Se a Rua Beale Falasse usa a beleza do amor para enfrentar a feiura do racismo
O cinema poucas vezes neste século soube traduzir o amor em imagens tão belas. Na adaptação do livro “Se a Rua Beale Falasse”, o cineasta Barry Jenkins (de “Moonlight”) faz com imagens o que o autor James Baldwin faz com palavras: pura poesia. Mas há uma razão para o filme ser tão belo. Jenkins quer que o amor vença a dureza da realidade, os preconceitos e o racismo nojento que destrói sonhos. Como os do jovem casal Tish (a estreante KiKi Layne) e Fonny (Stephan James), que cresceram juntos e se apaixonaram nos anos dourados da juventude. Mas antes de entrarem na complexidade da vida adulta e em entre as quatro paredes que testam a força de qualquer relacionamento, ela engravida e Fonny é preso injustamente. A acusação é estupro, mas estamos falando de uma sentença decretada pela cor da pele. Se hoje seria missão impossível para um inocente sair da cadeia com esse peso nas costas, imagine para um homem negro em plena década de 1970. É natural pensar que, a partir deste ponto, “Se a Rua Beale Falasse” ganhará status de novelão, mas Barry Jenkins não quer saber de melodrama. Também não quer transformar a prisão de Fonny em busca de justiça a qualquer preço ou fazer do personagem um mártir. O diretor e roteirista está interessado em contrastes, embora deixe clara sua intenção de preferir o amor ao discurso político e social, tarefa que cabe a quem assistir ao filme. Para cada sorriso, uma lágrima. Para cada cena feliz, uma tristeza chega repentinamente para equilibrar o tom. Por exemplo, repare na cena em que os pais de Tish convidam a família de Fonny para o anúncio da gravidez da menina. A alegria logo dá lugar a um estressante desentendimento, carregado de mágoa, como uma reviravolta que acontece no meio de encontros casuais nas melhores famílias. Em outra cena, Fonny e um amigo tem um papo descontraído, pouco a pouco substituído pela melancolia e o medo causado pelo racismo. Existem outras cenas que revelam essa dualidade, como a abertura do filme, com Tish e Fonny caminhando juntos para Barry Jenkins mostrá-los logo depois separados por um vidro. Mas não pense que o choro sempre interrompe um sorriso, porque Barry Jenkins se recusa a abraçar a tragédia mesmo nos momentos mais difíceis para o casal. O cineasta nunca esconde a existência do ódio e a ameaça dos brancos racistas, mas não é panfletário, e coloca o amor acima de tudo. Quando não há mais esperança, ele tem a ousadia de entregar uma cena de parto natural, que representa um novo começo e é uma das coisas mais maravilhosas do cinema recente. Onde Barry Jenkins e o diretor de fotografia James Laxton colocaram a maldita câmera nesta cena? Teria sido um truque de CGI e edição imperceptível como fez Alejandro González Iñárritu ao longo de “Birdman”? Provavelmente, apenas a magia do cinema. Jenkins ainda é jovem e tem muito para dar à sétima arte. Mas ele está no controle de seu ofício em “Se a Rua Beale Falasse”. Só um diretor experiente deixaria a trama fluir sem ruídos na narrativa ao entrelaçar seu filme com idas e vindas entre passado e presente. A montagem se confunde na linha temporal, mas se organiza facilmente na mente do espectador embriagado com tanta beleza. Sua sintonia profunda com a música belíssima de Nicholas Britell é o cinema dizendo que a vida tem trilha sonora. E é curioso que Jenkins abra o filme contando o elo do jazz e Louis Armstrong com a Rua Beale, em New Orleans, mas jamais mostre músicos exercendo suas profissões. Ele mostra discos tocando e é só. É como se a música tocasse para valer apenas nas mentes de Tish e Fonny. Para completar, é preciso destacar ainda a bravura de Regina King como a mãe de Tish, que coloca o amor pela filha acima de sua própria vida. É tudo muito honesto e direto, com personagens excessivamente em closes, olhando para dentro de nossos olhos. O racismo é real e você precisa ver que ele está lá. Mas também precisa ter esperança e se agarrar ao que te faz feliz.
