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    Filme de arte da era do streaming, Roma é um épico humanista

    23 de dezembro de 2018 /

    “Roma” é o que costumávamos chamar de filme de arte no século passado. Tem inspiração no neorrealismo italiano, não possui trilha sonora e foi rodado em preto e branco pelo cineasta Alfonso Cuarón (“Gravidade”), que relembra sua infância e, principalmente, das mulheres responsáveis por sua educação em Roma (não aquela da Itália, mas o bairro da Cidade do México). Mas é um filme de arte para se ver em streaming, concebido como um produto (Netflix) do século 21. E esta nem é a maior contradição da produção. Também responsável pela fotografia do filme, o diretor picota o longa em recortes quase sempre isolados do cotidiano, sem as costuras do storytelling tradicional. É como se fossem flashes de memórias do diretor jogados na tela, como um adulto se esforçando para se lembrar de passagens marcantes de sua época de criança. Todas eles contam de alguma forma com a presença da verdadeira protagonista da história, a jovem trabalhadora doméstica Cleo (a sensacional Yalitza Aparicio), que dita o ponto de vista único do filme. Como pano de fundo, o momento político, econômico e social conturbado dos anos 1970 no México. Mas os olhos de Cuarón estão voltados para Cleo, o coração de uma família em frangalhos. Ela percorre uma ladeira emocional com a patroa e os filhos dela. Mas, aos poucos, entende que é mais que a mulher que cuida da casa. É a que cuida de todos e é o alicerce mais poderoso dessa que é, no fim das contas, sua verdadeira família. E quando sua ficha cai na lindíssima cena da praia, quem não sentir um nó na garganta precisa urgentemente ir ao médico. Hoje em dia, um filme com esse roteiro costuma ser feito sem grande orçamento, com câmera tremendo, fotografia desleixada e se o cenário é o México, então, dá-lhe cores estouradas com preferência pelo amarelo do sol castigando tudo e todos. Mas Cuarón, além de apostar no preto e branco mais elegante que você viu nos últimos anos, não balança a câmera, busca enquadramentos não menos que perfeitos e tira beleza de qualquer momento do cotidiano, além de enquadrar momentos épicos como quem está acostumado a realizar superproduções. Aliás, Cuarón prefere mais imagens que palavras. Para você ter uma ideia, ele começa o filme com água e sabão abrindo uma janela no céu. Impossível ser mais evidente que isso para deixar clara sua intenção logo nos minutos iniciais. Cuarón quer abrir não somente a janela para suas memórias, mas também para o público. E de qualquer nacionalidade. Não importa a língua falada no filme, pois em pouquíssimo tempo, todos nós falamos o mesmo idioma, porque as lembranças de Cuarón se tornam nossas próprias lembranças, conectando-se por experiências similares. E para ajudar a moldar essa experiência, há uma relação muito profunda entre o que você vê em primeiro plano e o que está em segundo plano no frame. Às vezes exalando contradição, outras atuando como complemento. Mas dissecar aqui o que está em cada cena é atrapalhar o prazer para os sentidos que é descobrir e redescobrir “Roma”. Quantas vezes na vida você estava triste e alguém próximo estava feliz? Ou vice-versa. Quantas vezes num momento de angústia, você seria capaz de imaginar que acontecia algo ao redor ou existia uma pessoa capaz de mudar aquela sua sensação desoladora de uma hora para outra? Quantas vezes não enxergamos uma oportunidade debaixo de nossos narizes? É verdade que Cuarón poderia criticar muito mais a relação entre patrões e empregados ou discutir com mais contundência a tensão política no México, mas não era o filme que ele pretendeu fazer. É no fator humano e em sua sensibilidade engajadora e universal que reside o segredo da grandeza de “Roma”. É sobre mulheres. Isso não quer dizer que esses pontos não sirvam de apoio para mostrar a evolução de Cleo. Mesmo que fique em silêncio muitas vezes, Cleo não é tão passiva, estagnada e parada no tempo quanto aparenta (o avião que abre e fecha o filme não está lá por acaso, pois indica passagem de tempo). A relação entre chefes e seus subordinados não é tão simples assim e muitas vezes aceitamos coisas que vão contra nossos princípios. Mas note como a própria personagem é a mais equilibrada do filme (literalmente, como mostrado na cena daquele artista excêntrico colocando todo mundo num pé só). Em constante movimento evolutivo, Cleo ainda tem seu inesperado segundo de catarse no clímax de “Roma”. Em outras palavras, Cleo caminha para frente sim em sua jornada; ainda que ela demonstre humildade em um mundo injusto e entenda que seu lugar é ao lado daquela família. Existe algo mais épico que o sentimento humano? É por isso que, mando quando a grandiosidade contida ameaça estourar na tela ou quando Cuarón arrisca sequências sem cortes, o filme de streaming que venceu o Festival de Veneza 2018 se destaca por suas sutilezas. Pode até lembrar semelhanças com o cinema de Fellini, Visconti ou De Sica, mas esta “Roma” é de Cuarón mesmo.

