A Última Loucura de Claire Darling reúne Catherine Deneuve e sua filha Chiara Mastroianni
Ver Catherine Deneuve e Chiara Mastroianni, mãe e filha na vida real, e grandes atrizes da telona, atuando juntas no mesmo filme, já é um bom motivo para ir ao cinema. “A Última Loucura de Claire Darling”, porém, tem algo mais a oferecer. A história de Claire, que decide que sua vida chegou ao fim e resolve se desfazer de todos os seus ricos, artísticos e sofisticados pertences, a preços meramente simbólicos, tratada aqui como loucura, pode trazer algumas reflexões interessantes. Sabe-se que com o avanço da idade ocorrem algumas perdas mentais, lapsos de memória, esquecimentos, o presente fugidio, aspectos do passado que se borram, coisas assim. Não se trata de diagnóstico de Alzheimer ou similar. É a perda natural da vida, que o passar do tempo cobra. No entanto, a personagem do filme é uma pessoa lúcida, mais do que isso, inteligente, instruída, de gostos altamente sofisticados. O que ocorre é que essa lucidez acaba sendo parcial. Ou seja, parte dela se perde nesse processo de deterioração natural. O uso inadequado e a percepção do valor do dinheiro é um bom exemplo. Coisas são supervalorizadas e pagas regiamente. Ou bens e valores são esbanjados sem motivo, ou a partir de uma avaliação precária e imediata, ou, ainda, por adesão a uma causa, por exemplo, religiosa, discutível. No caso do filme da diretora Julie Bertuccelli, é a ideia de que se possa conhecer o dia ou o momento da própria morte. Antevê-lo sem estar vivendo nenhuma situação de doença ou dor extremas é, evidentemente, um delírio, que gera comportamentos extravagantes, capazes de trazer de volta à pequena aldeia, onde vive a mãe, uma filha distante, um vínculo complicado. Mãe e filha, belas mulheres, grandes atrizes, que encarnam com brilho esses papéis.
Rafiki mostra amor proibido em país que reprime LGBTQs
Kena (Samantha Mugatsia) e Ziki (Sheila Munyiva) se sentem atraídas uma pela outra e se tornam as “amigas” do título original de “Rafiki”, primeiro e premiado longa da cineasta queniana Wanuri Kahiu. As protagonistas são filhas de dois políticos locais, de uma região de Nairobi, no Quênia, que estão em disputa na eleição municipal com posicionamentos políticos diferentes. Só por isso, já não seria muito adequada essa aproximação. Fica mais complicada a situação, considerando-se que, apesar de o casamento gay entrar nas cogitações políticas, no Quênia a homossexualidade é ilegal e pode ser penalizada com prisão. Além disso, é fortemente rejeitada e hostilizada pela religião. Não há garantia dos direitos dos LGBTs. Tudo isso faz com que o amor entre Kena e Ziki, que se dá de forma quase instantânea – amor à primeira vista? – se torne um drama, impedindo que elas possam experimentar um envolvimento amoroso que escapa dos padrões e expectativas dessa sociedade muito conservadora. “Rafiki” trabalha essas questões com sutileza, numa produção bem cuidada, e escorando-se no admirável talento da jovem atriz Samantha Mugatsia, que conquista desde os primeiros planos do filme. Sua parceira explora mais a aparência e a feminilidade, mas não tem o mesmo carisma. O resultado geral é muito bom. O filme da diretora Wanuri Kahiu merece ser conhecido e apreciado. Não precisa nem dizer que a exibição de “Rafiki”, que tem coprodução da África do Sul e França e foi bem recebida nos festivais internacionais de cinema, teve sua exibição proibida no Quênia, por supostamente promover o lesbianismo. Em pleno século 21, há países e governos que querem impedir que a diversidade humana exista. Mostrá-la se confunde com propagá-la. Temos muito ainda para evoluir, até que o mundo como um todo possa ser um lugar habitável para todos os humanos.
Histórias Assustadoras para Contar no Escuro exibe terror infantil proibido para crianças
Alvin Schwartz escreveu seus contos de horror na mesma época em que o nome de Stephen King tomou conta do mundo. Ambos ajudaram a desenvolver o terror que concentra suas doses de pesadelos em jovens e até mesmo crianças. Cerca de três décadas depois, Guillermo del Toro, o visionário cineasta que ama monstros (vide “O Labirinto do Fauno” e “A Forma da Água”), resolveu levar às telas “Histórias Assustadoras para Contar no Escuro”, a famosa antologia de contos de Schwartz, feita para tirar o sono da garotada – o que ele conseguia com a ajuda das ilustrações diabólicas de Stephen Gammel, praticamente convidando seu público-alvo para uma leitura “proibida”. Del Toro produziu e colaborou com o roteiro, mas a direção é de André Øvredal (de “O Caçador de Troll”) e, talvez, isso faça toda a diferença. “Histórias Assustadoras para Contar no Escuro” não é tão bem-sucedido quanto “It: A Coisa” (um filme que lembramos de imediato) na hora de envolver adultos, jovens e crianças na mesma proporção na plateia. Além dos quarentões em busca de nostalgia, o filme foi pensado para honrar o legado de Schwartz, logo é bem mais impressionante para um público infantil – isto é, mais leve que os terrores viscerais atuais. O problema é que as crianças não podem ir ao cinema devido à classificação para