Mindhunter é a melhor série da Netflix em 2017
“Mindhunter” chama atenção inicialmente por ter produção executiva do cineasta David Fincher (“Seven”, “Clube da Luta”, “Zodíaco”, “Garota Exemplar”), que ainda dirige quatro dos dez episódios de sua 1ª temporada. E conquista o espectador mais exigente logo em seus primeiros minutos, embora consiga ficar ainda mais envolvente à medida que se aproxima de seu final. Que não é bem um final (ainda bem), mas vale dizer que a season finale é de dar taquicardia. A série é baseado no livro “Mindhunter – O Primeiro Caçador de Serial Killers Americano”, de John E. Douglas e Mark Olshaker, disponível no Brasil, e a 1ª temporada dá conta de metade da obra. Desenvolvida por Joe Penhall, roteirista do drama pós-apocalíptico “A Estrada” (2009), a trama não tem cenas de violência, perseguição ou outros clichês de thriller americano, apensar da premissa. Traz basicamente investigação e psicologia. E um texto tão bem trabalhado que dá gosto. Os personagens são tão ou mais envolventes que a história, que aborda o início do estudo dos casos de assassinos em série pelo FBI. Baseada na vida real de John E. Douglas, “Mindhunter” relata encontros e entrevistas com assassinos famosos, como Ed Kemper (Cameron Britton, da série “Stitchers”), o sujeito que matou a própria mãe e fez sexo com sua cabeça decepada, e Jerry Brudos (Happy Anderson, de “Quarry”), o assassino do fetiche de sapatos. E a interpretação dos atores que dão vida a esses dois criminosos é admirável. A atmosfera de medo e tensão nas conversas com esses dois, em especial, é de deixar o espectador prendendo a respiração. Mas há outros casos resolvidos pelo protagonista e seu parceiro que também empolgam e instigam. O grupo de investigações é formado aos poucos e sem pressa dentro da narrativa. Antes da união de Holden Ford (Jonathan Groff, de “Glee”) e Bill Tench (Holt McCallany, de “Clube da Luta”), acompanhamos o certinho Ford conhecendo a ousada Debbie (Hannah Gross, de “Quando Eu Era Sombrio”), a mulher que o iniciará no sexo oral e outras delícias da vida. Além de tudo, ela ainda ouve as preocupações que ele faz questão de compartilhar sobre sua profissão. Mais à frente, Bill se une a Holden para dar aula sobre assassinos seriais em diversas cidades dos Estados Unidos. A presença da terceira integrante, Wendy Carr (Anna Torv, de “Fringe”), chega para enriquecer ainda mais o grupo. O fato de a série também apresentar a vida privada de seus personagens principais os aproxima bastante do público. Faz com que o espectador se importe com esses personagens, que sinta e tema verdadeiramente por seus destinos. Um dos melhores exemplos acontece no episódio de número oito, que trata de um diretor de escola infantil que tem o costume de dar cócegas nos alunos. O que parecia um episódio mais fraco diante dos demais acaba sendo um dos mais marcantes, pelo mal estar que provoca, diante das decisões que Holden resolve tomar, seguindo seus instintos, ainda que com muitas dúvidas. É tão marcante que é o único capítulo que termina sem música nos créditos finais. Além de bem escrita, dirigida e interpretada, “Mindhunter” ainda destaca uma direção de arte linda, que recria os anos 1970 e a elegância das roupas, dos carros, dos prédios e casas, e uma fotografia que transmite detalhes importantes, seja para passar uma sensação de bem estar em cenas diurnas com um belo dia de sol, seja para acentuar cenas tensas em interiores sombrios. Na verdade, há tantas qualidades em “Mindhunter” que fica difícil pensar que possa ter qualquer problema. De longe, a melhor produção da Netflix em 2017.
Jogo Perigoso prende a atenção até perder o foco
Já tem algum tempo que Mike Flanagan é considerado candidato à entrar no clube dos mestres do terror do século 21. Embora seus filmes não se enquadrem no que atualmente se chama de pós-horror, sendo até um pouco tradicionais na forma, possuem uma sofisticação visual admirável. Assim, mesmo quando pega um projeto já em andamento, como foi o caso de “Ouija – Origem do Mal” (2016), o cineasta transforma o que seria um filme convencional em uma história aterrorizante, sabendo muito bem aproveitar os clichês dos filmes de fantasmas e casas assombradas. Seu melhor filme é “O Espelho” (2013), mas também chamou atenção o eletrizante “Hush – A Morte Ouve”, distribuído pela Netflix no ano passado. A plataforma agora bisa a parceria com “Jogo Perigoso”, adaptação de um livro Stephen King que até então era considerado infilmável. Na trama, Carla Gugino e Bruce Greenwood são um casal que, para apimentar um pouco a relação, após anos de casamento, resolve brincar de sadomasoquismo em uma casa afastada. A ideia dele seria algemar a esposa na cama durante o sexo. Quando a coisa começa a parecer um estupro, ela fica um bocado incomodada. Mas antes que possa interromper, o marido tem um ataque cardíaco e morre, deixando-a confinada na cama. Ela entra em desespero, impotente e imobilizada. A única coisa que consegue fazer é conversar com o fantasma do marido, que a ajuda a pensar friamente na situação, fazendo-a perceber como a casa está distante de qualquer outra e que ninguém a ouviria gritar. Mesmo que um cachorro faminto a devorasse viva. Como escapar dessa situação? Ainda que não se compare a outras obras de Flanagan, “Jogo Perigoso” acaba prendendo a atenção. A premissa inusitada e a tensão são motivos mais do que suficientes para assisti-lo. Mas o filme sofre uma queda de ritmo quando embarca num flashback pela infância da personagem, em que ela lembra um momento desagradável com o pai, vivido por Henry Thomas (até hoje lembrado como o menino de “E.T”). Ao mesmo tempo, por tratar de um assunto tão espinhoso quanto o abuso infantil, Mike Flanagan retoma uma das características de sua obra, repleta de histórias dolorosas de famílias, elementos que marcam sua filmografia desde pelo menos “Absentia” (2011). De certa forma, o flashback ajuda a enriquecer um filme que, centrado num impasse, poderia se encaminhar para lugar nenhum. E quando seu foco – ou perde de vez – , assume uma natureza sobrenatural, que pode ou não ser alucinação da personagem – com direito até à participação do gigante Carel Struycken (presença marcante/delirante da série “Twin Peaks”).