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    Em Chamas é filme raro para ver, ler o livro e rever novamente

    23 de dezembro de 2018 /

    Veja o filme, leia o conto, reveja o filme. Não é sempre que a gente se sente compelido a fazer isso, graças a uma obra cinematográfica capaz de intrigar e maravilhar. Mas este é o caso de “Em Chamas”, do diretor sul-coreano Lee Chang-dong, cuja última obra para cinema havia sido “Poesia” (2010). Passou tanto tempo assim entre um filme e outro e acabou por preservar um cineasta de maior quilate. O conto que inspirou o longa, “Queimar Celeiros”, contido no livro “O Elefante Desaparece”, de Haruki Murakami, é bem sintético em sua trama. Chang-dong acrescenta muita coisa a partir de uma história aparentemente simples e que se passa em sua maior parte na varanda da casa do personagem Jong-su (Ah-in Yoo, de “Sado”), onde ele recebe o casal Hae-mi (a estreante Jun Jong-seo) e Ben (Steven Yeun, mais conhecido como o querido Glenn, da série “The Walking Dead”). O próprio Chang-dong confessa que destinou mais esforço e energia para esta cena e para a cena final. As demais, ainda que maravilhosas também, ele dirigiu dando menor importância. Isso não deixa de ser coerente com o que vemos no filme, mas também não deixa de ser impressionante, levando em consideração a grande quantidade de cenas estupendas da obra, mesmo em sua sutileza. Vendo o filme pela segunda vez, por exemplo, é possível notar certos detalhes e belezas que na primeira podem passar desapercebidos. A própria aproximação de Hae-mi com Jong-su é feita com esmero. A moça, que no início não parece ser tão interessante assim para o rapaz, passa a se tornar cada vez mais digna de seu afeto, embora no começo ele não saiba disso. Na casa de Hae-mi, quando os dois fazem sexo, e Jong-su, um aspirante a romancista, olha com atenção e interesse para os arredores e para a janela do quarto, é como se ele estivesse procurando entender e captar melhor aquele momento de sua vida. E depois há coisas um tanto surreais, como o gato que nunca aparece; ou o tal celeiro que, apesar de mencionado, também não é detectado, assim como a garota que desaparece. A história acontece depois que Hae-mi volta da África e conhece Ben, um rapaz que é tudo que Jong-su não é: confiante, rico, tranquilo e bem-sucedido. “Como ele mora em uma casa como essa tendo a idade que tem?”, Jong-su pergunta a Hae-mi, a namorada de Ben. E esse nem é um dos grandes mistérios que intrigam Jong-su. O desaparecimento de Hae-mi é que o atormenta e passa a ser a razão de sua existência. Assim como encontrar o tal celeiro queimado por Ben. Quanto à tal cena da varanda, ela é tão cheia de encantamento que faz o coração do espectador pulsar mais forte. Tanto no momento em que os três estão fumando um baseado, quanto na cena da dança de Hae-mi, que parece saída de um filme de David Lynch. Isso se dá principalmente pela inclusão de uma música de Miles Davis, a mesma que aparece em “Ascensor para o Cadafalso” (1958), de Louis Malle. O próprio Chang-dong disse que gosta muito do filme de Malle, em entrevista para a revista Cinema Scope (edição 75). Se há algo no filme capaz de empolgar menos são as cenas em que Jong-su tenta lidar com a prisão do pai. O reencontro com a mãe é interessante, mas toda a parte com o pai parece pequena diante da trama principal, quase como se fosse possível destacar. Funciona mais para acentuar o aspecto da solidão e abandono a que o personagem foi submetido. No mais, há muito o que se alimentar da riqueza de “Em Chamas”, seja tentando entender mais detalhes de sua trama, seja se aproveitando também das influências literárias (o próprio Murakami, William Faulkner, F. Scott Fitzgerald) e musicais, seja adentrando na profundidade e no abismo de seus personagens. Não é sempre que vemos um filme assim.

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    Conquistar, Amar e Viver Intensamente dramatiza romance LGBT+

    23 de dezembro de 2018 /

    “Conquistar, Amar e Viver Intensamente” se passa em 1993. É uma história de amor e sexo homossexual, envolvendo um trio de personagens. Jacques (Pierre Deladonchamps), escritor e dramaturgo, encara em seu corpo as consequências decorrentes da ação do HIV no seu sistema imunológico, já combalido. Embora resistindo e lutando bravamente para seguir na vida, a sentença de morte estava dada. Nessa época, havia pouco a fazer quanto a isso. Jacques tem um filho que participa da trama, assim como a mãe do menino, que se define como amiga do escritor. Mathieu (Denis Podalydès) é o companheiro de Jacques e vive com ele, pelo que se supõe vendo o filme, há um bom tempo. O que não significa que a relação entre eles não possa incluir outras pessoas. Arthur (Vincent Lacoste) é um jovem estudante, que vem de fora de Paris, parece à vontade com seu comportamento bissexual, mas até então não havia se apaixonado por ninguém, e se envolve amorosamente com Jacques. É uma história de amor e morte, já que Jacques sabe que sua vida está no fim e tenta evitar um novo romance a essa altura. Para Arthur, no entanto, é seu primeiro grande amor e ele não está disposto a abrir mão disso. Um desencontro terrível, que tempera ternura com desespero. O diretor Christophe Honoré faz um trabalho bonito, digno, ao contar essa história, onde há espaço para nudez, erotismo, humor, embora o drama se sobreponha a tudo isso. Os atores que compõem a trinca de protagonistas seguram bem a narrativa, enfatizando em seus desempenhos a dimensão humana de cada um dos personagens. Não há aqui clichês nem preconceitos de espécie alguma. E há uma entrega muiito grande de cada um deles a seu personagem. A direção de Honoré é sempre firme e o filme tem uma série de sequências muito consistentes. O cineasta já deu mostras da qualidade de seu trabalho, anteriormente, em filmes como “Em Paris”, de 2006, “Canções de Amor”, de 2007, e “A Bela Junie”, de 2008.

