Erin O’Brien (1934-2021)
A cantora e atriz Erin O’Brien morreu em 20 de maio de causas naturais em sua casa em Seattle, aos 87 anos. O’Brien teve uma carreira de sucesso nos anos 1950, aparecendo seguidamente em programas da TV americana. Sua carreira televisiva começou no programa de calouros “Talent Scouts” (o “American Idol” da época) em 1956. Um dia após vencer a competição, o apresentador Steve Allen a levou para se apresentar no “Steve Allen Show” (precursor do “The Tonight Show”) e lhe ofereceu um contrato ao vivo, para cantar por um ano na televisão. Ela aceitou e também assinou com o empresário do músico Liberace, Seymour Heller, para cuidar de sua carreira. Com isso, apareceu várias vezes no “The Liberace Show”, além de fechar um acordo para virar estrela convidada das séries da Warner. Seus primeiros papéis como atriz vieram em séries de western, como “Colt 45”, “Maverick”, “Cheyenne”, “Bat Masterson” e “Laramie”. Ela também participou do piloto da série criminal “77 Sunset Strip”, como a testemunha de um assassinato. Paralelamente, chegou ao cinema, coadjuvando em quatro filmes: a comédia leve “Mau Tempo pela Proa” (1958), em que viveu a namorada universitária de Andy Griffith, o suspense “Uma Vida em Perigo” (1958), a aventura “Ainda Não Comecei a Lutar” (1959) e o thriller de espionagem “Flint: Perigo Supremo” (1966), que marcou sua despedida precoce das telas.
John Sacret Young (1946-2021)
O roteirista John Sacret Young, que co-criou o drama médico de guerra “China Beach”, morreu na quinta-feira em Los Angeles, aos 75 anos, após uma batalha de 10 meses contra um câncer no cérebro. Seu primeiro trabalho como roteirista foi “Chandler”, um filme policial de 1971 estrelado por Warren Oates. Mas ele logo passou para a televisão, trabalhando como pesquisador e roteirista de “Os Novos Centuriões” (Police Story), um dos grandes sucessos da década de 1970 na rede CBS. Sua primeira criação foi a minissérie de guerra “Emboscada Fatal” (1980), sobre um oficial desiludido com a Guerra do Vietnã. O tema acabou revisitado em sua atração mais celebrada, “China Beach”, que narrava o horror da guerra pelos olhos de uma enfermeira do Exército (Dana Delany) e seus colegas em um hospital de campanha. “China Beach” durou quatro temporadas, entre 1988 e 1991, e três delas concorreram ao Emmy de Melhor Série de Drama. Young ainda venceu o WGA Awards, prêmio do Sindicato dos Roteiristas, por escrever um episódio de 1990 (“Souvenirs”), que ele também dirigiu. Enquanto estava em “China Beach”, ele se tornou mentor de jovens roteiristas que acabaram tendo carreiras brilhantes e até hoje agradecem a experiência de ter começado suas trajetórias tendo Young como chefe e orientador. “John era meu mentor e meu amigo. Ele foi um escritor excepcionalmente talentoso que foi generoso com seu tempo, atencioso, extremamente engraçado, paciente e durão”, disse John Wells em um comunicado, sobre a morte do antigo chefe. “Ele se preocupava profundamente com a escrita, com as palavras e com o artesanato. Ele tinha um padrão elevado e esperava que você o ultrapassasse. Ele deu uma chance a um escritor jovem e inexperiente, e eu serei eternamente grato por essa chance. ” John Wells fez mais que agradecer. Ele convidou seu velho mentor a participar da produção de “West Wing”, que ele criou em 1999. Young se tornou consultor da atração política em 2003, e a partir do ano seguinte virou produtor executivo e ainda escreveu quatro episódios – um deles novamente indicado ao WGA Awards. Young também escreveu episódios da subestimada mas pioneira série sci-fi “VR.5” (1995–1997), sobre tecnologia virtual, além dos roteiros do filme indicado ao Oscar “O Testamento” (1983) e da cinebiografia “Romero” (1989), em que Raul Julia viveu um arcebispo salvadorenho, sem contar inúmeros telefilmes. Seu trabalho televisivo mais recente foi como roteirista e co-produtor executivo de “Amigas para Sempre” (Firefly Lane), série lançada neste ano pela Netflix. Ele também assinou vários livros – o último deles, sobre sua experiência em Hollywood, ainda está inédito e só será publicado em 2022 – , ensinou a arte e o ofício da escrita em várias faculdades de prestígio, de Princeton à USC, e participou dos comitês do Humanitas Prize e da Writers Guild Foundation, a fundação do Sindicato dos Roteiristas.