maiores de 14 anos. Ou seja, a tal leitura “proibida”. Elas precisam dar um jeito de ver esse filme na companhia de responsáveis mais velhos ou, sei lá, esperarem até a produção ir para a TV. A trama explora um tema recorrente em Hollywood, que é o poder da leitura para o bem ou para o mal. O que deve ser mais poderoso para as crianças. Há histórias escritas com sangue e ódio que dão vida a terríveis bichos papões, incluindo seus próprios autores. Mas também a fagulha de esperança depositada numa nova geração, capaz de contar as histórias de forma justa e dando nomes aos seus verdadeiros monstros. Imaginem se Guillermo del Toro fosse o diretor desse mesmo material. Até as mensagens críticas nas entrelinhas, sobre racismo, Nixon e a Guerra do Vietnã, teriam um efeito mais forte – o ano em que se passa a trama é 1968 e o clima negativo do período foi inspiração para o clássico “A Noite dos Mortos-Vivos”. É só relembrar o que Del Toro fez em “O Labirinto do Fauno” e “A Espinha do Diabo”, filmes de horror protagonizados por crianças, mas que não foram feitos exatamente para elas, com roteiros onde o ser humano é claramente o monstro mais perigoso e as criaturas que surgem nos pesadelos são consequências e reflexos de seus atos. De positivo, Øvredal acerta na ambientação. “Histórias Assustadoras” tem tensão e as caracterizações dos monstros, inspiradas nas gravuras de Gammel, são sensacionais. Além disso, o elenco de jovens é um achado, especialmente a menina Zoe Margaret Colletti. Pena que o público fica sem saber muito sobre seus personagens, a não ser seus maiores medos (outra semelhança com “It”), para que eles se materializem. Em “Histórias Assustadoras”, os filhos sofrem com os erros dos pais, mas é um contexto quase escanteado porque as partes entre os contos são intercaladas de forma um tanto superficial. A ambição constante em Hollywood de gerar mais uma franquia para o cinema (o finalzinho acelerado para provar que tem gancho para mais filmes é bem safado) impede maior reflexão.
Hobbs & Shaw é veloz, furioso e bobo
Nenhuma franquia atual se reinventou tanto com sucesso no cinema quanto “Velozes e Furiosos”. Eis que chegou a hora de seu primeiro spin-off, “Velozes e Furiosos: Hobbs & Shaw”. A trama explora a tradicional dupla que se odeia, mas precisa unir forças para salvar o mundo de um inimigo em comum. E depois de oito filmes, é possível dizer que os personagens de Dwayne Johnson e Jason Statham são mais divertidos e carismáticos que o já cansado e inexpressivo Vin Diesel. Mas o filme acelera tanto que passa do ponto. “Hobbs & Shaw” resulta veloz, furioso e… bobo. O estilo do diretor (e ex-dublê) David Leitch combina com o clima besteirol,. Não falta pancadaria como em seus outros trabalhos, especialmente “John Wick” e “Atômica”, ou humor como em “Deadpool 2”. Mas o espetáculo de “Hobbs & Shaw” só é bom enquanto dura, como fast-food. Depois que as luzes se acendem, é difícil guardar até mesmo as sequências mais absurdas, que fazem perguntar “Como eles fizeram isso?” David Leitch já foi dublê e os melhores momentos de sua carreira como diretor ainda são as cenas de luta, que valorizam coreografias e atuações físicas. Mesmo em “Hobbs & Shaw”, é possível sentir que os atores suaram a camisa para que as lutas funcionassem. Entretanto, as sequências de perseguição não buscam o mesmo realismo, rendendo-se a um exagero cartunesco e artificial. Ou será que houve uma intenção de aproximar a ação do estilo dos games? Se for o caso, os games atuais estão bem à frente disso. O resultado acaba parecendo mais um desenho animado, não um filme live-action. Cinema de ação não precisa ser tão artificial e descartável. Veja-se a alta velocidade de “Mad Max: Estrada da Fúria”, que criou cenas inesquecíveis, e a audácia de “Missão: Impossível – Efeito Fallout”, inteiramente desenvolvida com efeitos visuais práticos, resultando em um show visceral, que agarra os espectadores pela jugular e o deixa exausto, mas comentando muito ao fim da sessão. Não é o caso de “Hobbs & Shaw”, que mira muito mais nos filmes de super-heróis que em seus colegas de gênero, com uma história que até um supervilão (vivido por Idris Elba) declarando-se o “Superman negro”. História? O roteiro de Chris Morgan e Drew Pearce não serve para nada. Nem mesmo para justificar as participações especiais – há alguns famosos escalados em segredo – , que se revelam 100% gratuitas. É uma historinha rala para dar espaço a um espetáculo visual, barulhento, que investe em aprofundar a visão que Dwayne Johnson vende de si mesmo em todos os seus filmes – que ele é um super-herói invencível. É só notar onde a trama vai parar. Fica claro que Dwayne Johnson e Jason Statham querem representar o tipo de herói machão que fazia sucesso nos anos 1980, mas Stallone levava Rambo a sério, assim como Schwarzenegger como o Exterminador do Futuro. Johnson e Statham assumem que não se importam em passar qualquer credibilidade. Eles são menos críveis que um robô vindo do futuro, tratando tudo como uma grande brincadeira. Depois de 2h17 minutos de falta de seriedade, o público pode não achar tão divertido.
