Clipe junta Anitta e Silva numa estética de pop art
Anitta não para. Ela está em mais um clipe, “Fica Tudo Bem”, participando de um dueto romântico com Silva, cantor da nova MPB. A música é muito diferente do que se espera de Anitta, baseada em violão e voz, sem recursos eletrônicos. Já o vídeo remete ao período de “Essa Mina É Louca”, quando os clipes da cantora esboçavam influências de quadrinhos. “Fica Tudo Bem” atualiza e radicalizada essa estética “pop art” com cores vivas e imagens surreais. Não fosse o fato de os diretores (a dupla Hardcuore, composta pelos artistas gráficos Breno Pineschi e Rafael Cazes) gravarem muitos comerciais com a mesma pegada, seria o caso de apontar influência dos clipes da artista americana St. Vincent. Vale destacar que a direção de fotografia é assinada por Marcelo Durst, cinematógrafo de clássicos modernos do cinema brasileiro, como “Os Matadores” (1997), “Ação Entre Amigos” (1998), “Estorvo” (2000) e o recente “Big Jato” (2016). Anitta contou em entrevista ao programa “Vídeo Show”, que aceitou prontamente o convite para gravar o dueto com Silva. “Quando eu gosto da música, eu não fico pensando muito no amanhã não. Eu gostei, eu gravo e faço. E essa música eu amei.” “Fica Tudo Bem” é uma das 13 faixas do disco “Brasileiro”, o quinto e mais recente trabalho do cantor capixaba de 29 anos. Lançada há três semanas, a música chegou a entrar no ranking global das 50 músicas virais do Spotify. Antes de ganhar clipe, o áudio da faixa contava com mais de 1,2 milhão de reproduções no canal de Silva no YouTube. O cantor foi indicado ao Grammy Latino de 2017 de Melhor Álbum de MPB com “Silva Canta Marisa”, disco dedicado à cantora fluminense de quem também se declara fã.
Documentário resgata vida e morte intensas de Torquato Neto
A escolha do personagem Torquato Neto para um documentário não poderia ser mais feliz. O poeta, que viveu pouco, mas teve intensa e profunda atuação cultural, estava mesmo precisando ser lembrado e resgatado em sua obra, que envolvia música, como letrista, cinema, como criador e intérprete, jornalismo, com seus textos e poemas, e a produção cultural, de modo geral. Isso foi feito. O filme de Eduardo Ades e Marcus Fernando resgata a poesia e a prosa de Torquato Neto, na voz do ator Jesuíta Barbosa, e compreende a sua atuação por meio de muitos depoimentos e trechos de filmes em que ele participou, com o personagem do curta “Nosferato no Brasil” (1970), dirigido por Ivan Cardoso, e muitos exemplares do cinema marginal, com quem ele interagia, e do cinema novo. Sua vida cultural envolveu trabalhos com Edu Lobo, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé, Jards Macalé, Wally Salomão, Hélio Oiticica, e muitos outros que compunham com ele a geleia geral brasileira do período em que ele viveu. Esse piauiense tão talentoso, inovador e provocador, suicidou-se aos 28 anos de idade, em 1972, e falar da sua vida é, inevitavelmente, falar dessa escolha, que sempre o acompanhou como ideia e que ele acabou por concretizar. Não há respostas, há tentativas de aproximação e entendimento. O que importa hoje é a obra que ficou, que é muito relevante e merece ser revisitada. Não faltam elementos, informações, referências visuais ao documentário “Torquato Neto – Todas as Horas do Fim”, mas ele seria mais interessante se tivesse se preocupado um pouquinho mais em ser didático, o que costuma ser mal visto pelos documentaristas atuais, mas que faz falta, muitas vezes. E não é nenhum pecado mortal, convenhamos. As falas, os depoimentos, são ouvidos quase o tempo todo, enquanto as imagens mostram filmes e fotos. Algumas vezes, aparece o nome da pessoa que fala, outras, não. Quem não identificar o tom de voz, fica sem saber quem está falando. Caetano, Gil, Tom Zé, têm timbres bem conhecidos e divulgados, outros, nem tanto. É possível dizer que o importante é o que se diz, não quem disse. Mas, sem dúvida, o espectador quer saber e tem esse direito. Outro aspecto que causa estranheza é a ausência de Edu Lobo no filme. A música de Torquato Neto que mais se ouve ainda hoje é “Pra Dizer Adeus”, parceria com Edu, tocada duas vezes no filme. Porém, a única referência a Edu Lobo na vida de Torquato é uma foto, junto com outras pessoas, e o crédito na música citada, ao final. Enquanto isso, Caetano e Gil aparecem prodigamente. Nada contra. Mas há um descompasso que poderia ter sido pelo menos compensado por alguma citação, se é que Edu não pôde ou não quis dar depoimento para o filme. Ficou faltando a sua presença, que certamente é menos provocadora, mas não menos importante. O tropicalismo, movimento que Torquato Neto ajudou a criar e militou culturalmente, tem grande destaque no documentário e as imagens dele, no papel de vampiro, perpassam todo o filme. As palavras que ele manejava como poucos inundam a tela. Ao final, um resgate bonito e necessário.
