Editorial: A politização da cultura brasileira na era de Aquarius
A politização de cineastas e atores brasileiros tem se mostrado um fenômeno saudável, pois os recentes choques de opinião e manifestação de artistas contrários ao governo federal transmitem sinais inequívocos da estabilidade institucional no pais. Não há convulsão social nem governo de exceção censurando protestos, como seria característica de um golpe de Estado. Há, inclusive, um clima de tolerância com a ocupações de espaços públicos e uma mídia disposta a ouvir quem quiser afirmar que se vive um golpe. Obviamente, o direito de opinião e manifestação não é exclusivo de uma classe ou apenas de quem pensa igual. Quem discorda do que é dito ou feito também vai opinar e se manifestar em contrariedade. Um ambiente democrático se enriquece com essa pluralidade de opiniões. Mas nesses tempos de redes sociais se vive com mais força o acirramento. A repercussão da polêmica iniciada pela equipe do filme “Aquarius” no Festival de Cannes é um exemplo de como as posições estão acirradas. No tapete vermelho do evento francês, o diretor Kleber Mendonça Filho, os atores Sonia Braga, Humberto Carrão e Maeve Jinkings, entre outros envolvidos na produção, levantaram cartazes que chamavam de golpe de estado o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Um dos cartazes chegava a afirmar, em inglês, que “O Brasil não é mais uma democracia”. Na ocasião, os principais integrantes da produção também deram entrevistas, reiterando o ponto de vista de que a democracia brasileira teria sofrido um golpe político. Como reação, grupos contrários manifestaram a intenção de organizar um boicote ao filme. Ao mesmo tempo, a tese de criminalização da Lei Rouanet, que incentiva filmes como “Aquarius”, ganhou terreno. Houve até uma tentativa de incluir produtores culturais na malha da Lava Jato, rechaçada pelo juiz Sérgio Moro. A raiva despertada pelo protesto francês tem, embutida, o discurso da defesa da imagem do Brasil. Esta tese foi reverberada em entrevista do Ministro da Cultura ao programa “Preto no Branco”, exibido no domingo (5/5) no Canal Brasil. “Como qualquer manifestação, tem que ser respeitada, isso está fora de questionamento”, disse o ministro Marcelo Calero, demarcando o limite democrático. “Agora, acho ruim, em nome de um posicionamento político pessoal, causar prejuízos à reputação e à imagem do Brasil”, ele esclareceu, evocando a tese de que afirmar que houve um golpe é alinhar o Brasil às repúblicas de bananas dos clichês latinos. Calero elevou o tom. “Estão comprometendo [a imagem do país] em nome de uma tese política, e isso é ruim. Eu acho até um pouco totalitário, porque você quer pretender que aquela sua visão específica realmente cobre a imagem de um país inteiro. Eu acho que a democracia precisa ser respeitada e acho que é um desrespeito falar em golpe de Estado com aqueles que viveram o golpe realmente, o de 1964. Pessoas morreram. E as pessoas esquecem isso. Então eu acho [o protesto] de uma irresponsabilidade quase infantil.” As críticas aconteceram no contexto de uma entrevista a um programa de TV, no qual o ministro foi incentivado a dar sua opinião sobre o assunto. Anteriormente, a equipe de “Aquarius” também deu, em entrevistas, suas opiniões sobre a situação do Brasil e a breve extinção do Ministério da Cultura. Passou batido, porém, a ocasião em que Kleber Mendonça Filho afirmou que o país era uma democracia e que, por isso, poderia se manifestar como quisesse. “A gente vive numa democracia. Essa é a minha resposta”, ele disse em maio, logo após o protesto, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, respondendo se temia retaliação – além de cineasta, ele tem um cargo numa fundação ligada ao Ministério da Cultura. “A gente vive numa democracia, e eu tenho direito de expressar o que acho sobre temas políticos”, reforçou, poucas horas após sua equipe levantar cartazes em se podia ler que o Brasil já não era uma democracia. E quando o repórter insistiu, veio a confirmação final: “Queria entender se o Brasil que era quando eu viajei para cá já mudou. Ainda continuo me comportando como se estivesse numa democracia”, discursou. Em suma, Kleber Mendonça Filho defende seu legítimo direito de manifestação por viver numa democracia, mesmo que seja para dizer no exterior que não vive numa democracia. Com o que o próprio ministro Marcelo Calero concorda, “fora de questionamento”. Entretanto, a opinião do ministro sobre o protesto foi questionada pelo diretor e pela atriz Sonia Braga nas redes sociais, como se ele, por sua vez, não tivesse esse direito, nem sequer no contexto de uma entrevista. Mas o ministro goza da mesma liberdade de expressão que é assegurada ao cineasta e à atriz, que, inclusive, replicam como querem, comprovando que há anos a democracia não é tão discutida e vivenciada neste país. Entretanto, chama atenção o tom de “calaboca” nos posts replicantes, onde se percebe uma arrogância do tipo “saiba com quem está falando” que não condiz com o ideal democrático defendido, supostamente, por ambos os lados. “Caro Ministro Calero, talvez isso aqui redefina sua noção de o nosso país passar vergonha internacionalmente”, escreveu Mendonça, incluindo em seu post um link para um texto sobre um editorial do jornal The New York Times, que versa sobre a corrupção no governo Temer. “O The New York Times é o mesmo jornal de influência mundial que incluiu meu filme anterior – ‘O Som ao Redor’ -, fruto do MinC, entre os 10 Melhores de 2012, um orgulho para a Cultura Brasileira”. Nunca é demais lembrar que a corrupção citada no post do cineasta não começou após o afastamento