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    Rasga Coração atualiza conflitos de gerações para a era da intolerância

    23 de dezembro de 2018 /

    Oduvaldo Vianna Filho, o Vianninha (1936-1974), escreveu em 1970 a peça “Rasga Coração”, que dá origem ao novo filme de Jorge Furtado – com roteiro dele, de Ana Luiza Azevedo e de Vicente Moreno. O centro de toda a narrativa é a relação pai e filho, permeada pela política, por valores de vida, por estratégias de ação, com o pressuposto de que os jovens querem mudar o mundo e construir algo em que acreditem genuinamente. A motivação psicológica é clara: os jovens precisam se diferenciar dos pais, ter identidade própria, conquistar autonomia. Para isso, o rapaz terá que “matar o pai”, no sentido simbólico. Negar o pai, rejeitá-lo, tirá-lo da sua vida, momentaneamente. Ou, pelo menos, distanciar-se dele, isolar-se. E buscar os seus caminhos individuais. Com esse substrato, “Rasga Coração”, a peça, refletindo o momento de ebulição de 1968, em contraponto à opressão da ditadura militar, coloca a alternativa hippie de vida e de política frente à ação típica dos movimentos de esquerda tradicionais, reformista e revolucionário. A revolução agora é outra: passa pela negação da guerra, pela liberdade, mas também pela comida, pela vestimenta, pela busca de novos padrões de comportamento e de vida. Esse choque geracional, no entanto, não é novo. Repete o que foi vivido pelo pai quando filho, na juventude. Ele fará tudo para, como pai, não repetir o que viveu como filho. Mas conseguirá? É um enfrentamento necessário, difícil e permanente, no sentido de se repetir ao longo da história e nos mais diversos espaços geográficos. O filme de Jorge Furtado atualiza essa narrativa, trazendo a questão de gênero para os comportamentos. A mãe, Nena (Drica Moraes), reage ao que imagina ser um encontro homossexual porque confunde a namorada do garoto com outro garoto, pela vestimenta “masculina” da menina. Luca, o filho (Chay Suede), acaba pintando as unhas de vermelho e usando uma ampla saia, os novos modos de encarar o sexo estão mais descomplicados. Participa da invasão da sua escola, em lugar das reuniões e ações políticas que visam a toda a sociedade, por exemplo. A tecnologia também se atualiza. As formas de comunicação mais instantâneas geram outro tipo de respostas. Os projetos de longo prazo, como o consultório médico do futuro, já não servem. Novos modelos de atuação médica são valorizados. Mas a rejeição do caminho planejado e acomodado já é um legado daquela era hippie. Vista hoje, a trama de “Rasga Coração” mantém sua atualidade. Até porque esses confrontos pai-filho, permeados pela dinâmica social e política do país, apresentam atitudes que se repetem e se renovam. Quando os jovens de agora lutam pela preservação do planeta e priorizam questões globais a questões nacionais ou latino-americanas, dá para entender. O que Vianninha talvez não projetasse é que a oposição à esquerda racional e careta poderia se tornar uma juventude de extrema direita, violenta, com traços racistas, misóginos, homofóbicos, intolerantes. Isso não soa como evolução, assusta. Jorge Furtado, ao falar sobre o filme e perguntado sobre qual seria a revolução do momento, optou pela efetivação do diálogo com quem pensa diferente, combatendo o ódio e em busca do mínimo denominador comum que nos une como brasileiros. Muito lúcido. O talento de Jorge Furtado como cineasta não deixa margem a dúvidas. Bastaria lembrar de “Ilha das Flores”, de 1989, o curta mais festejado e premiado da história do cinema brasileiro. E ele faz muita coisa há décadas, na Casa de Cinema de Porto Alegre e na TV. O elenco de “Rasga Coração” é também recheado de talentos. Marco Ricca, o Manguari pai, é sempre um grande ator em cena. João Pedro Zappa está bem no papel de Manguari filho, embora sua caracterização física seja um tanto caricata, não convencendo em relação à figura mostrada do adulto em que se tornou. Drica Moraes, excelente como a mãe Nena, Chay Suede, muito bem como Luca, o filho. Luísa Arraes mostra força e segurança como Mil. Lorde Bundinha é uma oportunidade para o ator George Sauma extravasar seus dotes histriônicos. Enfim, o elenco todo é bem homogêneo, e brilha. O filme envolve, comunica e faz pensar.

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    Tinta Bruta explora liberdade e sexualidade no anonimato virtual