Minha Fama de Mau celebra importância de Erasmo Carlos para o rock brasileiro
Erasmo Carlos, roqueiro e romântico, cantor e compositor, foi um dos pilares do programa “Jovem Guarda”, um megasucesso televisivo dos anos 1960, que se tornou um movimento de música jovem brasileira, sempre relembrado desde então. Roberto Carlos, o amigo e parceiro de Erasmo, manteve-se em alta sempre, mudando estilo, prioridades e público. Wanderléa, o terceiro pilar da Jovem Guarda, e Erasmo Carlos não conseguiram o mesmo resultado, mas são lembrados por seu pioneirismo que conseguiu incorporar o rock, então nascente, à música brasileira, compondo, vertendo e cantando em português (antes deles houve Celly Campello). Eles comandaram um time de artistas jovens, que se tornaram ídolos da brotolândia, como se dizia na época. Erasmo manteve uma carreira mais discreta como cantor, ao longo do tempo, mas dividindo com Roberto a grande maioria das composições que este lançava ao sucesso. Como acontece até hoje. “Minha Fama de Mau”, o filme de Lui Farias, é uma adaptação do livro escrito por Erasmo Carlos, contando parte de sua vida e carreira, da juventude pobre na Tijuca, vivendo em casa de cômodos, o popular cortiço, ao sucesso retumbante da Jovem Guarda e o posterior declínio. Passa pelo tempo do conjunto The Snakes e pelo conhecimento de Tião, depois Tim Maia, que lhe ensinou três acordes no violão, que lhe valeram muito, e também pelo período de afastamento de Roberto Carlos e a retomada da amizade e da parceria. Lá estão as muitas mulheres que passaram pela vida dele, inclusive a esposa Narinha. O filme optou por escolher uma única atriz para representar todas elas, Bianca Comparato. Uma opção interessante que, na prática, nivela as parceiras amorosas e sexuais por baixo. Todas valem pouco, pelo menos, até o aparecimento de Narinha. É o que deve ter sido captado pelos roteiristas Lui Farias, L. G. Bayão e Letícia Mey, do texto original, suponho. O filme é contado na primeira pessoa, é a visão de Erasmo Carlos sobre sua vida e carreira. O personagem chega a falar diretamente para a câmera, ou seja, contar para o público o que se passava ou o que era sentido por ele. O ator protagonista é Chay Suede, que não se parece fisicamente com Erasmo, mas convence pela entrega ao papel e porque canta bem as canções que marcaram o Tremendão. Gabriel Leone, que faz Roberto, e Malu Rodrigues, que faz Wanderléa, também cantam bem e compõem um bom elenco, assim como Bruno Luca, que faz Carlos Imperial, o empresário pilantra e pretensioso que, de qualquer modo, abriu muitas portas para Erasmo. O filme tem uma boa caracterização de época, incluindo signos muito claros da Jovem Guarda, como ambientes, vestuário, cartazes, instrumentos. Tem também achados interessantes, como a interação entre a interpretação de hoje e as imagens da plateia da época. Os elementos políticos da ditadura militar estão ausentes, mas estavam também ausentes na visão dos brotos e desses ídolos, no período. Algum tempo atrás, vi uma entrevista com Erasmo Carlos, em que ele dizia que estava na hora de se mostrar novamente. E contava que sua neta, na escola, informava às amiguinhas que Erasmo era amigo e parceiro de Roberto Carlos e muito famoso, mas elas relutavam em acreditar. As gerações passam e a história pode se perder. Daí a importância de filmes como “Minha Fama de Mau”. iframe width=”650″ height=”365″ src=”https://www.youtube.com/watch?v=8yh0GHxs8Ns” frameborder=”0″ allowfullscreen>
Guerra Fria filma a paixão com fotografia espetacular
Em 2013, o realizador polonês Pawel Aleksander Pawlikowski ganhou destaque mundial ao arrebatar o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira por sua 10ª produção, o lírico “Ida”, um filme em que uma jovem noviça prestes a confirmar os votos é “apresentada” à família que nunca teve, à John Coltrane e a si mesma. Além dessa estatueta, “Ida” foi indicado também por sua exuberante fotografia, perdendo para o ególatra “Birdman”. Corta para 2019: “Guerra Fria”, seu novo filme, utiliza novamente a coloração P&B e a Proporção de Tela 1.33:1 buscando emular os filmes poloneses da época para contar a história de Zula (Joanna Kulig) e Wiktor (Tomasz Kot), um casal que se conhece numa escola de música na Polônia do pós-Guerra e atravessa todo o período da Guerra Fria entre encontros e desencontros, vivendo uma paixão tão intensa que, por fim, irá arrebatá-los (e aos espectadores também). De canções folclóricas tradicionais, o grupo passará a difundir propaganda comunista, momento em que o pianista e maestro Wiktor aproveitará para pular fora do barco e partir para ser pianista de jazz em botecos enfumaçados em Paris. Zula deveria acompanhá-lo na fuga, mas o medo a reterá… por um tempo. Entre idas e vindas, “Guerra Fria” irá mostrar como decisões do Estado podem interferir na vida das pessoas (no amor inclusive), tendo uma bela trilha sonora ao fundo e uma fotografia espetacular, conjunto que rendeu novas indicações ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira e Melhor Fotografia, além de uma surpreendente e merecida indicação a Melhor Diretor. Ao contrário de 2014, porém, “Guerra Fria” deve perder a primeira estatueta (de Melhor Filme em Língua Estrangeira para “Roma”), mas pode garantir a segunda, após o Sindicato dos Diretores de Fotografia premiar o trabalho de Lukasz Zal. Dedos cruzados porque o filme e o cinema (polonês e mundial) merecem. Nota: 9