O Formidável tira sarro da seriedade de Godard
Michel Hazanavicius procurou saber de Jean-Luc Godard se ele havia visto o seu “O Formidável”, se havia gostado ou desgostado do modo como foi caracterizado nesta comédia autobiográfica baseada no livro de uma das ex-esposas do cineasta, a alemã Anne Wiazemsky. Até onde se sabe, o jovem diretor não recebeu nenhuma resposta de seu “homenageado”. Apesar das aspas, podemos dizer que o filme de Hazanavicius consegue ser ao mesmo tempo uma homenagem a Godard, emulando e trazendo à tona momentos importantes de uma fase da vida e da obra do homem, como também um filme que tira sarro de Godard, vivido por Louis Garrel. O diretor do oscarizado “O Artista” (2011) novamente fala sobre cinema e seus bastidores, mas o foco agora é o cinema francês do final dos anos 1960, quando muita coisa estava mudando no mundo. Em um ano em que tivemos uma comédia que também brinca com os bastidores do cinema francês, a divertida “Rock’n’Roll – Por Trás da Fama”, de Guillaume Canet, é bom ver outro trabalho inteligente e espirituoso sobre o tema. E “O Formidável” talvez exija menos do espectador pouco habituado a ver filmes franceses, mesmo que cinéfilos se divirtam mais com as referências a Godard. A trama ecoa os protestos da primavera de Paris e a radicalização política da época, e se concentra numa tentativa de revolução num cinema que já era considerado revolucionário. Ao final da década de 1960, Godard encontrava-se num momento tão radical de sua vida que rejeitava até mesmo os seus próprios filmes, colocando os marcos da nouvelle vague na categoria de lixo burguês ou arte ultrapassada. Sua intenção era criar algo totalmente novo na forma e no conteúdo e ainda trazer muito da política que ele abraçava naquele momento, o maoismo. Uma das partes mais engraçadas do filme, aliás, é quando Godard fica sabendo que seu filme “A Chinesa” (1967) não foi apreciado pelos chineses. Segundo algumas fontes, os revolucionários chineses acharam que o diretor francês não entendeu nada da ideologia de Mao. Outras passagens bem engraçadas giram em torno das participações de Godard nas manifestações acirradas de 1968, quando havia briga entre a polícia e os estudantes. Além de perder muitos óculos, o diretor sempre se saía mal quando ia para as discussões entre os estudantes comunistas. Uma das melhores coisas do filme merece ser mencionada como destaque: Stacy Martin, a jovem francesa que encantou o mundo em “Ninfomaníaca” (2013), de Lars Von Trier, faz o papel da jovem esposa de Godard, Anne, que atura, com amor e paciência, as bobagens e os arroubos de arrogância daquele homem que se achava melhor do que todos. Com uma mulher tão doce quanto Anne, difícil não pensar no quanto Godard foi vacilão em ter deixado passar alguém tão especial na vida dele. E para acentuar ainda mais essa impressão, o filme a apresenta sem roupa diversas vezes, uma vez, inclusive, evocando uma cena do clássico “O Desprezo” (1963), em que a câmera de Godard passeia pelo corpo nu de Brigitte Bardot. O elenco ainda destaca Bérénice Bejo, esposa de Hazanavicius, que entretanto aparece pouco, em papel de coadjuvante, como uma das amigas de Godard. É um papel pequeno, mas o diretor faz bem em tê-la presente, já que Bejo tem feito uma série de trabalhos muito bons e é uma atriz talentosa.