Chico Buarque demonstra devoção submissa, cega e doentia em sua nova cantiga
É estranho falar num videoclipe de Chico Buarque, mas foi o que a gravadora Biscoito Fino divulgou para a nova música do cantor, “Tua Cantiga”. Trata-se da primeira canção inédita do artista em seis anos. Ela tem letra do próprio cantor e melodia do pianista Cristóvão Bastos, com quem Chico fez há 30 anos a canção “Todo o Sentimento”. A música fala numa devoção submissa, cega e doentia – “Largo mulher e filhos e de joelhos vou te seguir” – , e não deve demorar a virar meme, visto como poderia facilmente servir para ilustrar a ligação entre o cantor e Lula, com trechos que poderiam aludir até a fatos ainda nos noticiários – “Se um desalmado te faz chorar…” Como se sabe, as letras de Chico sempre tem entrelinhas. Mas também pode ser só uma canção antiquada de amor. “Tua Cantiga” faz parte do vindouro álbum “Caravanas”, e o clipe, dirigido por Bruno Tinoco, recria o suposto clima intimista em que o disco foi gravado. Chico aparece entrando nos estúdios da Biscoito Fino, no Rio, com a banda já tocando, canta sua parte e vai direto para a rua ao final da canção, sem dirigir uma palavra sequer aos músicos. “Caravanas” tem lançamento esperado para o fim de agosto.
Gil, Elza, Ney, Céu, Criolo e muitos outros se unem em clipe de 15 minutos pelos direitos indígenas
Um clipe lançado nesta segunda (24/4) reuniu cantores de várias gerações da música brasileira – e convidados de adjacências artísticas – para protestar contra a situação de abandono em que se encontram os índios no país. Intitulada “Demarcação Já”, a composição de Carlos Rennó e Chico César rendeu um clipe de 15 minutos e mais de 100 versos, dirigido por André D’Elia, responsável pelos documentários “Belo Monte: Anúncio de uma Guerra” (2012), sobre o impacto do propinoduto de Belo Monte nas comunidades indígenas do Xingu, e “A Lei da Água (Novo Código Florestal)” (2015), de título autoexplicativo. Entre os que entoam as frases urgentes da canção estão Gilberto Gil, Elza Soares, Maria Bethânia, Ney Matogrosso, Zeca Pagodinho, Lenine, Céu, Criolo, Arnaldo Antunes, Tetê Espíndola, Zélia Duncan, Zeca Baleiro, Nando Reis, Dona Onete, Felipe Cordeiro, Lira, Margareth Menezes, Marlui Miranda, Russo Passapusso, a atriz Letícia Sabatella e o diretor de teatro Zé Celso, além do próprio compositor, Chico César. Os artistas não receberam cachê para participar do projeto, que visa chamar a atenção para a tramitação de projetos de lei no Congresso que buscam dificultar a demarcação de terras indígenas. É importante destacar que a demarcação de terras indígenas no Brasil está praticamente parada e, segundo movimentos sociais e pesquisadores, enfrenta um momento de grande dificuldade e instabilidade. Desde que assumiu o governo, Michel Temer não assinou nenhum decreto homologando demarcação de terras. E, para completar, a Funai (Fundação Nacional do Índio) teve corte de cargos e fechamento de unidades. Mas o descaso não é de hoje. Os índios brasileiros denunciaram o governo Dilma à ONU, alertando que suas lideranças tinham sido cooptados pelo partido da presidente para não realizarem protestos após uma comunidade indígena inteira ser desalojada durante a construção de Belo Monte. E como se não bastasse a usina, o governo petista ainda autorizou a construção da maior mineradora de ouro a céu aberto do país na mesma região. A relatora da ONU para direitos indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, chegou a visitar o Rio Xingu no começo do ano passado, registrando o tamanho da catástrofe. Os cara-pálidas de pau têm línguas dividas em todos os partidos.
