Estreias: Terrorismo, apocalipse e Deus disputam espaço nos cinemas
Duas semanas após “Batman vs. Superman” ocupar 45% das salas de cinema do país, ainda há pouco espaço para a renovação da programação. Lançamento mais amplo desta quinta (7/4), o thriller “Invasão a Londres” chega em “apenas” 350 salas pelo país. O filme de ação é uma sequência de “Invasão à Casa Branca” com mais explosões e ainda mais clichês. Desta vez, o elenco é vítima de atentados na capital da Inglaterra, quando terroristas aproveitam o funeral do primeiro ministro britânico para atacar outros líderes mundiais. Com 23% de aprovação no site “Rotten Tomatoes” e arrecadação de US$ 59,4 milhões, o filme não, digamos, explodiu. Fãs do gênero tem opção melhor, com pior distribuição. “Decisão de Risco” discute a ética da guerra moderna, que mata à distância, com drones, sem poupar vítimas civis. Estrelado por Helen Mirren (“A Mulher Dourada”), o filme tem 93% de aprovação no RT, mas entra em cartaz em somente 69 telas no país. Outra boa opção da safra hollywoodiana é “Rua Cloverfield, 10”, que registra 89% no RT. Rodado com pequeno orçamento e pouco marketing, a nova produção do cineasta J.J. Abrams (“Star Wars: O Despertar da Força”) estabelece um clima de mistério do começo ao fim, ao acompanhar uma jovem que, após um acidente, acorda num bunker com dois desconhecidos que alegam tê-la salvo do apocalipse. Chega em 287 salas. Quase com o mesmo número de telas, o drama religioso “Deus Não Está Morto 2” infelizmente é pouco mais que material de lobby em favor de mudanças na Constituição (americana, mas há margem para extrapolar), visando transformar as salas de aula em extensões das igrejas cristãs. Foi rechaçado nos EUA, com 23% de aprovação na imprensa e uma estreia pífia, em 4º lugar na semana passada. Para as crianças, a programação dos shoppings destaca a animação francesa “Asterix e o Domínio dos Deuses”, adaptação de um dos melhores álbuns em quadrinhos de René Goscinny e Albert Uderzo. Publicado originalmente em 1971, traz uma trama mais madura que os demais, refletindo concepções de modernidade da época. Estreia em 64 salas (29 com 3D). Em circuito mais restrito, há ainda a animação “Barbie e as Agentes Secretas”, que saiu direto e vídeo nos EUA e aqui vai ocupar 31 salas, exclusivamente nos cinemas da rede Cinépolis. O circuito limitado ainda destaca dois filmes europeus que depositam seu apelo em atores conhecidos. Em 30 salas, a comédia britânica “A Senhora da Van” é um veículo para Maggie Smith (série “Downton Abbey”) exibir seu talento lendário, vivendo uma velhinha sem teto adorável. Já o drama norueguês “Mais Forte que as Bombas” mostra Jesse Eisenberg (“Batman vs. Superman”) buscando superar o luto e o distanciamento da família causado pela morte da mãe (Isabelle Hupert, de “Amor”), uma fotógrafa de guerra. Estreia em inglês do cineasta Joaquin Trier (“Oslo, 31 de Agosto”), teve sua première em Cannes e chega ao Brasil em 16 salas. Três estreias nacionais completam a programação. A comédia romântica “De Onde Eu Te Vejo”, de Luiz Villaça (“O Contador de Histórias”), leva a 79 salas a história de um ex-casal que passa a morar na mesma rua. Com uma pegada mais autoral, “A Bruta Flor do Querer” conta a história de um cineasta recém-formado, que precisa ganhar a vida filmando casamentos. A estreia dos diretores Dida Andrade e Andradina Azevedo foi premiada no Festival de Gramado, mas chega só em 17 salas. Igualmente premiado – venceu o In-Edit Brasil – , o documentário musical “Yorimatã”, sobre a dupla Luli e Lucina, que fundiu MPB, batuque e movimento hippie nos anos 1970, ganha ainda menos telas: apenas quatro, divididas entre Rio, São Paulo e Niterói. Estreias de cinema nos shoppings Estreias em circuito limitado https://www.youtube.com/watch?v=Yc-RDFzgDIk