    23 de dezembro de 2018 /

    “Tinta Bruta” nos apresenta o personagem Pedro (Schico Menegat), um jovem solitário, que parece incapaz de conviver com as pessoas, expressar-se naturalmente junto a elas. Ao mesmo tempo, há um mistério na sua história: um processo criminal a que ele está respondendo. Pedro parece depender de sua irmã, com quem mora, e que é muito amiga e próxima, mas ela se muda para longe e, com isso, só lhe resta mesmo a solidão. E ficar em casa. Ele quase nunca sai de casa. Na contemporaneidade, porém, como sabemos, a nossa casa é a nossa fortaleza e a tecnologia nos faz interagir virtualmente com o mundo. Pedro, então, se transforma no Garoto Néon em transmissões eróticas, via internet, em que consegue ganhar algum dinheiro. Ele veste seu corpo de tintas que, no escuro, com a iluminação, dá um belo efeito visual. Ele virá a conhecer Léo (Bruno Fernandes) porque descobre que ele o está imitando e criando uma concorrência na internet. É por aí que algo vai mudar na vida de Pedro. O interessante no filme de Felipe Matzembacher e Márcio Reolon é justamente o contraste entre a persona pública e a pessoa real. No mundo virtual, cada um pode criar sua personalidade, sua história, inventar personagens, shows, expressões, aparentemente preservado do mundo exterior. Interagindo por meio de câmeras, que se podem desconectar a qualquer momento, no anonimato. Sem riscos, portanto. Será mesmo? Bem, a vida não se resume ao mundo virtual, por mais atraente e fantasioso que ele possa ser. Nada pode substituir efetivamente o contato físico, o afeto, que são transformadores. Interagir é estabelecer vínculos, é dar colorido à vida, é correr riscos, é humanizar-se. Não tem nada a ver com os compartilhamentos, comentários e interações via internet. Que, no entanto, serviram para nos mostrar que a evolução do ser humano não se deu como se poderia esperar. No anonimato, real ou aparente, as pessoas mostram sua grossura, intolerância, idiotice. Fica-se surpreso ao constatar que tantas pessoas se expressem assim. O espaço da internet também permite, como no caso de Pedro, o Garoto Néon, a expressão de uma sexualidade reprimida, sufocada e, ao mesmo tempo, atraente para muitos seguidores na web. E até fonte de trabalho e ganho num empreendedorismo individualizado, de baixo custo. Vender o próprio corpo não é exatamente uma novidade, mas é possível encontrar uma forma original de fazê-lo, enquanto imagem, como Pedro. Qual o limite para tudo isso ainda não sabemos. Assim como as consequências a longo prazo. O que já podemos constatar é bastante preocupante, mas inconclusivo. A questão do confronto entre a chamada vida real e a virtual traz elementos importantes para reflexão. Temos muito a pensar, conhecer, entender sobre isso. Personagens como Pedro e também Léo, de “Tinta Bruta’, são relevantes para o momento em que vivemos. Eles trazem a diversidade sexual, a temática LGBT+ a esse contexto. Mas o assunto é mais amplo e abrange todas as expressões da sexualidade, da intimidade, dos sentimentos tornados públicos. O filme “Tinta Bruta” foi exibido no Festival de Berlim e premiado no Festival do Rio como Melhor Filme, Roteiro, Ator e Ator Coadjuvante. De fato, os atores merecem mesmo esse destaque, o roteiro é muito bom (em que pese o sumiço da personagem da irmã) e a realização, de qualidade.

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    O Beijo no Asfalto usa metalinguagem para contar história clássica

    9 de dezembro de 2018 /

    “O Beijo no Asfalto” (2017), filme que marca a estreia na direção do ator Murilo Benício, é uma adaptação da peça homônima de Nelson Rodrigues, que fala sobre um homem, Arandir (Lázaro Ramos), que vê um sujeito ser atropelado na sua frente e concede ao moribundo um último pedido: um beijo. Escrita em 1960, a peça mostra como a vida desse homem é arruinada, uma vez que aquele simples ato de bondade dá início a uma verdadeira perseguição por parte da polícia, da imprensa e do seu próprio sogro, ao mesmo tempo em que causa problemas no seu casamento com Selminha (Débora Falabella). O texto original foi transposto integralmente para o filme. E isso é perceptível tanto no conteúdo verborrágico e nos diálogos sobrepostos – característicos do teatro – quanto na abordagem de alguns temas comuns a Nelson, como a sexualidade, a intimidade da família “normal” brasileira e as perversões humanas. Porém, vale citar que a peça não condena a homossexualidade, o que ela condena é a repressão da mesma, e a maneira como as instituições de poder, como a polícia, a mídia e a religião, tratam desse assunto como se fosse uma doença – e o fato de um texto tão antigo soar tão atual é um mau sinal. Ainda assim, Benício imprimiu a sua própria visão para a obra, propondo algo diferente para esta adaptação: fazendo uso da metalinguagem, ele apresenta o processo dos próprios atores ao se prepararem para realizar o longa-metragem. Assim, o que vemos é o elenco sentado a uma mesa discutindo o texto e se familiarizando com os seus respectivos personagens, enquanto Murilo fica num canto, só ouvindo. As cenas dos ensaios se misturam com cenas “de cinema”, da adaptação em si, e é por meio dessa mistura que acompanhamos a história de Arandir. Trata-se de uma proposta bastante complexa para um diretor estreante, mas Benício demonstra habilidade de um veterano. Explicitando todo o aparato cinematográfico, desde as câmeras, os trilhos do travelling e as páginas do roteiro, o realizador usa esse recurso da metalinguagem para criar algumas composições belíssimas, como aquela na qual um plano geral revela o cenário montado, mas aos poucos a câmera se aproxima dos atores, deixando de lado todo aquele aspecto “realista” (ou seja, excluindo os detalhes do estúdio e da equipe de filmagem) e se concentrando na “ficção” (tornando-se uma cena “normal” de cinema). Assim, ainda que as cenas dos ensaios continuem a fazer parte da narrativa, a partir do segundo ato – sim, existe a divisão em três atos – a ficção torna-se muito mais presente na tela do que essa (falsa) realidade. É como se os atores já conhecessem bem os seus personagens e já tivessem ensaiado o bastante, podendo partir para a “prática”. Com isso, em momentos mais densos, como na discussão entre Selminha e seu pai, Aprígio (Stênio Garcia), o diretor fecha o quadro no rosto daquelas pessoas para que possamos ver em detalhes todas as expressões que eles tanto ensaiaram. E isso só funciona porque o talentoso elenco consegue extrair a densidade do texto de Nelson com aparente facilidade e, contraditoriamente, com naturalidade. Murilo declarou que “O Beijo no Asfalto” foi um projeto coletivo e que todos os envolvidos são responsáveis por esse resultado. De fato, o cinema é uma arte colaborativa. Mas o cinema também precisa do direcionamento do realizador para não se tornar uma cacofonia de diversas vozes falando ao mesmo tempo. E Benício demonstra o talento necessário tanto para criar, quanto para ouvir e filtrar aquilo que lhe interessa. Ou seja, é um excelente cineasta.