Camila Amado (1938-2021)
A atriz Camila Amado morreu neste domingo (6/6), aos 82 anos, vítima de um câncer. No ano passado, ela chegou a ser diagnosticada com covid-19, mas havia conseguido se recuperar da doença. Filha de Gilson Amado (fundador da TVE) e da educadora Henriette Amado (nascida em Londres e neta do governador da Paraíba Camilo de Holanda), Camila foi muito ativa no teatro e iniciou a carreira televisiva em 1969, na novela “Um Gosto Amargo de Festa”, da TV Tupi. A atriz também teve atuações de destaque em produções da Globo, como as séries “A Casa das Sete Mulheres” (2003), “Aline” (2008-2011), “Força-Tarefa” (2009-2011) e “Ligações Perigosas” (2016). Ela também participou das novelas “Pega Pega” (2017-2018) e “Éramos Seis” (2019), seu último trabalho na televisão. Além disso, construiu uma carreira robusta no cinema, iniciada em 1975 com “Quem Tem Medo de Lobisomem?”, de Reginaldo Faria, e “O Casamento”, de Arnaldo Jabor. Por este filme, ganhou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante do Festival de Gramado. Sua filmografia, que se estende por décadas e chega até dias recentes, inclui obras como “Parceiros da Aventura” (1980), de José Medeiros, “As Meninas” (1995), de Emiliano Ribeiro, “Amélia” (2000), de Ana Carolina, “Copacabana” (2001), de Carla Camurati, “Carreiras” (2005), de Domingos de Oliveira, “Os Desafinados” (2008), de Walter Lima Jr., “O Abismo Prateado” (2011), de Karim Aïnouz, “A Novela das 8” (2011), de Odilon Rocha, “Pequeno Dicionário Amoroso 2” (2015), de Sandra Werneck e Mauro Farias, “Redemoinho” (2016), de José Luiz Villamarim, e “Chacrinha: O Velho Guerreiro” (2018), de Andrucha Waddington. Ela também filmou “Cinzento e Negro”, de Luís Filipe Rocha, um dos filmes portugueses mais premiados de 2017, que lhe rendeu uma indicação ao troféu da Academia Portuguesa de Cinema. Camila Amado foi casada com o jornalista Carlos Eduardo Martins (falecido em 1968), com quem teve dois filhos, e com o ator Stepan Nercessian durante 14 anos.
Paulo Thiago (1945-2021)
O cineasta Paulo Thiago, um dos maiores talentos do cinema brasileiro, morreu durante a madrugada deste sábado (5/6), aos 75 anos, no Rio de Janeiro. Ele estava internado no hospital Samaritano desde o dia 7 de maio e sua morte foi causada por uma parada cardíaca após uma doença hematológica. Nascido em Aimorés, em Minas Gerais, o diretor foi morar no Rio de Janeiro ainda criança. Ele chegou a cursar economia e sociologia política na PUC, mas seus dias de universitário acabaram lhe desenvolvendo a paixão pelo cinema e o lançando numa trajetória completamente diferente de seus planos originais. Seu primeiro filme foi o documentário “A Criação Literária de João Guimarães Rosa”, lançado em 1969, que chegou a ser premiado no Festival de Santarém, em Portugal. No ano seguinte, lançou seu primeiro longa-metragem de ficção, “Os Senhores da Terra”, também reconhecido internacionalmente ao ser incluído no Festival de Karlovy Vary. Seus próximos trabalhos o consagraram de vez. “Sagarana, o Duelo” (1974) foi selecionado para a mostra competitiva do Festival de Berlim e “Soledade, a Bagaceira” (1976) foi premiado no Festival de Brasília. Ele também fez “Batalha dos Guararapes” (1978), que se tornou um dos primeiros épicos do cinema brasileiro, e “Águia na Cabeça” (1984), pioneiro ao abordar o jogo do bicho e a contravenção do Rio. Ao longo da carreira, Paulo Thiago se especializou em retratar o homem comum em luta contra adversidades maiores que suas capacidades, e essa temática teve seu auge em “Jorge, um Brasileiro” (1989), centrado num caminhoneiro com uma missão de entrega impossível, que refletia as condições da categoria. Com seus trabalhos, também participou da retomada do cinema brasileiro nos anos 1990, alcançando sucesso com “Vagas Para Moças de Fino Trato” (1993), premiado no Festival de Brasília, e “Policarpo Quaresma, Herói do Brasil” (1998), sobre um populista fanático de direita que busca o poder e hoje parece terrivelmente premonitório. O diretor dedicou duas obras consecutivas ao poeta Carlos Drummond de Andrade, o documentário “Poeta de Sete Faces” (2002) e a ficção “O