A semana tem um bolo de estreias, mas qualidade mesmo só no circuito limitado
Com o circuito ainda sob o impacto de “Batman vs. Superman”, a programação da semana se contenta com estreias de distribuição modesta nos shoppings. As opções incluem diferentes gêneros, num bolo de qualidade uniforme – nivelada por baixo. Quando a massa fermenta, são sempre os lançamentos limitados, de ingredientes mais refinados, que fogem da receita comum. O lançamento mais amplo chega em 362 salas. Com apelo nostálgico, a comédia “Casamento Grego 2” retoma a história da família de Toula (Nia Vardalos), 14 anos após o primeiro filme fazer história como o maior sucesso do cinema indie americano. Desta vez, o casamento do título é da filha da protagonista de 2002. Sem novidades, seu humor evoca séries de TV como “Modern Family” e não repetiu o sucesso de público e crítica do original. Abriu em 3º lugar na semana passada nos EUA, com 25% de aprovação no levantamento do site Rotten Tomatoes. Com a segunda maior distribuição aparece a pior estreia, a animação “Norm e os Invencíveis”, em 297 salas. Coprodução indiana, acompanha um urso polar que viaja a Nova York para conscientizar a humanidade a respeito dos perigos que envolvem a exploração do Ártico. Mas a mensagem se perde totalmente quando Norm começa a rebolar, as piadas ruins se acumulam e a trama começa a ficar cada vez mais parecida como uma reciclagem de “Happy Feet”, “A Era do Gelo” e “Madagascar” de baixa qualidade. Considerada podre na avaliação do Rotten Tomatoes, teve somente 9% de aprovação e fracassou com uma bilheteria total de US$ 17 milhões. A mediocridade continua com o terror “Visões do Passado”, estrelado por Adrian Brody (“O Pianista”). Psicólogo perturbado pela morta da filha descobre ter virado o personagem de Bruce Willis em “O Sexto Sentido” (1999). O que era novidade na época, é clichê agora. Chega em 115 salas, mas sequer teve lançamento cinematográfico nos EUA, onde vai sair direto em vídeo em abril (com 21% no RT). Outro fracasso de público nos EUA, a comédia “Voando Alto” entra em 114 salas. Mas, ao contrário dos anteriores, a crítica americana gostou deste filme (76% no RT), que tem dois astros carismáticos e é baseada numa improvável história real. A trama acompanha os esforços de Eddie Edwards (Taron Egerton, de “Kingsman – Serviço Secreto”), que, apesar da falta de talento, tenta competir como esquiador nos Jogos Olímpicos, com a ajuda de um treinador pouco convencional (Hugh Jackman, de “Wolverine – Imortal”). Infelizmente, o déjà vu é inevitável após “Jamaica Abaixo de Zero” (1993). Fecha o circuito dos multiplexes a estreia de “Zoom”, coprodução brasileira e canadense, falada em inglês, com atores dos dois países (e um mexicano) e dirigida pelo brasileiro Pedro Morelli (“Entre Nós”). O longa mistura animação e atores reais (Mariana Ximenes, Gael García Bernal, Claudia Ohana, Jason Priestley e Alison Pill) para entrelaçar, com metalinguagem, a história de três artistas: uma escritora (Ximenes), um diretor de cinema (Gael) e uma autora de histórias em quadrinhos (Pill). Estiloso, tem até potencial para virar cult, mas tende a dividir opiniões, devido à ênfase conferida à forma sobre o conteúdo. Abre em 93 cinemas. O cinema brasileiro também é representado por dois lançamentos do circuito limitado. O mais empolgante também tem maior alcance. O thriller “Para Minha Amada Morta”, de Aly Muritiba, leva para 30 salas a história de um marido que procura provas da infidelidade de sua esposa falecida, tramando uma vingança contra o suposto amante. Premiado nos festivais