Thor Ragnarok é uma piada – no bom sentido
Elementos cômicos caracterizam os filmes da Marvel desde o primeiro “Homem de Ferro” (2008), mas após “Guardiões da Galáxia” (2014) vêm assumindo proporções cada vez maiores, a ponto de “Homem-Formiga” (2015) ser quase uma comédia. A evolução dessa linha narrativa rendeu “Thor: Ragnarok”, a primeira comédia assumida da Marvel. O filme é basicamente uma paródia de super-herói. Isto fica clara nas semelhanças em relação ao primeiro “Thor” (2011). Se o tom contrasta de forma radical com o clima de tragédia épica shakespeareana conjurado pelo diretor Kenneth Branagh há seis anos, a história parte exatamente da mesma premissa: Thor perde seu martelo místico, é exilado e precisava voltar a Asgard para salvar a cidade dos deuses de um inimigo mortal. Mas, como se trata de uma comédia, o caminho de volta é uma sucessão de piadas e não uma jornada de herói. Isto é, ele não precisa aprender humildade, como em “Thor”, apenas fazer gracejos, enquanto abre seu caminho à base de porradas. Ao mesmo tempo, “Thor: Ragnarok” é também o filme mais autoral de toda a linha industrial-cinematográfica da Marvel. Méritos do diretor neozelandês Taika Waititi, que tem comédias insanas e engraçadíssimas no currículo, entre elas o hilário documentário fake sobre vampiros “O Que Nós Fazemos Nas Sombras” (2014), que conseguiu a façanha de vencer a mostra Midnight do Festival de Toronto, dedicada a filmes extremos e assustadores. Se James Gunn abriu as portas com seus “Guardiões”, Taika Waititi derrubou as paredes. O novo “Thor” é um filme típico de Waititi, para rir do começo ao fim. E ele encontrou um aliado importante para realizar seu projeto: o próprio Thor. Ou melhor, o australiano Chris Hemsworth, que já tinha mostrado talento cômico anteriormente – em “Férias Frustradas” (2015) e “Caça-Fantasmas” (2016) – , e que entrega seu melhor desempenho como ator. Até Mark Ruffalo, que incorporava um Hulk atormentado, virou piadista. Pela primeira vez, o Hulk fala num filme da Marvel, apenas para contar piadas. O tom cômico agradou em cheio a maioria do público e até aos críticos de cinema, que consideravam os filmes de “Thor” como os mais fracos de todo o universo “cinemático” da Marvel. Mas irritou ferozmente os blogueiros nerds. Quem procurar por críticas de “Thor: Ragnarok” fora do Rotten Tomatoes pode se assustar com as notas baixas conquistadas pela produção na nerdosfera. Se a grande imprensa achou que o filme vale um 9, geeks irritados não dão nem 2. Isto porque o filme ridiculariza sem dó o gênero das adaptações de quadrinhos, e faz isso de forma consciente, com piadas sobre Tony Stark e outros personagens da Marvel. Mesmo assim, fãs dos quadrinhos não deveriam reclamar da paleta colorida e da extravagância visual dos novos personagens, pois remetem aos desenhos clássicos de Jack Kirby. E há inúmeras referências à tramas famosas da Marvel, de “Planeta Hulk” ao próprio “Ragnarok”. Por outro lado, a destruição de Asgard nas mãos de Hela, uma Cate Blanchett divina, causa tanto impacto quando a quarta explosão da Enterprise nos filmes de “Star Trek”. As piadinhas também fazem com que mortes de personagens conhecidos da franquia não sejam sentidas. E isto num filme intitulado “Ragnarok”, o apocalipse nórdico. A dramaticidade sucumbe sob o peso dos excessos. As nuances não funcionam. O destino dos personagens se torna irrelevante, já que o ritmo leva o público a esperar gags e não tragédias. E ironicamente, mesmo assim, as cenas de ação são muito bem realizadas. Mas o grande fato incontornável é que, sem as piadas, “Thor: Ragnarok” não valeria o ingresso de cinema. Isto porque a produção parte de um roteiro extremamente simplório, apesar de escrito por quatro roteiristas diferentes, e se resume a uma história de transição, criada para anunciar que vem outro filme da Marvel a seguir. Waititi conseguiu um milagre, ao tornar esse comercial gigante de “Vingadores: Guerra Infinita” num passatempo divertido. Para quem não espera nada de um terceiro filme do deus do trovão, “Thor: Ragnarok” pode se revelar uma boa surpresa. Já quem espera muito de qualquer filme da Marvel, a surpresa pode ser descobrir que o estúdio finalmente fez o filme que sempre ensaiou fazer: uma homenagem ao Batman da TV dos anos 1960.
Star Trek: Discovery é renovada para a 2ª temporada
A CBS renovou “Star Trek: Discovery” para sua 2ª temporada. O anúncio foi feito após a exibição do sexto capítulo da temporada inaugural, e após os produtores revelarem que precisariam de pelo menos um ano para produzir novos episódios, considerando a quantidade de efeitos visuais que utilizam. O processo é tão demorado que a 1ª temporada foi dividida em duas partes. A primeira metade se encerra em 13 de novembro, e os episódios finais serão exibidos a partir de janeiro. Em comunicado, a CBS destacou o sucesso da atração junto à crítica e ao público, e elogiou a equipe e o elenco, que têm “demonstrado talento em dar continuidade ao legado de ‘Star Trek’”. Apenas o episódio duplo de estreia foi exibido na TV aberta americana e tem índice de audiência. Assistido por 9,6 milhões de telespectadores ao vivo, foi o programa não esportivo mais visto do dia 24 de setembro, segundo a empresa Nielsen. Como se não bastasse, ainda foi elogiada por 90% da crítica norte-americana, na média do site Rotten Tomatoes. Os efeitos visuais, a performance de Sonequa Martin-Green e o ritmo intenso foram os elementos mais destacados. Segundo o site Deadline, a exibição rendeu um número recorde de inscrições num único dia ao serviço CBS All Access, que irá mostrar com exclusividade o resto da série por streaming nos Estados Unidos. No resto do mundo, inclusive no Brasil, “Star Trek: Discovery” é exibido pela Netflix. Não foi definida a quantidade de episódios da 2ª temporada, nem a data de lançamento ou se ela será divida em duas partes como o primeiro ano.