No Coração do Mundo é ponto alto do ótimo cinema feito em Contagem
Se há uma cidadezinha que se tornou presente com bastante frequência no cinema brasileiro contemporâneo é Contagem, localizada próximo a Belo Horizonte. E não à toa. É lá que se localiza produtora Filmes de Plástico, que rendeu obras importantes como “Ela Volta na Quinta” (2015), “Temporada” (2018) e vários curtas de sucesso de crítica, com participação em festivais nacionais e internacionais. Neste ano, a produtora está comemorando uma década de existência. E o filme de comemoração desses 10 anos é um dos melhores da safra da turma de Contagem. “No Coração do Mundo”, da dupla Gabriel Martins e Maurílio Martins, parece um trabalho de cineastas veteranos, tal a segurança narrativa. E não é fácil ter que dar conta de tantos personagens, lhes dar dimensões suficientemente profundas, trabalhando tanto com atores experientes quanto com iniciantes. Mas “No Coração do Mundo” vai além de ser apenas um filme bem-feito. É um trabalho que lida com questões sociais, econômicas e existenciais dos moradores de uma pequena cidade, feito por gente com intimidade na geografia humana do local. Até temos alguns momentos em que o sotaque e o jeito naturalista com que os atores/personagens dialogam soam um pouco difícil para ouvidos não-mineiros, mas aos poucos nos acostumamos. A trama básica gira em torno de um golpe – que até lembra um pouco “Como É Cruel Viver Assim”, de Julia Rezende – , mas o golpe em si não é o mais importante. O filme constrói bases firmes para que nos importemos com personagens, mesmo sabendo que estão fazendo uma burrada atrás da outra. Um personagem como Marcos (Leo Pyrata), por exemplo, é incrivelmente interessante, mesmo sendo questionável do ponto de vista de seu caráter. O filme começa com a comemoração do aniversário de Marcos. Sua noiva, a trocadora de ônibus Ana (Kelly Crifer), o surpreende com uma daquelas declarações de amor constrangedoras com carros de som. Isso já dá o tom do ambiente de periferia, que se explicita ainda mais quando adentramos as casas e os estabelecimentos comerciais daquelas pessoas. Todos os personagens vivem em função de trabalhos que rendem muito pouco para sua subsistência, enquanto outros tentam uma saída através de golpes, como é o caso do já citado Marcos. O grande golpe, no entanto, terá como mentor intelectual Selma (Grace Passô), que, consciente de sua condição de negra, acredita que, para o melhor sucesso de seu plano, será necessária a presença ativa de Ana, a namorada de Marcos, que até então nunca havia participado das tretas dele. As cenas de suspense da tal cena do golpe são de prender a respiração. No mais, como não destacar as cenas da cantora e ativista MC Carol, em suas conversas com Marcos, e a presença de personagens tão carismáticos como Beto (Renato Novaes), Miro (Robert Frank) e Rose (Bárbara Colen)? Não é todo dia que vemos um filme como este. Não é sempre que vemos o cinema brasileiro tão pulsante, surgindo em um momento de tanto desmanche cultural.
Tudo é feio, grotesco e violento em O Bar Luva Dourada
Um dos grandes méritos de “O Bar Luva Dourada”, o novo trabalho do alemão Fatih Akin (“Em Pedaços”), é conseguir contar a história de um psicopata levando o espectador para um universo que muito se assemelha a um inferno na Terra, ao mais fundo que um ser humano pode chegar. Não apenas o drama do assassino alemão Fritz Honka (Jonas Dassler, soterrado em uma camada de próteses para compor a figura disforme do personagem), mas também as figuras que frequentam o tal bar que dá título ao filme. A fotografia do filme, sem muitos filtros embelezadores, ajuda a tornar tudo muito feio. Assim, as mulheres que se prostituem no lugar são senhoras idosas dependentes de álcool que transam por uma ou mais doses. É assim que algumas delas vão parar na casa fétida de Honka. O mau cheiro se deve ao cheiro dos corpos das vítimas em estado de putrefação. Ele, por ser visto como um homem muito feio, é rejeitado por algumas mulheres. Outras não veem isso como um problema. O filme já começa com uma cena em que Honka tenta se desfazer do corpo de uma delas, cortando em pedaços com um serrote. As imagens não são muito gráficas como em “A Casa que Jack Construiu”, de Lars von Trier, ou outros filmes mais explícitos, mas o mal estar é constante devido ao caráter grotesco das cenas e principalmente do próprio personagem, que responde com ainda mais violência sempre que se mostra frustrado sexualmente. Importante lembrar que a única personagem que aparece em um registro de beleza de modelo é uma moça loira que Honka encontra e que passa a povoar os seus sonhos. Diferente do que acontece em um outro filme de serial killer recente, “Ted Bundy – A Irresistível Face do Mal”, de Joe Berlinger, que faz com que o público simpatize com o assassino, o psicopata de “O Bar Luva Dourada” é totalmente despido de glamour. É ridicularizado em sua busca por mulheres que não consegue ter, no seu físico corcunda e em seu estrabismo, nas suas tentativas de ter uma ereção com fotos de mulheres nuas estampadas na parede de sua casa para penetrar, em vão, suas clientes/vítimas, e no modo violento com que trata em especial uma das mulheres que chega em sua casa para trabalhar para ele. Ainda assim, há um olhar humano do diretor para o próprio Honka e principalmente para os outros personagens, todos eles solitários, desvalidos, alcoólatras, esquecidos pelo resto da humanidade. O Bar Luva Dourada parece uma espécie de oposto ao que se chama de oásis. Mesmo quando o filme muda de tom e Honka arranja um emprego de vigilante, as novas pessoas que se apresentam também são almas muito tristes, embora a ambientação mude positivamente, com uma luz mais clara no ambiente de trabalho. Fatih Akin havia filmado algumas cenas do passado de Honka, de modo a mostrar os abusos que ele sofreu na infância, mas depois resolveu retirar essas cenas da edição final por achar que isso soava como uma desculpa para uma pessoa se tornar um assassino serial. Assim, o filme não tem essa preocupação em contar uma história do personagem nos moldes tradicionais, mas apenas de um determinado recorte no tempo. Por mais que saiamos do cinema sem saber direito se gostamos ou não do filme, o importante é que suas imagens não sairão com muita facilidade da nossa memória.
