Erin Moran (1960 – 2017)
Morreu a atriz americana Erin Moran, que ficou conhecida pelo papel de Joanie na série clássica “Happy Days”. Ela foi encontrada morta, aos 56 anos, em um parque de trailers na pequena cidade de Corydon, em Indiana. Uma autopsia vai ser realizada para estabelecer as causas da morte. Sumida nos últimos anos, Erin foi uma atriz-mirim bem-sucedida. Após aparecer em comerciais, chamou a atenção de Hollywood, estreando no cinema na comédia “Lua de Mel com Papai” (1968) com apenas oito anos de idade. No mesmo ano, foi contratada para integrar o elenco de sua primeira série, “Daktari”, na qual apareceu em 15 episódios entre 1968 e 1969. Sua filmografia inclui até o clássico “A Noite em que o Sol Brilhou” (1970), de Melvin Van Peebles, comédia fantástica sobre a transformação de um racista num homem negro, na qual interpretou a filha do protagonista. A atriz ainda era pré-adolescente quando entrou para “Happy Days”. Tinha 14 anos em 1974, quando foi escalada para viver a irmã mais nova de Ron Howard (ele mesmo, o futuro diretor de “O Código Da Vinci”). A atração foi um fenômeno de audiência e pioneira do boom de nostalgia que tomou conta da TV. Até então, não existiam séries de comédia de época. “Happy Days” mudou tudo ao se passar nos anos 1950, resgatando músicas, hábitos e a cultura juvenil dos anos de ouro do rock’n’roll, com direito até a um rebelde sem causa de jaqueta de couro, o icônico Fonzie, vivido por Henry Winkler. Os anos 1950 duraram mais em “Happy Days” do que na vida real. Quando a série saiu do ar, em 1984, Erin já tinha 24 anos. Os produtores até tentaram estender o apelo da trama com um spin-off centrado na personagem da jovem, acompanhando sua vida de casada com Cachi (Scott Baio), primo de Fonzie. Mas a série “Joanie Loves Chachi” não emplacou, cancelada em sua 1ª temporada. Erin não conseguiu nenhum outro papel de destaque, vivendo de participações ocasionais em outras séries. Ela ainda foi lembrada no clipe de “Buddy Holly” (1994) da banda Weezer, que recriava um episódio de “Happy Days”, e em “Dickie Roberts – O Pestinha Cresceu” (2003), comédia sobre um ex-ator mirim complexado de 30 e poucos anos, em que interpretou a si mesma. Mas a falta de trabalho a deixou cheia de problemas financeiros, a ponto de acabar sua vida morando num trailer. “Que notícia triste, triste. Descansa em paz Erin. Sempre vou lembrar de você em nossa série tornando as cenas melhores, recebendo risadas e iluminando as telas de TV”, escreveu Ron Howard, seu irmão televisivo, no Twitter.
Neuza Amaral (1930 – 2017)
Morreu a atriz Neuza Amaral, com mais de 60 anos de carreira em novelas, séries, filmes e peças de teatro. Segundo parentes, a atriz sofreu uma embolia pulmonar e faleceu nesta quarta (19/4) no Hospital São Vicente de Paula, no Rio, aos 86 anos. Neuza nasceu no interior de São Paulo e começou a atuar na década de 1950, trabalhando na recém-inaugurada TV Tupi e na Excelsior, onde participou da telenovela diária da televisão, “2-5499 Ocupado”, em 1963 (ao lado de Tarcísio Meira, Glória Menezes e Lolita Rodrigues). Mas foi na Globo, no Rio de Janeiro, que construiu sua trajetória de sucesso. Seu primeiro papel na emissora carioca foi na novela “A Sombra de Rebecca” (1967), na qual interpretou o papel-título. Mas acabou chamando mais atenção na novela seguinte como principal antagonista da mocinha (Myriam Pérsia), vivendo a primeira grande vilã da TV brasileira, Veridiana Albuquerque Medeiros, em “A Grande Mentira” (1968). Ela esteve em algumas das principais novelas das décadas de 1970 e 1980, como “Selva de Pedra” (1972), “Os Ossos do Barão” (1973), “Fogo Sobre Terra” (1974), “O Casarão” (1976), “Estúpido Cupido” (1976), “O Pulo do Gato” (1978), “Pecado Rasgado” (1978), “Cabocla” (1979), “Plumas e Paetês” (1980), “Ciranda de Pedra” (1981), “Paraíso” (1982), “Elas por Elas” (1983), “Sinhá Moça” (1986) e “Brega & Chique” (1987). Ficou tão famosa que até participou como ela mesmo de alguns capítulos de “A Gata Comeu” (1985). Mas a partir de “A Rainha da Sucata” (1990), fez apenas pequenas participações, tendo apenas mais um papel fixo em “Pé na Jaca” (2007). O afastamento das novelas coincidiu com sua entrada na política. Neuza Amaral chegou a ser vereadora do Rio de Janeiro na década de 1990, o que acabou afastando-a dos trabalhos na TV. Ela também trabalhou para a prefeitura da cidade Araruama, na Região dos Lagos, onde morou. A atriz também teve uma filmografia expressiva, com mais de 20 filmes, desde a estreia em “A Lei do Cão” (1967), de Jesse Valadão, até “O que É Isso, Companheiro?” (1997), de Bruno Barreto.