Vestido” (2003), adaptação de um poema do escritor. Por sinal, essa era outra característica de sua filmografia. Depois de estrear com “A Criação Literária de João Guimarães Rosa”, ele filmou “Saragana”, de Guimarães Rosa. A alternância ainda se refletiu de forma temática em dois filmes seguidos com fundo musical, “Coisa Mais Linda: Histórias e Casos da Bossa Nova” (2005), documentário sobre a Bossa Nova, e “Orquestra dos Meninos” (2008), a história de Mozart Vieira, que ensinou música a crianças pobres de Pernambuco e, recusando-se a participar do jogo político local, sofre vingança e tem seu trabalho questionado por uma falsa acusação de abuso de alunos. “Orquestra dos Meninos” serviu como resumo da temática mais emblemática do diretor, exemplificando a luta de brasileiros para melhorar de vida e de país, sempre em luta com interesses de poderosos, fossem os coronéis de “Os Senhores da Terra” ou a manipulação política da “Batalha dos Guararapes”. O diretor ainda fez “Doidas e Santas” (2016), a rara comédia de sua carreira, e “A Última Chance” (2017), exibido no Festival do Rio e protagonizado por Marcos Pigossi, sobre a história de um ex-presidiário que se redime graças às artes marciais (ele fez um documentário sobre esse personagem real em 2013), além de “Memórias do Grupo Opinião” (2019), que esteve na 24ª edição do festival É Tudo Verdade, apresentando a trajetória do grupo teatral carioca Opinião, marco da resistência contra a ditadura. Entre os projetos que desenvolvia, ficaram incompletos “Rabo de Foguete”, filme baseado na obra de Ferreira Gullar, e um documentário sobre o grupo musical MPB4. Mas Paulo Thiago não foi só diretor. Ele produziu filmes como “Engraçadinha” (1981), de Haroldo Marinho Barbosa, “O Bom Burguês” (1983), de Oswaldo Caldeira, “Fulaninha” (1986), de David Neves, “Beijo na Boca” (1986), de Euclydes Marinho e “Aparecida, O Milagre” (2010), de Tizuka Yamasaki. Também presidiu o Sindicato da Indústria Cinematográfica e Audiovisual do Rio de Janeiro e a Associação Brasileira de Produtores Cinematográficos, além de ter sido um dos fundadores da Associação Brasileira dos Cineastas.
Robert Hogan (1933–2021)
O ator Robert Hogan, que apareceu em mais de 100 séries diferentes da TV americana, morreu devido a complicações de pneumonia em sua casa no Maine na quinta-feira passada (27/5). Ele sofria de Alzheimer desde 2013 e tinha 87 anos. Hogan decidiu virar ator após fazer um teste de aptidão para ter certeza se deveria cursar engenharia. Com o resultado, foi estudar na prestigiosa Academia Americana de Artes Dramáticas, de Nova York, e quase imediatamente começou a trabalhar na televisão. Seu vasto currículo televisivo remonta aos anos 1960, com destaque para “Guerra, Sombra e Água Fresca”, “Além da Imaginação”, “Dr. Kildare”, “O Fugitivo”, “General Hospital”, “Jeannie É um Gênio”, “Gunsmoke”, “Terra de Gigantes” e até “Batman”, onde viveu um joalheiro raptado pelo Sr. Frio (George Sanders). Apesar disso, teve poucos papéis fixos. Os mais famosos foram o reverendo Tom Winter em duas temporadas (1968-69) do melodrama “Caldeira do Diabo”, o xerife Paul Tate na única temporada (1974–75) do thriller “O Caçador” e o tenente comandante Hallar na 2ª temporada (1978-79) da comédia naval “O Caso das Anáguas”. Na falta de personagens duradouros, ele apareceu em episódios de atrações que marcaram época por décadas a fio, incluindo “Galeria do Terror”, “Mary Tyler Moore”, “Missão: Impossível”, “San Francisco Urgente”, “Havaí 5-0”, “O Homem de Seis Milhões de Dólares”, “O Incrível Hulk”, “Barnaby Jones”, “The FBI”, “One Day at a Time”, “Carro Comando”, “Duro na Queda”, “Supermáquina”, “Assassinato por Escrito”, “A Escuta” (The Wire) e “Lei & Ordem” (Law & Order), até encerrar a carreira na pouco vista “Maturity”, em 2018. Foi visto tantas vezes na telinha que, mesmo sem ter se consagrado com nenhum personagem em particular, tornou-se bastante conhecido. Chegou até mesmo a ser homenageado por Quentin Tarantino no cinema. Em uma cena de “Era uma vez… em Hollywood” (2019), o personagem de Leonardo DiCaprio cita e elogia Hogan, enquanto assiste ao ator num episódio de “The FBI”.