de Montreal e Brasília, a trama alude aos suspenses psicológicos clássicos, da escola de Hitchcock, mas entrega uma antítese, com pouca tensão. O outro filme brasileiro é uma coprodução portuguesa, que tem a menor distribuição da semana. O drama “Histórias de Alice”, de Oswaldo Caldeira (“O Bom Burguês”) estreia em duas salas no Rio e uma em São Paulo, contando a busca de um cineasta brasileiro (Leonardo Medeiros) por suas raízes portuguesas. Repleto de flashbacks e uma Portugal de cartão postal, o filme só ganha ritmo pela metade, mas seu público é mesmo limitado. Principal destaque dos “cinemas de arte”, o aguardado “A Juventude”, do cineasta italiano Paolo Sorrentino (“A Grande Beleza”), chega em apenas 20 salas. Belíssimo, acompanha um maestro aposentado que, durante suas férias na companhia da filha e do melhor amigo, é convidado a retomar a carreira. Sorrentino, que já tinha impressionado com a plasticidade de “A Grande Beleza”, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, consegue superar o elevado padrão estético daquele filme. E ainda conta com três astros veteranos (Michael Caine, Harvey Keitel e Jane Fonda), que combinam seus talentos míticos para conferir uma qualidade interpretativa insuperável à produção. Sua inexplicável ausência no último Oscar é contrastada pela vitória dos troféus de Melhor Filme, Diretor e Ator (Caine) na premiação da Academia de Cinema da Europa – o “Oscar europeu”. Completa a programação o drama espanhol “A Garota de Fogo”, de Carlos Vermut, vencedor do Festival de San Sebastian e que rendeu o Goya de Melhor Atriz à Bárbara Lennie. Trata-se de outro lançamento de ótima qualidade lançado em meia dúzia de salas numa única cidade – exclusivamente no Rio de Janeiro. A trama instigante acompanha um pai que tenta realizar o último desejo de sua filha doente: comprar o vestido da personagem de uma série japonesa que a menina cultua. Mas esta busca o leva por caminhos tortuosos e ao encontro de personagens bizarros. Estreias de cinema nos shoppings Estreias em circuito limitado
Zootopia é a maior e melhor estreia em semana repleta de bons lançamentos no cinema
Numa semana repleta de bons lançamentos, o mais amplo é “Zootopia – Essa Cidade É o Bicho”, nova animação da Disney, que chega em 950 salas (600 em 3D e 12 em Imax). O estúdio de Walt Disney, que tem como símbolo um animal falante que se veste como gente, trouxe a premissa antropomórfica à sua maturidade com “Zootopia”, uma obra repleta de intertexto, capaz de lidar com preconceitos e estereótipos, e trazer uma mensagem relevante de inclusão, enquanto diverte como poucas. Não só a coelha Judy Hopps e o raposo Nick Wilde são ótimos personagens, mas o ambiente elaborado em que vivem, repletos de coadjuvantes hilários, vira do avesso a história dos desenhos antropomórficos, gênero que, no passado, serviu para perpetuar inúmeros preconceitos raciais. Ágil, esperta, vibrante e bastante engraçada, a produção é simplesmente a melhor animação de bicho falante da Disney desde que os curtas do Mickey Mouse se tornaram falados. Não há como elogiá-la mais que isso. O épico “Ressurreição” tem a segunda maior distribuição da semana, ocupando 470 salas no vácuo do sucesso de “Os 10 Mandamentos”. Entretanto, apesar de sua narrativa estar fortemente ligada à origem do cristianismo, a produção é menos estridente em sua pregação religiosa. Na verdade, opta pela abordagem oblíqua, como “O Manto Sagrado” (1953), “Ben-Hur” (1959) e “Barrabás” (1961), clássicos do gênero sandália e espada que incluem histórias de Jesus. Na trama, Joseph Fiennes (que já foi “Lutero”) vive um centurião romano cético, que tem a missão de averiguar a ressurreição de Jesus e