Remake de O Rei Leão é tão realista que se torna sério demais
A obsessão da Disney em realizar remakes live-actions de suas animações chega ao maior clássico do estúdio nos últimos 25 anos, “O Rei Leão”. A escolha de Jon Favreau para dirigir o longa é óbvia, afinal ele fez um milagre com “Mogli, O Menino Lobo”. Não somente elevando a qualidade dos efeitos visuais com um realismo impressionante na renderização de seus animais, mas por atualizar o desenho de meio século sem se render à nostalgia. Os efeitos estão ainda melhores em “O Rei Leão”. Entretanto, o original ainda é relativamente atual e perfeito em sua forma original. Isto rendeu um remake mais reverente que “Mogli”, praticamente seguindo o roteiro do filme de 1994, numa recriação das cenas quadro a quadro. Sem nada para acrescentar à história, restou a Favreau concentrar toda sua energia na tecnologia. Ele é bom no que faz, tanto que a diferença entre “Mogli” e “O Rei Leão” é vista em cada frame. O nível alcançado pelo fotorrealismo faz cair o queixo com locações que parecem existir de verdade, embora inspiradas na animação clássica. Mas é tudo – menos uma cena – computação gráfica. Isso quer dizer que “O Rei Leão” atingiu o topo e, agora, o desafio é superar a qualidade de seus efeitos. Por outro lado, como os animais são realistas demais, essa versão se torna mais séria, o que prejudica um pouco o resultado. Nem é o caso de observar que os animais não apresentam expressões humanas como no desenho. Não é que falta alma, porque animais têm suas expressões e elas estão lá. O problema é outro. Em “Babe”, por exemplo, os animais falam, porém ninguém esperneou. Em “O Rei Leão”, eles ainda cantam. A diferença é que “Babe” era apresentado como uma fábula. “O Rei Leão” não. É para ser “real”. E aí entra um equívoco de premissa, porque animais não falam e, muito menos, cantam. Favreau foi ao limite de limar as coreografias do desenho, que não combinariam com o objetivo de tornar seu filme o mais realista possível. Então, não há elefantes e avestruzes em cima uns dos outros, para que Simba possa cantar lá no alto. Os bichinhos apenas andam e… cantam. As diferenças entre as histórias são mínimas. Ambas têm como base a jornada do herói, além de “Hamlet”, de William Shakespeare, e o evidente “Kimba, o Leão Branco”, de Osamu Tezuka. A versão CGI inclui leoas mais valentes e alguns detalhes escatológicos que não constam do original, mas a verdade é que só agrada porque o filme de 1994 tem uma uma história extraordinária. “O Rei Leão” clássico tornou-se uma influência tão grande que seu impacto pode ser traçado até “Pantera Negra”. Já a versão de Jon Favreu não deixará qualquer outro legado que não seja a evolução dos efeitos digitais. Não é pouca coisa. Mas também não é muita coisa.
Homem-Aranha se divide entre adolescência e heroísmo no divertido Longe de Casa
Uma bela surpresa este “Homem-Aranha: Longe de Casa”, segundo filme solo do Aranha com o jovem e talentoso Tom Holland. A produção não deixa dúvida que a versão adolescente do herói é mais atraente para o público mais jovem, que pode se identificar bem mais com seus problemas e com suas preocupações do que com as de um adulto milionário e cínico como Tony Stark. Desta vez, a principal preocupação do herói é conseguir se aproximar da garota por quem está apaixonado, a MJ (Zendaya). Aliás, a escalação de Zendaya como interesse amoroso é novidade em relação aos quadrinhos. Embora o nome da personagem seja Michelle, que não existe nos gibis da Marvel, ela passou a ser chamada de MJ no novo filme, como a ruiva Mary Jane que conquista o coração de Peter Parker e foi personificada por Kirsten Dunst nos três filmes de Sam Raimi. Aliás, há várias liberdades artísticas no filme em comparação com as HQs, mais do que na maioria das produções do Universo Cinematográfico Marvel. Mas não deixa de ser interessante, por exemplo, ver uma Tia May tão jovem como a interpretada por Marisa Tomei. Também é muito interessante a maneira como é introduzido Mysterio, que nas publicações da Marvel é um vilão de terceira categoria. O filme dá maior importância ao personagem, que não é apresentado exatamente como um vilão. E sua participação ajuda a tornar o filme muito maior do que o trailer dá a entender. Assim, todos aqueles monstros meio genéricos apresentados nas prévias acabam ganhando algum sentido. Mas o melhor do filme é mesmo como ele dá mais destaque a Peter Parker do que ao Homem-Aranha. É muito divertido vê-lo em um passeio com os colegas da escola por cidades da Europa. O melhor amigo dele, Ned (Jacob Batalon), é muito engraçado. Trata-se da influência da versão Ultimate, em que Miles Morales tem um amigo asiático gordinho (Ganke Lee). Isso faz bem ao filme. Assim como a bem-vinda presença da jovem Angourie Rice no papel de Betty Brant, que virou colega de Peter na escola. A questão “com grandes poderes, vem grandes responsabilidades” é introduzida de maneira gradual e de uma forma que reflete a origem do personagem, com Peter relutando, a princípio, largar sua vida normal de adolescente para vestir a roupa de super-herói numa nova missão de Nick Fury (Samuel L. Jackson). Além de ser um filme muito bem-humorado, que consegue superar a sombra da morte de Tony Stark em “Vingadores: Ultimate”, “Homem-Aranha: Longe de Casa” é melhor em diversos aspectos em relação ao anterior, “De Volta ao Lar”, mesmo sem ter cenas tão memoráveis quanto as ameaças do vilão Abutre (Michael Keaton) ao herói. Aqui temos Jake Gyllenhaal como o Mysterio e é bom não dizer mais do que isso para não estragar as surpresas, apenas ressaltar que o ator se sai muito bem. As cenas de ação são ok, sem muitas novidades. Mas há que se dizer que a cena pós-créditos deste filme é a mais importante de todas do Universo Cinematográfico Marvel, no sentido de não poder ser descartada do produto final.