Romy Windsor (1963-2021)
A atriz Romy Windsor, conhecida por papéis em filmes de terror e pelo thriller “A Outra Face” (1997), morreu em 19 de maio em Los Angeles após sofrer uma parada cardíaca súbita. Ela tinha 57 anos. O ator Morgan Krantz (da série “In the Dark”), filho da atriz, anunciou a morte de sua mãe nesta segunda (31/5). Natural de Pasadena, Texas, Romy Walthall venceu concursos de beleza e se tornou modelo aos 17 anos, contratada pela Ford Models para desfilar na Europa. Ao voltar aos EUA, decidiu se mudar para Los Angeles e virar atriz, adotando o nome artístico de Romy Windsor. Sua estreia no cinema aconteceu em 1984, quando apareceu em dois filmes: a comédia “Corrida na Correnteza” e o thriller “Ladrão de Corações”. No ano seguinte, viveu uma coelhinha da Playboy no telefilme “A Bunny’s Tale”, baseado numa reportagem investigativa sobre as condições de trabalho nos clubes da Playboy, assinada pela feminista Gloria Steinem. Ela ainda atuou em episódios de séries como “A Gata e o Rato” e “Carro Comando”, antes de virar protagonista de filmes de terror. Windsor desempenhou os principais papéis femininos de “Grito de Horror 4: Um Arrepio na Noite” (1988), filme da cultuada franquia de lobisomens dos anos 1980, e de “Nascido das Trevas” (1989), adaptação de Edgar Allan Poe, em que contracenou com o veterano Oliver Reed. Ela ainda voltou à saga dos lobisomens em 1995, no terror “Um Lobisomem na California”, retomando o papel da escritora Marie Adams, que descobre a existência dos monstros. Mas o filme mais bem sucedido de sua carreira lhe deu um espaço bem menor, como Kimberly, a secretária neurótica do personagem de John Travolta em “A Outra Face”, thriller de ação em que o ator trocava seu rosto pelo de Nicolas Cage. Nos anos 1990, ela teve o azar de ser contratada para várias séries que fracassaram e acabaram canceladas na 1ª temporada, como “Man of the People” (1991) com James Garner, “Hotel Malibu” (1994) ao lado de Jennifer Lopez, além dos dramas jurídicos “Civil Wars” (1992) e “Murder One” (1996). A atriz foi vista ainda em “Arquivo X”, “Quantum Leap”, “LA Law”, “Love Boat: The Next Wave” e outras produções, encerrando a carreira em 2011 com um trabalho no filme “0s & 1s”, em que contracenou com seu filho, Morgan.
Joe Lara (1962–2021)
O ator Joe Lara, que estrelou a série “As Aventuras Épicas de Tarzan” nos anos 1990, morreu em um acidente de avião. Ele tinha 58 anos e foi uma das sete pessoas mortas na queda de um jato particular no sábado (29/5) perto de Nashville, nos EUA. O papel de Tarzan foi o principal trabalho da carreira de Lara, que viveu pela primeira vez o personagem pulp criado por Edgar Allan Burroughs em 1989, no telefilme “As Aventuras de Tarzan em Nova York”. Os produtores de “As Aventuras Épicas de Tarzan” lembraram desse desempenho para escalá-lo na nova série, que trouxe o herói de volta à TV após 30 anos de ausência. Gravada no resort Sun City, na África do Sul, a série foi uma das poucas produções de Tarzan realmente filmadas no continente africano. A trama acompanhava os primeiros contatos de Tarzan com a civilização, antes de seu casamento com Jane. Mas ao enfatizar elementos mais fantasiosos, como bruxarias e civilizações perdidas, acabou comparada a outras atrações similares de heróis televisivos do período, com Hércules e Conan, e não fez muito sucesso, exibida durante apenas uma temporada, de 1996 a 1997. Lara também estrelou vários filmes de ação e aventura de baixo orçamento, lançados diretamente em vídeo – alguns deles traziam o ator com os cabelos compridos que exibia em Tarzan. Há três anos, ele se casou com Gwen Lara, que se tornou conhecida como guru de dietas, ao utilizar estudos bíblicos para ajudar pessoas a perder peso e parar de beber. Ela também está listada entre as vítimas do acidente aéreo.