Bom Comportamento eletrifica com suspense e realismo intensos
Nada prepara o espectador para a explosão emocional de Bennie Safdie logo no primeiro plano-sequência de “Bom Comportamento” (Good Time). Nick, o personagem de Safdie, é um rapaz meio surdo e com problemas mentais numa sessão de terapia, se embananando com o bombardeio de perguntas do assistente social. A câmera se aproxima de seu rosto e as contradições entre o que diz e como se comporta se prolongam até o momento que um doloroso fio de lágrimas escorre de seus olhos. Lágrimas de raiva e dor, como se ele fosse um animal acossado num curral. A atuação de Bennie (que por sinal, é um dos diretores do filme, junto com o irmão Josh Safdie) é incrível e o filme segue essa mesma toada de emoção crua, exalando pelos poros. Na sequência, entra em cena Robert Pattinson para salvar o irmão daquele pesadelo terapêutico. Pattinson é Constatine (Connie) Nickas, um pequeno traficante, ansioso para solucionar um problema à beira de piorar. Não sobrou nada pra sustentar a família Nickas. Pai? Mãe? Sabe-se muito pouco do clã desestruturado. O sonho de Connie é arrumar uma bolada e fugir com o irmãozinho daquela cidade onde os arranha-céus parecem muros de uma prisão. Nova York nunca foi filmada assim. Mas há algo mais a ser vivido para além daquilo a que as circunstâncias ditam para novaiorquinos como Connie e Nick. Connie se atreve a desrespeitá-las, improvisando uma solução estúpida: assaltar um banco, levando o irmão problemático na rabeira. Óbvio, o inesperado acontece. O débil Nick fica pra trás e Connie, perplexo, não sabe se foge da polícia. De novo, temos a composição de uma cena patética, onde a gestualidade do personagem parece em curto circuito. Se entregar ou fugir? Por fim, ele covardemente escapa. Essa fuga, contudo, será cara para Connie. Pois é uma questão de honra consertar o estrago das circunstâncias. Um batalhão de polícia cerca as ruas. Nick é conduzido para a cadeia e enfrenta a barra pesada do cotidiano penitenciário, enquanto Connie planeja como tirar o coitado da prisão. O filme passa-se durante as 24 horas de um dia. Connie não dorme. Quando descobre que o irmão foi espancado no presídio e está num hospital, improvisa um plano para invadir o quarto e sequestrá-lo. O clima de tensão é crescente. O realismo causa desconforto. A direção de Bennie e seu irmão Josh Safdie propõe um novo tipo de investigação artesanal. O método de trabalho desses dois jovens da periferia de East Rivers, em Manhattan, busca o que eles chamam dos reflexos mais puros e verdadeiros de Nova York: a poça suja nas sarjetas. O humanismo que sobressai de seus filmes são retirados de ensaios cênicos numa garagem com seus amigos loosers, desempregados, desajustados e ex-viciados. Em uma década, eles aprimoraram a técnica, aprofundaram os sentidos e passaram de diretores de pequenos ensaios sobre o submundo, exibidos num canal do YouTube, a sensação no Festival de Cannes em maio último. “Bom Comportamento” é o terceiro longa deles. Antes, apenas “Amor, Drogas e Nova York” tinha sido exibido no Brasil. O magnetismo de ambos filmes é impressionante. Os tipos autodestrutivos desfilam em profusão na tela, só que em vez de causarem repulsa, apresentam um carisma cru do qual é realmente difícil se afastar. Robert Pattinson, que por seu desempenho como Connie, vem sendo cotado para o próximo Oscar como melhor ator do ano, na verdade nunca tinha visto um filme dos irmãos Safdie. Mas ao se deparar com um still de cena da ex-dependente química Arielle Holmes em “Amor, Drogas e Nova York”, se apressou em procurar os diretores. Juntaram-se para criar um filme que inicialmente não tinha planejamento nem estrutura. Começaram com uma idéia, o drama de relacionamento entre um jovem fracassado e seu irmão deficiente mental. Pattinson e Bennie foram instigados a criar seus personagens como se fossem duas folhas em branco, a história ganhou corpo. O fato de uma estrela de Hollywood se envolver no projeto trouxe os patrocinadores, e a produção ficou com um orçamento 30 vezes maior do que o último filme dos Safdie. Isso permitiu que avançassem para um plano inexplorado. A trama poderia ter resultado, com seus ritmos fortes e esquemáticos, numa peça de segunda-categoria, mas a direção dos Safdie tem uma intensidade pulsante perfeitamente complementada pelo balanço eletrônico da trilha de Oneohtrix Point Never. Não é pouco de se ver em um filme. No decorrer, “Bom Comportamento” produz uma sucessão deslumbrante e arrebatadora de humores. Os diretores exercitam seus prodigiosos talentos visuais com comedimento incomum e mantém alguns de seus desejos mais conflitantes em cheque. Como o filme é tão medido, tão melódico em suas explosões de invenção, o que poderia ser irritante soa eletrizante. Por fim, a forma como os laços entre os dois irmãos vão se afrouxando, até parecerem irremediavelmente distantes, é uma evocação tão agridoce e sincera da realidade, que sobra muito pouco a nutrir do sonho americano. Não estranhe se, por acaso. você sair do cinema com a sensação de ter visto o melhor filme norte-americano do ano.
Entre Irmãs beira o novelão, mas atrizes valorizam o melodrama
Um dos méritos do cinema de Breno Silveira é a sua vontade desavergonhada de emocionar a audiência, não importando se isso resulte em um produto cafona. No entanto, nem sempre o cineasta consegue um bom equilíbrio, e às vezes pode acontecer de a história ter pouca substância ou de o roteiro não ser tão bem cuidado a ponto de prejudicar, como em “Entre Irmãs”, seu mais recente trabalho, que beira o novelão. O que acaba por contar pontos positivos no filme é justamente o fato de termos um bom diretor e um par de protagonistas ótimas, que garantem momentos de boa dramaturgia. Nanda Costa (de “Gonzaga: De Pai pra Filho”) e Marjorie Estiano (“Sob Pressão”), que interpretam as duas moças do sertão que são separadas de forma traumática e trilham caminhos bem distintos, são o que há de mais valioso em “Entre Irmãs”. Principalmente Marjorie, que tem se revelado cada vez mais uma atriz impressionante. Seu papel recente em uma série da Rede Globo, “Sob Pressão”, é admirável, e ela está extraordinária em “As Boas Maneiras”, o novo trabalho da dupla Marco Dutra e Juliana Rojas, que venceu o Festival do Rio. “Entre Irmãs”, ainda que seja mais irregular do que os trabalhos mais incensados de Silveira, é produto de sua passagem pelas locações em que trabalhou. Seu filme anterior, “Gonzaga – De Pai pra Filho” (2012), o apresentou ao sertão nordestino, e sua vontade de contar uma história da época do cangaço em uma produção épica foi o que o levou a adaptar o livro “A Costureira e o Cangaceiro”, de Frances de Pontes Peebles. Apesar de o título do livro enfatizar a história de amor entre uma das irmãs e o cangaceiro que a captura de sua família, Silveira preferiu contar as duas histórias em paralelo. No fim das contas, a história da outra irmã, Emília (Marjorie), tem mais força e desperta mais interesse do que a história de Luzia (Nanda), uma versão “genérica” da história de Lampião e Maria Bonita. O paralelismo entre as duas histórias é bem costurado em uma edição que ainda tem o mérito de transformar o filme de quase três horas de duração em uma narrativa que parece ter uma hora e meia. Assim, quando vemos a infelicidade de Emilia no campo sentimental, ao descobrir que o marido (Rômulo Estrela, da novela “Novo Mundo”) casou com ela por conveniência, vemos também o início de uma maior aproximação de Luzia com o líder dos cangaceiros, o Carcará (Júlio Machado, de “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”). Há outro momento particularmente bonito, quando as duas jovens leem no mesmo jornal notícias sobre a irmã distante: uma na caatinga, vivendo como nômade e fora-da-lei, e a outra na alta sociedade do Recife. A história na capital, inclusive, ainda conta com a presença muito bem-vinda de Letícia Colin (“Ponte Aérea”), vivendo uma amiga de Emilia. Assim, por mais que Silveira não tenha conseguido atingir o grau de arrebatamento emocional de “2 Filhos de Francisco” (2005) e de “À Beira do Caminho” (2012), duas obras que o elevaram à categoria de mestre do melodrama, “Entre Irmãs” tem sim as suas qualidades e merece ser visto, principalmente por quem não se incomoda diante de uma narrativa bem clássica e antiquada.
