José Luis Cuerda (1947 – 2020)
O cineasta José Luis Cuerda, diretor de clássicos do cinema espanhol como “Amanece Que No es Poco” (1989) e “A Língua das Mariposas” (1999), morreu nesta terça (4/2) em Mardi, aos 72 anos de idade. A notícia foi confirmada pela Academia de Cine, principal instituição cinematográfica do país europeu, mas a causa da morte não foi anunciada. Em sua carreira, Cuerda desenvolveu obras dramáticas impactantes, que por vezes adentravam o terreno do filme de gênero, com fantasias sobrenaturais, e participação constante de crianças entre os protagonistas. Foi o caso, por exemplo, de seu primeiro grande sucesso nos cinemas espanhóis, “El Bosque Animado” (1987), uma fantasia baseada no romance homônimo de Wenceslao Fernández Flórez, que ganhou cinco prêmios Goya (o “Oscar espanhol”), incluindo o de Melhor Filme, e chegou a ser indicada ao troféu de filme europeu do ano da Academia Europeia de Cinema. Já seu filme mais conhecido no mercado internacional foi um drama bastante realista, “A Língua das Mariposas”, história emocionante sobre um menino e seu professor durante a guerra civil espanhola dos anos 1930, que rendeu a Cuerda o Goya de Melhor Roteiro. O sucesso de suas obras permitiu que se lançasse como produtor e ajudasse a lançar a carreira de outro cineasta talentoso e importante do cinema espanhol fantástico. Cuerda produziu “Morte ao Vivo” (Tesis, 1996), o tenso e excelente primeiro filme de Alejandro Amenábar, e seguiu parceiro do diretor em seus dois clássicos seguintes, “Preso na Escuridão” (Abre los Ojos, 1997), que ganhou remake estrelado por Tom Cruise (“Vanilla Sky”), e o célebre terror “Os Outros” (2001), estreia em inglês de Amenábar, protagonizado por Nicole Kidman. O próprio Cuerda, porém, nunca fez a transposição de sua carreira para Hollywood. Preferiu firmar aliança com o cinema argentino, por meio de “A Educação das Fadas” (2006), estrelado por Ricardo Darín. Seus último grande filme foi “Los Girasoles Ciegos” (2008), que também lhe rendeu um Goya de Roteiro, além de um troféu de Direção no Festival de Cartagena. Ele lançou mais três longas depois disso, um deles documentário, encerrando a carreira com “Tiempo Después”, lançado em 2018.
Monique van Vooren (1927 – 2020)
A atriz belga Monique van Vooren, que enfrentou Tarzan e Batman nas telas, morreu no sábado (25/1) de câncer, em sua casa em Nova York, aos 92 anos. Nascida em Bruxelas, ela virou atriz de cinema no melodrama italiano “Amanhã Será Tarde Demais” (1950), estrelado por Vittorio De Sica. E conseguiu seu primeiro papel de destaque como a vilã do título de “Tarzan e a Mulher Diabo” (1953), uma caçadora de marfim chamada Lyra, que torturava o Tarzan vivido por Lex Baxter. Foi uma das raras vezes em que não apareceu loira nas telas. Também viveu a femme fatale de “Massacre Total (A Sarabanda da Morte)” (1955), um noir francês dirigido por Pierre Foucaud. Mas teve dificuldades para emplacar bons papéis em grandes produções de Hollywood, tornando-se figurante de luxo de filmes como “Dez Mil Alcovas” (1957), no qual apareceu sensual de camisola nos créditos de abertura, e o musical “Gigi” (1958), de Vincente Minnelli, onde viveu uma showgirl. Após trocar o cinema pela TV, van Vooren surpreendeu ao reaparecer em tela grande como coprotagonista da sátira de super-heróis “Fearless Frank” (1967), ao lado de Jon Voight. E em seguida enfrentou o próprio Batman, num episódio duplo da série televisiva clássica, exibido em 1968, em que viveu uma capanga do Pinguim, na despedida do ator Burgess Meredith do papel. De volta ao cinema italiano, ela integrou o elenco do clássico “Decameron” (1971), de Pier Paolo Pasolini, e o cultuado terrir erótico “Carne para Frankenstein” (1973), produzido por Andy Warhol – igualmente filmado na Itália – , como a baronesa Katrin Frankenstein. 1973 foi realmente um ano produtivo, em que a atriz ainda apareceu em mais duas produções B, o mistério “Meu Corpo em Tuas Mãos” (1973) e o thriller lésbico “Sugar Cookies” (1973). Mas esse ímpeto foi radicalmente paralisado para ela estrelar a montagem da Broadway de “Man on the Moon”, fantasia musical escrita por John Phillips, da banda The Mamas and the Papas, que a tirou das telas em 1974. Vale dizer que, além de atuar, van Vooren tinha uma boa voz, que inclusive rendeu um álbum lançado em 1958 pela RCA Victor, chamado “Mink in HiFi”. Ela só foi retornar ao cinema para figurar, ao lado do filho, em “Wall Street: Poder e Cobiça” (1987), de Oliver Stone, e encerrar a carreira no terror B “Greystone Park” (2012).