desmentir o boato do milagre. O resultado é uma aventura bem melhor que o esperado, com direito a um Jesus finalmente retratado como (Yeshua) um homem de pele mais escura e sem olhos azuis (o maori Cliff Curtis, da série “Fear the Walking Dead”). Em 86 salas, o suspense brasileiro “Mundo Cão” marca o reencontro do diretor Marcos Jorge com o roteirista Lusa Silvestre, que fizeram juntos o ótimo “Estômago” (2007). Mas os clichês de gênero e a dificuldade com que o clima tenso se encaixa no início mais leve e cômico deixam o filme nas mãos do elenco, que impressiona por sua capacidade de fazer o espectador embarcar na sua história de vingança setentista, sobre um homem violento, em busca de justiça pela morte de seu cachorro nas mãos de um funcionário do Departamento de Controle de Zoonoses (a popular carrocinha). Lázaro Ramos (“O Vendedor de Passados”) e Babu Santana (“Tim Maia”) estão ótimos como protagonistas, Adriana Esteves (“Real Beleza”) perfeita como a esposa evangélica, mas a surpresa fica por conta da jovem Thainá Duarte, em sua estreia no cinema, poucos meses após debutar como atriz na novela “I Love Paraisópolis” (2015). O circuito limitado destaca mais dois filmes brasileiros, ambos documentários. “Eu Sou Carlos Imperial” resgata uma figura histórica, fomentador da Jovem Guarda e cafajeste assumido, que escreveu hits, estrelou pornochanchadas e foi jurado de calouros do Programa Sílvio Santos. Repleto de imagens de arquivo e entrevistas exclusivas com Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Eduardo Araújo, Tony Tornado, Dudu França, Mário Gomes e Paulo Silvino, o filme tem direção da dupla Renato Terra e Ricardo Calil, que já havia realizado um ótimo resgate da história musical brasileira em “Uma Noite em 67” (2010). Chega em apenas três salas do Espaço Itaú, no Rio e em São Paulo. Por sua vez, “Abaixando a Máquina 2 – No Limite da Linha” é desdobramento de um documentário anterior sobre a ética do fotojornalismo, do “uruguaio carioca” Guillermo Planel. Com imagens muito potentes (de fato, sensacionais) e tom crítico, o filme mergulha nos protestos que se seguiram à grande manifestação de junho de 2013, questionando a cobertura da mídia tradicional, ao mesmo tempo em que abre espaço para a autoproclamada “mídia ninja”, buscando refletir o jornalismo na era das mídias sociais – que, entretanto, é tão ou até mais tendencioso. Desde que o filme foi editado, por sinal, aconteceram as maiores manifestações de rua do Brasil, que, além de historicamente mais importantes, politizaram o país com um debate que escapou da reflexão filmada – e que a tal “mídia ninja” faz de tudo para menosprezar. Será exibido em apenas uma sala, no Cine Odeon no Rio. Entre os filmes de arte que pingam nos cinemas, o que chega mais longe é “Cemitério do Esplendor”, nova obra climática do tailandês Apichatpong Weerasethakul, que venceu a Palma de Ouro em 2010 com “Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas”. Ocupa oito salas – quatro no Rio e as demais em Niterói, Maceió, Porto Alegre e São Paulo. A trama se desenvolve em torno de um hospital na Tailândia que recebe 27 soldados vítimas de uma estranha doença do sono. O drama francês “A Linguagem do Coração”, de Jean-Pierre Améris (“O Homem que Ri”) faz o público chorar em apenas seis salas (quatro em São Paulo, mais Porto Alegre e Campinas). Passada em 1885, mostra a dedicação de uma freira para ajudar uma menina nascida surda e cega a ter convívio social. A história é baseada em fatos reais. Por fim, a comédia dramática argentina “Papéis ao Vento” ocupa uma única sala, o Cine Belas Artes em Belo Horizonte. Trata-se da mais recente adaptação do escritor Eduardo Sacheri (“O Segredo