A Morte Te Dá Parabéns supera trama batida de looping temporal
Uma das grandes vantagens dos filmes de horror para a indústria é que atraem público jovem e ainda costumam custar barato, sem precisar de atores famosos no elenco para conquistar boa bilheteria. Além disso, nem precisam ter uma história tão original assim, como se pode ver pelo sucesso de “A Morte Te Dá Pababéns!”, de Christopher Landon. O filme é uma espécie de versão slasher da comédia romântica “Feitiço do Tempo” (1993), de Harold Ramis, em que Bill Murray acorda indefinidamente no mesmo dia. Outros filmes que também se apropriaram desta brincadeira incluem a sci-fi “No Limite do Amanhã” (2014), o melodrama teen “Antes que Eu Vá” (2017) e a comédia “Nu” (2017). Todos são filmes de “looping temporal”, que mostram protagonistas lutando para vencer uma situação a partir do conhecimento que adquirem pela repetição do mesmo fatídico dia. São também filmes sobre jornadas de aperfeiçoamento pessoal, de aprender com os próprios erros. Por mais que pareça uma maldição ficar preso no mesmo dia, é também uma chance que o universo está dando para que a pessoa possa, enfim, aparar as arestas no modo como ela trata as pessoas e também, como é o caso de “A Morte Te Dá Parabéns”, descobrir a identidade do próprio assassino para, talvez, conseguir acordar viva no dia seguinte. Na trama do diretor de “Como Sobreviver a um Ataque Zumbi” (2015), Jessica Rothe vive Tree, uma garota universitária que acorda no quarto de um dos rapazes. Pelo visto, um rapaz que ela mal conhecia. Até aí nada de mais, até a hora em que ela vai para uma festa e é surpreendida por um assassino mascarado. No dia seguinte e também nos posteriores, ela sofrerá novas mortes e tentará descobrir o que está acontecendo e o que pode fazer. O suspense em torno da identidade do assassino consegue envolver o público jovem, que talvez nem conheça “Feitiço do Tempo”, a ponto de sugerir uma ressurreição do gênero slasher (se é que dá para chamar de uma ressurreição – talvez não). Os assassinos mascarados tinham ido parar nas séries (“Scream”, “Scream Queens” e “Slasher”), abandonando os filmes de horror recentes. Mas ajuda também o fato da obra não tentar ser muito pretensiosa. É até inocente, em muitos aspectos. A trama é ainda mais feliz do ponto de vista do aperfeiçoamento do caráter da heroína. Logo de início, a protagonista é apresentada como alguém pouco afável e bastante arrogante, além de desinteressada em preservar os sentimentos dos outros. Sem falar em questões familiares pendentes. Isso é muito bem resolvido no filme, principalmente em uma das últimas sequências da narrativa. Na verdade, a história melhora à medida que se aproxima de seu desfecho. Chega a surpreender. E isso é muito mais do que se poderia esperar de uma produção com trama batida, e ajuda a explicar sua boa bilheteria em sua estreia nos Estados Unidos. No mais, vale prestar atenção em Jessica Rothe, a protagonista. Ela esteve em um papel pequeno no premiado “La La Land” (2016) e poderá ser vista em breve encabeçando o remake de “Sonhos Rebeldes” (Valley Girl, 1983) e o romance country “Forever My Girl”. Carisma a moça tem.