Don Rickles (1926 – 2017)
Morreu Don Rickles, uma lenda da comédia americana e dublador da franquia “Toy Story”. Ele faleceu nesta quinta-feira (6/4) aos 90 anos, devido a uma falha renal, em sua casa na cidade de Los Angeles. Rickles participou de muitos filmes e séries desde os anos 1950, mas geralmente em papéis pequenos, como consequência do sucesso de suas apresentações em clubes de stand-up. Ele se especializou na chamada comédia de insulto, dedicando-se a ofender o próprio público de suas performances e os apresentadores de talk show que se arriscavam a convidá-lo para um bate-papo. A princípio, foi considerado escandaloso para a sociedade americana, mas seu sucesso foi tão grande que ser insultado por ele logo se tornou motivo de orgulho. Apesar de não ter sido o primeiro a explorar este estilo de humor, Don Rickles foi o mais bem-sucedido e imitado, tornando-se uma atração recorrente na televisão, clubes e cassinos de Las Vegas. Sem papas na língua, conquistou a simpatia de Frank Sinatra e até se tornou um membro honorário da Rat Pack, a turma estilosa dos lounges, participando de shows da trupe em Vegas – que, além de Sinatra, também incluíam Dean Martin e Sammy Davis Jr. No auge da popularidade, ele até se juntou a Jimmy Olsen e Superman numa história em quadrinhos escrita e desenhada pelo lendário Jack Kirby, na qual era clonado e dava vida a seu oposto, Rickles, o Bondoso. A publicação aconteceu em 1971, após Rickles já estar bem estabelecido na cultura pop, tendo aparecido em três filmes da Turma da Praia, em “Os Guerreiros Pilantras” (1970) e em séries clássicas como “Os Monstros”, “A Família Adams”, “A Família Buscapé”, “James West” e “A Ilha dos Birutas”. Apesar de se tornar menos visível nas décadas seguintes, ele nunca interrompeu suas atividades, participando inclusive de “Cassino” (1995), de Martin Scorsese, no qual contracenou com Robert De Niro. Para as novas gerações, sua voz é lembrada por frases mais doces, graças a seu trabalho como o Sr. Cabeça de Batata dos desenhos da franquia “Toy Story” Mas para os mais velhos, ele é o humorista mal-humorado sem o qual não existiria Louis CK, Larry David, Jerry Seinfeld ou Howard Stern.
Bill Paxton (1955 – 2017)
Morreu o ator americano Bill Paxton, que marcou época em grandes produções como “Aliens, o Resgate” (1986), “Twister” (1996) e “Titanic” (1997) e estrelou a série “Amor Imenso” (Big Love) na HBO. Segundo comunicado da família, ele morreu repentinamente devido a complicações de uma cirurgia, aos 61 anos. Paxton não começou sua carreira em Hollywood como ator. Nos anos 1970, ele trabalhou como carpinteiro e pintor de cenários de diversos filmes B, incluindo produções de Roger Corman. Foi numa delas, “Galáxia do Terror” (1981), que chamou atenção do cenógrafo e diretor assistente James Cameron. Os dois se tornaram grandes amigos e Cameron o convidou a participar de seu segundo filme como cineasta: “O Exterminador do Futuro” (1984). Ele viveu um punk que enfrentava o robô interpretado por Arnold Schwarzenegger logo no começo da trama. No mesmo ano, apareceu no clipe “Shadows of the Night” (1984), de Pat Benatar, e logo começou a demonstrar sua capacidade para roubar cenas, como o irmão mais velho de um dos nerds de “Mulher Nota Mil” (1985), clássico de John Hughes. Mas foi o velho amigo James Cameron quem lhe deu seu primeiro grande papel, como o soldado Hudson, um dos fuzileiros espaciais do cultuado “Aliens, o Resgate”. Indo do egoísmo ao sacrifício pessoal, da covardia ao heroísmo, Paxton construiu um arco tão rico do personagem que sua morte foi uma das mais lamentadas do filme. A cineasta Kathryn Bigelow, na época namorada de Cameron, também se impressionou com o rapaz e o escalou como um vampiro sanguinário em “Quando Chega a Escuridão” (1987), mistura de terror, western e love story rural com idéias inovadoras. Mergulhando no sadismo do personagem, Paxton roubou as cenas e acabou sendo escolhido para ilustrar o cartaz da produção, mesmo não sendo o mocinho. O ator também apareceu num clipe do New Order, “Touched by the Hand of God” (1989), enfrentou os futuros rivais dos Aliens em “Predador 2 – A Caçada Continua” (1990) e acabou se consolidando como um dos coadjuvantes mais requisitados de Hollywood. O período incluiu papéis de destaque em “Marcados Pelo Ódio” (1989), “Os Saqueadores” (1992), “Encaixotando Helena” (1993), “Tombstone” (1993), “Apollo 13” (1995) e “True Lies” (1994), novamente dirigido por Cameron. Tantos destaques consecutivos abriram caminho para sua transformação em protagonista, que aconteceu no filme de desastre ambiental “Twister” (1996), em que enfrentou tornados com a mesma coragem com que lutou contra Aliens. Ele confirmou ser um dos atores favoritos de James Cameron ao embarcar a bordo de “Titanic” (1997), que bateu recordes de bilheteria mundial. E aproveitou o período de sucesso para dar sequência à carreira de protagonista, estrelando o excelente suspense “Um Plano Simples” (1998), de Sam Raimi, um remake infantil da Disney, “Poderoso Joe” (1998), ao lado de Charlize Theron, e um thriller de alpinismo, “Limite Vertical” (2000). A esta altura, decidiu passar para trás das câmeras, estrelando e dirigindo o terror “A Mão do Diabo” (2001), que conquistou críticas positivas, mas baixa bilheteria. Ele só dirigiu mais um filme, “O Melhor Jogo da História” (2005), no qual escalou seu filho, James Paxton (atualmente na série “Eyewitness”). Mas acabou descuidando da própria carreira de ator. Apostou em produções infantis, como a franquia “Pequenos Espiões” e a adaptação da série de fantoches “Thunderbirds”, que implodiram. E o declínio o convenceu a realizar uma curva estratégica, rumo à televisão. Com o primeiro papel fixo numa série, veio a consagração que lhe faltava. Ele conquistou três indicações ao Globo de Ouro como protagonista de “Big Love”, história de um polígamo, casado com três mulheres diferentes, exibida entre 2006 e 2011. Também se agigantou na premiada minissérie “Hatfields & McCoys” (2011), que lhe rendeu sua única indicação ao Emmy, teve uma passagem marcante como vilão em “Agents of SHIELD” (em 2014) e liderou o elenco da minissérie “Texas Rising” (2015). Ao voltar às produções de ponta, relembrou o soldado Hudson na sci-fi “No Limite do Amanhã” (2014), na qual voltou a enfrentar alienígenas, desta vez ao lado de Tom Cruise. E ainda teve papel importante no excelente “O Abutre” (2014), filme indicado ao Oscar, com Jake Gyllenhaal. Paxton participava atualmente da nova série “Traning Day”, baseada no filme “Dia de Treinamento”, numa versão do papel que deu o Oscar a Denzel Washington, e poderá ser visto ainda em uma última sci-fi, “O Círculo”, de James Ponsoldt, com Emma Watson e Tom Hanks, que estreia em abril.