Glenn Close transforma A Esposa em filme de Oscar
Glenn Close nunca ganhou um Oscar. Sua primeira indicação (como Melhor Atriz Coadjuvante) foi em 1982 (!) por “O Mundo Segundo Garp”, mas quem levou foi Jessica Lange por “Tootsie” (merecido, né). De lá para cá foram mais seis nominações: em 1984 e 1985 por “Os Amigos de Alex” e “The Natural”, em 1987 por “Atração Fatal” (ela perdeu para Cher em “Moonstruck” – sério), em 1989 por sua atuação no maravilhoso “Ligações Perigosas” (Jodie Foster levou por “Acusados”) e 2011 por “Albert Nobbs”. Com “A Esposa”, ela soma sua 7ª indicação, e será meio difícil tirar a estatueta dourada dela – ainda que se prefira Olivia Colman em “A Favorita” – , pois a atriz carrega totalmente sozinha a boa história inspirada no livro de “The Wife” (2003), de Meg Wolitzer, lutando contra um elenco deslocado e mal dirigido: Max Irons (filho de Jeremy Irons) entrega uma atuação patética como filho do casal e, nos flashbacks, Harry Lloyd interpreta um Joe Castleman (o marido jovem do personagem de Glenn Close) digno de novela das 19h da Rede Globo. Pisando sobre todos eles, inclusive um irreconhecível Christian Slater (como o biógrafo mala), Glenn Close brilha numa trama que começa quando o marido Joe (Jonathan Pryce) recebe o Prêmio Nobel de Literatura e precisa ir a Estocolmo receber as honrarias. Sua esposa, Joan (Glenn), entra numa espiral de repensar as escolhas de sua vida, e a trama (meio Agatha Christie, ainda que um tiquinho óbvia) irá revelando aos poucos como o casal construiu seu passado (e seu presente). No fim das contas, um bom filme médio do sueco Björn Runge (“Happy End”), feito para Glenn Close brilhar. Mas será que isso basta para levar o Oscar?
Willem Dafoe impressiona como Van Gogh em No Portal da Eternidade
A obra pictórica de Vincent Van Gogh (1853-1890) é impressionante, revolucionou a pintura, tornou-se uma quase unanimidade ao longo do tempo. Foi praticamente ignorada, porém, enquanto ele estava vivo. Recebeu algum reconhecimento crítico, mas nenhum êxito econômico. Consta que, apesar dos esforços do dedicado irmão Theo, nem um único quadro foi vendido até sua morte. Isso já é suficiente para despertar o interesse pelo personagem, mas sua vida solitária, desencontrada, com lances de loucura, como o corte da orelha, dificuldades no convívio, rejeição da comunidade, sombras sobre a sua morte, tornam tudo mais misterioso e sedutor. Não por acaso, o cinema dedicou vários filmes importantes a Van Gogh, começando por um curta de Alain Resnais, de 1948, passando por “Sede de Viver”, de Vincent Minnelli, de 1956, com Kirk Douglas vivendo o pintor. Mais dois filmes praticamente simultâneos, “Vincent & Theo”, de Robert Altman, protagonizado por Tim Roth, em 1990, e o ótimo “Van Gogh”, de Maurice Pialat, com Jacques Dutronc no papel principal, em 1991. Até “Com Amor, Van Gogh”, uma animação adulta de 2017, sobre as obras e o final da vida do pintor, dirigida por Dorota Kobiela e Hugh Weichman. Agora, é o diretor americano – e também pintor – Julian Schnabel quem volta ao personagem, em outro belo filme sobre o período final da vida de Van Gogh, “No Portal da Eternidade”. O mistério dessa vida aqui vai ser explorado não só na beleza de suas obras, mas na natureza, tão essencial à sua pintura, mostrada com exuberância e sofisticação visual. Buscará também uma reflexão sobre a relação da obra com o criador, o significado da arte, a determinação quase impositiva do talento criativo. Algo que tem de se expressar de forma borbulhante, explosiva, que não tem como ser contido. Que seria isso, afinal? Dom, destino, missão, loucura? Willem Dafoe faz o personagem com grande força interpretativa e alcançando uma similaridade com a figura conhecida do pintor, que impressiona. Tanto que concorre, pela primeira vez, ao Oscar de Melhor Ator – após três indicações como Coadjuvante, a mais recente por “Projeto Flórida”, no ano passado. O elenco é todo cheio de talentos conhecidos – Oscar Isaac, Mads Mikkelsen, Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner, etc. São intérpretes experientes, que dão suporte consistente à narrativa de Schnabel, que já dirigiu “O Escafandro e a Borboleta”, um êxito de 2007, e outro filme sobre um pintor, “Basquiat – Traços de uma Vida”, de 1996.