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    Documentário lembra porque Maria Callas foi a maior cantora lírica

    9 de dezembro de 2018 /

    Maria Callas (1923-1977) tem sido reconhecida como a maior cantora lírica do século 20 ou, mesmo, de toda a história do bel canto. Um documentário que pretenda registrar sua figura humana e sua obra musical tem, antes de mais nada, que apresentar sua performance vocal às novas gerações. Esse é o primeiro mérito de “Maria Callas em Suas Próprias Palavras”, filme de Tom Volf: é possível vê-la e ouvi-la cantar vários números, do começo ao fim de cada canção. Evita-se, assim, aquela sensação de colcha de retalhos, excertos musicais que não dão a dimensão real do trabalho artístico. A vida de Maria Callas foi cercada de polêmicas, amores, frustrações, cobranças do público e da crítica. A maneira encontrada pelo documentário para abordar tudo isso foi montar o filme todo por meio das palavras da própria cantora, como o título em portiguês já entrega. Entrevistas, depoimentos, cartas, gravações em vídeo, dão conta da dimensão dessa vida intensa e rica, totalmente dedicada à música e ao amor. Callas, nascida em Nova York, de uma família de imigrantes gregos, se naturaliza grega por conta de seu envolvimento amoroso com Aristóteles Onassis que, apesar de provocar grande decepção e frustração, acabou resistindo, pelo menos como forte amizade, até a morte dele. Segundo o que se vê no filme, e o tempo decorrido em cada relacionamento confirma, o papel de Maria Callas na vida de Onassis foi muito mais forte do que o de Jacqueline Kennedy. E o de Onassis para Callas, total e arrasador. O que “Maria by Callas” enfoca bem é o desgaste provocado por uma vida de constantes desempenhos espetaculares, exigidos e amados pelo público, que impõem um preço alto a pagar. Quando uma doença e a perda da voz obrigam a suspensão de um espetáculo no meio, isso assume ares de tragédia e as críticas e incompreensões se estabelecem. O conflito entre uma vida artística tão exigente e a vida pessoal e familiar que não se realizam nunca em plenitude é o que está na base da abordagem do filme. Maria tem que levar Callas para todo lugar e para sempre, comprometendo sua intimidade e suas pretensões a uma vida simples e comum. A celebridade engole a pessoa. Além de excepcional cantora, Maria Callas era também boa atriz. Aliás, condição indispensável para o seu retumbante êxito na ópera. Daí para a experiência no cinema é um pulo. Ela trabalhou para ninguém menos que Pier Paolo Pasolini (1922-1975) em “Medeia”, por exemplo. Mas a carreira cinematográfica não chegou a decolar. Sua missão maior – a difusão do canto lírico para diversas gerações – venceu tudo. Já próxima da morte, Maria Callas buscava, mais uma vez, retornar aos palcos, lugar onde ela se sentia em casa. O filme de Tom Volf emociona, ao resgatar essa bela história, incluindo imagens raras de arquivo, filmagens pessoais, cartas íntimas, e ao nos apresentar maravilhosas performances musicais da grande diva. É daqueles filmes que colecionadores gostarão de ter em casa, para ver e rever. A arte e a beleza são fascinantes para quem desenvolve a sensibilidade para apreciá-las.

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    Documentário resgata talento e importância de Henfil