Maurice Capovilla (1936-2021)
O cineasta Maurice Capovilla morreu no sábado (29/5), aos 85 anos, em decorrência de uma doença pulmonar. O anúncio foi feito por sua mulher, Marilia Alvim, em seu perfil no Facebook. Um dos últimos mestres do cinema que nasceu durante a ditadura militar, na encruzilhada entre o enfrentamento e a alegoria, ele sofria de Alzheimer há cinco anos. Capovilla deixou sua marca em obras que retratavam as condições de vida dos brasileiros, como “Bebel, Garota Propaganda” (1968), seu primeira longa-metragem, inspirado no livro “Bebel que a Cidade Comeu”, de Ignácio Loyola Brandão, sobre uma menina pobre contratada para ser o rosto de uma marca de sabonetes. O longa seguinte, “O Profeta da Fome” (1969), marcou época por juntar a estética da fome do Cinema Novo com os temas contraculturais do cinema marginal. Na trama, José Mojica Marins vivia um faquir decadente, que ao ser expulso de um circo pegava a estrada e virava ídolo religioso de uma pequena cidade. Foi um dos raros desempenhos de Mojica no cinema sem representar Zé do Caixão, seu icônico personagem. Três anos depois, os dois trocaram de papéis, com Capovilla virando ator dirigido por Mojica em “O Ritual dos Sádicos” (1970), um dos mais famosos filmes de Zé do Caixão. Ele também filmou “Noites de Iemanjá” (1971), misturando misticismo e terror, e o celebrado drama “O Jogo da Vida” (1977), premiado no Festival de Gramado, com música de João Bosco, Aldir Blanc e Radamés Gnatalli, e atuação inspirada de Lima Duarte, Gianfrancesco Guarnieri e Maurício do Valle como três malandros que ganham a vida com trapaças de sinuca. Como diretor, fez tanto ficções como documentários. Um de seus primeiros curtas, “Subterrâneos do Futebol” (1965), chamou atenção por mostrar o esporte por um ângulo pouco glamouroso, tornando-se pioneiro do “cinema verdade” no país. Outro, “Meninos do Tietê” (1963), foi eleito o melhor filme na 1ª Semana Latino-Americana de Cinema Documental, em Buenos Aires. Ainda gravou “O Último Dia de Lampião” (1975), documentário feito durante sua passagem pela rede Globo, onde foi diretor do “Globo Repórter”. A versatilidade do cineasta também o tornou diretor de núcleo da Rede Bandeirantes. E na Band fez até novela, comandando “O Todo-Poderoso” (1979). Afastado dos cinemas desde 1980, Capovilla voltou em 2003 com “Harmada”, adaptação do romance de João Gilberto Noll com toques de surrealismo e metalinguagem. E encerrou a carreira com “Nervos de Aço” (2016), novo mergulho marginal, que transformava Arrigo Barnabé em ator e propunha releituras dos sambas de Lupicínio Rodrigues num universo teatral.
B.J. Thomas (1942-2021)
O cantor B.J. Thomas morreu no sábado (29/5) em sua casa em Arlington, Texas, após complicações de câncer de pulmão, aos 78 anos. Vencedor do cinco Grammys, ele também foi celebrado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos EUA como a voz de “Raindrops Keep Fallin ‘on My Head”, da trilha de “Butch Cassidy”, vencedora do Oscar de Melhor Canção em 1970. Ao longo da carreira, B.J. Thomas cantou country, pop e gospel, e vendeu mais de 70 milhões de álbuns em todo o mundo. Nascido na zona rural de Hugo, Oklahoma, como Billy Joe Thomas, ele se mudou para Houston, Texas com sua família e começou a cantar na igreja quando criança. Em 1966, juntou-se à banda local Triumphs e gravou “I’m So Lonesome I Could Cry” com o produtor Huey P. Meaux. Lançado pela Scepter Records, o single alcançou a 8ª posição nas paradas pop e se tornou sua primeira música com mais de 1 milhão de cópias vendidas. Seu maior sucesso chegou ao rádio de 1968, “Hooked on a Feeling”, também com mais de 1 milhão de vendas, que puxou seu álbum “On My Way” para o topo das paradas. Quando visitou os escritórios da Scepter em Nova York para comemorar as boas vendas, Thomas foi apresentado para a cantora Dionne Warwick, que, por sua vez, o introduziu ao compositor e produtor Burt Bacharach. Isso levou à gravação de “Raindrops Keep Fallin ‘on My Head”, escrita por Bacharach e Hal David e cantado por Thomas no filme estrelado por Paul Newman e Robert Redford em 1969. Outro sucesso fenomenal, “Raindrops” continua a aparecer até hoje em inúmeros filmes, entre eles “Forest Gump” e “Homem-Aranha 2”. Em 1972, ele lançou seu último hit pela Scepter, “Rock and Roll Lullaby”, que teve um desempenho excepcional no Brasil, ao virar tema da primeira versão da novela “Selva de Pedra”, exibida pela TV Globo no mesmo ano. O estouro comercial lhe rendeu um contrato milionário com a Paramount Records, que lançou seus dois álbuns seguintes. Mas a pressão para repetir o sucesso acabou levando-o para as drogas. Passando por forte reabilitação, Thomas acabou se convertendo à religião, mudou suas gravações para o selo especializado Myrrh Records e se transformou num cantor gospel. Em 1976, lançou “Home Where I Belong”, primeiro álbum de pop cristão a vender 1 milhão de cópias. Nos anos 1980, ele ainda voltou às trilhas sonoras como cantor de “As Long As We Got Each Other”, música-tema da série de TV “Tudo em Família” (Growing Pains), que durou sete temporadas, de 1985 a 1992. Relembre suas três músicas mais famosas.