da presidente Dilma Rousseff há poucas semanas, sendo fruto de 13 anos de governo petista, em aliança com os partidos de Temer e Maluf. E que “O Som ao Redor” é mesmo um ótimo filme. Mas o que isso acrescenta na discussão, além de ego e tegiversação? Sonia Braga foi ainda mais fundo em seu post, arrancando urros de júbilo nas redes sociais, além de render algumas manchetes reveladoras. “A diva e o guri: Sonia Braga manda ‘ministro’ Marcelo Calero se situar”, descreveu o blog de Luis Nassif, festejando a enquadrada. “Estrela de filme pernambucano, Sonia Braga dá ‘aula de história’ a ministro da Cultura”, ponderou o jornal Diário de Pernambuco, sugerindo ironia. E, em outro espectro: “Sonia Braga não aceita ser criticada por ministro mais novo: ‘É inadmissível'”, titulou o Blasting News, mais divertido que os demais. Vale a pena conferir o subtítulo da matéria: “De acordo com atriz, Ministro é muito novo para entender problemas dos artistas”. De rolar de rir. Publicado no Facebook, o texto da atriz tem a intenção de ser sério. Ele começa dando uma “aula de história para o senhor Marcelo Calero, 33 anos de idade. Eu, só de profissão, tenho 50”. E passa a narrar a luta pelo reconhecimento da profissão de ator nos anos 1970, embutindo no meio realizações pessoais. “Naquela época, acredito, o senhor Marcelo ainda não havia nascido. Por isso, não deve ainda ter tido tempo de aprender sobre os nossos problemas e os nossos direitos”, ela diz, de forma impressionante. E nisso encaixa uma crítica à entrevista de Calero. “Como pode um Ministro dizer que um ato democrático como o nosso é a representação de um País inteiro? Isso é desconhecimento do que significa plena democracia. Se estivéssemos falando em nome de todos não precisaríamos, evidentemente, fazer o ato. Uma coisa é certa: estamos juntos”. O trecho que chama mais atenção tem enunciado mais claro e impactante. “O Ministro da Cultura ofendendo artistas é inadmissível. O senhor está nesse cargo para dialogar, para nos ajudar, para fazer a ponte com quem nos explora”. Entra-se num terreno muito delicado. Uma opinião passa a ser tratada como ofensa. “O Ministro da Cultura ofendendo artistas” é uma frase forte e, convenhamos, tão sensacionalista quanto a manchete do Blasting News. Mas não poderia o mesmo ministro dizer que artistas brasileiros ofendendo o Brasil é inadmissível? A narrativa do golpe se diferencia da narrativa do Impeachment neste quesito. Dependendo do ponto de vista, dizer que houve golpe, que não há democracia no Brasil e conclamar nações a não reconhecerem o governo pode, sim, ser considerado ofensivo – no mínimo. Felizmente, a democracia brasileira já está madura o suficiente, com apenas 28 anos – mais jovem, portanto, que o ministro – para fazer prevalecer a tolerância. Para completar seu raciocínio, Sonia cita as críticas “fabulosas” que “Aquarius” recebeu no exterior como um “ponto grande para a imagem da cultura brasileira no exterior”. E encerra com o que não tem outro nome: uma lição de moral. “Senhor Ministro, não podemos perder as nossas conquistas. Sobretudo a mais importante delas, o respeito”. A Pipoca Moderna sempre apoiou o cinema brasileiro de qualidade, como os filmes de Kleber Mendonça Filho, e pretende continuar usando sua pequena ressonância para lutar por maior espaço no circuito para essas obras. Boicotes são legítimos numa democracia, assim como nossa postura assumida e conhecida de rechaçar grupos intolerantes. Para ficar claro: jamais promoveremos boicotes e sempre destacaremos filmes de conteúdos sociais relevantes, assim como apoiamos o direito de manifestações pacíficas, como têm sido as realizadas em torno de “Aquarius”. Do mesmo modo e pelas mesmas razões, tampouco simpatizamos com patrulhas ideológicas. Quando o discurso em prol da democracia embute desprezo ao contraditório, escancara o que esquerda e direita têm em comum: um viés totalitário, na busca de uma visão hegemônica de mundo. Ao contrário disso, a democracia se fortalece com a convivência de vozes divergentes. O protesto em Cannes só é legítimo na medida em que se pode criticá-lo. Talentosos como são Kleber e Sonia, eles sabem que narrativas maniqueístas só convencem quem quer ser convencido, enquanto, para os demais, mostram-se inverossímeis, sem muito acrescentar.
Sonia Braga e Kleber Mendonça Filho polemizam com Ministro da Cultura
A atriz Sonia Braga e o diretor Kleber Mendonça Filho responderam às críticas feita pelo Ministro da Cultura Marcelo Calero ao protesto político da equipe de “Aquarius” no tapete vermelho do Festival de Cannes. O Ministro fez seu comentário durante entrevista no programa “Preto no Branco”, do Canal Brasil, o cineasta e a atriz responderam com um posts no Facebook. O motivo da nova polêmica foram as expressões usadas por Calero, que classificou o protesto de “quase infantil” e “até um pouco totalitário”. Vale lembrar o caso. No tapete vermelho do Festival de Cannes, o diretor Kleber Mendonça Filho, os atores Sonia Braga, Humberto Carrão e Maeve Jinkings, entre outros envolvidos na produção, levantaram cartazes que chamavam de golpe de estado o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Um dos cartazes chegava a afirmar, em inglês, que “O Brasil não é mais uma democracia”. Calero disse que o ato pode ter prejudicado a imagem do país internacionalmente. “Como qualquer manifestação, tem que ser respeitada, isso está fora de questionamento. Agora, acho ruim, em nome de um posicionamento político pessoal, causar prejuízos à reputação e à imagem do Brasil”, ele afirmou durante a entrevista. “Estão comprometendo [a imagem do país] em nome de uma tese política, e