Climax vai do sensual ao desagradável em busca de algo diferente
Às vezes basta uma cena para que um filme se torne memorável. Mesmo quando esse filme seja cheio de problemas e provoque mais insatisfações do que alegrias. Em “Climax”, de Gaspar Noé, trata-se de uma sucessão de performances solo dos dançarinos e dançarinas, mostrada através de uma câmera que visualiza a ação de cima. Aquilo é tão belo e sensual e a música é tão intensa e envolvente que, por alguns minutos, até parece que estamos vendo um dos melhores filmes do ano. A cena acontece depois que o público começa a conhecer um grupo relativamente grande de dançarinos numa festa de comemoração, apresentados de maneira interessante – e ao mesmo tempo dispersiva – na abertura do filme. É dispersiva principalmente para quem gosta de livros, filmes e estantes. Do lado de uma televisão, há duas prateleiras que completam a tela scope da janela com livros e capas de VHS (o filme se passa nos anos 1990) relacionados a cinema ou a temas ao gosto do diretor: Buñuel, Argento, Fassbinder, Pasolini, Nietzsche, entre outros. E por falar em Buñuel, o fato de as pessoas não poderem sair daquele espaço em que estão lembra um pouco “O Anjo Exterminador” (1962), clássico do mais talentoso dos cineastas espanhóis. Mas esse elemento acaba sendo esquecido ao longo das conversas entre os personagens, muitas delas sobre sexo. Destaque para o papo entre dois homens sobre quais mulheres do grupo eles já transaram e quais desejam transar e como vão fazer. Uma pena que Noé tenha uma obsessão quase infantil de querer chocar a plateia e acaba transformando o que poderia ser impactante do ponto de vista formal, sensual e poético em algo que busca se tornar desagradável, como já é tradicional em sua filmografia – como a cena prolongada de estupro de “Irreversível” (2002). Assim, o terceiro ato do filme tenta emular o estado de perturbação dos personagens, depois de terem sido drogados por uma substância alucinógena, abrindo espaço para cenas de câmeras rodopiantes e algumas cenas de violência gráfica e brutal (não é nada agradável ver uma mulher grávida receber chutes na barriga). Ainda assim, a lembrança que merece ser evocada desta experiência, filmada com um fiapo de roteiro de cinco páginas, participação da atriz Sofia Boutella (“A Múmia”), da porn star Giselle Palmer (“She Likes It Rough”) e muita vontade de fazer algo diferente, é das referidas danças sensuais ao som de um áudio poderoso – a música pulsante é cortesia de Thomas Bangalter, do Daft Punk. De fato, esse filme poderia ser muito mais gostoso se não precisasse contar uma história.
Io é só mais uma sci-fi fraquinha da Netflix
Graças à ganância do homem e sua exploração infinita da fauna e da flora, a vida na Terra acabou. Não dá mais para respirar e a (parte rica da) humanidade deixou o planeta em busca de um novo lugar para morar. Apenas uma pessoa é deixada para trás. E não estamos falando do robozinho Wall-E, mas de Margaret Qualley (“The Leftovers”). A premissa de “Io” é a mesma de “Wall-E” (2008), mas seu desenvolvimento parte para outro caminho, embora dê em um lugar já muito visitado. Esse nem é o maior problema, afinal é a jornada que importa, mas ela é desenvolvida através de clichês, situações previsíveis e diálogos pobres. Margaret Qualley é Sam, filha de um renomado cientista. Ambos ficaram na Terra para estudarem a possibilidade de reconstrução ou a readaptação do planeta. O resto foi para Io, nome de uma lua de Júpiter. Num belo dia, ela cruza com outro perdido que chega do nada de balão (!). Micah é interpretado por Anthony Mackie (o Falcão de “Vingadores: Guerra Infinita”), que recita Platão para ilustrar o que já estamos vendo em cena, e explica em seguida, novamente, para quem não entendeu o claro significado da reflexão. Até sua ponta em “Homem-Formiga” é mais profunda que toda sua participação em “Io”. E não adianta o diretor Jonathan Helpert encher o filme de paisagens belas ou o cabelo de Sam ao vento, quando nenhuma imagem contribui para traduzir o que ela está pensando nem propõe a dimensão de sua angústia. Em resumo, “Io” é só mais uma ficção científica fraquinha da Netflix, como “Titã”, “Mudo”, “Onde Está Segunda?”, “Spectral”, “O Paradoxo Cloverfield” e “Próxima Parada: Apocalipse”.