Um Homem Fiel segue a tradição da nouvelle vague
“Um Homem Fiel”, de Louis Garrel (“Dois Amigos”), se inspira na tradição da nouvelle vague, lidando com um quarteto amoroso, formado por Abel (o próprio Garrel), Marianne (Laetitia Casta, mulher do ator), Paul (Joseph Engel) e Eve (Lily-Rose Depp, a filha de Johnny Depp). Envolve separações, perda da mulher para o amigo, retorno no tempo, expectativas amorosas que vêm desde a meninice, suas alternativas, possibilidades e impedimentos. Nada de tão novo, exceto o foco na fidelidade masculina, mas o filme flui bem, envolve e trata de gente real. As relações amorosas, sob os mais diversos ângulos, sempre foram o forte do cinema francês. O filme foi escrito pelo diretor e ator Louis Garrel, Florence Seyvos (“Camille Outra Vez”) e ninguém menos do que Jean-Claude Carrière (“A Bela da Tarde”, “A Piscina”, “A Insustentável Leveza do Ser”), um dos maiores roteiristas da história do cinema francês. E isso faz toda a diferença. O filme dá seu recado sem enrolar nem perder tempo, em apenas 75 minutos, bem aproveitados.
Estou Me Guardando para quando o Carnaval Chegar tem dimensão reflexiva surpreendente
“Cinema, Aspirinas e Urubus” (2005), primeiro longa-metragem do diretor pernambucano Marcelo Gomes, está entre as melhores produções brasileiras do século 21. “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” (2009), dirigido por Gomes e Karim Ainouz, é um filme experimental brilhante e um dos produtos mais criativos da nossa filmografia recente. O que recomenda vivamente o trabalho do cineasta. Marcelo Gomes fez ainda “Era uma Vez Eu, Verônica” (2012) e “Joaquim” (2017), e codirigiu com Cao Guimarães “O Homem das Multidões” (2013). Uma trajetória bastante sólida e consistente. Seu novo trabalho, “Estou Me Guardando para quando o Carnaval Chegar” tem título quilométrico, que remete a uma música de Chico Buarque. No entanto, é um documentário com uma abordagem simples, clara e direta, que dá conta de uma realidade bem mais complexa do que a sua aparência faria supor e alcança uma dimensão reflexiva surpreendente. Como um filme que se constrói ao caminhar sobre o tema e ao encontrar elementos novos a cada passo, a narrativa se estabelece à medida em que é capaz de ouvir o outro com atenção e, de algum modo, interagir, participar e intervir no seu objeto de estudo. O personagem do documentário é a cidade de Toritama, no Agreste de Pernambuco, que era uma localidade pacata, que Marcelo Gomes conheceu quando criança, acompanhando seu pai em visitas de trabalho. Era, não é mais. Foram justamente a agitação e as mudanças em Toritama, visíveis ao passar pelas estradas locais, que chamaram a atenção dele. Agora Toritama se define como a capital do jeans. 20% de toda a produção de jeans do Brasil vem de lá, cerca de 20 milhões de peças por ano produzidas em fábricas de fundo de quintal, que são chamadas de facções. É surpreendente que uma cidade com 40 mil habitantes tenha uma produção assim tão grande para ostentar. E por que isso acontece? Em síntese, porque tudo que se faz lá, o tempo inteiro, é trabalhar. Cada casa ou conjunto delas vira uma oficina de costura individual ou coletiva. Quase todos parecem preferir trabalhar por sua conta e risco, como e quando quiser, sem carteira assinada na fábrica. Com a certeza de que o que produzirem vai ser comprado. Ou porque já foi combinado ou porque vai ser vendido nas grandes feiras que atraem público de todos os cantos. Como mais peças ou partes de peças costuradas resultam em pequenas quantidades de dinheiro, quanto mais se faz mais se ganha. Conclusão, a maioria dos moradores/produtores da cidade trabalha continuamente desde cedo até tarde da noite. Em casa mesmo, sem horário. Ou melhor, sem horário para viver, só para trabalhar, comer e dormir, com direito a uma hora de TV, provavelmente para ver a novela. Uma espécie de escravidão não só consentida, mas buscada pela população. Que dela não se queixa, com poucas exceções. Acha que está muito bom assim, sente-se livre e dona do seu nariz. Ou melhor, do seu negócio. Muito curioso esse microcosmo do capitalismo que toma de assalto e transforma radicalmente uma pequena localidade, que já não tem espaço nem para criar galinhas ou fazer caminhar os bodes que restaram pela cidade, cruzando a rodovia. Se isso parece estranho e surpreendente, o que dizer da obsessão absoluta de toda a população em, obrigatoriamente, passar o Carnaval na praia? Custe o que custar, ninguém fica, todos saem para tomar banhos de mar, beber, fazer alguma fantasia, batucar e dançar no Carnaval. Se não tiver dinheiro, vende o que tem – fogão, geladeira – ou toma emprestado, para depois pagar ou recomprar o que vendeu. O que não pode é perder o Carnaval. Marcelo Gomes filmou a cidade nos dias de Carnaval e só então reencontrou o silêncio e as ruas vazias do seu tempo de criança. O mundo do trabalho e o do lazer (ou férias) se colocam em oposição. Oposição não é bem a palavra. Talvez espaço e tempo