    9 de dezembro de 2018 /

    A partir de 1969, com o golpe dentro do golpe militar, as esperanças de uma volta à democracia acabaram de vez. Um dos meus momentos de respiro e felicidade era ir às bancas de jornais, semanalmente, comprar e ler “O Pasquim”, jornal de humor e política que marcou época como mídia de resistência. A publicação reunia a fina flor do jornalismo crítico do período, gente como Millôr Fernandes, Tarso de Castro, Ivan Lessa, Paulo Francis, Sérgio Cabral pai, Sérgio Augusto, Tárik de Souza e cartunistas e desenhistas do quilate de um Ziraldo, um Jaguar, um Fortuna. Pois, diante desse time de cobras, um dos grandes destaques e sucesso comprovado do Pasquim era Henrique Filho, o Henfil (1944-1988). O mineirim, filho de D. Maria, irmão do cantor e compositor Chico Mário, de Glorinha e do Betinho. O país que sonhava “com a volta do irmão do Henfil”, na magnífica canção de João Bosco e Aldir Blanc, imortalizada por Elis Regina, referia-se ao Betinho da luta contra a fome, que ficou para as páginas mais bonitas da história do nosso país. Enquanto o general Figueiredo preferia o cheiro dos cavalos ao cheiro do povo, os personagens de Henfil exalavam povo por todos os poros. O povo era, para ele, a única esperança real. Os fradinhos, o cumprido resignado e o baixinho provocador, marcaram época. E a Graúna, o Zeferino, o bode Orelana, Ubaldo, o paranóico, e o Cabôco Mamadô são insuperáveis. Tem também o Urubu flamenguista, lançado nos tempos de sua participação na mídia esportiva. E quem pode se esquecer das famosas cartas que ele escrevia para a mãe, na revista Isto É , entre 1977 e 1984, com uma foto de D. Maria no alto? Cartunista e artista multimídia, diríamos hoje, Henfil escreveu livros, atuou na TV e no cinema, mas não chegou a concretizar um filme de animação com seus personagens. No documentário “Henfil”, dirigido por Angela Zoé, ela tenta reparar isso, filmando um grupo de jovens animadores que, a partir de um workshop sobre o trabalho de Henfil, cria um curta de animação com os personagens dele. O processo é mostrado e o resultado é apresentado no final do filme. Para isso, contaram com a ajuda de Ziraldo, por exemplo, que lhes mostrou que a Graúna não poderia ficar certinha e bonitinha, porque o traço que a caracterizava era sujo, nervoso, desenho em movimento. De fato, em poucas linhas, Henfil mostrava tudo, em ação. Com poucas palavras, dizia tudo, também. De um modo urgente, tinha que ser para já, como o lema “Diretas já”, que ele produziu e disseminou. Para essa urgência certamente contribuiu a hemofilia, a doença que o acompanhou por toda a vida e foi a causa de sua morte em decorrência da Aids, contraída numa transfusão de sangue, que fazia parte da sua rotina de sobrevivência. Só que num tempo em que o controle dos bancos de sangue no Brasil era precário. Haja vista o grande número de casos de contaminação pelo vírus HIV por essa via que ocorreu nos anos 1980. Nessa época, eu já trabalhava com educação sexual nas escolas públicas e particulares e costumava atender convites da mídia para falar sobre o assunto. Foi numa dessas situações que acabei conhecendo o Henfil pessoalmente. Num programa da TV Cultura, conduzido por Júlio Lerner (1939-2007). Apresentei o assunto mostrando sua importância, o valor científico e a seriedade que a abordagem exigia. Ele concordou totalmente, mas acrescentou que eu não me esquecesse de pôr humor nessa didática. A educação sexual tinha de ser divertida, também. É isso mesmo. Ele nunca deixou de pôr humor na vida, mesmo nos momentos mais tenebrosos do país, na ditadura militar, ou nos graves problemas de saúde que tinha de enfrentar. Participam do documentário “Henfil” gente que viveu e trabalhou ao seu lado, como os já citados Ziraldo, Jaguar, Sérgio Cabral pai, Tárik de Souza e ainda Lucas Mendes, amigos e familiares. Imagens do Henfil em entrevistas, em lançamento de livros, em filmagens familiares ou de viagens compõem um painel abrangente do grande talento que ele foi. E como ele faz falta até hoje! Ver o filme “Henfil” é recuperar a história desse grande artista brasileiro, de sua luta política valendo-se do humor corrosivo e do desafio que foi e continua sendo a luta contra a Aids.

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    Infiltrado na Klan enfrenta o racismo através da história

    27 de novembro de 2018 /

    Spike Lee entende o poder político desempenhado pelo cinema e em “Infiltrado na Klan” ele usa este poder para abordar questões atemporais na história americana (e mundial). A trama se passa no final da década de 1970 e conta a trajetória verídica de Ron Stallworth (John David Washington, da série “Ballers”), um novato na polícia do Colorado que, por telefone, consegue se infiltrar na filial local da Ku Klux Klan. Além de ter a sua própria carteirinha de membro, Stallworth faz contato com algumas das principais lideranças da Klan, como David Duke (Topher Grace, de “Homem-Aranha 3”), um ambicioso político americano que ficou conhecido pelo seu extremismo. Nos encontros presenciais, Stallworth é substituído por Flip Zimmerman (Adam Driver, de “Star Wars: Os Últimos Jedi”), um detetive judeu que se passa por ele e investiga as possíveis ações terroristas da organização. Por mais que Flip não concorde com muitos dos questionamentos levantados por Ron, tal discordância nunca é vista como inimizade, servindo, em vez disso, para fortalecer a relação dos dois. Além do mais, o contato próximo com a Klan obriga Zimmerman a reavaliar sua própria crença, uma vez que a religião nunca havia sido uma “questão” na sua vida – ela não é algo visível, como a cor da pele, o que permitia que ele passasse despercebido entre os grupos preconceituosos. E a expressividade de Adam Driver permite que percebamos todas as nuances do seu personagem e todas mudanças pelas quais ele está passando. Porém, nessa troca John David Washington sai perdendo, visto que seu protagonista não ganha tanta atenção quanto o colega coadjuvante. Dono de um estilo de direção bastante característico, Spike Lee faz com que seus personagens apareçam em muitos momentos posando para câmera, como quando eles escutam o discurso de um líder dos Panteras Negras, ilustrando como aquele discurso atinge a todos de maneira igual. Ao contrário disso, o diretor destaca as diferenças dos grupos raciais por meio da montagem. Enquanto os militantes estudantis escutam com atenção e respeito as palavras de um homem idoso que conta um caso trágico que ele presenciou, envolvendo o espancamento e morte de um jovem negro, os membros do Klan reagem de forma histérica à exibição do filme racista “O Nascimento de uma Nação”, enxergando ali o que o presidente americano Woodrow Wilson um dia declarou como sendo a “história escrita com relâmpagos”. Aliás, não é por acaso que a obra de D.W. Griffith aparece com tanta frequência aqui. Vale lembrar que o filme foi responsável por revitalizar a Ku Klux Klan, mostrando os seus membros como heróis da Guerra Civil americana e presenteando-lhes com aquele que se tornou o seu símbolo mais icônico: a cruz flamejante. Porém, em vez de ficar referenciando apenas o passado, Spike Lee usa esse tema para falar sobre o presente, especialmente para criticar o atual governo do presidente Donald Trump. E ele não é nada sutil nessa sua crítica. As referências a Trump são constantes, desde a aparição de Alec Baldwin (intérprete de Trump no programa Saturday Night Live) num pequeno papel, passando pela repetição de frases icônicas da campanha presidencial (como “fazer a América grande de novo”), pelo descrédito em relação à história (em certo momento um personagem fala que o Holocausto foi uma farsa criada pelos judeus), até a menção de que esse extremismo um dia pode chegar na Casa Branca, sem esquecer da montagem final, com confrontos recentes contra supremacistas brancos acompanhados por discurso complacente de Trump. Assim, além de um excelente filme, “Infiltrado na Klan” serve para mostrar que, embora o cinema tenha ajudado a propagar ideais racistas ao longo dos anos, o poder dessa mídia também pode ser usado como forma de resistência.