Seijun Suzuki (1923 – 2017)
Morreu o diretor Seijun Suzuki, um dos mais influentes cineastas japoneses dos anos 1960. Ele ganhou projeção mundial pelo filme que causou sua maior decepção, “A Marca do Assassino” (1967), que o levou a ser demitido pelo estúdio Nikkatsu. O diretor faleceu em Tóquio, em 13 de fevereiro, devido a uma doença pulmonar obstrutiva crônica. Seijun Suzuki fez cerca de 40 filmes para o estúdio Kikkatsu, entre 1954 e 1967, geralmente focando a vida violenta de marginais. A lista inclui clássicos como “Portal da Carne” (1964), sobre prostitutas que se aliam para trabalhar sem cafetões após a 2ª Guerra Mundial, “História de uma Prostituta” (1965), acompanhando uma prostituta no front da guerra, “A Vida de um Tatuado” (1965), focado num matador da Yakuza traído pela própria gangue, e “Tóquio Violenta” (1966), sobre o submundo do crime. Estes quatro filmes estão disponíveis em DVD no Brasil, num pack sob o título “A Arte de Seijun Suzuki”. Mas sua obra-prima é mesmo “A Marca do Assassino”, em que um matador fetichista falha num trabalho e se torna alvo de um assassino mais letal. Estilizadíssimo, fracassou nas bilheterias e não foi compreendido pelo estúdio, que simplesmente o demitiu. Mas o filme logo se tornou objeto de culto e devoção de cinéfilos obcecados pela era mod e pelas origens do cinema ultraviolento. O diretor não aceitava fazer filmes comuns, após ter desenvolvido, progressivamente, uma marca própria, em parceria com o designer de produção Takeo Kimura. Caracterizados por um visual surrealista, atuação de influência Kabuki, cores fortes e cenas de ação que pareciam extraídas de uma paisagem de sonhos, os longas que ele dirigiu nos anos 1960 se tornaram tão distintos que eram referidos como exemplos do “estilo Suzuki” de cinema. Sem aceitar a demissão, Suzuki entrou na justiça contra o estúdio e acabou conseguindo um acordo extrajudicial, mas, em contrapartida, foi banido da indústria cinematográfica japonesa por mais de uma década. Ele só voltaria a trabalhar em 1980 e fazendo terror. O detalhe é que, a esta altura, seu cinema tinha sido descoberto pelo Ocidente e seu retorno era tão esperado que “Zigeunerweisen”, seu terror surreal, foi exibido no Festival de Berlim. Para pavimentar de vez sua volta, a própria Academia Japonesa decidiu premiar o longa. Suzuki continuou dirigindo histórias de fantasmas e até um anime, mas não esqueceu de “A Marca do Assassino”, sua assombração pessoal. Em 2001, ele filmou “Pistol Opera”, um remake do filme de 1967, que foi premiado pelo experimentalismo visual no Festival de Brisbane. A influência do “estilo Suzuki” é marcante em filmes de cineastas tão distintos quanto o americano Quentin Tarantino e o chinês Wong Kar-wai. Mas até o diretor indie Jim Jarmusch prestou homenagem ao mestre japonês, citando referências de “A Marca do Assassino” em seu único filme de ação “Ghost Dog” (1999). Veja abaixo o trailer original de “A Marca do Assassino” e um vídeo da distribuidora Versátil sobre os demais filmes de sua carreira.
Warren Frost (1925 – 2017)
Morreu ator Warren Frost, mais conhecido por seus papéis nas séries “Twin Peaks” e “Seinfeld”. Ele faleceu na sexta-feira (17/2) aos 91 anos, após enfrentar uma longa doença, não divulgada. Ele era pai de Mark Frost, roteirista que criou “Twin Peaks” com o cineasta David Lynch em 1990. Sua carreira começou nos anos 1950, mas após figurar em mais de uma dezena de séries sem conseguir destaque, acabou desistindo de atuar por quase três décadas. Foi ressurgir em 1990 como o psiquiatra de Norman Bates em “Psicose IV – O Início” (1990), último filme da franquia estrelada por Anthony Perkins, e acabou escalado pelo filho para dar vida ao Dr. Will Hayward, legista que se recusou a realizar a autópsia de Laura Palmer em “Twin Peaks”. Além de ser creditado em 30 episódios das duas temporadas da série original, ele também reprisou o personagem no filme “Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer” (1992) e no revival da atração, que só vai estrear em maio nos EUA. Warren Frost também teve um papel recorrente e memorável em “Seinfeld” como o pai de Susan (a namorada recorrente de George), Henry Ross, aparecendo em cinco episódios. Além disso, participou do elenco recorrente da série “Matlock” e da célebre minissérie de terror “A Dança da Morte” (The Stand), adaptação de Stephen King. “Estamos tristes hoje em anunciar a morte de nosso querido pai, Warren Frost”, disse Mark Frost em um comunicado da família. “Das margens da Normandia no dia D aos seus 50 anos de carreira no palco e na tela, ele continuou sendo o mesmo homem humilde de Vermont que nos ensinou que uma vida dedicada a dizer o tipo certo de verdades pode fazer uma diferença real nas vidas de outros”.