estanques, separados. Trabalho todo o tempo. Parada no Carnaval, fora da cidade, como obrigação incontornável. Trabalho parece ser só dinheiro e o dinheiro vira uma dependência, é só ele que importa. Prazer no período mágico do Carnaval, tratado como obrigação tanto quanto a atividade produtiva. Mas há também prazer no trabalho e nos resultados obtidos. Por que não é possível integrá-los, mesclá-los, equilibrar algumas coisas, diante da obsessão em fabricar cada vez mais e mais e obter o dinheiro desejado? Fico pensando nos mecanismos da Internet – e-mails, WhatsApp, outras redes sociais – nos tomando um tempo absurdo de trabalho não remunerado, quando a tecnologia teria de ter vindo para nos poupar tempo e permitir o ócio criativo. Parece que também nos deixamos escravizar com gosto, ou simplesmente o esquema nos engole. Isso também tem a ver com abdicar da liberdade para seguir um salvador da pátria, um mito qualquer? O ótimo documentário de Marcelo Gomes nos faz pensar em muitas coisas como essas, que não estão no filme, mas na minha cabeça, nesse momento. A música do Chico Buarque, que está no filme, e tem como estribilho “Estou Me Guardando para quando o Carnaval Chegar” fazia alusão á liberdade que o sujeito viveria com o fim da ditadura militar opressora, restritiva de todas as liberdades e que tinha como oposição o Carnaval libertador. Não é o sentido, aqui, o Carnaval, no caso, é uma liberação momentânea de um trabalho que, no fim das contas, embora não pareça, é também opressivo, mas que dura pouco e nada muda. O filme ganhou o prêmio do Júri e da Abraccine (Associação Brasileira dos Críticos de Cinema) no festival É Tudo Verdade 2019. E está sendo exibido na sessão Vitrine, com preço reduzido, em grande número de cidades brasileiras.
Memórias da Dor recria período terrível da vida de Marguerite Duras
Impressionante como certos diretores com uma carreira já relativamente longa permanecem praticamente desconhecidos até que certo filme chama a atenção de tal forma que coloca em questão a inabilidade das distribuidoras de darem o devido destaque aos artistas. É o caso de Emmanuel Finkiel, que teve seu longa-metragem de estreia, “Viagens” (1999), premiado em Cannes e no César (Melhor Primeiro Filme). Também alcançou prestígio internacional em diversos países, inclusive no circuito arthouse americano. Além dos filmes como diretor e roteirista, Finkiel tem em seu currículo vários trabalhos como assistente de direção de cineastas de primeiro escalão, como Jean-Luc Godard, Krzysztof Kieslowski e Bernard Tavernier. Mas o que aconteceu é que os demais filmes de Finkiel meio que passaram batidos ao longo dos anos, por mais que cinéfilos atentos tenham visto seus trabalhos em mostras. “Não Sou um Canalha (2015), seu filme anterior, ganhou algum destaque e já trazia Mélanie Thierry, que brilha neste novo e magistral “Memórias da Dor” (que é na verdade de 2017), indicado a nada menos que oito troféus César. Eis um filme que merece não só a atenção, mas uma especial reverência. O trabalho de construção da personagem, baseada na escritora Marguerite Duras, faz uma espécie de bioficção de seus livros, ao contar da dor que foi o período em que ela passou esperando o marido voltar de um campo de concentração. “Memórias da Dor” é basicamente sobre isso, embora seja rico o suficiente para ser também sobre culpa, desejo e ser carregado de uma aura de desencantamento com a vida que só encontra paralelos em situações de terrível depressão. Em determinado momento do filme, o amigo e amante vivido por Benjamin Biolay fala para que Marguerite tome banho, que está fedendo. Àquela altura, ela não estava mais conseguindo cuidar de si. Na angústia de esperar, toma a decisão de falar com um perverso colaborador do nazismo na França ocupada. Como a história se passa entre os anos de 1944 e 1945, vemos a variação no comportamento e no grau de segurança dessas pessoas que trabalhavam para os nazistas e que estavam acostumados com tortura física e psicológica – isso, claro, na posição de torturadores. Um dos aspectos que chama a atenção é o modo como o diretor trabalha as sombras e também, com frequência, coloca a protagonista como único elemento não borrado, acentuando ainda mais seu sentimento de solidão e abandono naquele mundo de pesadelo. E como a trilha sonora é usada apenas entre os espaços da cena, como para acentuar o clima de tristeza, os silêncios nas sequências dramáticas enfatizam a grande performance de Mélanie Thierry. Há também destaque para a narração em voice-over da protagonista. Uma narração pausada, que lembra e muito o estilo de “Hiroshima Meu Amor” (1959), de Alain Resnais, não por acaso uma obra roteirizada por Duras. Assim, os traços da obra literária da escritora estão explicitamente presentes, mas servindo não como muleta para a narração cinematográfica, mas para enriquecer ainda mais o trabalho visual. Por isso, ver “Memórias da Dor” é uma dessas experiências raras e recompensadoras, que só cresce na memória afetiva.
