatiana Nemchinskaya. Ele nasceu em Tiflis (atualmente, parte Georgia) em 1925 logo após a Revolução Bolchevique, e seu nome Marlen era um acrônimo de Marx e Lênin. Apesar desse batismo, o regime comunista não foi benevolente com sua família. Sua mãe era uma ex-aristocrata que perdeu tudo e seu pai um dirigente do partido que acabou executado em 1937, durante os expurgos stalinistas. Sua carreira floresceu após a morte de Stalin, em 1953, representando um sopro de renovação nas artes soviéticas. “Primavera na Rua Zarechnaya”, lançado em 1956, o ano em que Nikita Khrushchev denunciou o culto à personalidade de Stalin, surpreendeu pelo realismo de sua história, ao retratar a vida de uma jovem professora que chega a uma cidade de província para dar aulas noturnas a operários. A obra chamou atenção por não seguir os enredos soviéticos: a mulher bem-educada da cidade grande não se apaixonava imediatamente por um trabalhador bruto, mas charmoso. Apesar disso, foi visto por mais de 30 milhões de espectadores nos cinemas, tornando-se cultuadíssimo na União Soviética. Seu segundo filme, “Two Fyodors” (1959), focou a reconstrução das famílias no período do pós-guerra, acompanhando um soldado que volta do front e adota um órfão com quem compartilha o nome (ambos se chamam Fyodor). Mas esse relacionamento é quase destruído quando ele se casa. Apesar das críticas sutis, seus problemas com o governo só começaram em seu filme seguinte, sobre a juventude soviética dos anos 1960. A história de “I Am Twenty” contrapunha os sonhos da idade com as limitações impostas pelo comunismo, acompanhando três jovens que ansiavam pela liberdade e não expressavam o menor fervor socialista. O filme venceu o Prêmio do Júri do Festival de Veneza em 1965, mas foi condenado por Khrushchev, que só liberou sua estreia comercial dois anos depois, após ser completamente reeditado. A versão original foi reconstituída e exibida para o público russo apenas em 1988, durante a abertura da glasnost. O diretor também chamou atenção com “July Rain”, filmado em 1967 de maneira similar a nouvelle vague francesa, usando câmera na mão, ao estilo dos documentários, atores não profissionais e um enredo que parecia inexistente. A partir de 1968, o regime o designou para trabalhar na TV estatal, sob censura ainda mais rígida, acabando com sua liberdade para filmar. Por conta disso, somente voltou ao cinema em 1984 com “Epilogue”. Khutsiev lançou apenas mais um longa de ficção depois disso, “Infinitas”, premiado no Festival de Berlim de 1992. Mas os poucos filmes que lançou durante a Guerra Fria representaram uma das principais resistências culturais da juventude russa à ditadura comunista, com enredos discretos e repletos de ambiguidades, que serviram de inspiração para gerações de cineastas que se seguiram, além de fornecerem algumas das imagens mais icônicas daquele período. Ele ainda foi premiado com um Leopardo de Ouro pela carreira no Festival de Locarno em 2015 e trabalhava num novo filme, que marcaria o seu retorno.