Richard Hatch (1945 – 2017)
Morreu o ator Richard Hatch, que se tornou conhecido como o Capitão Apollo da série clássica “Galactica: Astronave de Combate” (Battlestar galactica), grande sucesso do fim da década de 1970. Ele lutava contra um câncer avançado no pâncreas e faleceu na terça-feira (7/2), aos 71 anos. “Richard Hatch era um bom homem, amável, e um profissional perfeito. Sua morte é um duro golpe para toda a família ‘BSG’, escreveu Ronald D. Moore, criador da nova versão televisiva da história, em seu Twitter — o reboot ficou no ar entre 2004 e 2009 e também contava com Hatch no elenco. O ator nasceu em 1945, em Santa Monica, na Califórnia, e iniciou a carreira televisiva com uma participação na novela “All My Children” em 1971. Logo se tornou bastante requisitado, aparecendo em inúmeras séries clássicas dos anos 1970, de “Kung Fu” a “Havaí 5-0”, e até teve participação recorrente como um integrante da família de “Os Waltons”, antes de conquistar seu primeiro papel fixo, como o inspetor Dan Robbins, substituindo Michael Douglas na 5ª e última temporada de “San Francisco Urgente”, em 1978. Mas foi por “Battlestar Galactica” que ganhou legiões de fãs. A série foi a primeira tentativa televisiva de realizar uma produção com nível cinematográfico. Tanto que os primeiros episódios foram exibidos nos cinemas em diversos países. A série foi criada por Glen A. Larson, que depois faria “Buck Rogers”, “A Supermáquina”, “Duro na Queda” e “Magnum”, entre outras. Mas tão importante quanto o roteirista foram os efeitos visuais empregados na atração. Um dos produtores era John Dykstra, supervisor de efeitos de “Guerra nas Estrelas” (1977), que trouxe para o projeto um virtuosismo visual até então inédito na TV. A premissa era uma espécie de “Eram os Deuses Astronautas?” misturado à “batalhas navais” que aconteciam no espaço. Combinando mitologias de antigas civilizações, dos egípcios aos gregos, a trama acompanhava um grande êxodo espacial, após um ataque alienígena destruir 12 planetas, com os últimos sobreviventes buscando um novo lar na 13ª colônia, que tinha se tornado perdida há muitos anos. O problema é que os inimigos, chamados de cylons, vinham atrás para destruir as naves que escaparam. E a única nave de combate que restara era a Galactica, uma espécie de porta-aviões espacial, que abrigava pequenos caças capazes de enfrentar as forças alienígenas. O Capitão Apollo, personagem de Hatch, era o líder do esquadrão de caças e filho do Comandante Adama (o veterano Lorne Greene, patriarca de “Bonanza”), principal oficial da Galactica. A série era caríssima e durou só uma temporada de 21 episódios. Graças à sua popularidade, porém, a rede ABC retomou a produção em 1980 com novo título, “Galactica: Batalha nas Estrelas” (1980), e menos efeitos visuais. A redução de custos foi obtida com a chegada da nave à colônia perdida: o planeta Terra. Infelizmente, vários personagens não sobreviveram à transição, entre eles os dois favoritos do público, Apollo e seu parceiro Starbuck. De todo modo, a série voltou a ser cancelada após o novo ciclo e nunca mais voltou ao ar na TV aberta. O ator foi reaparecer na 5ª temporada da série “Dinastia”, além de acumular passagens por atrações da época, de “Ilha da Fantasia” a “SOS Malibu” (Baywatch). Mas jamais superou o reconhecimento obtido por “Galactica”. Diante dos inúmeros convites para participar de convenções de fãs, ele chegou a escrever, produzir e estrelar um curta-metragem em forma de trailer em 1999, intitulado “Battlestar Galactica: The Second Coming”, com vários integrantes do elenco original, para tentar convencer a rede ABC a retomar a série. “The Second Coming” nunca virou realidade. Mas o sucesso do trailer nas convenções mostrou que a franquia tinha potencial para ser revivida. Isto acabou acontecendo em 2003, pelas mãos do produtor e roteirista Donald D. Moore, no canal pago Sci-Fi (atualmente, renomeado SyFy). O revival aconteceu como uma minissérie de dois episódios, que aproveitou a maior liberdade da TV paga para deixar a premissa mais sexy, violenta, política e realista. O sucesso foi tanto que o canal encomendou a produção de uma série semanal. E “Battlestar Galactica” virou a franquia mais importante do Sci-Fi, acumulando picos de audiência, prêmios, telefilmes, quadrinhos e spin-offs. Ciente da importância de Hatch para a série, Moore o trouxe à bordo da nova versão como um novo personagem, um líder rebelde e oportunista, chamado Tom Zarek, que ajudou a movimentar a trama. Ao fim do reboot de “Battlestar Galactica”, o ator voltou ao cotidiano de participações em convenções. Mas não reclamava. “‘Battlestar Galactica’ foi um marco histórico. Ela me permitiu viver meus sonhos e fantasias de infância”, disse, em seu site oficial.
Frank Pellegrino (1944 – 2017)
Morreu o ator Frank Pellegrino, uma das estrelas da série “Família Soprano”. Ele faleceu na terça-feira (31/1), em Nova York, aos 72 anos, de câncer de pulmão. Natural de Nova York, o ator estreou no cinema com um pequeno papel em “Os Bons Companheiros” (1990) e em seguida participou de dois filmes de Woody Allen, “Um Misterioso Assassinato em Manhattan” (1993) e “Celebridades” (1998). Sua filmografia inclui ainda “Cop Land: A Cidade dos Tiras” (1997), de James Mangold, a comédia de sucesso “Mickey Olhos Azuis” (1999) e o thriller “Filhos da Máfia” (2001), um dos primeiros filmes de Vin Diesel, que giravam em torno ou da corrupção policial ou da máfia. Pode-se dizer que sua carreira foi marcada por esse tipo de história, tanto que seu papel mais famoso foi mesmo na série da HBO “Família Soprano”, em que interpretou o chefe do FBI Frank Cubitoso, que liderava os esforços para tentar capturar o mafioso Tony Soprano (James Gandolfini). Além de ator, Pellegrino também era conhecido no circuito gastronômico nova-iorquino como um dos donos, ao lado do filho, do famoso restaurante italiano Rao’s, frequentado por seus ex-chefes Scorsese e Woody Allen. Ele ainda publicou vários livros de culinária baseados ns receitas de seu restaurante e abriu franquias em Los Angeles e Las Vegas. Sua morte foi confirmada por Bo Dietl, candidato à prefeitura de Nova York. “Nós perdemos uma parte de Nova York hoje quando perdemos Frankie. Não há ninguém como ele. Ele é um ícone”, afirmou à coluna Page Six, do New York Post.