Pierre Barouh (1934 – 2016)
Morreu o ator, diretor, cantor e compositor francês Pierre Barouh, que ficou conhecido mundialmente ao cantar a música tema do filme “Um Homem, uma Mulher” (1966). Ele também tinha profunda ligação com a música brasileira. Barouh esteve internado em um hospital de Paris por cinco dias e morreu de insuficiência cardíaca na quarta-feira (28/12), aos 82 anos. Criado nos subúrbios parisienses em uma família judia, ele foi jornalista e atleta, chegando a participar da seleção francesa de vôlei antes de vir pela primeira vez para o Brasil, onde fez amizade com os principais cantores e compositores da bossa nova. O cantor foi considerado uma espécie de embaixador da música brasileira na Europa e chegou a gravar “Noite dos Mascarados”, num dueto com Elis Regina, além de ter feito, em parceria com Baden Powell, o célebre “Samba da Benção”, ou “Samba Saravah” como é conhecido na França, cuja letra homenageia gênios musicais do país, de Pixinguinha a Vinicius de Moraes. “Saravah” também foi título de um documentário que Barouh dirigiu em 1972, sobre os primórdios da bossa nova. Ele comandou outros três filmes, dois deles de ficção, e ainda atuou como ator em 20 produções, inclusive no clássico “Um Homem, uma Mulher”, de Claude Lelouch, e em “Arrastão” (1967), no qual contracenou com brasileiros como Cécil Thiré, Jardel Filho e Grande Otelo. Ele ainda manteve a colaboração com Lelouch (e com o parceiro compositor Francis Lai) ao longo dos anos, seja escrevendo temas de filmes como “A Nós Dois” (1979), “Retratos da Vida” (1981) e “Um Homem, Uma Mulher: 20 Anos Depois”, seja como ator, em “Outro Homem, Outra Mulher” (1977) e “Tem Dias de Lua Cheia” (1990). Às vezes, até as duas coisas, como em “A Coragem de Amar” (2005). Mas apesar dos múltiplos talentos, fez muito mais sucesso como compositor. Suas músicas foram interpretadas por estrelas francesas que marcaram época, como Yves Montand e Francoise Hardy. Confira abaixo cinco gravações clássicas, ressaltando que apenas “Noite dos Mascarados” não é de sua autoria.
Repleto de lacunas, o filme Elis dá saudades da cantora Elis
Elis Regina (1945-1982) foi uma cantora perfeita. Voz, dicção, técnica e afinação impecáveis. E uma intérprete fabulosa, da dimensão de Edith Piaf, Amália Rodrigues ou Ella Fitzgerald. Um portento. Nada mais justo e razoável que uma carreira como essa seja objeto de uma cinebiografia. A questão é alcançar a qualidade artística necessária para fazer jus ao projeto. Isso, o filme “Elis”, de Hugo Prata, alcança parcialmente. Quando entra em cena Andréia Horta (da novela “Liberdade, Liberdade”), Elis realmente revive na tela. A atriz faz um trabalho notável, digno de muitos prêmios. A figura de Elis emerge em gestos, movimentos, risos de arreganhar a gengiva, coreografias que acompanham o canto, enfim, no seu conhecido estilo de ser, determinado, irônico e agressivo. As interpretações de Elis estão lá inteiras, com alta qualidade de som, já que não é Andréia quem canta, ela dubla Elis. Perfeito! Bem, nem tanto. O repertório escolhido é todo muito bom, como aliás era o repertório de Elis Regina em todas as fases de sua carreira. Mas há ausências inconcebíveis. Elis foi a principal intérprete de Milton Nascimento e Gilberto Gil. Nenhuma música deles está no filme. Como não está nada da antológica gravação que ela fez com Tom Jobim. Nem suas inovadoras interpretações de Adoniran Barbosa. Problemas com os direitos das músicas? Falha grave, do ponto de vista artístico. O começo real da carreira dela também foi deletado. Vendo o filme, tudo parece ter começado no Rio, com “Menino das Laranjas” (de Theo Barros), embora se faça referência à sua origem gaúcha e trabalho em Porto Alegre. Só que Elis Regina gravou 2 LPs na gravadora Continental: “Viva a Brotolândia”, em 1961, e “Poema”, em 1962. São 24 faixas gravadas, de discos escancaradamente comerciais, tentando lançar a cantora para concorrer com Celly Campello (1942-2003), que fazia muito sucesso na época. Elis renegou essa fase de sua carreira, rejeitou esses discos (que não são tão ruins assim), mas é algo que teria de ser registrado numa cinebiografia que deu relevo ao trabalho da cantora. Da vida pessoal de Elis, o casamento com Ronaldo Bôscoli durou pouco, uns cinco anos, foi