dos Seus Olhos”), que a direção de Juan Taratuto (“Um Namorado para Minha Esposa”) transforma em filme sensível e envolvente, comprovando a qualidade atual do cinema argentino. A história gira em torno de três amigos que decidem recuperar o investimento do quarto integrante da turma, recém-falecido, que apostou tudo o que tinha num jogador de futebol decadente. Divertido e humanista, pena o lançamento ser invisível pra a maioria dos brasileiros, pois é questão vital aprender como o cinema de nuestros hermanos consegue ser popular e artístico simultaneamente. Estreias de cinema nos shoppings Estreias em circuito limitado
Estreias: Cinema argentino ganha destaque com remake e original premiado
As opções da semana permitem uma curiosa comparação entre o fraco remake americano de um ótimo filme argentino e um ótimo filme argentino original. Os cinéfilos não deveriam ter dúvidas sobre qual assistir. Por sorte, ambos estarão nos shoppings, embora o americano vá ocupar o triplo de salas. Refilmagem de “O Segredo dos Seus Olhos”, “Olhos da Justiça” copia as cenas mais marcantes do vencedor do Oscar 2010 de Melhor Filme Estrangeiro, mas muda o enredo para uma história de vingança básica, além de promover a transformação de um personagem masculino secundário na protagonista vivida por Julia Roberts. Estreou nos EUA no dia 20 de novembro, quando foi ignorado pelo público e repreendido pela crítica (44% no Rotten Tomatoes). Já “O Clã” é o filme do ano na Argentina. Sua bilheteria superou até mesmo o sucesso de “Relatos Selvagens” (2014). A história da família Puccio, que se tornou infame nos anos 1980 por sequestrar e matar pessoas, ainda rendeu o Leão de Prata de Melhor Direção a Pablo Trapero, no Festival de Veneza deste ano. Os shoppings também receberão a comédia culinária “Pegando Fogo”, em que Bradley Cooper volta a requentar o papel de chef, sua profissão na antiga série “Kitchen Confidential”, de 2005. Na época, não deu certo e a atração foi cancelada na 1ª temporada. Mais famoso, ele tenta novamente, obcecado em abrir um restaurante com a intenção de ganhar um prêmio. Por sinal, esta é a trama, não a desculpa da produção, dirigida por John Wells (“Álbum de Família”). Requentado em ideias e execução, “Pegando Fogo” se queimou com a crítica americana (29% no Rotten Tomatoes) e passou fome nas bilheterias do país. Entre os demais lançamentos, cinco são brasileiros. Infelizmente, todos estão restritos ao circuito limitado, com distribuição de guerrilha ou apenas de faz-de-conta. O mais amplo é o drama brasileiro “Oração do Amor Selvagem”, que chega em 13 salas. O longa do diretor Chico Faganello aborda superstições, o sobrenatural e o preconceito, foi selecionado para o Festival de Locarno e tem como destaque, além de mais uma bela interpretação de Chico Dias, a trilha de Zeca Baleiro. A lista também inclui a comédia dramática “Até que a Casa Caia”, que atira para muitas direções – corrupção, crise financeira, relacionamento moderno – , os documentários “Oswaldão”, sobre a lenda do guerrilheiro homônimo, “Memórias da Boca”, sobre a produção cinematográfica da Boca do Lixo, além da encenação poética/dramática “Em Três Atos”, que traz Nathalia Tinberg e Andréa Beltrão declamando textos de Simone de Bevoir sob direção de Lúcia Murat. A estreia mais restrita, porém, pertence à maratona cinéfila “Norte, O Fim da História”, do excêntrico cineasta filipino Lav Diaz, cujos filmes costumam durar entre três e quatros horas. Este até que é curto, tem “somente” 250 minutos. Mas vale a pena o esforço, pois é belíssimo e contundente. No mínimo, serve para introduzir Lav Diaz para os mais preguiçosos, que, por temer a duração de seus filmes, desconhecem