Culpa cria suspense intenso com o mínimo de ação
Os primeiros minutos do thriller dinamarquês “Culpa” já apontam a eficácia com que sua narrativa será conduzida ao longo de todo o filme. O policial Asger Holm (Jakob Cedergren, de “Esquadrão de Elite”) trabalha como atendente no serviço de emergência da polícia. Sua atitude agressiva e desconfortável explicita sua inexperiência naquela função. Os diálogos com a supervisora informam que ele está ali há pouco tempo e a contragosto. E a ligação de uma repórter, perguntando sobre a audiência do dia seguinte, fornece os detalhes que faltam: ele foi afastado do seu cargo por causa de alguma ação sua, ficando “de castigo” no serviço telefônico enquanto aguarda conclusão da investigação. Próximo do final do seu turno, ele atende a ligação de uma mulher que, fingindo falar com a filha pequena, informa que foi sequestrada pelo seu ex-marido. Então, Asger tenta investigar o caso e salvar a vítima, mesmo estando limitado pelo confinamento do ambiente em que se encontra. Ao contrário da recente produção americana “Chamada de Emergência” (2013), cuja narrativa se alternava entre a atendente do telefone e a vítima sequestrada, aqui nós nunca saímos de perto do policial, e este nunca sai da sala. Em “Culpa”, o crime investigado pelo protagonista surge como uma maneira de expor os segredos que ele próprio estava escondendo. Afinal, assim como na sua investigação, o seu crime também partiu de uma ideia deturpada de certo e errado, levando-o a tomar atitudes que ele não considerava equivocadas. O sequestro faz com que Asger mergulhe na escuridão de uma situação cujas reviravoltas podem trazer à tona os próprios segredos e culpas que ele carrega. Eficaz ao explorar os limites daquele espaço confinado, a fotografia faz uso de elementos diegéticos – como as cortinas e a luz vermelha acima das estações de trabalho – para estabelecer a ambientação sombria que envolve aquele personagem. Ao explorar uma dicotomia entre escuridão e segredos, luz e verdade, é bastante significativo que o filme nos mostre o policial mudando de sala para um local mais escuro, somente para que, após o clímax, ele possa emergir para a luz, totalmente transformado. Conseguindo manter a tensão ao longo de toda a projeção, o diretor e roteirista estreante Gustav Möller explora ao máximo as limitações impostas pela sua narrativa, demonstrando segurança na composição dos seus enquadramentos e no uso de planos-detalhes, sem que estes se tornem repetitivos ou gratuitos. Já o ator Jakob Cedergren, que passa a maior parte do tempo com a câmera colada no seu rosto, explora muito bem as nuances do seu personagem, demonstrando-as por meio de sua expressividade, sem a necessidade de verbaliza-las. Vale destacar, porém, que o filme não se esforça para transformá-lo em um herói, nem para causar empatia no público. Em certo momento, por exemplo, Asger pede desculpas a um colega pelo jeito como o tratou. Mas o que parecia ser uma faísca de humanidade logo se mostra uma estratégia para extrair uma informação que ele necessitava. Ainda assim, conseguimos nos envolver com a sua situação. Não chega a se tornar admiração – até porque muitas das suas atitudes são condenáveis, ilegais e colocam outras pessoas em risco –, mas do reconhecimento de uma personalidade complexa, repleta de falhas, características que o tornam mais humano.
Bohemian Rhapsody é novelão hollywoodiano sem compromisso com os fatos
Vencedor do Globo de Ouro na categoria Melhor Filme Dramático e com cinco indicações ao Oscar (incluindo Melhor Filme e Melhor Ator, para Rami Malek), “Bohemian Rhapsody” cativou uma grande audiência ao mesmo tempo em que frustrou fãs do Queen por sua narrativa “descuidada”. Com custo de US$ 52 milhões e receita de mais de US$ 800 milhões, o filme pode ser visto por dois prismas: no primeiro, ele é um dramalhão hollywoodiano que não tem compromisso com a realidade e com a documentação dos fatos, embaralhando datas e causos para fins emocionais do roteiro. Neste caso, o filme alcança seu intento de novelão musicado, e tem seu lugar garantido numa futura “Tela Quente”. No segundo prisma, “Bohemian Rhapsody” é totalmente refém da incompetência de seus roteiristas, que não conseguiram criar momentos de clímax a contento com a narrativa temporal extensa de 15 anos (um recorte ajudaria tanto), precisando embolar os fatos, maquiar a realidade e criar tensões que não existiram para fisgar o espectador. A lista de incorreções é enorme e incomoda tanto colocar o Rock in Rio de janeiro de 1985 em 1978 quanto vaticinar que Fred Mercury revelou sua doença aos músicos antes do Live Aid em junho de 1985, sendo esse o decantado “show de retorno” da banda após uma não existente separação – só para lembrar: em 1984 a banda fez 36 shows e em 1985, antes do Live Aid, foram 16 datas, duas delas no Rio de Janeiro. Dito isso, “Bohemian Rhapsody” é uma produção pipoca de bom coração (e de grandes canções), que diverte, emociona e se fortalece com a grande atuação de Rami Malek (ao mesmo tempo em que se enfraquece com as polêmicas do diretor Bryan Singer). Só não deveria estar sendo cotado a prêmios como o Oscar. É para assistir sem analisar, porque, se for para analisar, a decepção vence.