muito conturbado, já que ele era mulherengo, infiel. Seu papel artístico junto a ela acrescentou pouco à arte de Elis. Pelo filme, ele foi o maior amor da vida dela e teve papel artístico muito relevante. Uma forma de romancear e fazer uma narrativa atraente? O fato é que o casamento com César Camargo Mariano foi mais longo e muitíssimo mais importante, do ponto de vista artístico. No filme, ele perde essa força. Mas nunca Elis foi tão brilhante como quando entoou canções arranjadas por César. Era algo de arrasar quarteirão de tão bom, tão sofisticado. Quem viveu esse período sabe disso. E as gravações estão aí para comprovar. Algumas no filme, também, claro. Os conflitos políticos que envolveram a ditadura militar, o canto de Elis na Olimpíada do Exército, a reação fulminante de Henfil no Pasquim, colocando-a no cemitério dos mortos-vivos, e a evolução que a levou a entoar o hino informal da anistia, “O Bêbado e a Equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc, onde se pedia a volta do irmão do Henfil (Betinho), estão muito bem retratados. A cena em que ela aparece sendo vaiada em show ao vivo me parece excessiva para ser considerada real. Os espetáculos, muito bem produzidos para palco, com ênfase teatral, além do show, como “Transversal do Tempo” e “Saudade do Brasil”, não aparecem. E o grande sucesso, “Falso Brilhante”, um ano em cartaz, não é retratado, realmente. Apenas a música cantada surge e não o frenesi que foi aquela montagem teatralmente empolgante. Em suma, o filme está cheio de lacunas e falhas, que não vão passar despercebidas aos fãs de Elis, que conhecem a sua trajetória. Ainda assim, é um espetáculo bom de se ver, com uma atriz sensacional e uma música extraordinariamente bela. A produção serve mais é para dar muita saudade!
Turnê da volta dos Novos Baianos vai ganhar documentário
A turnê que reúne a formação clássica da banda Novos Baianos vai virar filme. O diretor Paulo Fontenelle (“Divã a 2”) está preparando um documentário sobre os shows, que já passaram por São Paulo, Salvador, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. O documentário deve trazer depoimentos dos músicos Moraes Moreira, Baby do Brasil, Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor e Luiz Galvão, além de imagens dos shows – são 100 apresentações previstas até o final da turnê – e bastidores. Melhor grupo da geração surgida no embalo do Tropicalismo nos anos 1970, os Novos Baianos gravou grandes clássicos da música brasileira como “O Samba da Minha Terra”, “Preta Pretinha”, “Brasil Pandeiro”, “Acabou Chorare”, “Mistério do Planeta” e “A Menina Dança”. Seu segundo LP, “Acabou o Chorare” (1972), é um dos melhores discos nacionais da década de 1970.
Yorimatã resgata a carreira musical de Luli e Lucina
“Yorimatã” é um documentário que procura recuperar a rica história musical da dupla de cantoras e compositoras Luli e Lucina, que esteve no centro dos acontecimentos da MPB, nas décadas de 1970 e 1980. Conviveu e trabalhou com grandes talentos desses períodos, mas, por razões diversas, sempre acabou se afastando da ribalta, sem poder colher os frutos de seus inegáveis méritos. Para viver o amor que pulsava entre elas, junto com a música. Para construir uma família a três, com o fotógrafo Luís Fernando Borges da Fonseca. Para viver uma vida hippie no mato, longe da cidade, em economia de subsistência, por opção ideológica. E, também, retornando às origens da natureza, quando um câncer acometeu Luís Fernando, para estar com ele na doença. Com tantos percalços e opções viscerais ou radicais, a dupla não alcançou o sucesso que sempre esteve por perto. Mas tem muito o que mostrar, nas imagens recuperadas das filmagens em VHS e fotos que Luís Fernando registrou por longos anos. E nos depoimentos atuais delas, de Gilberto Gil, Zélia Duncan, Tetê Espíndola, Ney Matogrosso, Antonio Adolfo, Joyce e outros mais. Para quem não conhece, ou conhece pouco, o filme mostra as músicas e o universo cultural da produção delas muito bem. O título “Yorimatã”, segundo a dupla, é uma espécie de palavra mágica que significa “salve a criança da mata”. Primeiro longa do diretor Rafael Saar, o filme venceu o festival In-Edit Brasil, dedicado a documentários musicais. https://www.youtube.com/watch?v=Yc-RDFzgDIk