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    A Balada de Buster Scruggs é uma aula de estilo dos irmãos Coen

    23 de novembro de 2018 /

    “A Balada de Buster Scruggs”, novo filme dos irmãos Joel e Ethan Coen, produção realizada pela Netflix que venceu o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Veneza, apresenta uma antologia formada por seis curtas/médias-metragens com histórias que se passam no Velho Oeste americano. O filme vem sendo comparado ao sucesso argentino “Relatos Selvagens” por conta da estrutura semelhante e pela inevitável violência com que seus conflitos e imbróglios são resolvidos. Embora o filme dos Coen tenha uma roupagem mais clássica comparada ao estilo mais anárquico de Damián Szifron. As seis histórias que compõem a trama trazem características marcantes dos diretores: o senso de humor estranho, às vezes escrachado, beirando a escatologia; a já citada violência, que surge de maneira inesperada, resolvendo conflitos em que aparentemente haveria outros métodos para solucionar as questões em si; personagens excêntricos, mas que à sua maneira possuem coerência dentro do universo estabelecido pelo filme; ritmo cadenciado, em que o local em que a trama acontece conta a história, com os personagens respeitando esse tempo; e um tom nefasto para tratar de histórias que podem sugerir maior leveza, ou vice-versa. Ethan e Joel são cineastas que não fazem muitas concessões à audiência, e tal característica se comprova como uma qualidade em Buster Scruggs. Trata-se de um exercício de estilo, em que a ambientação do local, personagens, tramas já são o filme, sem “nada além disso” por trás, ou sem nenhum maior objetivo. Ao mesmo tempo que as tramas se fecham em si, e como um todo, claramente não existe interesse dos diretores/roteiristas para que o filme se feche redondamente com uma história sendo facilmente reconhecível na outra. É outro tipo de coesão que é buscada aqui, mais interessada em seguir uma linha mestra estilística que é maior que as próprias histórias isoladamente. Somando-se a isso há a direção de fotografia de Bruno Delbonnel, que explora grandes cenários criando um visual arrebatador, com planos com grande profundidade de campo, estabelecendo um universo próprio de cores, sombras, sol escaldante, para auxiliar decisivamente na ambientação desse Velho Oeste que não se parece com outros, e que esconde perigos à espreita o tempo inteiro. O elenco, numeroso mas milimetricamente harmônico, tem função importante no filme. Todas as tramas trazem atuações destacadas, pois realmente cada personagem tem uma maneira própria de existir naquele tempo, naquele lugar, em atuações sucintas, evidentemente técnicas, precisas. Desde o ótimo Tim Blake Nelson, divertido, cafona na medida certa como o personagem título; James Franco e Stephen Root que fazem a dobradinha mais engraçada do filme; Zoe Kazan e Bill Heck criam uma forte relação entre seus personagens e com a plateia, na trama mais emocional; além do sempre excelente Brendan Gleeson, acompanhado de Jonjo O’Neill, Tyne Daly, Saul Rubinek e Chelcie Ross, que criam a única cena basicamente focada em diálogos, e fazem isso parecer fácil. Mas duas histórias se destacam: “Meal Ticket”, com Liam Neeson e Harry Melling, e “All Good Canyon”, com Tom Waits e Sam Dillon. Esses dois trechos são especiais por contarem com direção bastante econômica, com as informações relevantes sendo exibidas apenas visualmente, sem diálogos, e também por terem as melhores atuações do filme. Melling, o Duda da série “Harry Potter”, cria uma figura sensível, resvalando na autopiedade, mas que, pelo contraponto de Neeson, fica num meio termo dificílimo de ser alcançado. A cena em que Neeson assiste ao show da galinha, e conclui o óbvio, é o melhor momento do filme, uma aula de concisão de planos para passar uma informação interior do personagem. Já o outro trecho traz um verdadeiro exercício de paciência cinematográfica (para o lado bom), quando nos faz compreender seu ritmo, e que essa trama não teria metade do impacto se fosse decupada e montada de maneira mais ágil. A entrada do personagem de Sam Dillon é a chave para o entendimento de que filme (cena) estamos vendo, e o que se deve buscar. Tom Waits traz um peso diferente para este momento, e me faz torcer pra que ele retorne em breve para frente da câmera. Se for no próximo filme dos Coen, melhor ainda. Aliás, esses diretores já estão com o nome garantido na história, e para a nossa sorte parecem com lenha pra queimar por muito tempo ainda.