isso é ruim. Eu acho até um pouco totalitário, porque você quer pretender que aquela sua visão específica realmente cobre a imagem de um país inteiro. Eu acho que a democracia precisa ser respeitada e acho que é um desrespeito falar em golpe de Estado com aqueles que viveram o golpe realmente, o de 1964. Pessoas morreram. E as pessoas esquecem isso. Então eu acho [o protesto] de uma irresponsabilidade quase infantil.” Em seu Facebook, Mendonça Filho respondeu com o post de uma reportagem a respeito de um editorial do jornal “The New York Times” que questiona o compromisso do presidente Michel Temer em combater a corrupção. O texto menciona a ficha suja de ministros do governo. Junto do link, o cineasta escreveu: “Caro Ministro Calero, talvez isso aqui redefina sua noção de o nosso país passar vergonha internacionalmente. O The New York Times é o mesmo jornal de influência mundial que incluiu meu filme anterior – ‘O Som ao Redor’ -, fruto do MinC, entre os 10 Melhores de 2012, um orgulho para a Cultura Brasileira. Abs, Kleber”. Sonia Braga foi ainda mais aguda. “Como pode um Ministro dizer que um ato democrático como o nosso é a representação de um País inteiro?”, indagou Sonia. “Isso é desconhecimento do que significa plena democracia. Se estivéssemos falando em nome de todos não precisaríamos, evidentemente, fazer o ato”, disse. Ela é mais clara na parte que sobe o tom: “o Ministro da Cultura ofendendo artistas é inadmissível. O senhor está nesse cargo para dialogar, para nos ajudar, para fazer a ponte com quem nos explora”. A atriz abre o texto lembrando da diferença de idade entre os dois — Calero tem 33 anos, enquanto Sonia completa 66 nesta quarta-feira, 50 deles dedicados à profissão. “Na época da Abertura, os artistas não tinham sequer uma lei que regulasse a profissão. Essa lei foi promulgada em 1978, depois de muita luta, da qual tive a honra de participar. Naquela época, acredito, o senhor Marcelo ainda não havia nascido. Por isso, não deve ainda ter tido tempo de aprender sobre os nossos problemas e os nossos direitos”, relembrou, em tom professoral. Por fim, Sonia lembra que “Aquarius”, longa dirigido por Kleber Mendonça Filho, foi um sucesso de crítica no 69º Festival de Cannes: “A propósito, as críticas para ‘Aquarius’ foram fabulosas. Quatro estrelas em jornais franceses, italianos, poloneses, russos e três citações no The New York Times. Ponto grande para a imagem da cultura brasileira no exterior”. Ela encerra o texto com uma lição de moral: “senhor ministro, não podemos perder as nossas conquistas. Sobretudo a mais importante delas, o respeito”.
Ministro da Justiça critica protesto de artistas em Cannes
O Ministro da Cultura Marcelo Calero criticou o protesto que a equipe do filme “Aquarius” realizou durante o Festival de Cannes, em maio, classificando-o como “quase infantil” e “até um pouco totalitário”. No tapete vermelho do evento, o diretor Kleber Mendonça Filho, os atores Sonia Braga, Humberto Carrão e Maeve Jinkings, entre outros envolvidos na produção, levantaram cartazes que chamavam de golpe de estado o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Um dos cartazes chegava a afirmar, em inglês, que “O Brasil não é mais uma democracia”. Calero disse que o ato pode ter prejudicado a imagem do país internacionalmente. “Como qualquer manifestação, tem que ser respeitada, isso está fora de questionamento. Agora, acho ruim, em nome de um posicionamento político pessoal, causar prejuízos à reputação e à imagem do Brasil”, ele afirmou durante entrevista realizada no programa “Preto no Branco”, do Canal Brasil, exibida no domingo (5/6). “Estão comprometendo [a imagem do país] em nome de uma tese política, e isso é ruim. Eu acho até um pouco totalitário, porque você quer pretender que aquela sua visão específica realmente cobre a imagem de um país inteiro. Eu acho que a democracia precisa ser respeitada e acho que é um desrespeito falar em golpe de Estado com aqueles que viveram o golpe realmente, o de 1964. Pessoas morreram. E as pessoas esquecem isso. Então eu acho [o protesto] de uma irresponsabilidade quase infantil.” Em entrevista ao jornal ‘Folha de S.Paulo’ após a manifestação em Cannes, Kleber Mendonça ignorou os próprios cartazes que levantou (lembrando: “O Brasil não é mais uma democracia”), afirmando que o país é uma democracia e que, por isso, tem o direito de expressar o que acha sobre temas políticos. “O protesto em Cannes foi um gesto simbólico. O país está dividido”, ele avaliou. Em sua entrevista, Calero teve o cuidado de não demonizar a Lei Rouanet, responsável pelo incentivo fiscal à Cultura no Brasil, após o ato de “Aquarius” ampliar um preconceito cada vez mais disseminado contra artistas que viveriam às custas do Estado. Fazendo críticas à gestão de seu antecessor, Juca Ferreira, que aprovou projetos claramente comerciais, ao mesmo tempo em que usou isso como exemplo contra a própria a lei, na busca de aprovar um substitutivo controverso, o Ministro da Cultura defendeu a importância dos incentivos fiscais. “A gente não pode pegar um ou outro caso, de um musical que poderia ter conseguido, sem a Lei Rouanet, a sua viabilidade, e dizer que a lei é uma porcaria e jogar tudo na lata do lixo. Hoje, a Lei Rouanet patrocina orquestras Brasil afora, museus importantíssimos. Se não fosse a Rouanet, a Orquestra Sinfônica Brasileira não existiria.” O Ministro informou ainda que estuda fazer ajustes no mecanismo de incentivo cultural, mas destacou que, do total de isenções fiscais concedidas pela União, apenas 0,6% são para a Cultura. “É muito pouco. Não justifica esse discurso do ódio contra a Lei Rouanet.”