Vic Militello (1943 – 2017)
A atriz Vic Militello, que marcou época na novela clássica “Estúpido Cupido” e conquistou novas gerações em “Florbella”, morreu neste sábado (28/1), aos 73 anos. Ela estava fazendo tratamento contra um câncer. Filha de artistas circenses, a paulistana Vicência Militello Martelli aprendeu a atuar no picadeiro, com os pais, Dirce Militello e Humberto Militello, apresentando-se em viagens pelo interior do Brasil. Não por acaso, firmou rapidamente sua carreira no teatro, destacando-se em “A Celestina” (1969) e “A Menina e o Vento” (1972), ao mesmo tempo em que dava os primeiros passos no cinema. A estreia na tela grande foi com participações em chanchadas de Fauzi Mansur, mas logo enveredou pelas pornochanchadas, sendo dirigida até por José Mojica Marin, o Zé do Caixão, no terror erótico “Como Consolar Viúvas (1976). Entre “O Poderoso Machão” (1974) e “Eu Faço… Elas Sentem” (1976), acabou encaixando um clássico do cinema brasileiro, “O Rei da Noite” (1975), de Hector Babenco, como uma das três irmãs apaixonadas pelo personagem-título, vivido por Paulo José. A repercussão do filme de Babenco lhe abriu as portas da rede Globo, onde foi logo escalada para viver seu papel mais famoso, como Joana D’Arc, a Daquinha, fazendo par romântico com Tony Ferreira na novela de época “Estúpido Cupido” (1976), sobre a juventude rebelde dos anos 1950. Sua carreira televisiva seguiu curiosa, indo enfrentar o Conde Drácula (ou melhor, Vladimir, vivido por Rubens de Falco) em “Um Homem Muito Especial” (1980), novela gótica romântica da Bandeirantes. Ao retornar para a Globo, conquistou destaque em parcerias com o autor de novelas Carlos Lombardi, que explorou seu lado cômico em papéis exóticos, como a enfermeira Theda Bara de “Vereda Tropical” (1984), a Dominatrix de “Uga Uga” (2000) e Vicky em “Kubanacan” (2003). Ela também participou das minisséries “Primo Basílio” (1988) e “Memorial de Maria Moura” (1994), antes de viver a governanta Helga da novela “Florbella” (na Band, em 2005) e a Mulher Barbada do “Sítio do Pica-Pau Amarelo” (2005-2007) Paralelamente, seguiu fazendo teatro e cinema, alternando dramas importantes como “Romance da Empregada” (1987), de Bruno Barreto, e “O Homem do Ano”, de José Henrique Fonseca, com projetos mais comerciais, entre eles “Xuxa e os Duendes 2: No Caminho das Fadas” (2002), e “Mais Uma Vez Amor” (2005), em que voltou a se reunir com Lombardi. Seu último trabalho foi na comédia “Amanhã Nunca Mais” (2011), de Tadeu Jungle. Como a sogra do protagonista, vivido por Lázaro Ramos, foi responsável pelas melhores tiradas da produção.
Barbara Hale (1922 – 2017)
Morreu Barbara Hale, atriz da série “Perry Mason” e par romântico, no cinema, de alguns dos principais astros de Hollywood. Ela tinha 94 anos e faleceu na quinta (26/1) em sua casa, em Sherman Oaks, na California. Hale começou a carreira como modelo nos anos 1940, o que levou a um contrato para filmar produções do estúdio RKO, a partir de 1943. Diz a lenda que ela ouviu um diretor de casting fazer uma ligação desesperada em busca de uma substituta para uma atriz que estava doente, e foi assim que estrelou em Hollywood. “Claro que aumentaram a história, porque não era um papel importante e eu tinha só uma frase”, ela contou, anos depois. Mas esse começo modesto não demorou a colocá-la ao lado dos grandes astros da época, como Frank Sinatra (“A Lua a Seu Alcance”, 1943), Robert Mitchum (“A Oeste de Pecos”, 1945), Robert Young (“A Dama da Sorte”, 1946, e “Três é Demais”, 1949), Robert Ryan (“O Menino dos Cabelos Verdes”, 1948) e James Stewart (“Radiomania”, 1950). Os papéis românticos foram diminuindo com o passar dos anos, levando-a a explorar outras vertentes, o que lhe rendeu protagonismo num par de clássicos do cinema noir – “Ninguém Crê em Mim” (1949), de Ted Tetzlaff, e “Alma em Sombras” (1949), de Richard Fleischer – , mas principalmente em diversos westerns B, em que fez par com cowboys clássicos de Hollywood, como Broderick Crawford (“O Sabre e a Flecha”, 1953), Randolph Scott (“O Fantasma do General Custer”, 1956), Joel McCrea (“Na Sombra do Disfarce”, 1953, e “Quando as Pistolas Decidem”, 1957), Jock Mahoney (“Nos Degraus da Glória”, 1957) e até Rock Hudson (“Seminole”, 1953). Ela adorava westerns, porque foi no primeiro que estrelou que conheceu seu futuro marido, o ator Bill Williams, coadjuvante de “A Oeste de Pecos” (1945). Ela aceitou o convite do rapaz para tomar um café e um ano depois já estavam casados. O pai de seus três filhos também foi responsável por demonstrar que fazer séries de TV podia ser prazeroso. Após uma longa carreira cinematográfica, Bill Williams estrelou com sucesso a série “As Aventuras de Kit Carson”, que rendeu mais de 100 episódios entre 1951 e 1955. Em 1957, Hale se juntou ao elenco de “Perry Mason”, uma das séries jurídicas mais influentes da história da TV, no papel de Della Street, a secretária do protagonista interpretado por Raymond Burr. Ela era responsável por alguns insights importantes na resolução dos casos da semana, invariavelmente resolvidos num tribunal. “Quando começamos, ainda havia poucas mulheres na TV retratadas como profissionais, pois eram quase todas donas de casa”, disse Hale, numa entrevista dos anos 1990, sobre o revival da série, “Eu também gostava que ela fosse independente a ponto de não ser casada, porque meu marido, Bill, não precisava me ver casada com outro homem, e nossos filhos não tinham que me ver cuidando de outras crianças”. Pelo papel, Barbara Hale venceu o Emmy como Melhor Atriz Coadjuvante de Série Dramática de 1959. Mas ela