um dos diretores mais importantes do cinema mundial atual. A lamentar que apenas os cinéfilos de Fortaleza e Niterói tenham acesso à esta preciosidade. Obras-primas costumam mesmo ser raras. Mas sua exposição também costuma ser maior do que alcance permitido por uma estreia em duas salas descentralizadas num país deste tamanho. Enquanto isso, a falsificação de uma obra-prima, embalada por Hollywood, estará disponível em todos os shoppings. [symple_toggle title=”Clique aqui para conferir todos os trailers das estreias da semana” state=”closed”] Estreias de cinema da semana Estreias em circuito limitado [/symple_toggle]
Estreias: Filmes brasileiros enfrentam Moby Dick e Angelina Jolie em semana de 17 lançamentos
Nada menos que 17 filmes estreiam nos cinemas nesta quinta (13/2) e metade (descontado o decimal) são brasileiros. De estilos e propostas bem diferentes, as produções vão do lazer de shopping center ao documentário micróbio – aquele que precisa de microscópio para ser encontrado em algum cinema. Entre os dois pólos, bons filmes lutam para chamar atenção em meio à saturação. Os trailers de todas as estreias podem ser conferidos abaixo. Parece muita coisa, mas a maioria só vai passar no Rio e em São Paulo, em circuito limitadíssimo. Nos shoppings, o maior lançamento é “No Coração do Mar”, cheio de som, fúria e vento. Embora seja dirigido por Ron Howard (“O Código Da Vinci”) e estrelado por Chris Hemsworth (“Os Vingadores”), é um filme de efeitos e, ao contrário de seu título, sem coração. A trama baseia-se na história real que inspirou o romance “Moby Dick”. Há mais quatro filmes americanos, bem diferentes entre si. “O Natal dos Coopers” é a típica comédia natalina que Hollywood lança todo o ano – Diane Keaton, a matriarca da trama, já passou Natal mais feliz em “Tudo em Família (2005). O feriado cristão também pode levar público a “Quarto de Guerra”, drama evangélico que parece telefilme e promete lavagem cerebral. Já o vazio existencial de “À Beira-Mar” celebra dois fetiches de Angelina Jolie: seu marido Brad Pitt, com quem divide as cenas, e o cinema de Michelangelo Antonioni, que ela emula em cada segundo de tédio bem fotografado. Mas é outro ator-diretor quem surpreende – sem afetação e fazendo o básico. Estreia na direção de Joel Edgerton, “O Presente” explora o suspense de forma intensa e efetiva, configurando-se na melhor opção do grande circuito. As estreias brasileiras também se repartem em gêneros e resultados distintos. Dois lançamentos têm apelo popular e distribuição ampla: “Bem Casados” segue a linha das comédias histriônicas, que tem feito sucesso e arrasado – em todos os sentidos – o cinema nacional, enquanto “Tudo que Aprendemos Juntos” aposta no melodrama, com história de superação e professor bonzinho, seguindo fórmula americana. As duas ficções restantes são mais autorais. “Califórnia” revela o drama de uma adolescência “poética”, mas bem convencional em seus clichês, passada nos anos 1980 entre o pós-punk e a Aids. Já “O Fim e os Meios” transforma a atual conjuntura política, marcada pela corrupção, em suspense anticonvencional, com narrativa estruturada fora de ordem. Vale destacar que o diretor deste filme, Murilo Salles, também está lançando dois documentários, “Passarinho Lá de Nova Iorque” e “Aprendi a Jogar com Você”, com patrocínio do BNDES – banco público, alvo de questionamentos mais graves que os apontados na obra de ficção. Mais dois documentário completam a seleção brasileira: “5 Vezes Chico – O Velho e Sua Gente”, produção da Globo sobre o rio que será tema de sua próxima novela, e “Através”, viagem a Cuba na carona de uma jovem cubana que planeja sair do país, mas, no meio do