John Karlen (1933 – 2020)
O ator John Karlen, vencedor do Emmy por seu trabalho na série clássica “Cagney & Lacey”, morreu na quarta-feira (22/1) de insuficiência cardíaca, aos 86 anos. Após servir na Guerra da Coréia, Karlen estudou Artes Dramáticas em Nova York e passou a intercalar participações em séries de TV, como “Cidade Nua” e “O Falcão”, enquanto fazia sua estreia na Broadway, dirigido pelo lendário Elia Kazan na montagem de 1960 de “Doce Pássaro da Juventude”. Vieram várias outras peças de prestígio, mas sua carreira televisiva acabou ganhando primazia em decorrência de seu primeiro papel fixo em 1967, como um dos protagonistas da novela gótica “Dark Shadows” – também conhecida como “Sombras da Noite” e “Sombras Tenebrosas”. Karlen foi uma contratação de emergência da rede ABC para substituir James Hall, que tinha sido demitido após cinco episódios da produção. Sem maior preparação, ele assumiu o papel de Willie Loomis, um forasteiro recém-chegado à cidade de Collinsport que, inadvertidamente, ao invadir o mausoléu da família Collins, torna-se responsável por libertar o vampiro Barnabas Collins (Jonathan Frid). Como recompensa, é atacado, tem seu sangue sugado e se torna o principal servo da criatura, que havia passado os últimos 200 anos em um caixão. Ele permaneceu na novela até sua conclusão em 1971, aparecendo em 179 episódios, e ainda viveu Loomis no longa de 1970, “Nas Sombras da Noite”, além de um novo papel no filme seguinte da franquia, “Maldição das Sombras” (1971). Sua filmografia se tornou ainda mais gótica por conta de sua presença num dos filmes de vampiros mais famosos da década, a produção franco-alemã “Escravas do Desejo” (1971), como parte de um casal que chama atenção de vampiras lésbicas. Essa associação com o terror lhe rendeu participações em telefilmes e séries fantásticas, como “Galeria do Terror”, “O Sexto Sentido”, a versão televisiva de 1973 de “O Retrato de Dorian Gray” e o cultuado “Trilogia de Terror” (1975). Mesmo assim, Karlen não acabou estigmatizado, atuando também em romances populares, como os filmes “Dinheiro do Céu” (1981) e “Adeus à Inocência” (1984). E o motivo de não ter ficado marcado como astro de terror foi seu segundo papel fixo televisivo. Em 1981, Karlen foi escalado como Harvey Lacey, o marido da detetive Mary Beth Lacey (Tyne Daly) na série “Cagney & Lacey”. A primeira atração policial feminista da TV americana acompanhava duas detetives em investigações criminais semanais. E enquanto Lacey resolvia crimes ao lado da parceira Christine Cagney (Sharon Gless), seu marido ficava em casa cuidando dos filhos. O papel de marido progressista rendeu três indicações seguidas ao Emmy para Karlen, que acabou conquistando o troféu de Melhor Ator Coadjuvante da TV americana em 1986. “Ainda estava procurando como pagar aluguel quando essa série apareceu”, contou Karlen em uma entrevista de 1987 ao Chicago Tribune. “O segredo de Harvey Lacey é que ele é querido. Harvey pode ter pouco espaço nas tramas, mas isso não me incomoda. Contanto que eu consiga minhas duas ou três cenas, estou feliz. E é um dinheiro excelente por pouco trabalho. Não é um desgaste. Acabo conseguindo dar sempre o meu melhor”. Após 124 capítulos e o fim da série em 1988, Karlen ainda voltou a viver Harvey em quatro telefilmes de “Cagney & Lacey”, até 1996. “Cagney & Lacey: True Convictions”, daquele ano, foi sua despedida da TV. Outros papéis de destaque de sua carreira incluem arcos em “Chumbo Grosso” (Hill Street Blues), como um suspeito chamado – referencialmente – de Loomis, e em “Louco por Você” (Mad About You), na pele do pai da personagem de Helen Hunt.
Jack Kehoe (1934 – 2020)
O ator Jack Kehoe, que viveu coadjuvantes inesquecíveis em clássicos como “Serpico”, “Golpe de Mestre” e “Os Intocáveis”, morreu aos 85 anos. Ele faleceu em 14 de janeiro, depois de sofrer um derrame debilitante em 2015, anunciou sua família nesta quarta (22/1). Kehoe serviu três anos no Exército dos EUA, antes de decidir virar ator, estudando com a famosa professora de teatro Stella Adler. A estreia na Broadway aconteceu em 1963, mas sua chegada em Hollywood levou quase uma década, via figuração na comédia “Quase, Quase uma Máfia” (1971). Mas ele rapidamente chamou atenção como coadjuvante de filmes importantes, atingindo grande popularidade nos anos 1970. Entre seus papéis mais lembrados estão os de Tom Keough, um dos policiais investigados por Al Pacino em “Serpico” (1973), e do trapaceiro Erie Kid, que se juntava aos personagens de Paul Newman e Robert Redford em “Golpe de Mestre” (também de 1973). Após esse começo impactante, ele ainda se projetou na comédia “Car Wash: Onde Acontece de Tudo” (1976) como Scruggs, um cowboy atendente de posto de gasolina, e teve papéis em filmes cultuados, como “Melvin e Howard” (1980), “Reds” (1981) e “Nos Calcanhares da Máfia” (1984). Sua participação em “Os Intocáveis” (1987), de Brian De Palma, como o contador de Al Capone (Robert De Niro), reviveu sua popularidade na fase final da carreira, que ainda incluiu outros clássicos, como “Fuga à Meia-Noite” (1988), “Dick Tracy” (1990), “Jovem Demais Para Morrer” (1990), “Um Dia de Fúria” (1993) e “O Jornal” (1994). Seu última aparição nas telas aconteceu há mais de 20 anos, em “Vidas em Jogo” (1997), de David Fincher.