Fevereiros celebra a música e a religiosidade de Maria Bethânia
Maria Bethânia, uma das maiores intérpretes da música brasileira, com 50 anos de uma brilhante carreira, já recebeu inúmeras homenagens, foi cantada em prosa e em verso, por meio de todas as mídias possíveis. Um desafio para o documentarista Márcio Debellian. O que ainda faltaria dizer ou abordar sobre ela? Quem mostrou o caminho foi a escola de samba Estação Primeira de Mangueira. Em 2016, a Verde e Rosa homenageou Bethânia com o enredo “Menina dos Olhos de Oya”, dando destaque ao lado religioso da vida dela. O sincretismo religioso de Maria Bethânia combina o candomblé, a devoção católica, sobretudo, à Nossa Senhora e sabedorias herdadas dos índios. Esse amálgama traz a fé temperada pela diversidade e pela tolerância. E o convívio muito próximo e intenso com o mano Caetano acrescenta os elementos de ceticismo e ateísmo à mistura. Caetano Veloso, aberto a tudo, como ela, compartilhando experiências, mesmo sem crer verdadeiramente. Belos exemplos de respeito à ampla diversidade de cultos, crenças e não crenças. Que celebra a vida e a história, com festa. O filme “Fevereiros” explora bem esse caminho, ao mostrar e tratar do desfile campeão da Mangueira, que levou em conta a história do samba, a tolerância religiosa e o racismo, ao homenagear a carreira da cantora, que explodiu em 1964, no show Opinião, com a célebre interpretação de “Carcará”, de João do Vale. A ave, em grandes dimensões, foi um dos destaques do desfile. Márcio Debellian buscou explorar o universo familiar, festivo e religioso de Bethânia, acompanhando-a a Santo Amaro da Purificação, cidade natal dela, no Recôncavo Baiano, a região brasileira que recebeu mais negros escravizados da África. E a cidade que cultua Santo Amaro, Nossa Senhora da Purificação e outros santos em todos os fevereiros, com grandes rituais e festas populares. Maria Bethânia nunca deixa de estar lá, a partir de 31 de janeiro, em todos os fevereiros, luminares, marcantes de sua vida. “Fevereiros” traz a boa conversa de Bethânia, de Caetano Veloso, de outros familiares dela, participações de Chico Buarque e da turma da Mangueira. Tudo muito bom de se ver e ouvir. Pena que haja pouca música cantada por ela, mas isso se perdoa. Afinal, o que mais se conhece dela são suas canções gravadas, os poemas que ela recita lindamente, suas aparições mágicas nos palcos. O recorte de “Fevereiros” é outro, não exatamente original, mas bastante oportuno. Em tempos de fundamentalismos religiosos idiotas e opressores, é bom celebrar a vida, a festa, a tolerância e, sobretudo, a diversidade. Lançado no festival do Rio 2017 e já exibido em 29 festivais de cinema pelo mundo, “Fevereiros” foi escolhido como o Melhor Filme do 10º. In-Edit Brasil e recebeu menção honrosa do Júri Latino-americano do Festival Internacional do Uruguai.
Temporada destaca desempenho premiado de Grace Passô
“Temporada”, de André Novais de Oliveira, o filme mais premiado no último Festival de Brasília, mostra realisticamente o trabalho dos agentes de saúde que partem, de casa em casa, para atuar no combate à dengue e a outras endemias. O foco está em Juliana, que se muda de Itaúna, no interior de Minas Gerais, para assumir um posto de agente de saúde em Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. O seu processo de adaptação ao trabalho, aos seus novos colegas e à ausência do marido, que ficou de vir depois, exige dela muito empenho para lidar com essas dificuldades. E algumas situações pouco comuns podem mudar aspectos importantes da sua vida. O grande trunfo de “Temporada” é a atriz que faz Juliana: Grace Passô. Com grande domínio de cena, muita expressividade e forte desempenho, ela leva o filme com muito êxito. Até quando o que está sendo exibido não empolga tanto assim. O tema, importante na área da saúde, é bem trabalhado, do ponto de vista descritivo. Talvez fosse importante aprofundar mais o assunto, com questionamentos que levassem a uma reflexão mais intensa, já que aí está um dos nós da questão da saúde no Brasil. O objetivo do diretor, no entanto, priorizou a personagem em processo de adaptação e mudança, alçando-a ao primeiro plano. O ótimo desempenho de Grace Passô, premiada como Melhor Atriz nos Festivais de Brasília e de Turim, na Itália, justifica isso. Os demais prêmios conquistados no Festival de Brasília incluem Melhor Filme, Ator Coadjuvante, Direção de Arte e Fotografia.