caminho, encontra uma ficção perdida em sua história. Como sempre, o circuito limitado preenche sua programação com arte, exibindo obras dos principais festivais internacionais. Dois filmes vem de Cannes: a comédia “Dois Amigos”, também dirigida por um ator, o francês Louis Garrel, e o drama “Sabor da Vida”, da japonesa Naomi Kawase, eleito Melhor Filme pelo público da recente Mostra de São Paulo. Há também uma atração do Festival de Veneza, “O Cheiro da Gente”, novo longa de sexo adolescente/polêmico do diretor Larry Clark, 30 anos após “Kids” (1995). Contudo, assim como nos shoppings, o principal destaque pertence a um suspense. Lançado com uma “tradução” bizarra, “Pecados Antigos, Longas Sombras” (La Isla Mínima, no original) transforma a caça a um serial killer num tratado cinematográfico sobre tensão. O longa de Alberto Rodríguez é o filme espanhol do ano, vencedor de 10 prêmios Goya (o Oscar espanhol) e 9 prêmios da crítica espanhola. Mesmo assim, só vai estrear em 8 salas em todo o país. Para ter um parâmetro da lógica do mercado, imagine agora em quantas salas será exibido o futuro remake piorado hollywoodiano… [symple_divider style=”dashed” margin_top=”20″ margin_bottom=”20″] Estreias de cinema da semana Estreias em circuito limitado
Estreias: Programação de cinema está um horror, em mais de um sentido
As salas de cinema recebem nove lançamentos nesta semana. E entre os três filmes americanos, destinados aos shopping centers, encontram-se os piores da lista, por coincidência escritos pelo mesmo roteirista, Max Landis, que parecia promissor quando estreou com “Poder Sem Limites” (2012). Tanto “Victor Frankenstein” quanto “American Ultra” são derivativos, com premissas que remetem à séries de TV canceladas: respectivamente, a Inglaterra vitoriana dos monstros e da ciência fantasiosa de “Drácula”, e o subúrbio pitoresco do balconista/super-agente secreto de “Chuck”. O texto é tão ruim que permite a seus intérpretes bancar os canastrões – James McAvoy (“X-Men: Dias de um Futuro Esquecido”) até diverte como cientista louco, mas a leseira de Jesse Eisenberg (“Truque de Mestre”) é apenas irritante. Melhor entre os filmes de shopping center, “A Visita” marca a volta de M. Night Shyamalan (“Depois da Terra”) ao terror, aderindo à estética “found footage”. O longa usa câmeras amadoras e FaceTime para registrar as férias de um casal de crianças na casa dos avós, que logo se revelam sinistros. Com alusões à fábulas encantadas, em que as bruxas são sempre velhas, a trama brinca com aparências, dá bons sustos e mantém as surpresas características dos roteiros do cineasta. A programação ainda inclui outro lançamento do gênero, mas em circuito limitado. “Para o Outro Lado” é a nova obra do mestre do terror japonês Kyoshi Kurosawa (“Pulse”). Lento e contemplativo, o drama sobrenatural acompanha o reencontro de um morto e sua antiga namorada, num lugar que tanto pode ser o Japão atual quanto o mundo do além. Foi vencedor do prêmio de Direção da mostra Um Certo Olhar, no último Festival de Cannes, e está mais para cinema de arte que horror. Os destaques do circuito limitado, porém, são outros. Também premiado neste ano em Cannes, na mostra Quinzena dos Realizadores, “Três Lembranças de Minha Juventude” configura-se como a obra mais fluída do cineasta francês Arnaud Desplechin, que traz Mathieu Amalric de volta ao personagem de “Como Eu Briguei (Por Minha Vida Sexual)” (1996). O filme é exatamente o que diz seu título, juntando três flashbacks episódicos para considerar o aspecto seletivo da memória e a importância que momentos diferentes da vida podem ter na formação da personalidade e do caráter. Na verdade, esta descrição não faz justiça à qualidade