Terry Jones (1942 – 2020)
O ator, roteirista e diretor Terry Jones, um dos membros da trupe de comédia britânica Monty Python, morreu na noite de terça (21/1) aos 77 anos. Jones lutava contra a demência desde pelo menos 2016, quando o seu filho, Bill, revelou a doença para o público. O comediante passou seus últimos anos sem conseguir falar. “Nos últimos dias, a mulher, filhos, família estendida e amigos de Terry estiveram constantemente em contato com ele. Todos nós perdemos um homem gentil, engraçado, caloroso, criativo e amoroso, cuja individualidade, intelecto e humor deram prazer a milhões durante seis décadas de carreira”, comentou a família em comunicado oficial. Nascido no País de Gales, Jones estudou na Universidade de Oxford, onde conheceu seu amigo e parceiro de longa data Michael Palin. Os dois formaram seu primeiro grupo humorístico na faculdade, o Oxford Revue, e após a formatura, estrearam juntos na TV, no programa humorístico “Twice a Fortnight”, em 1967. Dois anos depois, eles criaram “The Complete and Utter History of Britain”, que apresentava feitos históricos do passado distante como se existisse reportagem televisiva na época. No programa seguinte, “Do Not Adjust Your Set”, eles encontraram Eric Idle, que havia atuado ao lado de John Cleese e Graham Chapman no clube teatral da Universidade de Cambridge. Os cinco – junto com Terry Gilliam, que Cleese conhecera em Nova York – decidiram juntar seus talentos em um novo humorístico, o “Monty Python Flying Circus”, que foi transmitido pela BBC durante quatro temporadas, entre 1969 e 1974. O programa revolucionou a comédia britânica, a ponto de seus integrantes serem considerados os Beatles do humor – e os próprios Beatles eram fãs assumidos. Por suas inciativas inovadoras, Jones seria o equivalente ao John Lennon do grupo. Entre suas performances mais famosas da série, ele viveu um cardeal inapto da Inquisição Espanhola, um membro do Hell’s Grannies, um grupo de mulheres idosas que aterrorizam as ruas de Londres, um garçom francês excessivamente apologético e um pianista nu que frequentemente aparecia em cenas usadas para separar blocos humorísticos, mas principalmente por suas representações de donas-de-casa de meia-idade, muitas vezes com vozes histericamente falsas, marca que ele levou ao cinema ao interpretar a mãe de Brian, em “A Vida de Brian” (1979), que também dirigiu. Mais talentoso dos Python para organizar esquetes, Jones virou, ao lado de Terry Gilliam, o diretor oficial dos filmes do grupo após o fim do programa televisivo. Em “Monty Python em Busca do Cálice Sagrado” (1975), também interpretou, entre outros papéis, Sir Bedevere, o Sábio, o Príncipe Herbert (“Pai, eu só quero cantar!”) e um membro dos temidos Cavaleiros que dizem “Ni”. Ele assumiu sozinho a direção de “A Vida de Brian”, considerado um dos filmes ingleses mais engraçados de todos os tempos, após Gilliam concordar que sua abordagem era mais adequada ao estilo de apresentação do grupo, mas os dois voltaram a trabalhar juntos em “O Sentido da Vida” (1983), último longa de ficção da trupe. Após a separação dos Pythons, Jones continuou dirigindo filmes, como as comédias “Serviços Íntimos” (1987), “As Aventuras de Erik, o Viking” (1989) e “Amigos para Sempre” (1996). Também trabalhou como roteirista, criando “Labirinto, a Magia do Tempo” (1986), fantasia estrelada por David Bowie, e “Ferocidade Máxima” (1995), divertida comédia em que reviveu a parceria com John Cleese, além de ter criado vários programas televisivos e iniciado uma carreira paralela como escritor. Ele publicou 20 romances de ficção infanto-juvenil e ainda se tornou um autor reconhecido de livros sobre a Idade Média. Esta parte mais séria de sua carreira levou-o a apresentar diversos programas documentais sobre o período medieval, que frequentemente ofereciam uma visão alternativa da época. Inclusive, chegou a ser indicado ao Emmy em 2004 por “Medieval Lives”, em que argumentava que a Idade Média foi um período muito mais sofisticado do que a maioria acredita. Nos últimos anos, retomou as parcerias clássicas com os Python, dirigindo o filme “Absolutamente Impossível” (2015), primeiro longa a reunir todos os membros (ainda vivos) dos Python desde “O Sentido da Vida”, e juntando-se a seus colegas no palco para um retorno que virou a despedida do grupo, durante a curta turnê de humor “Monty Python Live (Mostly)”, realizada em Londres em 2014. Ele também dirigiu e dublou a animação “Boom Bust Boom” (2015) e deixou gravada sua participação em “The Land of Sometimes”, uma fantasia animada ainda inédita, que também traz as vozes de Ewan McGregor e Helena Bonham-Carter, num esforço derradeiro que virou seu papel final, enfrentando a doença que primeiro tirou sua fala e por fim sua vida.