Vice traz Christian Bale irreconhecível como político que dominou os EUA
Após os ataques terroristas sofridos pelos Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001, o país entrou em estado de guerra. Mas guerra contra quem? Pesquisas indicavam que grande parte da população só entendia a guerra contra algum país. Era preciso nomear o inimigo. Simples. O vice-presidente Dick Cheney teria decidido eleger o Iraque de Saddam Hussein para invadir, criando a mentira das armas de destruição químicas que lá existiriam. Uma escolha fácil de ser aprovada pelo presidente George W. Bush, ainda mais com a cobiça por tanto petróleo. Ninguém se importando com a democracia, muito menos com o respeito aos princípios de não-intervenção, nem com as vidas humanas aí envolvidas. Essa história é uma das muitas sequências de “Vice”, escrito e dirigido por Adam McKay (vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por “A Grande Aposta”). Por meio dela, pode-se sentir por onde andará o filme que pretendeu fazer uma cinebiografia de um político abominável, poderoso e controverso, como Dick Cheney. O tom é satírico, irônico, às vezes dramático, às vezes cômico. Mas, na verdade, trágico, porque o que estava envolvido na política norte-americana e mundial daquele período não era outra coisa, senão a cobiça. E não mudou nada, diga-se de passagem. Sabemos muito bem da importância que pode ter um vice-presidente na história da República. É só lembrar de João Goulart, José Sarney, Itamar Franco, Michel Temer. E Dick Cheney jamais se queixaria de ser um vice decorativo. Ele negociou sua entrada na chapa de Bush, desde o primeiro momento, garantindo amplos poderes. E, segundo o filme, dominou o governo e o presidente, deixando um legado lamentável. O filme de McKay lembra os seus dias de fracasso e alcoolismo, antes de encontrar seu caminho na política. O que foi feito de forma fortuita e pragmática, nem de leve sustentado por eventuais bandeiras ideológicas do Partido Republicano. Não lhe faltaram mestres nessa cultura do cinismo e do interesse próprio. Mas, muitas vezes, os alunos superam seus mestres. Christian Bale está muito bem, quase irreconhecível, como Dick Cheney, em diferentes épocas da vida do personagem. Já levou o Globo de Ouro como Melhor Ator (de Comédia ou Musical) e está cotado para o Oscar 2019. O filme tem, no total, 8 indicações.
Talento de atores faz Green Book ser levado a sério
“Green Book – O Guia” é o primeiro filme, vamos dizer assim, sério do diretor Peter Farrelly. Sim, a outra metade dos Irmãos Farrelly (Bobby não dirigiu, mas apoiou o projeto do início ao fim), de “Debi e Lóide” (1994) e “Quem Vai Ficar com Mary?” (1998). Você pode acusar a produção de ser à moda antiga ou de entrar para a lista daqueles tradicionais filmes de Oscar, certinhos, mainstream, by the book, que Hollywood faz de montão, mas que sempre surgem com muita força nas premiações – como “Kramer vs Kramer” (1979), “Conduzindo Miss Daisy” (1989) e “Uma Mente Brilhante” (2001). Mas não pode acusar “Green Book” de má intenção. Peter Farrelly admitiu erros grotescos nos bastidores de outros filmes e o roteirista Nick Vallelonga falou merda no Twitter, mas conseguiram sentar, criar e executar um filme que, queira ou não, será lembrado por muito tempo. É o primeiro drama de Peter, embora tenha seus momentos de humor, claro. Sai a comédia, entra o drama; sai a grosseria para dar lugar à finesse. Mas é a velha história de amizade entre homens num road movie (“Debi e Lóide”, “Kingpin”) em que a jornada evolui seus protagonistas como seres humanos. E isso também estava inserido de alguma forma em “Quem Vai Ficar com Mary?”. Na trama, Tony Lip (Viggo Mortensen) é um leão de chácara bruto, grosso, descendente de italianos, falastrão e racista. Um típico personagem dos irmãos Farrelly, cultivando estereótipos. Com a grana curta, ele aceita trabalhar como motorista (e segurança) de um pianista erudito, ninguém menos que o célebre Dr. Don Shirley (Mahershala Ali), durante dois meses na estrada para cumprir a agenda de turnê do músico pelo sul dos Estados Unidos, o território mais preconceituoso, numa época em que o país estava pegando fogo. Juntos, eles seguem um guia tão absurdo quanto verídico, o tal Green Book, um livro que mostra os hotéis e locais que negros podem frequentar. Em resumo, a viagem não foi nada fácil, mas deve ter sido muito, muito mais dura na vida real. O filme é acusado de amenizar os fatos reais em que supostamente se baseia. Ou seja, Hollywood sendo Hollywood. E essa passada de pano na história para favorecer os clichês de “buddy movie” entrega que se trata de um filme convencional. Sem esquecer que também é um filme sobre racismo escrito e dirigido por brancos, que privilegia a conscientização do branco sobre o sofrimento do negro. Tony e Shirley dizem coisas terríveis um ao outro, mas Farrelly passa um verniz dramático que só contadores de histórias acostumados com comédias sabem dosar. Tudo para, no final, eles se entenderem e se complementarem. Esse enredo basicão rendeu prêmios, como a conquista do Festival de Toronto, do Globo de Ouro de Melhor Comédia e ainda tem cinco indicações ao Oscar. Claro que ajuda muito contar com atores no topo de suas capacidades artísticas. Concorde-se ou não com o cinema dos Farrelly, Viggo Mortensen e Mahershala Ali formam uma inesperada dupla perfeita. Mortensen é o raro caso de ator que não se deixou definir por um papel de sucesso – Aragorn, na trilogia de “O Senhos dos Aneis” – , acumulando escolhas ousadas, de “Senhores do Crime” (2007) a “Capitão Fantástico” (2016). Em “Green Book”, ele some no papel de Tony Lip (ou Vallelonga), com sua postura de mafioso, machão clichê, mas de coração mole. Parece conter emoções, mas sempre coloca tudo para fora. Já Mahershala Ali, que venceu um Oscar por “Moonlight” (2016), deve repetir a dose merecidamente com “Green Book”. Seu Dr. Shirley é o oposto de Tony – e o contraponto para a atuação de Viggo. Introvertido, reprimido, por motivos óbvios e compreensíveis, ele prefere falar através de sua arte. Quando finalmente se solta no piano de um bar, é a purificação de sua alma. E Mahershala entrega. Os dois estão entre os grandes de Hollywood, equivalentes do século 21 aos intérpretes lendários da era de ouro do cinema. E isso faz com que “Green Book” seja levado a sério.