Cannes: Novo filme de Ken Loach vence a Palma de Ouro
O veterano cineasta britânico Ken Loach foi o vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes com seu novo filme, o drama “I, Daniel Blake”, sobre um marceneiro em guerra contra a burocracia da previdência social. Em seu discurso, ele mencionou a crise econômica europeia. “A política neoliberal trouxe a miséria, da Grécia a Portugal, com um pequeno número de pessoas que enriquecem com isso”, afirmou. “Defendo um cinema de protesto, que coloca os fracos contra os poderosos. Um outro mundo não é só possível, mas necessário”. Foi a segunda vez que Loach venceu a distinção. A anterior foi há exatos dez anos, com o drama histórico “Ventos da Liberdade”. Como naquela oportunidade, seu filme não aparecia na lista dos favoritos da crítica, que neste ano destacou “Elle”, do holandês Paul Verhoeven, “Paterson”, do americano Jim Jarmusch, “Graduation”, do romeno Cristian Mungiu, “The Salesman”, do iraniano Asghar Farhadi, e o vencedor do prêmio da crítica, “Toni Erdmann”, da cineasta alemã Maren Ade. As decisões do juri da Palma de Ouro, presidido por George Miller (“Mad Max: Estrada da Fúria”), foram consideradas polêmicas e renderam até vaias. A maior saia justa aconteceu durante a entrega do troféu de Melhor Direção para o francês Oliver Assayas, cujo filme, “Personal Shopper”, em que Kristen Stewart tenta contatar o fantasma de seu irmão gêmeo, tinha sido vaiado durante a projeção para a crítica. A exibição para o público, porém, foi aplaudida longamente. Assayas dividiu o troféu de direção com um favorito da crítica, Cristian Mungiu, cujo filme “Graduation” foca o dilema de um pai disposto a apelar à corrupção para que a filha tenha um futuro melhor. Também foi surpreendente a escolha do novo filme do canadense Xavier Dolan, “Juste la Fin du Monde”, como vencedor do Grande Prêmio do Juri, conferido ao segundo melhor longa da competição. Afinal, o trabalho foi considerado desapontador e um dos mais fracos da carreira do menino-prodígio, que já tinha sido premiado com um Prêmio do Júri, equivalente ao terceiro lugar, por “Mommy” (2014). O vencedor do Prêmio do Júri deste ano foi “American Honey”, da britânica Andrea Arnold, sobre jovens americanos que se sustentam vendendo revistas, enquanto transam, se drogam e viajam pelos EUA numa van. Um dos filmes mais elogiados, “The Salesman”, de Asghar Farhadi, acabou se tornando o trabalho mais premiado do festival ao levar dois troféus: Melhor Roteiro, para o próprio Farhadi, e Melhor Ator para Shahab Hosseini. Na trama, ele vive um professor que precisa lidar com uma tentativa de estupro da mulher. O troféu de Melhor Atriz foi para a filipina Jaclyn Jose, que vive a personagem-título de “Ma’Rosa”, de Brillante Mendoza, uma mulher que vende drogas para sustentar os filhos. Nenhum americano levou um souvenir de Cannes para casa. O mesmo também aconteceu com “Aquarius”, do brasileiro Kleber Mendonça Filho. Mas o Brasil foi lembrado entre os curtas. “A Moça que Dançou com o Diabo”, de João Paulo Miranda Maria, levou uma menção especial do júri de curta-metragens, presidido pela cineasta japonesa Naomi Kawase (“Sabor da Vida”). O filme é uma releitura contemporânea de um lenda do interior paulista, contada há mais de cem anos, e trata de uma menina que vive o conflito entre a religião e suas descobertas da adolescência. Vencedores do Festival de Cannes 2016 Palma de Ouro “I, Daniel Blake”, de Ken Loach (Reino Unido) Grande Prêmio do Júri “Juste la Fin du Monde”, de Xavier Dolan (Canadá/França) Melhor diretor Olivier Assayas, por “Personal Shopper” (França), e Cristian Mungiu, por “Graduation” (Romênia) Melhor atriz Jaclyn Jose, por “Ma’ Rosa”, de Brillante Mendoza (Filipinas) Melhor ator Shahab Hosseini, por “The Salesman”, de Ashgar Farhadi (Irã) Melhor roteiro Asghar Farhadi, por “The Salesman” (Irã) Prêmio do Júri “American Honey”, de Andrea Arnold (Reino Unido/EUA) Prêmio Caméra d’Or (melhor primeiro filme) “Divines”, de Houda Benyamina (Afeganistão) Melhor curta-metragem “Time Code”, de Juanjo Gimenez (Espanha) Menção especial – curta-metragem “A Moça que Dançou com o Diabo”, de João Paulo Miranda Maria (Brasil) Palma de Ouro Honorária Jean-Pierre Léaud, ator de filmes clássicos de François Truffaut
Cannes: Filme finlandês de boxe vence a mostra Um Certo Olhar
O drama finlandês “The Happiest Day in the Life of Olli Maki”, do estreante Juho Kuosmanen, foi o vencedor da mostra Um Certo Olhar (Un Certain Regard), a seção paralela mais prestigiosa do Festival de Cannes. Filmado em preto e branco, o longa-metragem conta a história de Olli, um jovem padeiro de uma pequena cidade, que é boxeador nas horas vagas e se prepara para disputar o título de peso pena com um campeão americano. Mas, durante os treinos, ele se apaixona e acaba perdendo o foco, tendo que fazer esforços tremendos para atingir o peso ideal. Trata-se de uma história simples, mas muito bem contada, de forma sensível. A premiação também consagrou o americano Matt Ross, ator da série “Sillicon Valley”, que assinou seu segundo longa, “Captain Fantastic”, com o prêmio de Melhor Direção. O longa traz Viggo Mortensen como um pai de seis filhos prodígios, criados no isolamento de uma floresta com a melhor educação possível – de filosofia à física quântica – , que, no entanto, não foram preparados para conviver no mundo de redes sociais e namoros fortuitos que eles vêm a conhecer durante um funeral que reúne todos os parentes distantes. A crítica internacional amou. O cinema francês ficou com o troféu de Melhor Roteiro, dado para as irmãs cineastas Delphine e Muriel Coulin (roteiristas de “Samba”) por seu filme “The Stopover” (Voir du Pays), passado durante três dias de folga de duas soldadas da Guerra do Afeganistão. “Harmonium”, do japonês Kôji Fukada (“Sayônara”), que mostra o esfacelamento de uma família após um estranho passar a morar com eles, ficou com o Prêmio do Júri. E a animação “The Red Turtle”, primeiro longa do holandês Michel Dudok de Wit, que já tem um Oscar de Melhor Curta Animado (“Father and Daughter”, de 2000), completou a lista de consagrados com o Prêmio Especial do Júri. Vencedores da Mostra Um Certo Olhar 2016 Melhor Filme The Happiest Day in the Life of Olli Maki, de Juho Kuosmanen Melhor Direção Matt Ross, por Captain Fantastic Melhor Roteiro Delphine e Muriel Coulin, por The Stopover Prêmio do Júri Harmonium, de Koji Fukada Prêmio Especial do Júri The Red Turtle, de Michel Dudok de Wit
Cannes: Cinema Novo, de Eryk Rocha, vence prêmio de Melhor Documentário do festival
O filme “Cinema Novo”, dirigido por Eryk Rocha, venceu o prêmio Olho de Ouro (L’Oeil d’Or), dado ao Melhor Documentário exibido ao longo de todas as mostras do Festival de Cannes. “‘Cinema Novo’ é um filme-manifesto sobre a vigência de um movimento cinematográfico quase esquecido dos anos 1960”, indicou o júri do prêmio, presidido por Gianfranco Rosi, vencedor do Urso de Ouro em Berlim esse ano e do Leão de Ouro em Veneza há dois anos com documentários, e que contava com um brasileiro, Amir Labaki, que organiza o festival É Tudo Verdade. O documentário integrou a mostra Cannes Classics, dedicada a filmes clássicos e à preservação da memória e do patrimônio cinematográfico mundial. Trata-se de um ensaio sobre a importância da revolução cinemanovista a partir do pensamento de seus principais autores, como Nelson Pereira dos Santos (“Rio, 40 graus”), Ruy Guerra (“Os Fuzis”), Cacá Diegues (“Ganga Zumba”), Leon Hirszman (“A Falecida”), Paulo César Saraceni (“Porto das Caixas”) e Glauber Rocha (“Deus e o Diabo na Terra do Sol”), pai de Eryk. O troféu Olho de Ouro é o mais novo prêmio paralelo do festival e foi concedido pela primeira vez no ano passado, quando o vencedor foi o chileno “Allende, Meu Avô Allende”, de Marcia Tambutti Allende. O filme brasileiro disputou a premiação com outros 16 documentários.