Ivan Passer (1933 – 2020)
O diretor tcheco Ivan Passer morreu na quinta-feira (9/1) em Reno, Nevada (EUA), aos 86 anos, de causa não revelada. Ao lado de Milos Forman, Vera Chytilova e Jan Nemec, Passer esteve à frente da “new wave” do cinema da Tchecoslováquia dos anos 1960, que representou um afastamento dramático do realismo socialista promovido pelo governo comunista. Natural de Praga, Passer foi colega de ensino médio de Forman e do futuro presidente da República Tcheca, Václav Havel. E causou sensação já em sua estreia como diretor, “Iluminação Íntima”, em 1965. Até hoje, o longa permanece como uma de suas obras mais aclamadas. Também foi em 1965, logo após se formar na prestigiosa escola de cinema FAMU, que ele estreitou sua parceria criativa com Forman, escrevendo dois dos filmes mais famosos do colega, “Os Amores de uma Loira” (1965) e “O Baile dos Bombeiros” (1967), ambos indicados ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Após a invasão soviética da Checoslováquia pelas tropas russas em 1968, numa repressão violenta à chamada “Primavera de Praga”, Passer e Forman fugiram do país e se mudaram para os Estados Unidos. Mas enquanto Forman se consagrou com dois Oscars, pela direção dos clássicos “Um Estranho no Ninho” (1975) e “Amadeus” (1984), Passer não emplacou grandes sucessos. Seus filmes de exílio incluem o thriller “Morte Silenciosa” (1971), que contava com um jovem Robert De Niro, “O Jogo da Trapaça” (1976), com Omar Shariff, a produção britânica “O Banco dos Trapaceiros” (1977), com Michael Caine, a comédia “Criador” (1985), com Peter O’Toole, e o romance “Primeiro Verão de Amor” (1988), com Laura Dern, além de telefilmes e obras que não chegaram ao Brasil. Apesar da falta de hits, um longa desse período se tornou bastante cultuado: “Obstinação” (1981). Estrelado por Jeff Bridges, o filme era um thriller de influência hitchcockiana, ao estilo dos suspenses dirigidos por Brian De Palma naquela época. O diretor também dirigiu “Pretty Hattie’s Baby” (1991), baseada na história real de Fauna Hodel, uma garota branca adotada por uma mãe negra nos anos 1950 – a mesma história que no ano passado foi transformada em minissérie por Patty Jenkins com o título “I Am the Night”. Mas o longa nunca foi lançado, por brigas entre os estúdios que financiaram a produção – interrompida quando faltavam dois dias de filmagens agendadas. A atriz Alfre Woodward chegou a dizer que o papel de Hattie foi o melhor trabalho de sua carreira. O desastre de “Pretty Hattie’s Baby” traumatizou Passer, que passou a se dedicar a telefilmes. Ele ainda causou impacto ao decidir expor seus velhos inimigos comunistas com a telebiografia “Stalin” (1992), que rendeu um Globo de Ouro a Robert Duvall por sua interpretação do ditador soviético. Passer só retornou ao Leste Europeu após a queda do Muro de Berlim e o fim da Cortina de Ferro, para rodar seu último filme: “Nômade”, que ele codirigiu com o russo Sergei Bodrov no território do Uzbequistão. Dois anos depois, ele foi homenageado em seu país natal com um Globo de Cristal pelas contribuições artísticas de sua carreira. A homenagem aconteceu durante a edição de 2008 do Festival de Karlovy Vary, o mais importante festival de cinema do Leste Europeu.
Buck Henry (1930 – 2020)
Morreu o ator, roteirista e diretor Buck Henry, duas vezes indicado ao Oscar, pelo roteiro de “A Primeira Noite de um Homem” (1967) e pela direção de “O Céu Pode Esperar” (1978). Ele também foi cocriador da série clássica “Agente 86” (1965-1970) e faleceu nesta quinta (9/1) aos 89 anos, em Los Angeles, após sofrer uma parada cardíaca no hospital Cedars-Sinai. Henry Zuckerman era filho de um general da Força Aérea dos EUA e da atriz Ruth Taylor, estrela do cinema mudo que protagonizou a primeira versão de “Os Homens Preferem as Loiras” (1928), no papel que 30 anos depois seria vivido por Marilyn Monroe. “Buck” era um apelido de infância, que ele adotou como nome artístico ao estrear como ator. O mais curioso é que Henry ficou famoso como ator antes mesmo de estrelar uma peça, um filme ou uma série, graças a uma pegadinha histórica. Entre 1959 e 1963, ele apareceu como G. Clifford Prout, presidente de uma organização conservadora, numa série de entrevistas em jornais, revistas e programas de TV, para defender a agenda da fictícia Sociedade contra a Indecência dos Animais Nus (SINA, na sigla em inglês). O objetivo era divulgar campanhas, petições e angariar fundos para vestir animais selvagens, que poderiam causar acidentes nas estradas com a distração de sua nudez, e animais domésticos, que traumatizavam crianças por exibir suas partes íntimas sem pudor. A SINA tentou até fechar o Zoológico de São Francisco por mostrar animais indecentes à menores, mas, após quatro anos de zoeira, a farsa foi descoberta. Muitos jornalistas ficaram irritados por terem caído na pegadinha. Mas isso lançou a carreira de Henry. Ele passou a integrar uma trupe de humoristas nova-iorquinos, chamada The Premise, fez stand-up e foi escrever programas de comédia, onde pudesse exercitar seu humor febril. Em 1964, ajudou a criar a série “That Was the Week That Was”, uma sátira de telejornais, em que também apareceu como ator, e roteirizou seu primeiro projeto de cinema, “O Trapalhão”, estrelado por vários integrantes da trupe The Premise. Logo depois disso, juntou-se a outro maluco beleza, Mel Brooks, para conceber uma