A Favorita diverte com show de interpretação e esquisitices
O cineasta grego Yorgos Lanthimos conseguiu projeção internacional pelo caráter único de seus filmes. Seu terceiro longa, “Dente Canino” (2009), foi a obra que deu início ao fascínio mundial por suas idiossincrasias, graças à indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Nesse filme já se percebia seu gosto tanto pelo bizarro quanto por um senso de humor muito particular. Afinal, por mais que alguém ache o filme um tanto perturbador em diversos aspectos, há ali tantos momentos desconcertantes que às vezes a única reação possível é rir. O gosto pelo surreal se aprofundou em “Alpes” (2011) e inundou seu primeiro filme em língua inglesa, “O Lagosta” (2015), que contou com Colin Farrell e Rachel Weisz. Trata-se de uma obra difícil de classificar, embora alguns possam imaginá-la como uma comédia romântica perversa e bizarra. Novamente com Farrell, “O Sacrifício do Cervo Sagrado” (2017) se encaminhou mais para o gênero horror, embora fuja dos clichês e seja igualmente estranho. Por isso, mesmo sem abrir mão de suas esquisitices, “A Favorita” é o filme mais acessível do diretor. E, como resultado, recebeu 10 indicações ao Oscar. Mesmo assim, ainda pega muitos espectadores desprevenidos, já que sua aparência superficial de drama de época britânico esconde, sob os espartilhos, uma sátira sáfica, que lida com o homoerotismo. Mas “A Favorita” é, antes de tudo, sobre os jogos do poder. E há tempos não vemos um trio de atrizes tão forte representando seus papéis com tanta desenvoltura, que até parece que a disputa por prestígio também acontece por trás das câmeras, no sentido de que Emma Stone, Rachel Weisz e Olivia Colman parecem competir por atenção e admiração. Não por acaso, as três foram indicadas ao Oscar. Na trama, Emma Stone é uma jovem plebeia que é recebida para trabalhar no palácio de Anne (Colman), Rainha da Inglaterra do início do século 18. Além de chegar toda suja, ela ainda é ridicularizada pela mulher que é o braço direito da rainha (Weisz, inspirada). O que a jovem descobre, graças à sua inteligência e luta pela sobrevivência naquele ninho de cobras, é que as personagens de Colman e Weisz também são amantes. É então que percebe o caminho para conquistar o seu lugar ao sol, através daquela rainha que na maioria das vezes mais parece uma criança mimada. Para contar essa história, Lanthimos usa lente grande angular, que destaca principalmente a grandeza dos interiores do palácio real. Há também cenas com utilização apenas de luz natural, o que alimenta comparações com o clássico “Barry Lyndon” (1975), de Stanley Kubrick. E não dá para ignorar a suntuosidade dos cenários e figurinos. Tanto capricho poderia distrair do enredo, não fosse ele tão divertido e tão bem encenado, com um show de interpretação das três atrizes. Fala-se muito de Oliva Colman, que se projetou internacionalmente com este filme, após uma carreira focada na TV britânica, mas a “coadjuvante” Stone aparece mais em cena que a própria intérprete da rainha. A cena em que tenta seduzir um dos nobres do castelo à base de porrada está entre os pontos altos da produção. Considerando-se a fragilidade dos demais filmes indicados à categoria principal do Oscar, “A Favorita” se engrandece ainda mais, atingindo status de obra-prima.