participou da série até 1966, aparecendo em todos os 271 episódios produzidos de suas impressionantes nove temporadas. Após o fim de “Perry Manson”, a atriz fez participações em algumas séries, inclusive “Têmpera de Aço”, a nova atração do ator Raymond Burr, e coestrelou o longa “Aeroporto” (1970), como a esposa do piloto vivido por Dean Martin. A produção, que incluía um terrorista a bordo de uma aeronave, gerou um frenesi tão grande que acabou responsável pela tendência dos filmes de desastre. A carreira cinematográfica só incluiu mais um filme relevante, “Amargo Reencontro” (1978), de John Millius, sobre surfistas, em que viveu a mãe de seu filho na vida real, William Katt. Por sinal, ela também fez uma participação num episódio da série que popularizou o filho, “Super-Herói Americano”, em 1982, e ainda atuou ao lado do marido no telefilme “Meu Amigo Lobo” (1976), da Disney. Enquanto isso, “Perry Mason” continuava a ser reprisada com sucesso em diversas estações americanas. A rede CBS tinha tentado se aproveitar disso ao lançar “The New Perry Mason”, uma série com outro elenco nos anos 1970, mas o público não aceitou Monte Markham como Perry Mason e Sharon Acker como Della Street. A novidade foi tão mal recebida que não passou dos 15 episódios. Curiosos para ver como o público reagiria à volta do elenco original, os produtores convidaram Burr e Hale a retomarem seus papéis num telefilme, que foi lançado com toda a pompa como “O Retorno de Perry Mason” em 1985. A produção bateu recorde de audiência. A repercussão foi tanta, que novos telefilmes foram encomendados, num total de 30, rendendo mais uma década de casos resolvidos. Nem a morte de Raymond Burr, em 1993, interrompeu a produção, mas deixou Della Street, a personagem de Hale, como a única que participou de todos casos originais de “Perry Mason”. Notadamente, o último telefilme, exibido em 1995, foi também o último trabalho da carreira da atriz.
Emmanuelle Riva (1927 – 2017)
Morreu a atriz francesa Emmanuelle Riva, ícone da nouvelle vague, que ganhou fama mundial como a protagonista de “Hiroshima Meu Amor” (1959), de Alain Resnais, e voltou a ter grande destaque recentemente com “Amor” (2012), do austríaco Michael Haneke, que lhe rendeu a sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Atriz. Ela lutava havia anos contra um câncer e faleceu na sexta-feira (27/1), aos 89 anos. Nascida em 1927 em uma família de operários do leste da França, Paulette (seu nome real) declamava desde a adolescência as falas de personagens clássicos do teatro em seu quarto. Aos 19 anos, pouco depois do fim da 2ª Guerra Mundial, viajou a Paris para estudar artes dramáticas, mas só foi aparecer no cinema no final da década seguinte. Após figurar em “Volúpia de Prazer” (1958), topou o desafio de aparecer nua num filme de caráter poético-experimental, sobre o romance entre uma francesa e um arquiteto japonês de Hiroshima, a cidade devastada pelo primeiro ataque com bomba atômica da história. Sua nudez serviu de chamariz para o filme, que era extremamente intelectual. Mas se virou musa instantânea, também precisou lutar para não ficar marcada como sexy. Para tanto, tomou uma série de decisões ousadas, ilustrando o lado pouco sensual da prostituição em “Ádua e Suas Companheiras” (1960), de Antonio Pietrangeli, e aparecendo totalmente desglamourizada em “Kapò: Uma História do Holocausto” (1960), de Gillo Pontecorvo, como uma prisioneira de campo de concentração nazista. Em 1962, ela venceu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Veneza por seu papel em “Thérèse Desqueyroux”, como a fria personagem-título, suspeita de ter matado o próprio marido. Mas não voltar a receber maiores reconhecimentos por décadas, mesmo trabalhando com grandes cineastas, como André Cayatte em “Atentado ao Pudor” (1967), Fernando Arrabal em “Irei Como um Cavalo Louco” (1973), Marco Bellochio em “Olhos na Boca” (1982), Philippe Garrel em “Liberté, la Nuit” (1984) e Krzysztof Kieslowski em “A Liberdade É Azul” (1993). Passaram-se 50 anos até Riva voltar às cerimônias de premiação. Em “Amor” (2012), ela interpretou uma mulher doente, à beira da morte e em meio a grandes sofrimentos, compartilhados por seu marido, interpretado por Jean-Louis Trintignant, e a filha, vivida por Isabelle Huppert. Filmado nos cômodos de uma casa, de onde a personagem não conseguia sair, “Amor” se tornou o filme-sensação de 2012, iniciando uma carreira vitoriosa a partir de sua première com a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Ao ser indicada ao Oscar, Riva se tornou a atriz mais velha já reconhecida pela premiação. Não conquistou o troféu americano, mas venceu o César (o “Oscar francês”) e o BAFTA (o “Oscar inglês”). Ela também apareceu no simpático “O Verão do Skylab” (2011), de Julie Delpy, e viu aumentar os convites para filmar obras de cineastas dos mais diferentes países, enquanto buscava retomar a carreira no teatro, num surto de atividade com mais de 80 anos de idade. Em 2014, recebeu seu último prêmio, o Beaumarchais, entregue por um júri de críticos do jornal francês Le Figaro, por sua atuação na peça “Savannah Bay”, de Marguerite Duras. A atriz deixou um filme inédito, “Alma”, do islandês Kristín Jóhannesdóttir, e iria estrelar “Les Vacances”, do iraniano Mohsen Makhmalbaf. “Até o final permaneceu ativa”, declarou sua agente, Anne Alvares Correa. “Emmanuelle Riva era uma mulher comovente, uma artista de rara exigência”, afirmou Frédérique Bredin, presidente do Centro Nacional do Cinema (CNC) da França. “Foi-se uma voz inesquecível, habitada pelo amor das palavras e da poesia.”