Detroit em Rebelião denuncia tensão racial histórica dos Estados Unidos
Quem assistiu a “Guerra ao Terror” (2008) e a “A Hora Mais Escura” (2012) sabe bem o que esperar da diretora Kathryn Bigelow. Ela faz filmes políticos muito fortes, de denúncia, sem aliviar na forma de relatar os acontecimentos. Ela se interessa pela história norte-americana recente e parece ter muita urgência em fazer o público refletir sobre algumas questões pendentes. “Detroit em Rebelião”, seu atual trabalho, debruças-se sobre a tensão racial que tomou conta da cidade de Detroit, a mais populosa do estado de Michigan, em 1967. Ela procura mostrar que o barril de pólvora que se incendeia nesses momentos retrata uma guerra sem fim que os Estados Unidos não conseguem encarar e resolver. Pelo contrário, ciclicamente, a situação se agrava. O filme toma posição clara e expressa de apoio à causa negra, durante todo o tempo, de forma firme e corajosa. Sem dar margem a nenhuma dúvida. O que, talvez, até prejudique a reflexão que ela pretende. Porque ela dá o prato pronto, incontestável. A abordagem dos fatos relatados no filme – que culminaram na maior rebelião civil dos Estados Unidos, com um saldo de 43 mortos, mais de 340 feridos e 7 mil prédios queimados – é tão marcante e incisiva que se torna quase insuportável. As cenas de confrontos de rua são agitadas, tensas como a câmera que as capta. O tratamento que uma polícia quase inteiramente branca dá à população negra de uma região conflagrada é de exasperar os ânimos de qualquer humanista ou cidadão de convicções democráticas. Para acentuar o absurdo do tratamento policial e o desrespeito às pessoas, o filme se estende durante muito tempo, para mostrar o que acontece, passo a passo, repetidamente. É revoltante, inaceitável. Já sabíamos disso, tínhamos entendido. Mas viver emocionalmente cada momento nos obriga a entrar na pele da população negra, tão estupidamente discriminada. E que o ótimo elenco negro (John Boyega, Anthony Mackie e outros), que sofre diante de nós, reforça enormemente, assim como os atores brancos (Will Poulter, Jack Reynor, etc) em seus desempenhos agressivos. Os julgamentos que ocorrem depois apenas reafirmam a desigualdade e a ausência de equilíbrio de uma justiça também branca. Nesse ponto, a situação toma ares civilizados, mas nada muda, de fato. As instituições estão aí para garantir a desigualdade e o preconceito. Essa é a América, guardiã da democracia e da liberdade, que tanto se apregoa? Alguma coisa apodreceu nos intestinos dessa nação tão poderosa. E não é de hoje, como nos mostra Kathryn Bigelow em seu forte filme-denúncia.
Churchill reduz momento-chave do século 20 à crise pessoal
A produção inglesa “Churchill” não é, apesar do título, uma cinebiografia que trata da vida desse líder britânico, cujo nome está indelevelmente marcado na história do século 20 e em suas duas grandes guerras. É o retrato de um momento específico e decisivo de sua vida política, em que ele balança entre a decadência e a glória. Esse período é o que se situa nos seis dias que antecederam a famosa operação da 2ª Guerra Mundial conhecida como o Dia D, em junho de 1944, em que as forças aliadas organizaram uma enorme ofensiva para recuperar o território europeu ocupado pelos nazistas e que seria um passo, arriscado mas definitivo, para a vitória final no conflito mundial. Winston Churchill, que o filme de Jonathan Teplitzky (“Uma Longa Viagem”) retrata de forma francamente desfavorável ao personagem, aparece velho, alquebrado, resistente e obcecado pelo massacre de Galípoli, na 1ª Guerra Mundial, em 1915, sem querer repetir o erro que levou centenas de milhares de soldados à morte. Preocupado com a humilhação política e o fracasso militar que já havia experimentado, surge como entrave inicial à invasão da Normandia, tendo de ser convencido pelo presidente americano Eisenhower (John Slattery, da série “Mad Men”) e outros, de que esse passo decisivo tinha de ser feito. E, ainda, tendo que se submeter à autoridade do rei. Não há dúvida de que Brian Cox (“A Autópsia”) compõe o personagem Churchill, nessas circunstâncias, com raro talento. A esposa, Clemmie, vivida por Miranda Richardson (“Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1”), está igualmente muito bem interpretada, como pessoa forte, equilibrada, com raciocínio claro e papel determinante na situação. Já o grande líder britânico está consumido por seus medos e obsessões, num momento deprimente da vida, quando mais se precisaria do seu claro discernimento. Soa um pouco estranha a fixação na batalha de Galípoli da 1ª Guerra, quando a campanha da 2ª já se desenhava como amplamente vitoriosa. Claro que a preocupação com a repetição de um possível massacre se justificava, mas a obsessão pelo passado, não. Afinal, para chegar a esse momento da guerra, muitos anos se passaram, desde 1939, e o impacto dos embates do presente era grande demais para ficar em segundo plano. Ao trabalhar um momento marcante da história por meio da realidade psíquica de um de seus personagens principais, “Churchill”, talvez busque uma verdade, no plano interpessoal, que não tem muito cabimento. Para uma questão política dessa dimensão, esse enfoque pouco ou nada acrescenta. Um drama individual se sobrepõe ao drama da guerra, que estava definindo os destinos da humanidade. E, ainda que o personagem não pudesse saber que a guerra estrava em sua reta final, não é muito crível que Churchill desconhecesse o sentido coletivo das decisões, numa hora dessas. Assim, uma boa produção cinematográfica, embora convencional na forma, que poderia alcançar voos muito maiores, perde sua força.