comédia de espionagem para a televisão. Por incrível que pareça, a rede ABC não achou a premissa engraçada. Mas a NBC, que estava atrás de uma série para o humorista Don Adams, adorou o roteiro de Henry e Brooks, que resultou num dos maiores clássicos televisivos dos anos 1960. Com Adams no papel-título, “Agente 86” durou cinco temporadas, entre 1965 e 1970, continuou em telefilmes até 1995 e ainda rendeu um remake cinematográfico em 2008. Henry ganhou um Emmy de Melhor Roteiro pelo episódio de duas partes “Ship of Spies”, da 1ª temporada. Mas depois de criar o célebre Cone de Silêncio, preferiu seguir carreira no cinema. O diretor Mike Nichols estava descontente com o roteiro de seu segundo longa, que adaptava o livro de Charles Webb sobre um universitário recém-formado, envolvido com a esposa do parceiro de negócios de seu pai. Num impulso, resolveu apostar no roteirista televisivo em ascensão. O resultado foi outro clássico: “A Primeira Noite de Um Homem” (1967), que rendeu a Henry sua primeira indicação ao Oscar – de Melhor Roteiro Adaptado. Henry ainda criou um papel para se divertir no filme, como o gerente do hotel que sugere ter flagrado a atividade sexual do graduado (Dustin Hoffman) e da Mrs. Robinson (Anne Bancroft). Nichols manteve a parceria com o roteirista em seus longas seguintes, “Ardil 22” (1970) e “O Dia do Golfinho” (1973), e nesse meio-tempo Henry ainda assinou o cult psicodélico “Candy” (1968) e as comédias de sucesso “O Corujão e a Gatinha” (1970) e “Essa Pequena é uma Parada” (1972), ambas estreladas por Barbra Streisand. Paralelamente, alimentou sua carreira de ator com pequenos papéis nos filmes que escrevia e também em produções como “O Homem que Caiu na Terra” (1976), com David Bowie, e “Glória” (1980), um dos maiores clássicos de John Cassavetes, além de virar quase um integrante fixo do humorístico “Saturday Night Live”. A experiência atrás e à frente das câmeras o impulsionou a estrear como diretor. Em seu primeiro trabalho na função, dividiu o comando de “O Céu Pode Esperar” (1978) com o astro Warren Beatty. Remake de “Que Espere o Céu” (1941), o filme trazia Beatty como um jogador de futebol americano que voltava a vida no corpo de um milionário, e recebeu nada menos que nove indicações ao Oscar, inclusive Melhor Filme e Direção. Entusiasmado, Henry resolveu dirigir sozinho seu filme seguinte, que ele também escreveu. Mas “Primeira Família” (1980) foi um fracasso clamoroso de público e crítica. Ele nunca mais dirigiu outro filme. E assinou apenas mais quatro roteiros de cinema, todos comédias: a clássica “Trapalhadas na Casa Branca” (1984), com Goldie Hawn, a cultuada “Um Sonho sem Limites” (1995), que transformou Nicole Kidman numa atriz de prestígio, o fracasso “Ricos, Bonitos e Infiéis” (2001), num reencontro com Warren Beatty, e “O Último Ato” (2014), que juntou Al Pacino e Greta Gerwig sem muita repercussão. Nos últimos anos, Henry vinha se dedicando mais à atuação, fazendo pequenas participações em filmes repletos de celebridades. Ele chegou a encarnar o “difícil” papel de si mesmo em “O Jogador” (1992), de Robert Altman, em que tenta convencer o executivo de cinema vivido por Tim Robbins a produzir “A Primeira Noite de um Homem – Parte II”. Mas os demais trabalhos foram todos fiascos de bilheteria, como “À Beira da Loucura” (1999), “Gente Famosa” (2000) e “Luzes, Câmera, Ação” (2004). Acabou chamando mais atenção na TV, com papéis recorrentes nas séries “30 Rock”, na qual viveu o pai de Tina Fey (entre 2007 e 2010), e “Hot in Cleveland”, como noivo de Betty White (em 2011). Sua última aparição televisiva foi como juiz em dois episódios de “Franklin & Bash”, exibidos em 2013.
Edd Byrnes (1933 – 2020)
O ator Edd Byrnes, mais conhecido pela série clássica “77 Sunset Strip”, morreu nesta quinta (9/1) de causas naturais aos 87 anos. Byrnes chegou em Hollywood em 1955, logo após a morte de James Dean, e conseguiu várias papéis pequenos de “rebelde”, entre eles no clássico de reformatório juvenil “Reform School Girl” (1957). Logo conseguiu se destacar como um assassino que penteava compulsivamente seus cabelos em “Uma Vida em Perigo” (1958). Seu destino era trágico naquele filme, que acabou servindo de ponto de partida para a série “77 Sunset Strip” (1958-1964), mas os produtores gostaram do ator e decidiram mantê-lo – e seu pente – na atração que estavam desenvolvendo, só que em outro papel: Gerald Lloyd Kookson III, o Kookie. O novo personagem era um atendente de estacionamento do clube localizado ao lado da agência dos detetives Stuart Bailey (Efrem Zimbalist Jr.) e Jeff Spencer (Roger Smith), na Sunset Strip de Los Angeles. E quando não estava manobrando conversíveis, costumava aparecer estalando os dedos e penteando o topete rockabilly, numa tentativa de imitar Elvis Presley. De personalidade folgada, mas legal, Kookie foi o protótipo de Fonzie, que surgiria duas décadas depois em “Happy Days”. E virou um fenômeno de popularidade, com muitas fãs adolescentes – ele bateu o recorde de número de cartas recebidas nos estúdios da Warner – e inspirou até uma música, “Kookie, Kookie, Lend Me Your Comb”, que virou disco de ouro em 1959, em gravação de Connie Stevens. Uma vez, Byrnes contou ter aparecido em 26 capas de revistas diferentes… na mesma semana. Mas, infelizmente, não pôde aproveitar essa popularidade. Seu contrato o proibia de assumir papéis de protagonista no