John Hurt (1940 – 2017)
Morreu o ator inglês John Hurt, que marcou a história do cinema e da TV com personagens icônicos. Ao longo da carreira, ele enfrentou alienígenas e ajudou Indiana Jones, caçou espiões e foi caçado pelo Big Brother, viajou no tempo na Tardis e fabricou a varinha mágica de Harry Potter, deixando uma filmografia memorável de mais de cinco décadas de papéis inesquecíveis, vindo a falecer na sexta (27/1) em sua casa, em Norfolk, no interior da Inglaterra, aos 77 anos, após uma longa luta contra um câncer de pâncreas. Sua longa carreira começou nos anos 1960, com pequenos papéis em filmes como “O Homem que Não Vendeu sua Alma” (1966), “O Marinheiro de Gibraltar” (1967), “O Irresistível Bandoleiro” (1969) e “À Procura do Meu Homem” (1969), mas só foi se destacar na década seguinte por uma série de escolhas ousadas, a começar pelo papel de vítima do caso real de “O Estrangulador de Rillington Place” (1971) e o de canibal em “O Carniçal” (1975). O ponto de virada, porém, aconteceu na TV, no telefilme “Vida Nua” (1975) sobre a vida de Quentin Crisp. O escritor que exibia sua homossexualidade com orgulho, andando maquiado pelas ruas, era uma figura popular na Inglaterra, mas Hurt foi aconselhado por seus agentes a não vivê-lo na TV. Disseram que ficaria marcado como gay e nunca mais trabalharia novamente. Hurt ignorou os avisos e estrelou sua primeira obra como protagonista. Como resultado, ganhou seu primeiro reconhecimento da Academia britânica, o BAFTA de Melhor Ator. E, empolgado, assumiu em seguida um papel ainda mais controvertido, como o imperador Calígula na minissérie “Eu, Cláudio” (1976). O destaque obtido nas duas obras levou o diretor Alan Parker a escalá-lo em “O Expresso da Meia-Noite” (1978), como um prisioneiro viciado numa cadeia turca. A interpretação magistral lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante e o seu segundo prêmio BAFTA. O papel pelo qual é mais lembrado, porém, não lhe rendeu troféus, mas fez sua popularidade atingir as estrelas. Em 1979, ele seguiu o diretor Ridley Scott para a morte certa, a bordo de uma nave espacial. Hurt foi a primeira vítima do que viria a se tornar uma franquia, dando “luz” ao terror de “Alien” (1979), literalmente com suas entranhas. A cena em que sua barriga explode, para o surgimento de um bebê alienígena, entrou para a história do cinema. Tornou-se tão famosa que rendeu até paródias – inclusive com o próprio Hurt revivendo o papel do astronauta Kane em “S.O.S. – Tem um Louco Solto no Espaço” (1987), de Mel Brooks. Sua segunda e última indicação ao Oscar veio logo em seguida, desta vez na categoria de Melhor Ator, sob a maquiagem pesada de “O Homem Elefante” (1980), de David Lynch. Para viver John Merrick, Hurt precisou demonstrar capacidade de se comunicar sob as próteses que o deformavam, realçando seu enorme talento para transmitir emoções. Consagrado, foi coadjuvar o western épico “O Portal do Paraíso” (1980), de Michael Cimino, uma das obras mais caras da época. O fracasso do projeto faliu o estúdio United Artists e até hoje rende discussões apaixonadas entre cinéfilos. Mas representou o fim de uma era para o cinema americano. Não por acaso, os próximo trabalhos do ator em Hollywood foram comédias de estilo besteirol, vivendo Jesus Cristo em “A História do Mundo – Parte I” (1981), de Mel Brooks, e um policial gay em “Dois Tiras Meio Suspeitos (1982), de James Burrows. Após estrelar o suspense “O Casal Osterman” (1983), do mestre Sam Peckinpah, Hurt voltou a filmar com cineastas ingleses, rodando o thriller “O Traidor” (1984), com Stephen Frears, e a sci-fi “1984” (1984), com Michael Radford. Seu retorno à ficção científica novamente marcou época, dando à história clássica do Big Brother de George Orwell sua versão definitiva, com uma cenografia retrô, que entretanto não podia ser mais visionária. Hurt continuou se destacando também em produções de época, como “Incontrolável Paixão” (1987), passada na África colonial e dirigida por Radford, e “Escândalo: A História que Seduziu o Mundo” (1989), de Michael Caton-Jones, sobre um affair entre uma stripper e um ministro britânico nos anos 1960. Sua filmografia seguiu crescendo. Entre comédias americanas ligeiras como “Este Advogado É Uma Parada” (1987) e “Rei Por Acaso (1991), e dramas britânicos sérios, como “Terra da Discórdia” (1990), de Jim Sheridan, e “Uma Nova Chance” (1994), de Chris Menges, também encontrou espaço para um terror B, como “Frankenstein – O Monstro das Trevas” (1990), realizado por ninguém menos que Roger Corman, uma sci-fi sofisticada, como “Contato” (1997), de Robert Zemeckis, e um blockbuster épico, como “Rob Roy: A Saga de uma Paixão” (1995), de Caton-Jones. O século 21 ampliou sua galeria de blockbusters, com participações nas franquias “Harry Potter” (2001-2011) e “Hellboy” (2004-2008), na adaptação de quadrinhos “V de Vingança” (2005), na aventura “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” (2008), e mais recentemente no premiado suspense “O Espião Que Sabia Demais” (2011) e na sci-fi “Expresso do Amanhã” (2013). A voz rouca, capaz