Gavin MacLeod (1931–2021)
O ator Gavin MacLeod, que estrelou as séries clássicas “Mary Tyler Moore” e “O Barco do Amor”, morreu na manhã deste sábado (29/5) aos 90 anos. A causa da morte não foi informada, mas sua saúde vinha deteriorando nos últimos meses. Nascido Allan George See, ele adotou o nome artístico ao estrear no cinema em 1958, como um policial no drama criminal “Quero Viver!”. No ano seguinte, teve pequenos papéis nos clássicos “Estranha Obsessão” e “Os Bravos Morrem de Pé”, e acabou se destacando como coadjuvante na comédia de guerra “Anáguas a Bordo”, de Blake Edwards. “Anáguas a Bordo” foi uma prévia do tipo de papel que ele faria alguns anos depois na série “Marinha de McHale”, na qual viveu o marinheiro “Happy” Haines. Exibida de 1962 a 1966, a série sobre a tripulação de um torpedeiro americano durante a 2ª Guerra Mundial fez tanto sucesso que originou dois filmes, “Marujos do Barulho” (1964) e “Os Marujos… na Força Aérea” (1966), ambos com MacLeod em seu elenco. Ele continuou na Marinha na aventura clássica “O Canhoneiro do Yang-Tsé” (1966), estrelada por Steve McQueen, e voltou a trabalhar com Blake Edwards na comédia mais engraçada do diretor, “Um Convidado Bem Trapalhão” (1968), com Peter Sellers. Depois de estrelar outra famosa comédia de guerra, “Os Guerreiros Pilantras” (1970), ao lado de Clint Eastwood, entrou no elenco fixo de “Mary Tyler Moore” como Murray Slaughter, redator do telejornal em que a protagonista trabalhava, atuando em cada um dos 168 episódios das sete temporadas da atração. “Mary Tyler Moore” marcou época, influenciou costumes, especialmente os direitos femininos, rendeu três séries derivadas e até um telefilme de reencontro no ano 2000. Mas poucos integrantes do elenco tiveram a sorte de trocar o sucesso daquela série por outro programa de grande audiência. MacLeod foi um deles. O ator emendou “Moore” com “O Barco do Amor”, ficando fora do ar apenas dois meses entre as duas séries, em 1977. O novo trabalho foi ainda mais duradouro. Em “O Barco do Amor”, ele interpretou o capitão Stubing, responsável por comandar o navio de cruzeiros românticos por nada menos que 249 episódios em 10 anos. E mesmo após o fim da viagem televisiva, em 1987, ainda voltou para um telefilme de reencontro, “O Barco do Amor: O Dia dos Namorados”, em 1990, e num episódio do reboot “Love Boat: The Next Wave”, em 1998. Apesar de não ter emplacado outros papéis fixos, o ator continuou no ar por vários anos, aparecendo em episódios de “Oz”, “The King of Queens”, “JAG: Ases Invencíveis”, “O Toque de um Anjo”, “That ’70s Show” e “Zack & Cody: Gêmeos à Bordo”. Além disso, o sucesso de “O Barco do Amor” lhe garantiu outro emprego duradouro, como porta-voz da empresa de cruzeiros marítimos Princess Cruises. Nos últimos anos, MacLeod e sua esposa Patti Kendig se tornaram evangélicos, o que resultou numa reconciliação – e segundo casamento – após o divórcio, além de levar o casal a estrelar juntos a sci-fi cristã “A Jornada: Uma Viagem pelo Tempo”, em 2002. Sua despedida do cinema foi com outro filme evangélico, “As Histórias de Jonathan Sperry”, em 2008. Cinco anos depois, ele publicou seu livro de memórias, “This Is Your Captain Speaking: My Fantastic Voyage Through Hollywood, Faith & Life”. Ed Asner, que interpretou o chefe de MacLeod em “Mary Tyler Moore” – e que os mais jovens conhecem como a voz do velhinho ranzinza de “Up – Altas Aventuras” – prestou homenagem ao amigo no Twitter, escrevendo: “Meu coração está partido. Gavin era meu irmão, meu parceiro no crime (e na comida) e meu conspirador cômico. Te vejo daqui a pouco, Gavin. Diga à turma que os verei em breve. Betty! Agora somos só você e eu”, completou, citando Betty White (“Super Gatas”). Os dois são os últimos astros remanescentes da série dos anos 1970.