Wajib usa tradição de casamento para discutir a vida na Palestina
O filme se passa na Palestina, mas o hábito de entregar convites de casamento pessoalmente, envolvendo uma rápida visita a cada convidado, é algo que também foi, e é, bastante praticado no Brasil. Especialmente nas cidades menores. “Wajib” fala desse dever social (que é o que a palavra wajib significa) que tem de ser praticado pelos homens da família, geralmente pai e filho. Diante do casamento da jovem Amal (Maria Zreik), seu pai Abu (Mohammad Bakri), que sempre viveu em Nazaré e tem concepções tradicionais do mundo, e seu irmão Shadi (Saleh Bakri), arquiteto, que mora na Itália, assumem essa tarefa. Enquanto Abu desenvolveu uma espécie de resignação diante de condições de vida que impõem humilhações aos palestinos, por parte do Estado israelense, Shadi, que teve de sair de lá por razões “políticas”, adaptou-se à vida da Itália, mais livre e moderna. Isso é representado em “Wajib” a partir da sua aparência, usando uma calça vermelha, camisa rosa estampada sob um paletó escuro e cabelo amarrado numa espécie de rabo de cavalo. Dito assim, pode parecer ridículo, mas não é. Ele está bem vestido. Só que de uma forma que incomoda conservadores. Há, no entanto, muitas coisas comuns entre pai e filho, sobretudo sentimentos pouco ou nada explicitados. De qualquer modo, essa tarefa, que perpassa todo o filme, não teria como ser harmoniosa, sem conflitos. A diretora palestina Annemarie Jacir (“Quando Vi Você”) enfatiza as sutilezas, tanto das convergências, quanto das diferenças entre eles. E o ambiente conflitivo que os envolve. Mais do que centrar-se nas individualidades dos dois personagens principais, o que se apreende é um clima social opressor, que os divide. A busca de reações independentes e libertárias por parte de Shadi, no entanto, só é possível pelo afastamento do seu contexto cultural de origem. A Itália aparece como um lugar onde se respira liberdade e cultiva-se a beleza, em contraste com o belo ambiente nazareno, porque milenar, mas descuidado e sujeito à destruição, permanentemente. A mulher tem ainda papel secundário, mas envolvendo elementos decisivos para entender como se vive sob amarras moralistas. A mãe, que saiu de lá e construiu uma nova relação no exterior, ameaça não vir ao casamento da filha e isso é fonte de sofrimento para Amal e vergonha para a família. Shadi vive com uma moça em Roma, mas isso é escondido, já que ele não é casado. O que se apresenta é, portanto, uma aparência, uma falsidade. Assim como a ideia, professada por Abu, de que lá é que se vive bem e pode-se ser feliz. Será? É a pergunta que está sempre presente, em cada cena, em cada expressão, em cada visita para entregar convites de casamento. Sobre o próprio casamento de Amal, o que ele realmente significa? “Wajib” tem consistência, profundidade e personagens bem construídos e representados por Mohammad Bakri e Saleh Bakri, pai e filho também na vida real, que sustentam o filme todo o tempo. Muito bem dirigidos por uma cineasta talentosa, sem dúvida.