Cannes: Diretor de A Separação usa violência sexual como parábola do Irã moderno
Último filme exibido na competição do Festival de Cannes, “The Salesman” (Forushande), do iraniano Asghar Farhadi, também se foca na violência sexual contra uma personagem feminina. Mas num contexto completamente diferente do elogiado “Elle”, de Paul Verhoeven. O novo drama do diretor de “A Separação” (2011), vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, e de “O Passado” (2013), que rendeu à Bérénice Bejo o prêmio de melhor atriz em Cannes, volta a falar sobre os dilemas morais do Irã moderno. O fio condutor é uma história de mistério e vingança, que envolve um casal de atores de uma montagem local da peça “A Morte do Caixeiro Viajante” de Arthur Miller. Após serem forçados a abandonar seu prédio devido a uma obra, Emad (Shahab Hosseini) e Rana (Taraneh Alidoosti) se mudam temporariamente para um apartamento no centro de Teerã, antes ocupado por uma moradora de comportamento “promíscuo”. Certa noite, o lugar é invadido e a mulher é atacada enquanto toma banho. Temendo por sua privacidade, ela se recusa a procurar a polícia, o que provoca uma mudança de comportamento no então sereno marido. A tensão se eleva e afeta o relacionamento do casal, prejudicando até o trabalho de Emad como professor e a peça na qual os dois atuam. O diretor, que estudou teatro antes de se envolver com cinema, confessou que se sentiu voltando às origens ao filmar o mundo teatral, e que a história de Emad e Rana traça um paralelo com a dos protagonistas de “A Morte do Caixeiro Viajante”, que ambos encenam no palco. “Há tempos queria fazer um filme sobre uma peça de teatro”, disse o cineasta, durante a entrevista coletiva do festival. “A peça fala de personagens que tentam se encaixar em um mundo em transformação. O texto de Arthur Miller conta a história de homens e mulheres que não conseguem acompanhar as mudanças que estão acontecendo em Nova York nos anos 1940 e 1950. Emad e Rana também estão procurando seu lugar na sociedade iraniana, que está sedenta por modernidade. Eles não conseguem se adaptar aos novos tempos”, comparou. As comparações entre a vida real e a ficção teatral embutem na narrativa a discussão dos valores conservadores no Irã. “É fácil ver os conflitos anacrônicos. A escola em que Emad trabalha, por exemplo, ainda separa meninos de meninas. Eles vivem a dicotomia do país”, descreveu o diretor. Farhadi já havia trabalhado com Taraneh Alidoosti e Shahab Hosseini em “À Procura de Elly” (2009), o filme com o qual chamou atenção internacional, premiado no Festival de Berlim, e que era outra parábola moral, disfarçada de história de mistério. E os intérpretes conferem convicção a cada fotograma, enquanto a trama avança em ritmo firme para o suspense intenso.