cinema. Assim, decidiu abandonar a série. Mas a carreira não decolou como ele imaginava – seu melhor papel foi como coadjuvante de Clint Walker no western “A Lei do Mais Valente” (1959) – , mergulhando no alcoolismo. Assim, acabou negociando um retorno à série, num papel mais destacado, agora como sócio da agência de detetives – e trajando paletó e gravata. Ao final da série, ele filmou um thriller de espionagem com Roger Corman (“A Invasão Secreta”, 1964) e protagonizou “Farra Musical” (Beach Ball, 1965), seu papel mais importante no cinema, dentro do ciclo dos chamados “beach movies”. Neste filme, Byrnes vivia um roqueiro que tenta juntar dinheiro para comprar sua guitarra e acaba entrando em contato com muitos artistas de verdade, via participações especiais das Supremes, The Righteous Brothers, The Four Seasons, The Hondells e até “o sensacional novo grupo” Walker Brothers. Só a trilha sonora já garante a fama de cult da produção. Depois disso, mudou-se para a Europa, onde estrelou vários spaghetti westerns. Sua trajetória, inclusive, inspirou parte da história de “Era uma Vez em Hollywood”. Ele voltou aos EUA nos anos 1970, mas jamais repetiu seu sucesso, reduzindo seu trabalho a diversas aparições em séries – de “As Panteras” a “Ilha da Fantasia”. Mesmo assim, ainda teve um último papel famoso no cinema, embora pequeno, como Vince Fontaine no musical “Grease: No Tempo da Brilhantina” (1978). O personagem era o apresentador (inspirado em Dick Clark) de um concurso televisivo de danças na escola Rydel High. Relembre abaixo. Byrnes continuou aparecendo em séries até os anos 1990 e seu último trabalho foi uma volta ao rock’n’roll, no bem-avaliado telefilme “Shake, Rattle and Roll: An American Love Story” (1999), sobre uma banda fictícia na era de ouro do rock.
Silvio Horta (1974 – 2020)
Silvio Horta, o criador e showrunner da série “Ugly Betty”, foi encontrado morto em sua residência, em Miami, nesta terça-feira (7/1). Seu agente confirmou a morte, mas não informou a causa. Ele tinha apenas 45 anos. Filho de imigrantes cubanos, Horta nasceu e cresceu em Miami, e estreou em Hollywood com a venda do roteiro original do terror “Lenda Urbana”, grande sucesso do gênero, lançado em 1998 com Jared Leto num dos papéis principais. O filme ganhou uma continuação em 2000, que deu prejuízo sem seu envolvimento. Depois disso, Horta se voltou para a televisão, criando sua primeira série, a sci-fi “Jake 2.0”, em 2003. Mas a atração estrelada por Christopher Gorham só durou uma temporada. Ele teve mais sucesso ao abraçar suas raízes latinas em “Ugly Betty”, que adaptou a telenovela colombiana “Betty, a Feia”. Lançada em 2006, a série virou um fenômeno de popularidade, rendendo um Emmy para a atriz America Ferrera por seu retrato da nova-iorquina latina Betty Suarez, e um WGA Award, o prêmio do Sindicato dos Roteiristas, para seu criador. Horta esteve à frente das quatro temporadas da série, que também deu bastante espaço para personagens LGBTQIA+ ao longo de sua exibição. Após o fim de “Ugly Betty” em 2010, o produtor-roteirista teve dificuldades para emplacar uma nova série. Ele chegou a desenvolver vários projetos, mas nenhum foi aprovado. Um dos pilotos recusados, “The Curse of the Fuentes Women” (de 2015), tinha a brasileira Sonia Braga (“Bacurau”) em seu elenco.
Martin West (1937 – 2019)
O ator Martin West, que foi galã dos filmes de surfe dos anos 1960, morreu na terça-feira (31/12) aos 82 anos. Nascido Martin Weixelbaum, o ator fez carreira na Broadway antes de ganhar seu pseudônimo hollywoodiano. Ele estreou no cinema já como protagonista em 1960, ao viver um guarda florestal sem um braço na aventura “Desafio à Coragem” (Freckles). Apesar disso, é mais lembrado pela boa aparência e juventude, que lhe renderam papéis em dois filmes de praia de 1965: “A Swingin’ Summer”, com Rachel Welch, e “Brotinhos de Biquini” (The Girls on the Beach), com trilha e participação dos Beach Boys. West também fez par romântico com a “brotinha” Tuesday Weld na cultuada comédia “Enganando Papai” (Lord Love a Duck, 1966), que satirizava a cultura adolescente dos anos 1960, incluindo os filmes de praia. Depois dessa fase de galã, Martin colecionou uma galeria notável de pequenos papéis em grandes filmes, com destaque para “O Caçador de Aventuras” (Harper, 1966), com Paul Newman, “Por Toda Minha Vida” (Sweet November, 1968), com Sandy Dennis, “Quando é Preciso Ser Homem” (Soldier Blue, 1970), com Candice Bergen, “Trama Macabra” (Family Plot, 1976), último filme de Alfred Hitchcock, e o cultuadíssimo “Assalto à 13ª DP” (Assault on Precinct 13, 1976), de John Carpenter. Mas essa filmografia impressionante nem sempre representou papéis proeminentes, o que o direcionou para a TV, onde formou um respeitável currículo de participações especiais. West gravou episódios dos principais seriados de western, como “Paladino do Oeste” (Have Gun Will Travel), “O Homem de Virgínia” (The Virginian), “Gunsmoke” e “Bonanza”, além de ter aparecido em “Perry Mason”, “Têmpera de Aço” (Ironside), “Os Invasores” (The Invaders), “CHiPS”, “O Homem que Veio do Céu” (Highway to Heaven) e, de forma recorrente, em “Chumbo Grosso” (Hill Street Blues), “Dallas” e na novela “General Hospital”. Seus últimos trabalhos incluem os filmes “A Marca da Corrupção” (1987), com James Woods e Brian Dennehy, e “Mac – O Extraterrestre” (1988), um “E.T.” de baixo orçamento.