Kevin Clark (1988–2021)
Kevin Clark, que ficou conhecido aos 14 anos com o papel de Freddy “Spazzy McGee” Jones, o baterista da banda mirim do filme “Escola de Rock”, morreu nesta quarta (26/5) em um acidente de bicicleta em Chicago. Ele tinha 32 anos. O site TMZ apurou com a polícia de Chicago que Kevin estava andando de bicicleta durante a manhã quando foi atingido por um veículo. Clark ainda foi levado ao hospital, mas não resistiu. Protagonista de “Escola de Rock”, o ator Jack Black lamentou a perda do jovem nas redes sociais. “Notícias devastadoras. Kevin se foi. Muito cedo. Alma bonita. Tantas lembranças ótimas. Estou com o coração partido. Enviando amor para sua família e para toda a comunidade da ‘Escola de Rock'”, escreveu Black. “Escola de Rock” contava a história de um guitarrista decadente (Black) que arranjava emprego como professor de Ensino Fundamental e tenta retomar a carreira formando uma banda de rock com crianças. Recentemente, dois atores mirins do elenco secundário revelaram que se tornaram namorados na vida real. Mas os astros da banda tiveram destino diverso. A menina que viveu a baixista da banda mirim adotou gênero neutro na vida adulta e confessou ter caído em depressão e nas drogas por não ter feito mais nada, enquanto o guitarrista ganhou manchetes por outra carreira ligada à guitarras, isto é, a roubos de guitarras de lojas de instrumentos, até ser preso em flagrante. Kevin Clark não seguiu carreira de ator após o filme, lançado em 2003, mas ainda tocava rock como baterista em Chicago. Ele atualmente integrava a banda Jessie Bess and the Intentions, que tinha feito seu primeiro show no fim de semana passado. Ver essa foto no Instagram Uma publicação compartilhada por Jack Black (@jackblack)
Paul Mooney (1941–2021)
O comediante Paul Mooney morreu nesta quarta (19/5), vítima de um ataque cardíaco, enquanto estava em estava em sua casa, na cidade de Oakland, na Califórnia. Ele tinha 79 anos e era conhecido por uma duradoura parceria com o amigo Richard Pryor (1940–2005). Mooney começou sua vida artística no circo, onde desenvolveu sua paixão por escrever e contar piadas. Ao longo de sua careira, apareceu em várias produções do cinema e da TV, mas começou em 1972 como roteirista de “Sanford and Son”, sitcom pioneira sobre uma família negra. Desde o começo, seu estilo cômico foi marcado por questionamentos sociais, procurando usar o riso como forma de denunciar o racismo e provocar reflexões sobre a política racial nos Estados Unidos. Sua longa parceira profissional com Richard Pryor teve início quando o famoso humorista foi convidado a aparecer na 1ª temporada do programa “Saturday Night Live”, em 1975, e requisitou Mooney para escrever seus esquetes. Ele gostou tanto das piadas que o contratou como roteirista de um especial de TV e de seu próprio programa, “The Richard Pryor Show”, em 1977. Nessa época, as piadas de Mooney lançaram a carreira do ator Robin Williams, que estreava na TV como um dos comediantes da produção da rede NBC. A transição de Mooney para frente das câmeras também começou durante o programa de Pryor e se estendeu para o cinema no mesmo ano, na comédia “O Que Vai Ser Agora?” (1977), também estrelada por Pryor. Os dois voltaram a atuar juntos no clássico “Rompendo Correntes” (1981) e Mooney ainda escreveu o especial “Richard Pryor… Here and Now” (1983) e o drama “Nos Palcos da Vida” (1986), únicos filmes dirigidos pelo comediante, além de servir como “consultor” em “Chuva de Milhões” (1985), um dos maiores sucessos comerciais do amigo. Paralelamente, lançou-se em carreira “solo”, aparecendo em “A História de Buddy Holly” (1977), “Confusões em Hollywood” (1987), “Um Maluco no Exército” (1994) e “A Hora do Show” (2000), que foi dirigido por Spike Lee, entre outros projetos. Ele também se especializou em roteirizar especiais musicais para a televisão e escreveu vários esquetes do famoso programa humorístico dos anos 1990 “In Living Colour”, que lançou Jennifer Lopez, Jamie Foxx e Jim Carrey (além de estabelecer a dinastia de humor da família Wayans). Nos últimos anos, Mooney vinha se dedicando à sua própria carreira como comediante, escrevendo e estrelando shows e especiais de stand up (lançados entre 2002 e 2014).