Como Treinar seu Dragão 3 encerra trilogia de forma emocionante
A trilogia sobre a improvável amizade entre o garoto viking e seu dragão chega ao fim como uma das mais bem equilibradas do cinema. “Como Treinar seu Dragão 3” é tão bom quanto a parte 2, que por sua vez era tão boa quanto o primeiro filme. A Dreamworks atinge um feito raro na animação, construindo uma pequena saga que evolui surpreendendo, ao mesmo tempo em que mantém a identidade original. No novo e último filme da franquia, Soluço é o líder de seu povo vivendo o sonho de uma comunidade pacífica entre humanos e dragões. Mas a chegada de um caçador dessas criaturas vai não apenas colocar os animais em risco, como também todo o modo de vida de sua tribo. A premissa parece mais do mesmo, mas o roteiro a aproveita apenas como ponto de partida para desenvolver melhor seus personagens e suas situações. E talvez este seja o grande diferencial dos longas “Como Treinar seu Dragão”: são sempre sobre relações. Se o primeiro filme lidava com o preconceito e a necessidade de se juntar e compreender o outro para juntos irem além, o segundo tratava de encontros, desencontros e perdas, obrigando tanto Soluço quanto seu dragão Banguela a amadurecerem de forma forçada, assumindo suas respectivas lideranças. Isto feito, para onde a história poderia ir? Em direção ao mais difícil aprendizado: o de abrir mão, compreender que as coisas muitas vezes podem não ser como quereremos e que está tudo bem assim. A trilogia “Como Treinar seu Dragão” revela ser, ao final, um conto sobre crescimento, refletido num garoto e em seu Fúria da Noite. Soluço e Banguela estão ligados não apenas pela mútua relação necessária para voarem, mas também pelo aprendizado conjunto na construção de uma das amizades mais emocionantes já forjadas na tela grande. E o terceiro filme traz todos os elementos que fizeram esta franquia tão especial: personagens cativantes, momentos sublimes de beleza plástica e emocional, sequências de ação muito bem executadas e dilemas pessoais com os quais todos temos que lidar. A série de livros de Cressida Cowell ganhou no cinema uma adaptação vibrante e afetuosa que vai deixar saudades. E algumas lágrimas também.
Homem-Aranha no Aranhaverso revoluciona animações e filmes de super-heróis
“Homem-Aranha no Aranhaverso” é uma explosão de criatividade em todos os quesitos para quem achava que filme de super-herói já esgotou uma fórmula que dizem existir por aí. E também é, sim, o melhor filme solo do herói em 15 anos – desde que Sam Raimi entregou “Homem-Aranha 2”. Trata-se de uma animação. Mas fora das características visuais que Pixar, Disney e DreamWorks padronizaram e acostumaram o mundo inteiro. Mistura com maestria animação tradicional, digital, 3D e o escambau. Mais que isso: traduz a linguagem dos quadrinhos para a tela de maneira revolucionária, visceral, porém orgânica, sem jamais distrair o espectador da história com a beleza de suas imagens. É o tradicional filme de origem virado do avesso. Como diz o título, “Homem-Aranha no Aranhaverso” tem um roteiro loucão que aposta na abertura de infinitas possibilidades, com dimensões e realidades paralelas colidindo para gerar a reunião improvável de diferentes versões do Amigo da Vizinhança. Para embarcar nessa viagem, que fica cada vez mais brisada, graças principalmente às cabeças piradas dos roteiristas Phil Lord e Chris Miller (“Uma Aventura Lego”), o filme confia em duas certezas básicas: todo mundo ama o Homem-Aranha e qualquer um pode usar uma máscara de herói. Não importa cor da pele, classe social, nacionalidade, forma física, idade, gênero ou orientação sexual, o Homem-Aranha do novo século abraça diversidade e representatividade, que sempre estiveram enraizadas no conceito de Stan Lee sobre seus super-heróis: ser diferente é normal e legal demais. O velho Peter Parker de sempre faz parte da história. Velho mesmo, barrigudo, com a barba por fazer, mas de outra dimensão, porque a trama se passa na realidade de Miles Morales (o antigo universo Ultimate da Marvel), completamente diferente daquele que os fãs estão acostumados – para se ter ideia o Peter Parker da dimensão de Miles é loiro e o Dr. Octopus é uma mulher. Mas tem mais. Gwen Stacy de outra dimensão, que ganha poderes de Aranha em vez de Peter, o Aranha Noir, uma garota aranha de visual anime e até um porco aranha antropomórfico. Hilário. E todos vindos de épocas diferentes dos quadrinhos do herói. A animação da Sony é uma homenagem sem precedentes ao personagem da Marvel em diversas mídias, eras e segmentos, e faz desde reverências a Stan Lee e Steve Ditko, os criadores do herói, até piadinhas sobre o merchandising. É dirigido por Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman, mas é importante ressaltar a força criativa de Phil Lord e Chris Miller, jovens talentos que iniciaram a carreira com um desenho animado absolutamente maluco, “Tá Chovendo Hamburguer”, transformaram “Uma Aventura Lego” em franquia e recentemente foram demitidos de “Han Solo: Uma História Star Wars”, porque foram ousadinhos demais. Azar da Disney, pois “Han Solo” fracassou com a direção burocrática de Ron Howard, enquanto “Homem-Aranha no Aranhaverso” atingiu uma galáxia de elogios. E o impacto dessa animação no cenário pop é merecidamente tão forte que a Sony não somente abriu portas para uma nova franquia com inegável apelo popular, como também colocou pressão para cima da concorrência (Pixar, DreamWorks) e dos próprios filmes do Homem-Aranha com Tom Holland.