Cannes: Filme de Paul Verhoeven excita, tensiona e eletriza o festival
O suspense “Elle” interrompeu a monotonia das vaias em Cannes com doses eletrizantes de tensão. Produção francesa dirigida pelo veterano holandês Paul Verhoeven, o filme traz Isabelle Huppert como uma empresária implacável que é estuprada, na própria casa, por um homem mascarado, e passa a lidar com a situação de forma ambígua. Ao retomar o gênero do thriller sexual, que traz à tona em sua filmografia o clássico “Instinto Selvagem” (1992), Verhoeven demonstrou que continua um mestre em criar situações perversas e obter desempenhos antológicos. A consagração, por meio de elogios rasgados da crítica, representa a volta por cima de um grande cineasta, que nos últimos anos, graças a sucessivos remakes de seus trabalhos, vem sendo alçado ao status de lenda cult. Inspirado em livro de Philippe Djian (o escritor de “Betty Blue”), “Elle” foi escrito pelo americano David Burke (“Os 13 Pecados”), especialista em terrores baratos, e quase foi rodado nos Estados Unidos, onde Verhoeven não filma desde “O Homem sem Sombra” (2000). Mas Hollywood não saberia lidar com a escuridão madura do filme, após virar as costas para o diretor que fez, ainda, “RoboCop” (1987), “O Vingador do Futuro” (1990) e “Tropas Estelares” (1997), franquias que rendem dinheiro para seus estúdios até hoje. “A ideia inicial do produtor Said Ben Said (coprodutor do brasileiro ‘Aquarius’), que já fez filmes para Roman Polanski, David Cronenberg e Brian DePalma, era, sim, ambientá-lo em uma cidade americana. Mas o livro é francês, Isabelle é uma atriz maravilhosa, e fiquei feliz de filmarmos em Paris. Seria um filme completamente diferente se feito nos Estados Unidos”, contou o cineasta, que está com 77 anos, na entrevista coletiva de Cannes. Sobre seu distanciamento de Hollywood, Verhoeven afirma que não tem encontrado roteiros interessantes nos Estados Unidos. “O que é feito lá hoje em dia não me interessa ou eu mesmo já fiz”, disse, ao mesmo tempo em que se mostrou aberto à propostas. “Se houver um bom roteiro… Dinheiro não importa. Ou melhor, ele chega de qualquer forma, se você é bom naquilo que faz.” Um bom roteiro, por sinal, foi o que fez Isabelle Huppert entrar em “Elle”. A grande atriz, que já foi premiada duas vezes em Cannes – na juventude, por “Violette” (1978), e no auge, por “A Professora de Piano” (2001) – , se disse encantada pela trama cheia de ironia, “que nunca dá explicações, só lança hipóteses, o que facilita a performance”. Sua personagem, Michelle, surge como uma mulher dura e pragmática, que administra tanto a empresa quanto a família da mesma forma, sem muita emoção. Marcada pelos crimes cometidos pelo pai em sua infância, ela mantém distanciamento nas relações com o filho, o ex-marido e a melhor amiga. E não altera sua rotina após sofrer a agressão sexual. Sem envolver a polícia, ela parece apenas curiosa em descobrir a identidade de seu agressor, aparentemente atraída pela ousadia. “A Michelle abre a porta para alguma coisa que gostaria que acontecesse com ela, mas não sabe como confessar isso. Ela é uma mulher que está se questionando o tempo todo, tentando entender quem é”, explicou Huppert. Ela não crê que o sentimento ambíguo despertado pelo estupro vá chocar o público. “A história não é um manifesto sobre um estupro. Não se trata de uma história realista, é como um conto de fadas, uma fantasia”, explica, separando arte e vida real. A consideração da atriz é importante nessa época em a arte vive sob ameaça constante do boicote politicamente correto. Num momento em que as mulheres debatam o machismo do cinema, a personagem de Huppert parece encontrar prazer em sofrer abusos. Sem esconder de ninguém, apenas da polícia, Michelle conta o caso de forma corriqueira para o ex-marido e colegas, que reagem com mais pavor que ela. Logo, fica clara a sua fascinação pelo homem que a violentou. O que deve causar grande rejeição entre as feministas. “A reação dela não é comum a todas as mulheres. Ela vive uma situação particular, que é só dela”, defende Huppert. “O filme não está falando sobre a situação geral das mulheres do mundo”, pondera. Para Verhoeven, porém, a reação de Michelle não é anormal. Anormal é quem se mostra capaz de voar numa produção cinematográfica. “Eu gosto de falar de pessoas, algo que anda se perdendo nas telas, sobretudo no cinema americano, onde os filmes de super-herói prevalecem. Com eles, nós estamos perdendo o contato com a normalidade. Devemos voltar a falar de pessoas normais, porque é nelas que está a riqueza”, disse o diretor. Veja Também: O Trailer
Cannes: Após vaias da crítica, filme de Kristen Stewart é aplaudíssimo pelo público
Até em Cannes, a crítica e o público não entram em acordo. O festival francês é conhecido pelo comportamento infantil da crítica, que vaia os filmes de que não gosta como se estivesse num estádio de futebol. Mas todo ano há dissonâncias. Filmes vaiados acabam premiados ou consagrados pelo público. Foi o que aconteceu, nesta semana, com “Personal Shopper”. O drama sobrenatural, que volta a reunir a estrela Kristen Stewart e o diretor francês Olivier Assayas, após o premiado “Acima das Núvens”, recebeu vaias sonoras da crítica, mas foi recebido pelo público com uma ovação ainda mais barulhenta. A première rendeu 4 minutos e meio de aplausos e elogios, com a plateia ficando de pé, ao final da projeção, para homenagear o diretor e o elenco. Pura consagração. Mais cedo, Kristen notou que a imprensa exagerou ao noticiar as vaias ao filme. “Não foi todo mundo que vaiou. Foi uma reação bem dividida”, disse a estrela. No filme, ela vive Maureen, uma assistente-escrava de um celebridade, que aceita os abusos da patroa irritante porque o trabalho lhe permite ficar em Paris “esperando”. Ela passa o tempo escolhendo roupas para a chefe enquanto aguarda o fantasma de seu irmão gêmeo lhe procurar. Os dois compartilhavam a mesma condição congênita, um coração fraco, e tinham um acordo mediúnico sobre esta situação. Aquele que morresse primeiro contataria o outro diretamente do além. E é o que ela espera que aconteça, após o irmão morrer na capital parisiense. O filme deixa claro que fantasmas existem. Mas também há outros perigos, no mundo dos bem vivos, na trama. Por enquanto, “Personal Shopper” só tem estreia comercial marcada para a Europa, em outubro.