Syd Mead (1933 – 2019)
O artista visionário Syd Mead, especialista em “visuais futuristas” que materializou os mundos de “Blade Runner”, “Aliens” e “Tron” no cinema, morreu na manhã de segunda-feira (30/12) em sua casa em Pasadena, na Califórnia, aos 86 anos, após uma batalha de três anos contra o linfoma. Formado em artes plásticas e design, Mead chegou a projetar carros para a fábrica Ford, antes de criar sua própria empresa de design nos anos 1970, especializando-se em ilustrações para empresas eletrônicas e projetos arquitetônicos. Seu trabalho chamou atenção de Hollywood, rendendo contratos para produzir ilustrações para filmes, incluindo as artes conceituais que originaram os mundos cinematográficos de “Jornada nas Estrelas: O Filme” (1979), “Blade Runner” (1982), “Tron” (1982), “Timecop” (1984), “Aliens” (1986) e muitos outros. Foi em “Blade Runner” que Mead assumiu o título de “futurista visual”, designação que o acompanhou pelo resto da vida. Entre as visões de futuro mais recentes que ele concebeu incluem-se “Elysium” (2013), “Tomorrowland” (2015) e, apropriadamente, “Blade Runner 2049” (2017). Além de imaginar cenários de sci-fi para o cinema americano, Mead também ilustrou cenários de animes japoneses, como o longa “Yamato 2520” (1994) e a série “Turn-A Gundam” (1999). Ele foi consagrado com homenagens e prêmios de dois sindicatos de artistas de Hollywood. Em 2016, recebeu o troféu Visionário pelas realizações da carreira, em premiação da Visual Effects Society (dos técnicos de efeitos visuais). E, em fevereiro passado, venceu o prêmio de Melhor Design de Produção da Art Directors Guild (dos diretores de arte), compartilhado com a equipe de “Blade Runner 2049”.
Neil Innes (1944 – 2019)
O ator e músico inglês Neil Innes, que fez vários trabalhos com a trupe de comédia Monty Python, morreu no domingo (29/12) aos 75 anos, enquanto viajava com a família na França. Segundo seu agente a morte foi inesperada, porque ele não estava doente. A carreira de Innes começou no início dos anos 1960 com a formação da Bonzo Dog Doo-Dah Band, uma combinação de rock e comédia de vanguarda, que em 1968 lançou o single “I’m the Urban Spaceman”, co-produzido por Paul McCartney. Uma das músicas da banda, “Death Cab for Cutie”, de 1967, mais tarde inspirou o nome de uma banda de rock indie americana. A estreia na TV se deu pelas mãos dos Beatles, numa participação no telefilme clássico “Magical Mystery Tour” (1967), que também incluiu uma música de sua banda. A partir daí, a Bonzo Dog Doo-Dah Band passou a fazer participações musicais no programa humorístico “Do Not Adjust Your Set”, que foi o embrião do Monty Python. As duas temporadas da comédia, exibidas entre 1967 e 1969, contava com os futuros pythons Eric Idle, Terry Jones e Michael Palin. A banda se dispersou na época do lançamento do humorístico “Monty Python’s Flying Circus” em 1969, levando Innes a explorar novas parcerias. Ele se tornou um “associado” dos pythons ao contribuir com músicas originais para esquetes e para dois álbuns de comédia da trupe, além de participar de shows, acompanhando os comediantes em várias turnês. Quando o Monty Python decidiu fazer filmes, Innes estreou como compositor cinematográfico. Ele criou várias músicas e teve pequenos papéis em “Monty Python em Busca do Cálice Sagrado” (1975) e “A Vida de Brian” (1979) – este último, por sinal, foi produzido pelo ex-beatle George Harrison. Ao final do programa televisivo dos pythons, Innes continuou trabalhando com os integrantes do grupo em diferentes projetos. Ele participou do programa de esquetes “Rutland Weekend Television”, concebido por Eric Iddle em 1975, que exibia a “programação” de um canal de TV de baixo orçamento. A produção não teve o mesmo sucesso do “Flying Circus”, mas originou o personagem mais conhecido de Innes, o músico fictício Ron Nasty, um pastiche de John Lennon que liderava a banda televisiva The Rutles. The Rutles chegou a tocar ao vivo no programa humorístico americano “Saturday Night Live” e ganhou um telefilme especial em 1978, escrito, dirigido e coestrelado por Eric Iddle, que se tornou cultuadíssimo. Intitulado “The Rutles: All You Need Is Cash”, o longa narrava o apogeu e a queda do grupo musical, com depoimentos de artistas famosos (George Harrison e Mick Jagger, por exemplo), satirizando de forma explícita a carreira dos Beatles – e o mais interessante: com aval dos próprios Beatles. Para completar, a banda ainda lançou um disco de verdade. Curiosamente, outra banda “pastiche” dos Beatles, Oasis, foi processada por plágio de uma das músicas de Innes. Os irmãos Gallagher foram obrigados a dar créditos de compositor para ele na canção “Whatever”, de 1994. Essa história real acabou incorporada ao folclore da banda fictícia, inspirou uma música inédita (“Shangri-La”) e promoveu um breve revival dos Rutles, que lançaram um disco de “faixas raras” em 1996 – “The Rutles Archaeology”, paródia de “The Beatles Archaeology”. Innes também participou do filme “Jabberwocky: Um Herói por Acaso” (1977), fantasia estrelada por Michael Palin, Terry Jones e dirigida por Terry Gilliam (responsável pelas animações dos pythons e pela direção do “Cálice Sagrado”), e de outros projetos individuais dos humoristas, como “O Padre Apaixonado” (1982), igualmente estrelado por Palin, e “As Aventuras de Erik, o Viking” (1989), de Terry Jones. Além disso, continuou a acompanhar as turnês dos pythons, como foi registrado no célebre documentário “Monty Python – Ao Vivo no Hollywood Bowl” (1982). Paralelamente, ele ainda teve o seu próprio programa de TV, “The Innes Book of Records”, que durou três temporadas, de 1979 a 1981, antes de migrar para a programação infantil da BBC – compondo músicas e atuando em produções como a fantasia “Puddle Lane” (1985-1988) e similares por vários anos. Um de seus últimos trabalhos foi o documentário “The Rutles 2: Can’t Buy Me Lunch” (2004), uma retrospectiva da carreira dos Rutles. Relembre (ou conheça) abaixo cinco músicas dos Rutles, em clipes extraídos do telefilme clássico de 1978.