Juliet, Nua e Crua esconde sátira pop sob verniz de comédia romântica
Sexto romance lançado pelo britânico Nick Hornby, “Juliet, Naked” (2009) foi um respiro de alivio após o pouco inspirado “Slam” (2008) – já adaptado ao cinema. O filme que virou “Juliet, Nua e Crua” parece expurgar, com delicadeza, a egolatria pop que jorrava em litros dos personagens de “Alta Fidelidade” (1995), obra mais famosa do escritor. É quase uma tiração de sarro que, no entanto, ganha brilho num momento capital da trama, que une Duncan (Chris O’Dowd), um fã absolutamente apaixonado (sim, é redundância, mas era preciso reforçar) por um cantor que desapareceu do mapa nos anos 1990, sua namorada Annie (Rose Byrne), uma historiadora da arte afundada na areia movediça de uma cidade onde absolutamente nada acontece, e Tucker Crowe (Ethan Hawke), o tal músico sumido. Tucker lançou o álbum “Juliet” (1993), incluso pela revista Rolling Stone na lista de “Melhores Álbuns sobre Término de Relacionamento de Todos os Tempos”, e depois renegou o disco (sabe o sentimento de Dylan sobre “Blood on The Tracks”? O mesmo). Duncan criou um site para discutir a obra e a vida de Tucker e idolatra tanto “Juliet” que o brilho do álbum apaga absolutamente Annie. Mas tudo isso está prestes a virar do avesso: a audição do disco de demos “Juliet Naked” divide o casal (“Isso é uma obra prima”, diz Duncan enquanto Annie critica: “Como alguém pode achar que um rascunho é melhor que o produto final?”) e será o estopim para uma grande mudança. Para quem não é do universo pop, “Juliet, Nua e Crua” pode soar como uma comédia romântica doce, correta e funcional do diretor Jesse Peretz (“O Ex-Namorado da Minha Mulher”). Porém, para apaixonados por cultura pop e rock alternativo (a trilha traz sobras de Ryan Adams, Conor Oberst, Robyn Hitchcock e Nathan Larson), há uma peça satírica deliciosa escondida por trás da comédia romântica doce, correta e funcional. No caso de Nick Hornby, preste sempre atenção nas entrelinhas. A mágica acontece ali. E há muita mágica presente aqui. Divirta-se.
WiFi Ralph é crossover publicitário com mais marcas que personagens
Ao contrário de “Detona Ralph”, que priorizou uma história ao invés da tentar agradar os fãs de games, “WiFi Ralph: Quebrando a Internet” se perde entre referências. É basicamente um fiapo de roteiro que se apoia num excesso de check-ins e curtidas pelo maior crossover publicitário já feito no cinema. E além de se referir a si mesma na história, a Disney ainda passa a mensagem de que amizade via Facebook e WhatsApp deve ser tão valorizada quanto brincar com crianças no mundo real – o oposto do que todos falam, por sinal. Para começo de conversa, o filme de 2012, ainda que desenvolvido sob a direção criativa de John Lasseter, nunca foi um “Toy Story”, “Procurando Nemo”, “Wall-e”, “Divertidamente” ou “Up”. No padrão Pixar, teria ficado no segundo escalão. Mas para a Disney pós-“O Rei Leão” até que ficou de bom tamanho. A parceria do estúdio com Lasseter depois renderia “Zootopia” e “Moana”, saindo-se melhor que alguns lançamentos da própria Pixar. Mas “Detona Ralph” se contentava em ser uma aventura extremamente divertida com personagens adoráveis, ao mesmo tempo que prestava homenagem aos games do século passado e aos gamers de todas as gerações. “WiFi Ralph”, por sua vez, encosta os coadjuvantes anteriores para apresentar novos personagens (fraquíssimos) e demora a começar para valer. Os primeiros minutos são puro marasmo, oferecendo uma série de referências a games que estão lá somente para satisfazer nerds, que buscam nada mais que referências. Pior que isso: denunciam logo de cara que não há muito o que contar na continuação, como tinha ficado claro durante os créditos finais de “Detona Ralph”. É por isso que Ralph (voz de John C. Reilly, nas versões em inglês) e Vanellope (voz de Sarah Silverman) saem do limitado mundo dos velhos arcades e partem rumo ao universo de possibilidades infinitas da internet para recuperar uma peça fundamental do jogo da princesa, “Corrida Doce”. Quando Ralph e Vanellope entram na rede, o filme de Phil Johnston e Rich Moore mostra o que tem de melhor: as técnicas de animação evoluíram muito de 2012 para 2018, rendendo um visual limpinho e gigantesco para ilustrar a imensidão da internet. Também é bastante criativa a maneira como caracterizaram os avatares dos usuários, os pop-ups, o Instagram, os vírus, a deep web, os jogos onlines e os vídeos babacas que viralizam no YouTube. Mas “WiFi Ralph” também convida o público a apontar “Ei, ali está a logo do Facebook!”, “Os passarinhos são o Twitter!”, “Ah, os Stormtroopers!”, “Caramba, o Homem de Ferro!”, “Iti malia! São as princesas Disney!”, “A Branca de Neve digital ficou com cara de louca, não?”, “Vi o Google lá em cima!”, “Olha o Pinterest!”