de soar serena ou ameaçadora, também lhe rendeu diversos trabalhos de dublagem e narração, em obras tão distintas quanto a versão animada de “O Senhor dos Anéis” (1978), de Ralph Bakshi, “Tigrão – O Filme” (2000), da Disney, e até “Dogville” (2003) e “Manderlay” (2005), de Lars Von Trier – sem esquecer a voz do dragão da série “As Aventuras de Merlin” (2008-2012). Entre seus últimos papéis, estão participações nas séries “Doctor Who” em 2013, como o personagem-título, e “The Last Panthers” (2015), além do filme “Jackie” (2016), indicado ao Oscar 2017. Incansável, Hurt deixou três filmes inéditos e trabalhava no quarto, a cinebiografia de Winston Churchill, “The Darkest Hour”, quando faleceu. Sua excepcional filmografia foi reconhecida com um BAFTA especial pela contribuição excepcional para o cinema britânico em 2012, além da distinção de ter sido nomeado cavaleiro da Ordem do Império Britânico pela Rainha Elizabeth II em 2015. Na mesma época, anunciou que lutava contra o câncer. John Hurt possui ainda a distinção de ter sido o ator que mais morreu em cena, na história do cinema. Mas sua lembrança permanecerá viva eternamente em papéis que encantaram gerações, e continuarão encantando por anos a fio. Nas redes sociais, os diversos artistas que se manifestaram sintetizaram suas homenagens basicamente numa palavra-chave: “Inspiração”.
Mike Connors (1925 – 2017)
Morreu o ator Mike Connors, intérprete da série “Mannix”, um dos grandes sucessos da TV dos anos 1960 e 1970. Ele faleceu em Los Angeles, aos 91 anos, de leucemia. Connors iniciou a carreira com o pseudônimo Touch Connors no início dos anos 1950, aparecendo em pequenos papéis nos clássicos “Precipícios d’Alma” (1952) e “Geleiras do Inferno” (1953), e logo se tornou um dos coadjuvantes mais utilizados nas primeiras produções baratas do diretor Roger Corman, como “Cinco Revólveres Mercenários” (1955), “O Dia que o Mundo Acabou” (1955), “Mulheres do Pântano” (1956) e “A Onça de Oklahoma” (1957). A variedade de produções do período ainda incluiu outros trash famosos, como “Jaguar” (1956), aventura na selva estrelada por Sabu, “Shake, Rattle & Rock!” (1956), um dos primeiros filmes de rock, com participação dos bluesmen Fats Domino e Big Joe Turner, e o cultuadíssimo “O Poço da Perdição” (Live Fast, Die Young, 1958), sobre garotas rebeldes. Ao mesmo tempo, ele também se juntou à luta de Moisés no clássico “Os Dez Mandamentos” (1956). Buscando se afastar da imagem de delinquente juvenil dos filmes B, passou a fazer participações em séries com seu nome real, Michael Connors. Ele apareceu em inúmeros episódios, especialmente de westerns – como “Paladino do Oeste”, “Maverick”, “Gunsmoke”, “Cavarana”, “Cheyenne” e “Cimarron” – , até se tornar conhecido o suficiente para estrelar sua própria atração. O primeiro protagonismo televisivo veio com “Na Corda Bamba” (Tightrope), na qual viveu um policial infiltrado no crime organizado. A trama marcou época, apesar de ter durado apenas uma longa temporada de 37 episódios em 1959. O cancelamento da atração o levou de volta ao cinema – chegou até filmar uma aventura no Rio, “Operação Paraíso” (1966) – , antes de voltar a protagonizar uma nova série, agora como Mike Connors. “Mannix” o consagrou como grande astro da TV americana. Produção da dupla Richard Levinson e William Link (criadores também de “Columbo” e “Assassinato por Escrito”) em parceria com Bruce Geller (criador de “Missão Impossível”), a série girava em torno dos casos investigados por Joe Mannix, um veterano de Guerra da Coreia transformado em detetive particular. O que o diferenciava dos demais detetives televisivos era que ele usava seus punhos, resolvendo seus casos na base da porrada. Para solucionar o crime da semana, invariavelmente se metia numa briga e, ainda que sempre vencesse, também apanhava muito. A série rendeu impressionantes 194 episódios, com oito temporadas exibidas entre 1967 e 1975, e sua popularidade rendeu até um crossover com a sitcom “Here’s Lucy”, de Lucille Ball – “Mannix” era uma produção da Desilu (empresa do casal Lucille Ball e Desi Arnaz). Mas a atração costuma ser mais lembrada por sua música-tema, uma das melhores da história da TV, composta pelo mestre Lalo Schifrin (também de “Missão Impossível”), que acompanhava uma abertura igualmente memorável, com imagens em tela dividida e cores inspiradas nos quadros de Mondrian. Após o final de “Mannix”, Connors atuou em diversos telefilmes e estrelou uma última série policial, “Today’s F.B.I.”, que durou só uma temporada em 1981. Ele continuou fazendo participações em séries, chegando a aparecer em três episódios de “Assassinato por Escrito”, dos mesmos criadores de “Mannix”, nos anos 1990. E até voltou a viver Joe Mannix na comédia de cinema “Ninguém Sabe Tudo” (2003), antes de encerrar a carreira com uma aparição num episódio de “Two and a Half Men”, em 2007. Connors tinha sido diagnosticado com leucemia há apenas uma semana e morreu cercado pela família, incluindo sua esposa Mary Lou, com quem foi casado por 68 anos. Relembre abaixo a abertura clássica de “Mannix”.