Divino Amor é mais que uma distopia neon-evangélica do Brasil
“Divino Amor” vem sendo lido como uma ficção distópica sobre o domínio da religião evangélica no Brasil após o governo Bolsonaro. Mas quem, a partir disso, esperar um filme caricato que julga por meio de reprimendas um certo modo de ser, acabará se surpreendendo, pois o filme vai muito além do estereótipo. De um lado, é nítido que o filme atua por meio da farsa ou da ironia. No ano de 2027, o Brasil estará controlado por evangélicos que se tornam um grupo hegemônico. Inclusive o desvio – as festas, a cultura – passa a ser dominado pelo evangelismo. Mas, para o diretor Gabriel Mascaro, a sociedade do futuro se afasta dos sonhos motorizados de “Os Jetsons” ou da realidade virtual ou aumentada de “Minority Report”. Estamos não muito distantes do mundo do hoje – não há hologramas, ou coisas do tipo, nem mesmo celulares. Ou seja, estamos diante de um futurismo de subúrbio de terceiro mundo. O futuro evangélico de Mascaro se afirma a partir do trabalho e da família. O trabalho é o cartório – a síntese da burocracia weberiana como forma de organização do espaço e dos corpos a partir de uma lógica utilitária. Ainda que se usem códigos genéticos e uma espécie de detector (não de metais mas de identidades) como forma de mostrar o avanço da tecnologia, é possível dizer que o cartório de Mascaro não é muito diferente da burocracia atual. Sua protagonista Joana (na grande interpretação de Dira Paes) é uma cartorária do setor de divórcios que tenta recrutar casais em crise para os ritos da seita “divino amor”. A ênfase em luzes neon entre o rosa e o roxo, em meio a névoas de fumaça, imprimem ao filme um tom claramente artificial ambíguo, entre o rasgadamente brega e o infantil (tom infantil reforçado pela narração que costura o filme). A ritualização das cerimônias do Divino Amor (a terapia de casais, o batismo) oscila entre o sensual e o kitsch. O filme apresenta o culto como uma reflexão distanciada sobre a estetização do evangelismo, numa relação complexa entre a adoração e a sedução, algo que remete ao trabalho de Barbara Wagner e Benjamin de Burca, especialmente em “Terremoto Santo” (2017). A epifania divina pode estar muito próxima de um orgasmo – e é preciso constatar o papel da estetização nos cultos. O tom irônico como essa sociedade do futuro controla o fluxo dos corpos, por meio de um regime maquínico que normatiza os modos de ser, pode ser visto em sua máxima expressão nas originalíssimas cenas em que Joana, a personagem de Dira Paes, se consulta com um pastor, entrando com seu carro por meio de um drive thru. As consultas espirituais passam a ser uma mescla de uma consulta médica com uma loja de fast food. A simplicidade da ornamentação (o pastor está simplesmente sentado em uma cadeira em torno de uma enorme redoma de vidro) apresenta um futurismo pragmático, uma estética minimalista e neutra, assim como boa parte das opções da direção de arte no cartório. É de se notar que os espaços públicos são raros no filme – a cidade está completamente ausente do filme. O tom tipicamente estilizado ocorre primordialmente no interior do “Divino Amor” – essa espécie de portal encantado em que, num recurso de fantasia tipicamente cinematográfico, os personagens entram em contato com o “divino” – numa estilização cênica do contato dos corpos tão kitsch que não seria exagero se nos lembrássemos do teatro de “Oh! Rebuceteio” (sem neon). Dessa forma, se, de um lado, é nítido o distanciamento do realizador em relação ao universo que ele apresenta, por meio dessas camadas críticas de ironia, ou ainda, se em alguns pontos o filme tangencia o caricato, com uma base cômica, a grande contribuição de Mascaro é de nunca propor meramente escrachar ou julgar seus personagens, mas procurar mergulhar nas contradições e paradoxos que surgem por dentro desse mesmo regime. Para além do panorama das transformações da sociedade brasileira, “Divino Amor” busca compreender os dilemas de sua protagonista. Joana é uma profunda seguidora dos princípios divinos, mas não se sente abençoada, já que seu trabalho e sua família estão por um triz. Ela precisa de um sinal, de uma prova do amor de Deus. Joana poderia elencar um rol de sacrifícios ao ser posta à prova do amor de Deus, como Moisés ou Abraão. Ao mesmo tempo, a ironia surge desse contraponto: seus dilemas surgem exatamente porque Deus atende a seu pedido, e a faz grávida. Talvez Joana seja condenada por amar demais. É a partir daí que vejo “Divino Amor” do ponto de vista do melodrama, sobre a importância do amor e sobre os riscos de quem ama verdadeiramente diante de um mundo maquínico – estes estão verdadeiramente condenados. “Divino Amor” vira então “Benilde”, de Manoel de Oliveira, ou mesmo um rastro de um filme de Jean-Claude Brisseau. É como se Mascaro observasse os paradoxos que surgem no interior de um regime de normatização dos corpos que, aliás extrapola o evangelismo (veja, por exemplo, o cartório). Joana curiosamente representa o desvio no interior do sistema, um abalo que surge justamente por ela, de forma pura, levar seu modus operandi até às últimas consequências. É o amor incondicional que rompe o sistema por dentro. Quando digo por dentro, me refiro também à própria questão do corpo. Um corpo que implode e passa a ser fértil. É muito curioso quando Mascaro propõe uma relação entre a fertilidade e a luz, ou seja, entre a natureza e o cinema (seja artificial por meio da estranha máquina, seja natural, no belíssimo plano em que Dira em pelo se posiciona para a luz). Dar a/à luz. O rebento que nasce ao final sinaliza esse doce desejo da revolução, que nasce não pelo ódio mas pelo amor. Quase ao avesso de “As Boas Maneiras” (2017), mas um avesso que confirma a regra, a criança de “Divino Amor” não canibaliza a normatividade: ela representa a esperança pelo desvio que surge justamente de uma extrapolação do próprio sistema. A ambiguidade com que o diretor compõe uma encenação que conjuga uma crítica irônica aos modos de ser e um afeto respeitoso diante do poder transformador do amor espelha esteticamente sua oscilação entre a comédia e o melodrama, entre o realismo e o futurismo, entre o infantil e o adulto, entre a distopia e a utopia. Como no filme anterior de Mascaro, “Boi Neon” (2015), a obra do diretor não está interessada em propor representações totalizantes do mundo contemporâneo. Ele prefere investigar esses agenciamentos turvos, que apresentam desvios ou que apontam para os paradoxos no interior desses regimes hegemônicos. Em comum, o amor ou o desejo é que rompem as porteiras da normatização dos regimes. E a estetização é o elemento que ativa a sedução dos corpos. Ou seja, a contribuição de Mascaro, para além dos discursos totalizantes, é observar a possibilidade de rachaduras ou desvios (utilizando essa palavra que se remete ao próprio nome da produtora de Mascaro e Rachel) no interior de determinados regimes.