. Referências que parecem ocupar mais espaço que a própria história, porque roteiro que é bom, nada. Um lampejo começa a ser esboçado da metade para o final. Pena que não dialogue com o resto do filme, embora os minutos iniciais de “WiFi Ralph” joguem algumas pistas no ar que se perdem rapidamente. É uma mensagem ousada para a Disney, mas também questionável, porque a animação é feita essencialmente para crianças e o verdadeiro público-alvo provavelmente não terá maturidade suficiente para assimilar. Além disso, a ideia de valorizar a comunicação via redes sociais parece anúncio pago das grandes marcas que estampam diversas cenas de “WiFi Ralph”. No fim, fica a sensação de que alguém revisou o roteiro para inserir marketing de conteúdo no lugar da história. Apesar de contar com um universo cheio de potencial, a Disney fez de “Detona Ralph” uma jornada completa e centrada nas redenções de dois personagens. Já “WiFi Ralph” se encanta pelo tamanho desse universo, que engole os dois personagens, deixando-os sem rumo. Sobram referências e falta história no roteiro bagunçado, que tem até um inesperado número musical, supostamente engraçadinho, com uma canção ruim de doer.
Bumblebee é o E.T. da franquia Transformers
Você viu esse filme várias vezes, e em embalagens diferentes, mas a fórmula de “E.T.” com visual de “Transformers” não tinha muito como dar errado. Foi preciso contar uma história (vejam só que coisa básica), ter um pouco de noção (e não só explosões) e um diretor promissor (Travis Knight) querendo mostrar serviço para fazer de “Bumblebee” o melhor filme da franquia. De longe. Em resumo, é um filme que dá para assistir. E bem divertido, diga-se de passagem. O filme solo que a gente não sabia que precisava do Transformer mais querido do planeta, trocou os clichês grandiosos de Michael Bay pela sensibilidade de Travis Knight, um novato que encantou com a animação “Kubo e as Cordas Mágicas” e assumiu a franquia mais execrada de Hollywood com a esperança de realizar um milagre. E conseguiu. Nunca antes a crítica gostou tanto de um Transformer. Antes de tudo, e ao contrário de Michael Bay, Knight proibiu câmeras tremidas, deixando toda a ação visível ao olho humano. Livrando o público da dor de cabeça, tratou de tirar-lhe também o peso das costas, entregando um filme mais leve, inclusive no senso de humor. Além disso, corrigiu os rumos da franquia ao retomar os melhores momentos do primeiro “Transformers”, o único até aqui que parece ter sido produzido por Steven Spielberg. Knight voltou ao filme de 2007 para contar a história do menino e seu carro-robô. No caso, da menina e seu fusca-autobot. Além disso, o diretor aproveitou o fato de “Bumblebee” ser um prólogo passado nos 1980 para incorporar o espírito da época – em que Spielberg fez “E.T” e reinou absoluto como rei dos blockbusters. Tanto em cena, ao reproduzir o tipo de aventura juvenil daquela era, quando na trilha, cheia de músicas que marcaram a década – The Smiths, A-ha, Simple Minds, Duran Duran, Rick Astley, Tears for Fears, entre outros. Tirando os efeitos visuais, absolutamente modernos, “Bumblebee” parece pertencer à época que retrata. Tem cara de cinemão da década de 1980. Mas não pense que o filme é antiquado. A começar por trazer uma protagonista feminina, que não precisa de homem nenhum para alcançar seus objetivos – como Ripley, na franquia “Alien”. Não está ali só para beijar um cara na cena final nem para gritar de medo diante do menor perigo. Hailee Steinfeld já tinha provado seu talento precoce em “Bravura Indômita”, filmão de 2010 dos Irmãos Coen, que lhe rendeu até indicação ao Oscar. São nove anos de lá até aqui e, como já tinha mostrado em “Quase 18”, ela virou estrela. Seu talento ajuda a transmitir a emoção necessária para a transição dramática da história. Pois se “Bumblebee” é divertido, também traz aquele momento de dar nó na garganta. É “E.T.” telefonando dos anos 1980 para o cinema atual. “Bumblebee” ainda evita erros de outros prólogos, como “Han Solo”, que tentam se conectar aos longas originais atirando referências para fãs, antes mesmo de ter um roteiro definido. Isso abre possibilidades para que “Bumblebee” tenha sua própria franquia sem se preocupar com o que foi visto antes. Não é uma novidade, mas é um recomeço muito bem feito – e com direito a usar e abusar dos efeitos sonoros do desenho antigão dos Transformers. Parecia que tinham vergonha disso, mas como a nostalgia impera em “Bumblebee”, até o famoso som de transformação foi (bem) recuperado.