Cannes: Terror com Elle Fanning rende vaias e palavrões
Cinco anos após ganhar o prêmio de direção no festival com “Drive” (2011), o diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn trocou de classe, deixando os incensados para se juntar aos vaiados em Cannes. Seu novo filme, o terror “The Neon Demon”, rendeu apupos sonoros, acompanhados por palavrões estrondantes, durante sua première no festival francês. Mesmo assim, teve quem se entusiasmasse com a estética adotada pelo cineasta para descrever o mundo da moda, com visual publicitário, canibalismo sangrento e trilha eletrônica. “The Neon Demon” acompanha a ascensão relâmpago de uma nova top model, Jesse (Elle Fanning), recém-chegada do interior, que estoura no mundo dos editoriais de moda e passarelas da sofisticada Los Angeles. Com sua beleza e ingenuidade, ela encanta agentes, fotógrafos e estilistas. Mas o mundo fashion é extremamente competitivo e seu sucesso desperta a inveja de um grupo de modelos capazes de tudo. O filme já começa com uma sessão fotográfica em que Jesse aparece coberta de sangue, num simbolismo do “mercado de carne” que seria a profissão de modelo. Trata-se apenas de um apetitivo para o verdadeiro banho de sangue e cenas de delírio que se seguem. Mas até a violência proposta é estilizada. “É um filme de terror adolescente sobre o universo da moda”, definiu Refn durante a entrevista coletiva. “Há algo aterrorizante na ideia de que o mundo deve ser só a beleza. E ainda assim é uma obsessão que só aumenta. Vemos isso acontecer na mídia social, na TV e nos filmes. Tenho duas filhas pequenas, e isso me assusta”, ponderou. Ao contrário de seus filmes anteriores, dominados por protagonistas masculinos, “The Neon Demon” é povoado por personagens femininas fortes, deixando intérpretes como Keanu Reeves (“De Volta ao Jogo”) e Desmond Harrington (série “Dexter”) em posições inferiores às personagens de Abbey Lee (“Mad Max: Estrada da Fúria”), Jena Malone (franquia “Jogos Vorazes”), Bella Heathcote (“Sombras da Noite”) e Christina Hendricks (série “Mad Men”). “Em ‘Drive’, levei a masculinidade do protagonista quase ao nível do homoerotismo. ‘Apenas Deus Perdoa’ era sobre emasculação, a ponto de sugerir um retorno ao útero materno. Em ‘The Neon Demon’, os homens são como as namoradas dos filmes anteriores. As mulheres, ao contrário, são tudo, estão no controle. Os homens que aparecem na história são representações de medo, de controle, e do instinto predatório. Eles são dominados por personagens femininos que permitem que eles tenham comportamento predatório, ou como o namorado de bom coração”, comparou o cineasta. A protagonista Elle Fanning tem só 18 anos e perdeu sua noite de formatura para acompanhar a première em Cannes. Mas sua simpatia ajudou a diminuir parte da resistência da crítica. “Eu comecei a atuar ainda garotinha, mas nunca perdi o perfil de quem vem de cidade pequena para tentar a sorte num lugar como Hollywood. Isso gera uma relação direta com a trama de ‘The Neon Demon'”, ela explicou, assumindo o paralelismo do filme com sua própria carreira. Ela também citou outra influência, a princípio nem tão clara, no desenvolvimento da trama. “A gente conversava muito sobre Dorothy de ‘O Magico de Oz’, que sai de um lugar pequeno para cair num universo fantástico. Mas, no nosso filme, o universo é sombrio”. Refn também aproveitou para explicar sua decisão de filmar um clima tão forte de terror. “Tive que falar sobre esse tema usando uma linguagem visual que os adolescentes de hoje compreendem. A criatividade, hoje, tem a ver com reações”, ele apontou, ao mesmo tempo em que se assumiu um cineasta punk rock, dizendo um palavrão: “fuck the system!” Nisso, Refn e a crítica concordaram. Ao final da première, não faltaram palavras fortes e sonoras como reação ao filme.
Cannes: Filme de Sean Penn é recebido com risos e piadas
A exibição do novo filme dirigido por Sean Penn, “The Last Face”, gerou uma reação inusitada do público e da crítica internacional presente no Festival de Cannes. Ao contrário de outros longas que não agradaram, ele não sofreu vaias. Em vez disso, rendeu risadas e piadas. “The Last Face” é uma história romântica sobre um médico de uma ONG, vivido pelo espanhol Javier Bardem (“007 – Operação Skyfall), e uma diretora de uma agência internacional de socorro a vítimas de regiões em conflito, interpretada pela sul-africana Charlize Theron (“Mad Max: Estrada da Fúria”). Ambientado entre campos de refugiados da África, o filme tem sua mensagem humanitária comprometida por um romantismo antiquado, repleto de diálogos melosos, que conferem à encenação uma atmosfera piegas e brega no último. “Defendo o filme como o ele é. Claro que todo mundo tem direito a reagir a ele da forma que quiser”, disse o ator e cineasta bissexto, que não dirigia desde “Na Natureza Selvagem” (2007). Na trama, o obstinado cirurgião dos Médicos Sem Fronteiras conhece a lobista humanitária durante a Guerra Civil da Libéria, em 2003, e seu romance é temperado pela luta pela sobrevivência durante o trabalho em várias zonas de conflito na África. O filme vai e volta para 2014, na África do Sul, quando os dois tentam uma reaproximação, depois de quase 10 anos separados. “Embarco no processo de fazer filmes olhando para o mundo. Muita coisa do filme é atual. A fome e ódio estão nos afastando de nossa humanidade. A melhor solução é encontrar beleza nas coisas. Mas o que entendemos por beleza hoje em dia é quase sempre uma perversão. E isso é lamentável”, ele proclama. Penn acredita que até um romance meloso pode ser politizado. “Acho importante entreter, quando entretenimento não é sinônimo do comportamento de um Donald Trump”, disse o diretor, referindo-se ao pré-candidato republicano à Presidência dos EUA. “Eu me interesso por filmes como esse, em que o amor está em guerra, e como essas coisas se misturam”, definiu o diretor. Entretanto, foi exatamente essa mistura que gerou constrangimento. As risadas começaram, na primeira exibição, quando a trama quis comparar “a brutalidade da guerra” com a “brutalidade de um amor impossível entre um homem e uma mulher”. E aumentaram quando ficou clara a quantidade de brancos (o franco-marroquino Jean Reno, o inglês Jared Harris, a francesa Adèle Exarchopoulos e até o filho do diretor estão no elenco) que ocupam o centro dramático, enquanto negros coadjuvam ou figuram como “causa”, numa África que há muito deixou de ser colonial. Isto até rende uma discussão política, mas não a que o diretor deve ter planejado. Penn quis fazer apenas um filme de amor em tempos de cólera e crise humanitária. O filme teria sido inspirado pelo romance entre Penn e Theron, ambos conhecidos por seus posicionamentos sociais. Mas, ao final da produção, esse relacionamento pessoal foi encerrado. Agora, os dois voltam a se encontrar, durante a divulgação, tendo que lidar com a rejeição ao trabalho. Destruído pela crítica, “The Last Face” está sendo considerado o pior longa-metragem do Festival de Cannes.