Turma da Mônica – Laços conquista com aventura infantil e nostalgia
Criada na década de 1960 pelo cartunista brasileiro Mauricio de Sousa, a Turma da Mônica já rendeu inúmeras histórias em quadrinhos, livros e animações (além de uma infinidade de outros produtos), garantindo um lugar de destaque no imaginário popular brasileiro há mais de 50 anos. Mas apesar da sua importância e do seu poder cultural, até hoje nunca tinha ganhado uma adaptação cinematográfica em live-action. Dirigida por Daniel Rezende (de “Bingo – O Rei das Manhãs”), “Turma da Mônica: Laços” chega aos cinemas com o intuito de preencher essa lacuna, entregando uma obra cheia de emoção e nostalgia. A base do longa-metragem não é uma história de Mauricio de Sousa, mas sim uma graphic novel escrita e desenhada pelos irmãos mineiros Vitor e Lu Cafaggi. “Laços” foi um dos primeiros lançamentos do selo Graphic MSP, dedicado a adaptações da obra de Mauricio com uma visão mais autoral, e mostra a turminha em meio a uma aventura inspirada em clássicos do cinema da década de 1980, como “Os Goonies” e “Conta Comigo”. Escrita por Thiago Dottori (“VIPs”), adaptação para o cinema coloca Mônica (Giulia Benitte), Cebolinha (Kevin Vechiatto), Magali (Laura Rauseo) e Cascão (Gabriel Moreira) aventurando-se pela floresta em busca do cachorro Floquinho. Em meio à sua jornada, o grupo se depara com estranhas figuras, enfrenta perigos e acaba descobrindo a importância da amizade, ou seja, dos laços formados na infância. Existe um estranhamento inicial causado pelo impacto de ouvir aqueles personagens pela primeira vez. É preciso se acostumar com as suas vozes, em especial à do Cebolinha, cuja dislalia soa falsa no começo. Mas, ao contrário disso, a relação visual é facilmente estabelecida, seja pelo fato de o filme respeitar os figurinos originais ou pela forma como os personagens são apresentados. Rezende dá atenção a detalhes como a mão da Mônica segurando seu ursinho de pelúcia ou ao cabelo espetado do Cebolinha antes de apresentá-los de corpo inteiro. Aliás, em relação à iconografia desse universo, o diretor passeia com a sua câmera pelo bairro do Limoeiro, captando diversos easter eggs, como as participações de outras figuras conhecidas (o Jeremias, o Titi, etc.), além do próprio Mauricio e dos irmãos Cafaggi (que aparecem em cena ao lado de Sidney Gusman, editor de “Laços” e idealizador da linha Graphic MSP. Mais do que dar movimento às imagens dos quadrinhos, o cineasta imprime um estilo próprio. É notável, por exemplo, a maneira como utiliza a câmera e a montagem para fazer a participação do Louco (Rodrigo Santoro) destoar do resto do filme, como se a própria imagem traduzisse a sua imprevisibilidade Apresentando uma narrativa focada na união e na amizade, o cineasta procura explorar ao máximo a interação entre aqueles personagens. Afinal, embora sejam os ícones que acompanharam as nossas infâncias, eles são crianças e agem como tal. E o roteiro ainda consegue dar a densidade e a complexidade de dois dos seus protagonistas. Entendemos os motivos por trás dos planos infalíveis do Cebolinha (como forma de reinar absoluto e solitário) e das reações violentas de Mônica (sua única resposta possível diante das situações). São complexidades explicitadas por meio de silêncios, trocas de olhares e lágrimas. Nessa interação, porém, Cascão e Magali acabam sobrando. Eles até tem as suas jornadas e precisam enfrentar os seus medos (água e comida), mas seus personagens são menos desenvolvidos. Mas isso não chega a estragar a experiência. Emocionante em alguns momentos (a cena da Mônica chorando é de cortar o coração) e nostálgico em muitos outros, “Turma da Mônica: Laços” é leve, colorido, divertido, lúdico e atemporal, assim como as histórias em quadrinhos que o inspiraram, aproximando-se ao máximo da ideia de uma “adaptação fiel”. Por isso, talvez não funcione tão bem com quem não tem – ou não teve – uma relação muito próxima com a obra de Mauricio de Sousa. O que posso dizer é que fiquei com um sorriso de orelha a orelha durante toda a projeção.