O Retorno de Mary Poppins leva o espectador à era de ouro de Hollywood
Se atualmente a Disney quer transformar suas animações em filmes live-action, o próprio Walt pensou ao contrário quando decidiu adaptar o livro de P.L. Travers em live-action com cara de animação. “Mary Poppins” ainda é a maior referência em termos de mistura de atores e desenhos da Disney. Não há nada igual com tamanha qualidade. E independentemente de qualquer coisa, o clássico de 1964 e Julie Andrews permanecem eternos, irretocáveis e encantadores até hoje. Por isso mesmo, sua primeira continuação não poderia arriscar nada muito diferente, exceto uma homenagem emocionante ao original e, consequentemente, uma viagem ao tempo dos musicais de outra era de Hollywood. Ou seja, trilhando o caminho da nostalgia sem deixar de dar sequência aos eventos narrados no original. Por isso, “O Retorno de Mary Poppins” parece o mesmo filme de antigamente. Lembra sua estrutura de roteiro e um cinema “classudo” que não volta mais, porém alguns pontos técnicos e narrativos foram devidamente atualizados. A transição foi muito bem feita (com amor) e continua uma história mágica como deve ser, mas com uma Emily Blunt maravilhosa, uma deusa como a Mary Poppins deste século, que só pode ter deixado Julie Andrews orgulhosa. Esse filme é sua consagração definitiva como atriz e estrela de cinema. Isso não quer dizer que “O Retorno de Mary Poppins” não tenha novidades em relação ao longa de 1964. No longa original de Robert Stevenson, a babá vivida por Julie Andrews faz as crianças agirem como crianças e não como pequenos adultos, enquanto mostra a um homem a importância de ser pai. No filme de Rob Marshall, a babá, agora interpretada por Emily Blunt, volta a fazer o mesmo com as crianças, mas o principal foco é mostrar que ser adulto não significa necessariamente matar a criança que existe dentro de você. Se a estrutura é praticamente a mesma, além dos cenários reproduzidos com o máximo de fidelidade, deixando a impressão proposital de que o tempo não passou, até as músicas de “O Retorno de Mary Poppins” são boas, assim como os números musicais. Destaque para “A Cover is Not the Book” e “Trip a Little Light Fantastic”, que provam o quanto Emily Blunt e Lin-Manuel Miranda nasceram para cantar e dançar juntos e com figurinos exuberantes, da mesma forma que Julie Andrews e Dick Van Dyke. O veterano ator e dançarino, por sinal, tem uma breve e emocionante participação na sequência, sapateando, claro, aos 93 anos de idade. Os mais velhos podem ir às lágrimas devido ao saudosismo e, embora o público infantil de hoje seja muito diferente da época de “Mary Poppins”, as crianças também podem embarcar na magia só pela grandiosidade em cena, embora tanta dança e cantoria possa parecer um tanto cansativo para a geração mais acostumada com explosões de games e de filmes de super-heróis. De todo modo, é possível reparar que, ao contrário do lançamento de 1964, um filme infantil para espectadores de todas as idades, o novo “Mary Poppins” mirou mesmo os adultos que amam o clássico, levando em consideração a mensagem para que ele não esqueça que foi criança um dia. É claro que “O Retorno de Mary Poppins” está longe de ser perfeito. O filme não precisava de um vilão e toda a sequência com Meryl Streep parece ter sido concebida só para contar com… a participação de Meryl Streep. Mas o diretor dos musicais “Chicago” (2002), “Nine” (2009) e “Caminhos da Floresta” (2014) conseguiu entregar seu melhor filme ao relembrar que o cinema ainda pode reviver sua era de ouro sem trair sua evolução natural – como unir animação tradicional com CGI, musicais à moda antiga com uma narrativa moderna e efeitos práticos com digitais.