do longa, que atinge o sublime ao evocar a lembrança do grande amor da vida do protagonista. Mas é um filme brasileiro que merece maior atenção dos cinéfilos. “Ausência”, de Chico Teixeira (“A Casa de Alice”), impacta com impressionante sutileza, ao acompanhar a vida de um adolescente suburbano, que se vê trabalhando desde cedo para ajudar a pagar as contas, após o pai sair de casa, levando tudo, até a televisão, e a mãe se revelar alcoólatra. A solidão é contornada por amizades, flertes, mas também permite abusos de confiança. A construção do personagem é tão consistente que rendeu ao jovem Matheus Fagundes o troféu de Melhor Ator no recente Festival do Rio. Completam o circuito três documentários brasileiros, dos quais o mais fraco é justamente o de maior distribuição, “Chico – Artista Brasileiro”, sobre o vaidoso cantor, compositor e escritor Chico Buarque – após ele já ter sido objeto de uma exaustiva minissérie documental. Como perfil, “Ídolos” presta serviço mais relevante ao celebrar Nilton Santos, jogador mítico do Botafogo, eleito pela FIFA como melhor-lateral esquerdo de todos os tempos. Mas é “Iván” o projeto mais cativante. Simples em sua premissa e grandioso em sua execução, o filme acompanha um velho sobrevivente da 2ª Guerra Mundial, fugitivo dos campos de trabalhos forçados, numa viagem de volta ao seu país natal, a Ucrânia, após sete décadas vivendo no Brasil. O enfoque humanista, lindamente fotografado, recebeu os prêmios de Melhor Filme e Direção no Festival de Maringá. [symple_divider style=”dashed” margin_top=”20″ margin_bottom=”20″] Estreias de cinema da semana Estreias em circuito limitado
Confira as estreias de cinema da semana
Um terço do circuito de cinema do Brasil passa a exibir, a partir dessa semana, “Jogos Vorazes: A Esperança – O Final”, desfecho da franquia juvenil que projetou ao estrelato a atriz Jennifer Lawrence. O filme entra em cartaz em todos os shopping centers do país, em estimadas mil salas (leia a crítica aqui). A concentração é tão alta que os demais lançamentos ficaram restritos ao circuito limitado. O mais amplo chega a 63 salas: a comédia brasileira “Ninguém Ama Ninguém”, adaptação de Nelson Rodrigues passada nos anos 1960. Nem o aguardado “Chatô – O Rei do Brasil” (saiba mais sobre o filme lendo a crítica) vai dar conta da eventual curiosidade do público, estreando em apenas 16 salas. O microcosmo cinéfilo é contemplado com outras estreias recomendadas, como “Mistress America”, nova parceria indie entre o diretor Noah Baumbach e a atriz Greta Gerwig após o delicioso “Frances Ha” (2012). Distribuído em 27 salas, o longa acompanha uma estudante solitária em Nova York, que retoma o entusiasmo pela vida quando conhece a filha de seu padrasto. Ainda mais relevante, o anime (animação japonesa) “As Memórias de Marnie”, fábula infantil de contornos góticos, encerra as produções do premiado estúdio Ghibli com lançamento em apenas cinco salas. A lista ainda traz obras de grande valor humanista, como o documentário “Malala”, sobre a adolescente paquistanesa que, ao querer estudar, foi vítima de atentado, sobrevivendo à intolerância talibã para virar um símbolo e ganhar o prêmio Nobel da Paz – em 21 salas. Sem esquecer de “Taxi Teerã”, que o cineasta Jafar Panahi rodou ao custo de sua própria segurança, ao desafiar o governo do Irã. Para filmá-lo, ele precisou escapar da prisão domiciliar e desrespeitar a proibição que lhe foi imposta – não fazer filmes por duas décadas. Tanto risco lhe rende uma exibição em três salas somente, em São Paulo e Brasília. Confira abaixo os trailers destes e dos demais lançamentos da semana no Brasil. Estreias de cinema Grande circuito Circuito limitado