Blade Runner 2049 tem tantas ideias promissoras que poderia ser uma minissérie
Na tela em 1982, “Blade Runner” causou certo estranhamento. Era enigmático, escuro e fora do padrão. Se a estética não parece tão estranha agora, foi porque a publicidade, o cinema, os clipes, todo mundo assimilou o visual e tentou capturar a atmosfera. Em casos assim é muito comum a indústria destruir o que antes parecia fresco e autêntico. Não aconteceu com esse clássico. Revendo o filme, o senso de mistério persiste, a trama ilumina algumas questões, mas deixa várias implicações a margem para o espectador deduzir. O prazer de rever “Blade Runner” continua justamente pelas entrelinhas. Parece que há sempre algo novo a ser descoberto. O novo “Blade Runner 2049” tem bem pouco disso. Existe uma trama de mistério, mas ela é confortavelmente solucionada pra ninguém sair da sala com uma preocupação nova. É um espetáculo bem produzido e bonito, com duas reviravoltas surpreendentes, mas com um acumulo de detalhes pensados para tornar o todo mais complexo, que precisava ser melhor depurado. São 2 horas e quarenta de filme contra os 119 minutos do Blade Runner original. Deve-se desanimar com isso? Não. O filme tem força. A maior delas é o carinho, o amor com que o diretor Dennis Villeneuve se debruça sobre o baú de relíquias do clássico de Ridley Scott sem se intimidar em tatear esse mundo. O roteiro co-escrito por Michael Green (de “Logan”) e Hampton Fancher (que escreveu o original) alinha ideias para uns quatro filmes. Todas muito boas, mas desperdiçadas. A começar pelo paralelo entre os protagonistas. Aparentemente no primeiro filme, Harrison Ford era o humano que rastreava e matava os sintéticos humanoides reconstruídos com DNA humano, os chamados replicantes. O olhar para esses seres vinha de fora. Em “Blade Runner 2049”, a perspectiva desde o princípio vem de dentro. Ryan Gosling (“La La Land”) é KD6-3.7, um replicante que caça replicantes. E ele é a escolha perfeita para o Departamento de Polícia de Los Angeles. Uma máquina que sabe exatamente o que fazer e pouco se lixa para o que cada morte significa. Essa pelo menos é a impressão que “K” passa a chefe do departamento, a tenente Joshi (Robin Wright, da série “House of Cards”). No íntimo, porém, o replicante revela-se um sujeito cheio de duvidas. Um caixão enterrado sob uma árvore seca aumenta ainda mais as incertezas de K. Dentro, encontra-se a ossada de uma mulher desconhecida. O legista diz que a vítima morreu de complicações de parto. Quando examinam os pormenores, descobrem uma costela marcada com número de série: a mulher era uma replicante. Deveria ser impossível um ser sintético engravidar, mas aconteceu. Esta descoberta é o incidente propulsor do filme. Para a tenente Joshi, a reprodução de replicantes representa uma ameaça para os principados da criação e para o equilíbrio social. Mas para o empresário Niander Wallace (Jared Leto, de “Esquadrão Suicida”), o diabólico sucessor da Tyrell Corporation, a fábrica de replicantes, representa uma oportunidade. Se os replicantes são capazes de se reproduzir por conta própria, eles podem ser peões de uma nova ordem. Desta forma, K encontra-se no centro de um conflito político. Ele é designado para encontrar e matar a criança que cresceu, tornou-se adulta e que ninguém sabe o paradeiro. Nessa missão, K esbarra em dois grupos inimigos, um que pretende interferir, e outro que tem a intenção de ajudá-lo. A quantidade de história aqui é suficiente para construir uma minissérie, mas em sua ambição, Villeneuve mira o além. Ele insere as ruminações sombrias do caçador de replicantes sobre a natureza da espécie humana, da espécie sintética e sobre o futuro da vida na Terra. Curioso que o aspecto mais promissor do filme envolva uma meditação periférica. Sim, tem mais uma! Trata-se de uma reflexão sobre as fronteiras do palpável e o virtual numa sociedade altamente tecnológica. Primeiro vemos como K lida com essa virtualidade em casa. Ele tem uma namorada chamada Joi (a cubana Ana de Armas), que simplesmente é um holograma. É comovente como são apaixonados e como sustentam a relação mesmo sem um beijo real. Na esperança de consolar o parceiro, a mulher holográfica contrata uma prostituta para fazer sexo com K. E numa jogada de mestre, sincroniza sua imagem sobre o corpo da outra para que a ilusão do sexo palpável seja plena. O trecho, sem sombra de dúvida, é o maior momento do filme. Uma inquietante sequência de amor em que o protagonista se vê enlaçado por um corpo real e outro virtual de duas cabeças, quatro mãos e quatro pernas que iludem e ao mesmo tempo fornecem o sentido do quanto o amor é um sentimento rico, vasto e complexo. Há outra cena preciosa, dentro de um casino antigo, onde os hologramas de artistas mortos podem ser vistos com o simples acionamento de um botão. Assim Elvis reaparece cantando em seu macacão branco. Marilyn comparece sedutora com a saia branca esvoaçante, seguido por Liberace ao piano e Sinatra entoando uma canção romântica. Uma sublime melancolia se instala nessa ocasião. Elvis, Marilyn, Sinatra são emblemas de um outro tempo, um passado simples, quando todos entendiam o que significava ser humano. Não há tal compreensão no mundo de 2049. No filme é impossível dizer a um ser sintético o que o torna mais humano, assim como parece igualmente complicado reforçar nos humanos seus traços civilizados. Isso implica em todo tipo de questões existenciais. Talvez os replicantes sejam como seres humanos e tenham uma alma. Ou talvez os humanos sejam como replicantes, tudo seja mecanicista, e toda a noção da alma não passe apenas de fantasia. “Blade Runner 2049” roça nessas ideias densas e promissoras. Pena que o roteiro esteja tão inflado delas. Em vez do desenvolvimento, temos apenas a amostragem. Nesse sentido, Villeneuve foi mais feliz em seu filme anterior, “A Chegada”. Esse novo bem que tenta alcançar o brilho neon-noir esfumaçado do Los Angeles de Ridley Scott, mas não é fácil redefinir o mapa de nossos sonhos coletivos. Isso é ruim? Certamente, não. Seria um descaso não mergulhar na experiência proposta. A satisfação é imediata, mas há o que pensar, uma quantidade razoável para sentir e até para ver. E não é todo dia que temos uma oportunidade dessas.