Creed II é o Rocky IV de Michael B. Jordan
“Rocky IV” (1985) não é um grande filme, mas guarda alguns dos mais icônicos momentos do personagem criado por Sylvester Stallone: a morte de Apollo Creed no ringue, os treinamentos na neve soviética e a vingança final contra o insensível Ivan Drago. Então já era de se esperar que em algum momento “Creed” (que traz o filho de Apollo buscando o sucesso no boxe profissional) evoluísse em direção ao trágico destino do pai de seu protagonista. E assim como o primeiro filme, que apresentava Adonis Creed (o personagem de Michael B. Jordan), mantinha a mesma estrutura do primeiro Rocky, “Creed II” vai atrás de “Rocky IV” para contar sua história, trazendo de volta Ivan Drago, agora acompanhado de seu filho em busca de uma nova chance no boxe. A obra substitui o treinamento na neve pelo treinamento no deserto e tenta colocar Adonis em uma jornada pessoal que pretende não ser ufanista como nos tempos da Guerra Fria, mas que é recheada por momentos parecidos com os do filme de 1985. Neste híbrido de espetáculo com desenvolvimento de personagem, “Creed II” se sai pior do que o anterior, apesar de manter a consistência da marca Rocky. A direção de Steven Caple Jr. não traz nada de novo ou empolgante, apenas copiando o estilo de Ryan Coogler no primeiro “Creed”, misturado com a identidade visual dos capítulos da década de 1980. Parece haver dois filmes competindo entre si, o melhor deles ancorado nas ótimas performances de Michael B. Jordan, Stallone, Tessa Thompson e… Dolph Lundgren! Sim, diferente do tipo robótico que apresentava em “Rocky IV”, Lundgren tem a oportunidade de apresentar novas nuances de Drago, e aí talvez esteja o maior problema do filme. Os dramas não são bem aproveitados, e tudo corre para a resolução fácil quando o roteiro pede. Fica a impressão de que a história de Ivan e seu filho Viktor (o lutador Florian Munteanu) é mais interessante do que a de Adonis, e que merecia pelo menos um desenvolvimento maior. Mas este conto sobre amadurecimento e escolhas da vida é interrompido pelo outro filme, aquele que parece saído direto de 1985, com trama previsível costurada com momentos de treinamento e socos em câmera lenta que nunca empolgam realmente (o uso parcimonioso da icônica trilha sonora não ajuda neste sentido). Não faz feio dentro da saga e aproveita para fechar um arco dramático de Rocky, mas carece da empolgação que o primeiro Creed trazia. Não é de forma alguma um “Rocky V”, disparado o pior da série, mas passa longe de ser um “Rocky Balboa” (2008), por exemplo. É um bom filme que tenta não cometer os mesmos excessos de “Rocky IV”, mas exatamente por isso não atinge momentos marcantes como aqueles que existem em seu filme-modelo.
O Menino Que Queria Ser Rei rende uma Sessão da Tarde razoável
Quando a animação que resume a história do Rei Arthur logo no início é a melhor coisa do filme, é sinal de que “O Menino Que Queria Ser Rei” ficou devendo o principal: energia. Mais especificamente, energia juvenil para tornar mais essa atualização do mito conhecido em uma história atrativa o suficiente para um público acostumado a épicos de super-heróis. Como Sessão da Tarde, o filme não faz feio, e entrega o tipo de diversão que pode ser interrompida por intervalos comerciais, idas à cozinha para fazer pipoca e constantes enchidas de refrigerante no copo. É tudo muito básico e mastigado, com ações redundantes, personagens assumidamente arquetípicos e uma trama bem previsível. Fica bem ao lado do fraquinho “Um Garoto na Corte do Rei Arthur” (1995) e longe do dinamismo de “Ataque ao Prédio” (2011), filme anterior do mesmo diretor, Joe Cornish. Se o cinismo, o sarcasmo e a ação desenfreada fizeram de “Ataque ao Prédio” uma agradável surpresa no cinema de ação e aventura, Joe Cornish parece abandonar exatamente estes elementos para investir em uma história de heroísmo clássico, honra e amizade. Apesar de bem intencionado, visual impressionante e atores com carisma, “O Menino Que Queria Ser Rei” parece se perder entre aventura juvenil, comentário social sobre o mundo atual e atualização do mito arthuriano. Fica no meio do caminho em tudo, tornando-se por vezes cansativo ao levar os heróis para caminhos sem sentido, tornando-os personagens perdidos dentro de um roteiro que quer abraçar mais do que consegue. Alexander (Louis Ashbourne Serkis, filho de Andy Serkis) é o jovem da Londres atual que sofre bullying e um dia encontra a famosa espada Excalibur fincada em uma pedra. O menino tira a espada, mas ao invés de se tornar rei, traz para si a perseguição de um exército de criaturas lideradas pela bruxa Morgana (Rebecca Ferguson) e, de quebra, ganha um conselheiro na forma do mago Merlin (Angus Imrie, roubando todas as cenas). Ele precisa então reunir os amigos para derrotar Morgana, salvar o mundo, aprender mais sobre si mesmo e tudo aquilo que você já viu antes. A clássica jornada do herói é citada pelo próprio personagem, em um filme que se assume como brincadeira despretensiosa com a fantasia medieval. Há um pouco de tudo que tornou aventuras juvenis conhecidas das décadas de 1980 e 1990 em sucessos, mas falta a originalidade e energia que as fizeram irresistíveis. Contando a trajetória de um menino em busca de identidade, mostrando muita magia e tendo seu clímax em uma escola, bem que poderia se chamar “O menino que queria ser Harry Potter”.