Cannes: Cristian Mungiu mostra a força irresistível da corrupção
O romeno Cristian Mungiu já tem uma Palma de Ouro, por “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” (2007), uma obra-prima sobre o horror da vida sob os escombros do comunismo, cujo título descreve um aborto. Ele também foi premiado em Cannes pelo roteiro de “Além das Montanhas” (2012), em que a crença religiosa leva uma jovem à morte. Cineasta que dá cores vivas a um mundo repleto de tons de cinza, ele volta a focar escolhas morais em situações limite em seu novo drama, “Graduation” (“Bacalaureat” no original e “formatura” em tradução literal). O filme gira em torno de um pai dedicado e médico de uma pequena cidade da Transilvânia, chamado Romeo (vivido por Adrian Titieni, de “Instinto Materno”), que preparou a filha (Maria-Victoria Dragus, de “A Fita Vermelha”) para ganhar uma bolsa de estudo para estudar na Inglaterra. Mas, às vésperas dos exames finais do colegial, ela sofre um ataque sexual, desmorona e põe em risco os planos de estudar longe da Romênia. Diante do problema, o pai se desespera e apela para formas de garantir a aprovação da filha, num país marcado pela corrupção e distribuição de propinas, mesmo que isso comprometa todos os princípios que ele ensinou para a menina. Para complicar ainda mais, há uma operação policial contra a corrupção no país – uma Lava Jato romena. A história de “Graduation”, como toda a obra de Mungiu, vem da experiência de viver numa sociedade atrasada por décadas de burocracia comunista, mas encontra enorme ressonância no mundo contemporâneo. A citação à Lava Jato já demonstra como o filme se aproxima da realidade do Brasil, mostrando a universalidade do tema proposto. “A história de Romeo é também uma história sobre uma sociedade e suas instituições”, explicou Mungiu, durante a entrevista coletiva no festival. “Há uma relação entre compromisso, corrupção, educação e pobreza?”, ele questiona, mostrando o debate político que a trama é capaz de inspirar. Ao colocar seus personagens diante de escolhas morais, transfere as mesmas perguntas ao espectador. “O filme fala de um pai que escolhe o que acha ser o melhor para a filha, se é aprendendo a viver no mundo real ou a lutar da forma que for possível para mudar esse mundo”. O cineasta filma tudo com grande naturalismo, sem histeria, como um registro sóbrio de uma realidade social. E foca o mundo inteiro. “Esta história não fala somente da Romênia, mas de uma forma de fazer certas coisas, de como deixamos o comércio entrar em nossas vidas. Espero que seja um filme universal”, ele conclui.
Cannes: Xavier Dolan desaponta ao filmar astros franceses
O jovem cineasta canadense Xavier Dolan tem apenas 27 anos, mas já possui uma bela coleção de troféus numa carreira que soma seis longa-metragens. Não foi por acaso que, após ganhar o reconhecimento de Cannes com o Prêmio Especial do Júri pela direção de “Mommy”, em 2014, ele retornou ao festival francês com status de favorito à Palma de Ouro. Entretanto, após as primeiras projeções de “Juste la Fin du Monde”, essa expectativa foi bastante reajustada. “Juste la Fin du Monde” é o primeiro filme de Dolan, que sempre filmou em francês, estrelado exclusivamente por atores da França. A obra é protagonizada por Gaspard Ulliel (“Saint Laurent”) e o elenco ainda inclui Léa Seydoux (“007 Contra Spectre”), Marion Cotillard (“Macbeth”), Vincent Cassel (“Em Transe”) e Nathalie Baye (“Uma Doce Mentira”). Adaptação da peça de mesmo nome de Jean-Luc Lagarce, acompanha um jovem escritor que, depois de 12 anos longe da família, volta para a casa de sua família para anunciar que em breve vai morrer. Entretanto, pequenas picuinhas e ressentimentos mudam o rumo do reencontro, enquanto todas as tentativas de empatia são sabotados pela incapacidade das pessoas para ouvir e amar. O texto lida com a insensibilidade humana. E o diretor pôde conhecer de perto o que isso significa pela reação da crítica ao filme, rotulado como o mais desapontador do festival. Na entrevista coletiva, ele se mostrou conformado. “Estou em Cannes, é normal que alguns filmes sejam bem recebidos, outros não. Talvez tome um tempo para que o filme possa se estabelecer: acho que as pessoas deveriam ouvir o filme, e não só vê-lo”, disse Dolan. “É o meu melhor filme”, completou, elogiando-se. Ele lembrou foi apresentado à peça há seis anos pela amiga e atriz Anne Dorval (de “Mommy”), e que na época também teve dificuldades em perceber sua profundidade. “Na primeira vez que a li, não me identifiquei com os personagens. Acho que não estava maduro o suficiente para entendê-la”. Durante o encontro com a imprensa, Dolan foi bastante questionado pela opção por uma narrativa permeada por close-ups no rosto dos atores, algo mais usado na televisão. “Senti que era necessário estar perto de todos os atores, que não podíamos estar distantes”, respondeu. “É um filme sobre linguagem, sobre comunicação, mas também silêncios e olhares que se vê nos rostos”, ele explicou. Essa proximidade, Dolan aponta, era necessária para transmitir o que não é verbalizado. “O mais fascinante do texto de Lagarce é o nervosismo que os personagens parecem demonstrar e, quando conseguem expressar, geralmente é sobre coisas inúteis. Eles falam e brigam sobre tudo, exceto sobre o que realmente sentem ou desejam profundamente dizer”, observou o diretor. O problema seria justamente esse. O que Dolan enxerga como trunfo, a crítica internacional apontou como defeito. Nem o texto nem os personagens seriam interessantes o suficiente para manter o espectador interessado na conclusão, nem mesmo com um elenco de estrelas francesas na tela. Dolan, porém, não deve se abater muito se o filme fracassar. Ele já está preparando seu próximo projeto, que será sua estreia em inglês, estrelado por Kit Harington (o Jon Snow de “Game of Thrones”), Natalie Portman (“Thor”) e Jessica Chastain (“Interestelar”). Veja Também: Filme de Xavier Dolan com astros franceses ganha fotos, pôsteres e duas cenas inéditas