Sue Lyon (1946 – 2019)
A atriz Sue Lyon, eternizada na tela como a Lolita do clássico de Stanley Kubrick, morreu na quinta-feira (26/7) em Los Angeles, aos 73 anos de idade. Uma pessoa descrita como amigo informou ao jornal The New York Times que a saúde da atriz vinha se deteriorando nos últimos anos, mas a causa da morte não foi informada. Lyon tinha feito apenas duas figurações em séries antes de ser escalada por Kubrick. Ela iniciou a carreira aos 13 anos, com uma aparição em “The Loretta Young Show”, e superou cerca de 800 candidatas aos 15 para fazer sua estreia no cinema, no papel da ninfeta mais famosa da literatura – que no polêmico livro de Vladimir Nabokov tem apenas 12 anos. “Lolita” dividiu os críticos pela descrição do relacionamento entre um adulto de meia idade (James Mason) e sua enteada adolescente. O livro de 1955 chegou a ser proibido em vários países, e o filme de 1962 enfrentou diversas restrições, a ponto de sua história precisar se afastar da trama original de Nabokov. Devido ao tema, o filme também teve que ser filmado secretamente em Londres, mas o estúdio nem pensou duas vezes ao destacar em sua publicidade imagens sugestivas de Lyon de biquíni, óculos de sol e lambendo um pirulito. O próprio Nabokov aprovou a escolha da atriz para viver seu símbolo sexual impróprio, aceitando as condições da Warner, que vetou a contratação de uma garota mais nova. Repleto de imagens fetichistas, “Lolita” escandalizou ao erotizar sua jovem intérprete. Mas, apesar da toda a polêmica que gerou em seu lançamento, acabou ganhando um forte culto ao longo das décadas, tanto que, atualmente, tem 93% de aprovação no Rotten Tomatoes, atingindo um consenso crítico extremamente positivo entre as novas gerações. Não só o filme, mas sua iconografia foi incorporada à cultura pop, levando Sue Lyon à capas de discos e colagens da pop art. A personagem de Dolores Haze, a Lolita, consagrou a jovem atriz, que chegou a vencer o Globo de Ouro de Melhor Revelação do ano – categoria que não existe mais – , e lhe rendeu até uma curta carreira musical, com a gravação da música-tema “Lolita Ya Ya”, mas também limitou suas ofertas de novos papéis a ninfetas sedutoras. Ela apareceu em seguida em outro clássico, o drama “A Noite do Iguana” (1964), de John Huston, como uma “lolita” que tenta seduzir Richard Burton. Mas conseguiu ir contra o clichê em “7 Mulheres” (1966), último filme de John Ford, no qual viveu uma das sete missionárias do título, que enfrentavam uma horda de bárbaros mongóis. A atriz ainda estrelou “O Magnífico Farsante” e “Tony Rome” em 1967. Em ambos viveu garotas ricas rebeles. “Tony Rome” ainda a mostrou seminua pela primeira vez, aos 21 anos, sob lençóis, diante de Frank Sinatra. Mas seu auge não durou muito. Já nos anos 1970 foi relegada a terrores de baixo orçamento, até rumar para a TV, onde apareceu em episódios de “O Homem de Virgínia”, “Galeria do Terror”, “O Jogo Perigoso do Amor”, “Os Novos Centuriões” e “A Ilha da Fantasia”. Seu último papel foi uma repórter no clássico trash de terror “Alligator – O Jacaré Gigante”, de 1980 – um dos filmes mais reprisados do SBT – , aposentando-se de Hollywood com apenas 34 anos. Lyon se casou cinco vezes. A primeira aos 17 anos, com o ator e roteirista Hampton Fancher (que escreveu “Blade Runner”). Ela teve um filho no segundo casamento, com o fotógrafo e treinador de futebol americano Roland Harrison. E culpava seu terceiro casamento, com Cotton Adamson, por arruinar sua carreira. Ele era um assassino condenado no momento do casamento, e a união a fez perder vários papéis no começo dos anos 1970, dando início à sua decadência profissional. Seu único casamento duradouro foi o último, com um engenheiro chamado Richard Rudman. Eles só se casaram meia década após ela ter largado a atuação, em 1985, e ficaram juntos até 2002, quando se divorciaram. Curiosamente, a atriz nunca saiu de perto de Hollywood, morando em Los Angeles até sua morte. Mas recusava-se a dar entrevistas e falar de seu passado artístico.