Vidro frustra expectativas para se recuperar em reviravolta
Quando “Corpo Fechado” foi lançado em 2000, a indústria tinha medo de apostar em filmes baseados em histórias em quadrinhos. O que deu um caráter único à visão de M. Night Shyamalan em sua imersão na mitologia de HQs, mas com os dois pés fincados na realidade. Sua proposta foi imaginar os quadrinhos como resultados da inspiração nas histórias verdadeiras de pessoas com habilidades extraordinárias que podem caminhar entre nós. No fundo, apenas um pretexto para Shyamalan fazer o que gosta: uma fábula a respeito do quanto o sobrenatural quebra o ceticismo do dia a dia. É um filmão, com Bruce Willis e Samuel L. Jackson, que não pode ser comparado com nenhum outro (provavelmente só com “Vidro”); difícil sim, pois exige demais dos espectadores que pagam ingresso em busca de diversão escapista com um longa de alguma forma ligado a super-heróis. Mas Shyamalan não teve medo do ridículo ao empregar uma abordagem séria para um tema que nem todos estavam preparados para levar tão a sério. Como de praxe, muitos reclamaram do diretor, porque esperaram e cobraram por muito tempo um novo “O Sexto Sentido” (1999). Mas o tempo, o melhor crítico de todos, reconheceu a grandeza de “Corpo Fechado”. Hoje, ironicamente, os quadrinhos representam a maior fonte de renda em Hollywood, o que fez muita gente redescobrir o filme e chamá-lo de “o melhor trabalho de M. Night Shyamalan” (não é, pois sempre foi “O Sexto Sentido”). Mais que isso, o diretor fez uma nova geração correr atrás do filme quando encerrou “Fragmentado”, de 2016, com o David Dunn de Bruce Willis fazendo uma ponta para provar que as duas produções fazem parte da mesma realidade. E pronto! Shyamalan, como fazem Marvel e DC, estabeleceu seu próprio universo cinematográfico e o crossover foi prometido para “Vidro”, que encerraria uma trilogia que ninguém imaginou existir ou ser possível da forma como foi construída. Com seus filmes mais recentes, Shyamalan deu uma reviravolta na carreira após amargar diversos fracassos, de “A Dama na Água” (2006) a “Depois da Terra” (2013). Bancado pela Blumhouse, do produtor James Blum, ele retornou com “A Visita” (2015), terror modesto, de baixíssimo orçamento, mas surpreendentemente acima da média. Depois veio “Fragmentado”, que conta a história de um maluco sequestrador de garotas: Kevin (James McAvoy), suas 24 personalidades, além de uma outra que é guardada para “ocasiões especiais” e é conhecida como “A Fera”, que é muito forte, devora suas vítimas (!) e escala paredes (!!). Só que a revelação dessa personalidade não foi a reviravolta tradicional de Shyamalan, mas sim a tal ponta de Bruce Willis. Enfim, nada a ver com nada, porque até aquele ponto, “Fragmentado” valia muito mais pela ótima atuação de McAvoy, não tinha a menor ligação com quadrinhos e, muito menos, com “Corpo Fechado”. Mas esse foi o gancho para “Vidro”, que já nasceu com a responsabilidade de justificar sua existência e entregar algo fora do comum. A expectativa, porém, foi demasiada, e deixa claro que “Corpo Fechado” precisava menos de uma continuação que “Fragmentado”, por mais que Shyamalan tente convencer os fãs do contrário. Embora mostre que os personagens fazem as mesmas coisas de sempre, o primeiro ato de “Vidro” é bem construído, com Shyamalan fingindo que abandonou sua pretensão de ser reconhecido como autor genial para focar somente no que o roteiro exige. Mas ele enche o espectador de expectativa só para… trancá-lo com Willis, McAvoy e Jackson num manicômio em um segundo ato que compromete o ritmo, mas tem seus pontos altos nos atributos técnicos – um excesso de close-ups com fundos desfocados, que torna íntima a crença na história contada por Shyamalan. Sua opção pelo frontal ainda reforça a violência psicológica como algo mais poderoso que a violência física (da qual ele foge o tempo todo). Também se destaca a montagem esperta e, hmm, fragmentada, principalmente no interrogatório inicial dos personagens que parecem estar na mesma cena, só que não. São artifícios que compensam o blá-blá-blá irritante e didático da psiquiatra vivida por Sarah Paulson. E, então, vem o terceiro ato, onde se espera a já tradicional reviravolta de Shyamalan. E o que ele faz? Entrega mais de uma. É exatamente onde o filme divide opiniões, entre erros e acertos, mostrando que Shyamalan manteve a atenção do público do início ao fim, como um habilidoso mágico e contador de histórias. E com o público atento, ele aproveita para introduzir os tópicos que quer realmente discutir, sobretudo a conclusão de que existem pessoas muito piores no mundo real do que os vilões da ficção. São indivíduos e grupos que tentam reprimir tudo e todos que são diferentes, em nome de uma fé presa a conceitos e costumes antigos e ultrapassados. “Vidro” tem muito mais a dizer do que parece. A grande reviravolta de Shyamalan é fazer você pensar que o filme é ruim quando, na verdade, ele é bom.