Charles Grodin (1935–2021)
O ator Charles Grodin, que marcou época em várias comédias clássicas como “Corações em Alta” (1972), “Fuga à Meia-Noite” (1988) e os filmes do cachorro Beethoven, morreu nesta terça-feira (18/5) de câncer na medula óssea em sua casa em Wilton, Connecticut. Ele tinha 86 anos. Grodin nasceu e cresceu em Pittsburgh, e depois de estudar teatro na faculdade local, aprimorou-se no Actor’s Studio em Nova York. A estreia na Broadway aconteceu em 1962, na peça “Tchin-Tchin”, ao lado de Anthony Quinn, e o primeiro filme veio dois anos, “Sex and the College Girl” (1964), já como coadjuvante. Apesar disso, passou a maior parte dos anos 1960 na televisão. Ele emplacou papéis nas novelas “Love of Life” e “The Young Marrieds”, participou das pegadinhas da “Candid Camera” – programa que inspirou quadro similar de Sílvio Santos – e apareceu em séries variadas, como a comédia “Mamãe Calhambeque”, o policial “FBI” e os westerns “Cavalo de Ferro”, “Big Valley” e “O Homem de Virgínia”. Mas os trabalhos televisivos acabaram dificultando sua volta ao cinema. Depois de ser testado e perder o papel principal de “A Primeira Noite de um Homem” (1967) para Dustin Hoffman, ele conseguiu uma pequena participação em outro clássico, aparecendo como médico de Mia Farrow em “O Bebê de Rosemary” (1968), de Roman Polanski. Embora Mike Nichols tenha preferido Hoffman em 1967, ele não esqueceu o teste de Grodin e o escalou em “Ardil 22” (1970), filme que ajudou a demonstrar o talento do ator para comédias. O estouro no gênero veio no filme seguinte, “Corações em Alta” (1972), dirigido por Elaine May, em que Grodin viveu um recém-casado que se apaixona por outra mulher (Cybill Shepherd) durante sua lua de mel em Miami. O ator foi indicado ao Globo de Ouro pelo papel. “Achei o personagem um cara desprezível, mas o interpretei com toda a sinceridade”, ele confessou em uma entrevista de 2009 ao The AV Club. “Meu trabalho não é julgar. Se não fosse por Elaine May, provavelmente nunca teria tido minha carreira bem-sucedida no cinema.” A popularidade do filme mudou seu status e o conduziu a vários blockbusters, como os remakes de “King Kong” (1976) e “O Céu Pode Esperar” (1978) – exageradamente indicado a nove Oscars. A profusão de comédias nos anos seguintes transforaram Grodin num campeão de locações da era do VHS. Ele filmou com a maioria dos humoristas de sucesso dos anos 1980 – Steve Martin, Gene Wilder, Chevy Chase, Goldie Hawn, Lily Tomlin, Dan Aykroyd, Warren Beatty e até os Muppets. Muitas dessas comédias marcaram época, como “A Dama de Vermelho” (1984), uma das maiores bilheterias da década, mas nenhuma foi tão impactante quanto “Fuga à Meia-Noite”. No filme dirigido por Martin Brest, Grodon viveu um contador da máfia procurado por criminosos e pelo FBI, que acaba sendo capturado por um caçador de recompensas (interpretado por Robert De Niro) e conduzido relutantemente de um lado a outro dos EUA para sua proteção e para o lucro do outro. O clima de camaradagem conflituosa dos dois protagonistas acabou inspirando todas as comédias de ação que se seguiram. “Fuga à Meia-Noite” também foi o auge do estilo de humor de Grodin, acostumado a interpretar personagens tensos e ranzinzas que, apesar de tudo, conseguiam ser simpáticos. Ele soube explorar bem essas qualidades também na popular comédia “Beethoven” (1992) e na sua sequência de 1993, como um pai de família avesso a animais de estimação, que acaba tendo que conviver com um São Bernardo gigante. Antes disso, ele já tinha conquistado o público infantil como rival de Caco, o Sapo (que na época ainda não era Kermit no Brasil) pelo amor de Miss Piggy em “A Grande Farra dos Muppets” (1981). Depois de coestrelar “Dave, Presidente por um Dia”, com Kevin Cline, e “Morrendo e Aprendendo”, com Robert Downey Jr., ambos em 1993, Grodin voltou a trocar o cinema pela TV. Foi apresentar um talk show, “The Charles Grodin Show” e atuar como comentarista satírico do programa jornalístico “60 Minutes”, retornando às comédias só em 2006, em “O Ex-Namorado da Minha Mulher”. Seus últimos filmes como ator foram “Enquanto Somos Jovens” (2014), de Noah Baumbach, “O Último Ato” (2014), de Barry Levinson, “O Comediante” (2016), de Taylor Hackford, e “The Private Life of a Modern Woman” (2017), de James Toback. Multitalentoso, Grodin também foi colunista de jornal, escreveu vários livros, dirigiu peças, chegando a comandar na Broadway a montagem de “Os Assaltantes”, que depois ele foi estrelar no cinema (em 1977), e venceu um Emmy como roteirista, por um especial televisivo do cantor Paul Simon (também de 1977). Ele ainda escreveu dois roteiros de cinema, “A Casa dos Brilhantes” (1974) e “Promessa é Dívida” (1985).