Bird Box não é o fim do mundo, mas lembra o Fim dos Tempos
“Bird Box” não é o pior filme do mundo. É uma “Tela Quente” bem mais interessante que “Fim dos Tempos” (2008), aquela porcaria do M. Night Shyamalan, que vem aí de novo com “Vidro”. Ele é um diretor bem mais talentoso e com um repertório narrativo cheio de soluções visuais mais criativas que a dinamarquesa Susanne Bier. Mas colocou Mark Wahlberg para falar com uma planta em “Fim dos Tempos”, enquanto Sandra Bullock não passa vergonha em “Bird Box” e sabe atuar. Claro que, quando a referência imediata vem de um filme ruim que quase ninguém lembra que viu, a coisa não pode ser muito bonita. Mas também não precisa vendar os olhos para encarar “Bird Box”, porque Sandra Bullock é uma mulher capaz de tudo. Poucas atrizes sabem transitar entre drama e comédia com tamanha eficiência e experiência para segurar qualquer filme nas costas, atraindo praticamente toda a atenção do público. E ainda tem uma garotinha sensacional no elenco, a pequena notável Vivien Lyra Blair, além do talento promissor de Trevante Rhoades, de “Moonlight”, embora John Malkovich, Sarah Paulson e Jackie Weaver aparecem apenas pela obrigação de manter as contas em dia. “Bird Box” é sobre algo que surge do nada e que não pode ser visto, então, leva as pessoas a cometer suicídio. Alienígenas? Entidades malignas? A câmera não mostra e é melhor assim. Talvez seja uma metáfora para a depressão, o medo que de nós mesmos e da possível e consequente desistência da vida. Ótimo que o espectador possa entender “Bird Box” como quiser, afinal arte é uma experiência bem pessoal. E a analogia sobre depressão não é absurda, pois a jornada da personagem de Sandra envolve sua aceitação da maternidade, solução que representa sua própria razão para viver. Pena que a diretora Susanne Bier dilua qualquer simbologia em prol do melodrama e de uma história mais convencional. Fica a sensação de que o roteiro de Eric Heisserer (“A Chegada”), baseado no livro de Josh Malerman, precisava de um olhar mais profundo para traduzir a reflexão que parece ter repercutido mais em quem leu a obra original. Em vez disso, a trama prefere investir nos momentos clichês da estupidez humana, que existem em nove de cada dez filmes que flertam com o terror – como abrir portas para estranhos no meio do caos, ver uma notícia sobre suicídio em massa na Rússia e ignorar o fato como se fosse a coisa mais normal do mundo, e correr por uma floresta com os olhos vendados só para tomar inúmeros tombos. Para se arriscar em um território tão explorado é preciso desbravar fronteiras e percorrer caminhos jamais percorridos. Não é o que faz Susanne Bier que, numa era não muito distante, conquistou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por “Em um Mundo Melhor” (2010). Era de se esperar mais dela. Especialmente após outro filme com temas mais ou menos similares ir muito além e se destacar em 2018, o excelente “Um Lugar Silencioso”.
Yara mostra Líbano pouco difundido, como paraíso romântico
“Yara” leva os espectadores a uma região de grande beleza natural, no norte do Líbano: o Vale de Qadisha, uma localidade rural isolada, cercada de belas montanhas e uma paisagem verde exuberante. Circulam por lá as cabras, as galinhas, gente que cozinha, lava roupa, toma sol. Muito pouca gente. Num ambiente tranquilo e de muita paz, tão perto de uma zona conflagrada, vivem a adolescente Yara (Michelle Wehbe) e sua avó, numa rotina em que, a rigor, nada acontece e tudo se repete. No entanto, a entrada em cena de um jovem andarilho, Elias (Elias Freifer), meio perdido naquela região, acaba trazendo uma inesperada amizade e a perspectiva de um amor de verão para Yara e para ele. A narrativa rarefeita de “Yara” se resume a isso, num ritmo bastante lento, contemplativo. Durante uma hora e meia vivemos nesse paraíso de beleza e paz, sorvendo cada instante, percebendo nuances, detalhes. É um tipo de filme, hoje já disseminado, que se contrapõe à tendência não só do cinemão comercial, agitado e enlouquecido, como da vida diária das grandes cidades do mundo, seus conflitos e suas guerras. Um bálsamo para tempos bicudos. É curioso que essa tenha sido a escolha do diretor Abbas Fahdel, nascido no Iraque e vivendo na França desde os 18 anos de idade. Ele atuou como documentarista em função da terrível situação da guerra em seu país, procurando entender o que teria acontecido com seus amigos de infância que lá permaneceram, registrando um Iraque abalado pela violência, pelo pesadelo da ditadura e pelo caos que lá se instalou em “Retour à Babylone” (2002). Outro documentário seu, “Homeland (Iraq Year Zero)”, aborda a invasão norte-americana do país. E sua única ficção anterior, “L’Aube du Monde” (2008), é um drama sobre os múltiplos impactos da Guerra do Golfo, numa área conhecida como Jardim do Éden. Com esse histórico e essa identidade geográfica, chega a ser surpreendente esse conto de amor, emoldurado pela beleza natural, pela juventude, pela inocência e pela sutileza. O diretor foi em busca de uma fábula que traz o reverso da moeda. Um alívio, depois de tanta guerra e destruição. Um filme extremamente delicado e sensível, ambientado num Líbano pacífico. Um filme para relaxar e curtir, sem pressa.