Na Praia à Noite Sozinha traz a banalidade ousada do cinema de Hong Sang-soo
O cinema do sul coreano Hong Sang-soo é ousado, na medida em que ele se permite mostrar cenas e personagens em que, aparentemente, nada acontece e nem se pode dizer que conversem sobre questões profundas. Além disso, comem e, principalmente, bebem quase todo o tempo, em volta de mesas de conversa, que muitas vezes descambam para o descontrole, motivado certamente pelo consumo do álcool. No entanto, é um cinema original, cheio de vida e de verdade, de pessoas e situações banais, mas autênticas. Por que mostrá-las, se não são heróis, figuras extraordinárias, grandes pensadores, filósofos, ou gente revolucionária que, com sua ação, mudam o mundo? Ou, ainda, que sejam capazes de descobrir o sentido da vida? Porque a vida é feita assim, de momentos felizes, rotineiros, agradáveis ou incômodos. A atriz Younghee, personagem de “Na Praia à Noite Sozinha”, é bem sucedida no seu trabalho, mas ainda não se encontrou, não sabe direito quem é, o que quer, onde seria bom morar, se vale a pena investir numa relação amorosa, da qual ela duvida, e muitas vezes não tem paciência nos relacionamentos que mantém com amigos e parentes. Vive uma questão existencial, que esbarra nas pequenas coisas do cotidiano e na falta de um projeto de vida que a impulsione para algum lugar. Enfrenta, portanto, os aborrecimentos decorrentes dessa condição, as tentativas um tanto toscas de resolver suas pendências, o incômodo tanto da solidão como do convívio social, que não constroem nada de muito concreto. O filme se torna, assim, melancólico, como sua protagonista, interpretada por Kim Min-hee em seu segundo trabalho com o diretor – após “Certo Agora, Errado Antes” (2015). Pelo desempenho, ela venceu o Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim deste ano. Hong Sang-soo mantém o clima leve das cenas que vimos em outros belos trabalhos dele, como “HaHaHa” (2010), “A Filha de Ninguém” (2013), e o mencionado “Certo Agora, Errado Antes”, mas a insatisfação pesa mais aqui. Pode haver lances patéticos, mas a perda de rumo não chega a ser uma coisa divertida. A falta de um horizonte acaba se transformando em angústia, deixando no ar decisões importantes que, na verdade, não podem ser tomadas. Tudo isso se deduz a partir de cenas e sequências que apenas mostram pequenos incômodos ou problemas, ao lado de uma dificuldade atávica para lidar com eles. Ou de lhes dar a importância que, de fato, eles têm. Na base de tudo, a necessidade e a falta do amor. E também uma certa incapacidade de buscá-lo, de lutar por ele.
Guillaume Canet e Marion Cotillard divertem como si mesmos na comédia Rock’n Roll
A grande surpresa da edição deste ano do Festival Varilux de Cinema Francês, a comédia “Rock’n Roll: Por Trás da Fama”, de Guillaume Canet, chega agora ao circuito comercial. No filme, Guillaume Canet é Guillaume Canet e Marion Cotillard é Marion Cotillard. Pra não mencionar os tantos outros atores e atrizes que interpretam a si mesmos. Pelo menos supostamente. Só por isso, o filme já se torna bastante curioso, como um mergulho na intimidade de grandes astros do cinema francês contemporâneo, ainda que existam várias piadas que só quem conhece a fundo a indústria cinematográfica francesa possa entender melhor. “Rock’n Roll” é dessas obras que acaba se encaminhando para algo totalmente diferente do previsto – um reality show no cinema – , e a surpresa é fundamental para que o filme seja apreciado ou até mesmo odiado. A primeira parte nos apresenta a Guillaume Canet, um ator na faixa dos 40 anos que percebe que já não está mais na turma dos jovens astros em ascensão. Isso acontece principalmente em uma entrevista que ele dá com a sua colega num filme fictício, vivida por Camille Rowe, belíssima jovem modelo e atriz que interpreta sua filha no filme dentro do filme. Indignado, Canet não acha nada legal estar fazendo o papel do pai daquela garota. E fica mais indignado ainda quando descobre que está nas últimas colocações de uma lista de atores “pegáveis” do cinema francês. Quer dizer, não adianta ser um cara estabelecido e ainda por cima casado com Marion Cotillard, a juventude acaba se tornando uma obsessão para ele. Marion Cotillard parece se divertir muito com seu papel, alimentando os estereótipos de uma atriz que tem mania de usar o método de imersão para dar força a seus papéis. É assim que, depois de convidada para atuar em um filme de Xavier Dolan (o não citado “É Apenas o Fim do Mundo”), cisma que precisa estudar e ficar falando o francês com sotaque de Quebec. E isso não é nada bom para o marido que queria ao menos desfrutar de uma noite de sexo com a esposa. E aí começam as mudanças de comportamento: se ele não é do tipo que bebe e usa drogas, passa a querer provar para os outros que pode sim ser rebelde e ter uma vida desregrada, o que acaba rendendo algumas situações engraçadíssimas, com direito a paralisia facial. Aos poucos, vamos percebendo que o próprio Canet aparece mais envelhecido de propósito para compor esse personagem decadente. Mais adiante, os trabalhos de maquiagem se tornarão fundamentais para a segunda e mais ousada parte do filme. Também escrito pelo próprio Canet, “Rock’n Roll” faz uma crítica contundente ao impulso de querer ser “forever young”, mas o faz de maneira muito espirituosa, divertida e sem parecer uma lição de moral. Os excessos são abraçados pelos personagens e a sensação de estranheza acaba sendo mais do que bem-vinda. E se antes o grande público percebia Canet apenas como o ator que despontou em “A Praia” (2000), coadjuvando Leonardo DiCaprio, e por filmes populares como “Feliz Natal” (2005), “Não Conte à Ninguém” (2006) e “Apenas uma Noite” (2010), pode se ver incentivado a querer saber mais sobre sua carreira. “Rock’n Roll” já é o quinto filme dirigido pelo talentoso francês, que é muito mais que o marido galã de sua famosa esposa.