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    Museu parte de um assalto verídico para questionar o valor da cultura

    23 de novembro de 2018 /

    O filme “Museu”, que conta uma história real, que beira o absurdo, mostra um grande roubo ocorrido na cidade do México, no período de Natal de 1985. Uma ação realizada por apenas dois estudantes de Veterinária, que foram capazes de roubar cerca de cem peças valiosíssimas do extraordinário Museu Nacional de Antropologia, extraídas, principalmente, da sala de cultura Maia. Surpreendente. Mas e depois? Quem vai comprar tais elementos fundamentais e preciosos da própria cultura mexicana, sentidos pela sociedade como uma perda inestimável? A história é até pouca e previsível, mas o filme, não. Ele envereda pela questão do valor da arte e da cultura, explorando significados artísticos e turísticos do México, dando densidade e dimensão à questão cultural que está na base da trama. E mostrando o equívoco que pode resultar da falta de informação e reflexão sobre os signos culturais de um país e de uma região. Cultura não se mede por dinheiro, não é consumo, é história e vida. “Museu” tem ótimos atores, como Leonardo Ortizgris na condição de protagonista e também o muito conhecido Gael García Bernal, em excelente desempenho. O filme merece ser conhecido. É um ótimo trabalho do diretor Alonzo Ruizpalacios em seu segundo longa (depois de “Güeros”), e levou o Urso de Prata de Roteiro no Festival de Berlim deste ano.

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    Novo Halloween é homenagem relevante ao clássico de John Carpenter

    9 de novembro de 2018 /

    Passou da hora de muita gente admitir que terror é um gênero relevante. É verdade que, quando um filme de horror faz sucesso, a fórmula é desgastada até não dar mais com continuações infinitas e repetitivas. Mas quando inaugura tendências ou, pelo menos, comprova sua conexão com discussões importantes para a sociedade de sua época, o filme costuma marcar seu nome na história do cinema. Em 1978, por exemplo, o lendário cineasta John Carpenter lançou um filme que influenciaria para sempre a cultura pop, além de dezenas de imitações. O slasher movie de Carpenter gerou um subgênero inteiro de terror ao mostrar um psicopata mascarado solitário tocando o terror numa cidadezinha pacata, na década do assassino do zodíaco. Tamanho foi impacto que sem ele não haveria “Sexta-Feira 13”, “A Hora do Pesadelo” ou “Pânico”. E tem outra: Michael Myers adorava matar mulheres, crime que ainda pauta o cinema de hoje por, infelizmente, nunca ter deixado de refletir a nossa realidade. Atento a suas origens, o “Halloween” de 2018 segue relevante. Admirador da obra de John Carpenter, o diretor eclético David Gordon Green, que assinou “Segurando as Pontas”, não assumiu riscos e prestou uma homenagem, com referências que deixarão os fãs com sorrisos enormes. É um caminho seguro e válido, que opta por reverenciar o único filme da franquia que fez História, fingindo que nenhuma continuação existiu e dando sequência aos eventos do clássico. Além disso, toma a estrutura do roteiro original como base e retoma com saudosismo a trilha composta pelo próprio John Carpenter. Mas faz Michael Myers esfolar o dobro, talvez o triplo de pessoas que ele esfaqueou no primeiro, conduzindo ao inevitável confronto com Laurie Strode (novamente vivida por Jamie Lee Curtis), a babá que sobreviveu ao clássico e esperou quatro décadas para reviver o pesadelo. Mas o “Halloween” de 2018 é mais que uma simples continuação da história original. Mais que as mudanças trazidas pela técnica, a produção também atualiza os temas da obra. Trata-se de um legítimo slasher, com todos os prós e contras do gênero, mas também um exemplar da era #MeToo. Em cena, mulheres decididas, corajosas e influentes se destacam em oposição a homens babacas ou burros, com exceção do assassino mascarado, claro, que, apesar de demente, consegue ser o macho mais inteligente do filme, embora represente um agressor violento de mulheres por motivos óbvios. Tirando bebês (uma grata surpresa), Michael mata sem explicações tudo que encontra pela frente, embora mantenha sua preferência por mulheres, especialmente as tradicionais babás. Só que o filme não é do monstro, mas da atriz que deve sua carreira ao primeiro “Halloween”. Jamie Lee Curtis, filha dos astros Tony Curtis (“Quanto Mais Quente Melhor”) e Janet Leigh (“Psicose”), protagoniza aqui o filme de maior sucesso liderado por uma atriz de 60 anos muito bem vividos, e que merecia mais reconhecimento da Academia por “Um Peixe Chamado Wanda” (1988) e “True Lies” (1994). Sua presença em cena é tão hipnotizante que ameaça o apelo pop da imagem de Michael Myers. A estrutura do roteiro reflete tanto o “Halloween” de 1978 que deixou o esperado embate entre os dois personagens principais somente para os tensos minutos finais, exatamente como no original. A diferença é que, agora, o público anseia pelo confronto, enquanto há 40 anos ninguém tinha certeza se Laurie chegaria viva até o final. Como, desta vez, Laurie se diz pronta para a volta de Michael, o roteiro de Danny McBride (ele mesmo, o comediante de “Segurando as Pontas”) peca ao rechear o miolo do filme com personagens descartáveis que entram em cena somente para servir de guisado para o psicopata. Para provar que há um excesso de gente sem propósito, onde diabos foi parar o crush da neta de Laurie após a festa de Halloween? Não adianta dizer que a última cena entre os dois serviu apenas para isolar a menina pelas ruas como presa fácil para o monstro, porque foi criada uma expectativa e o personagem simplesmente desapareceu sem nem ao menos dar de cara com Michael Myers. Aliás, há um certo desperdício da neta (Andi Matichak) e a filha (Judy Greer) de Laurie durante toda a trama, embora elas se mostrem importantes na conclusão da história. Ao menos, as portas ficam abertas para mais uma sequência, que virá, graças ao sucesso do filme, e tem a obrigação de ser superior. Mas ficam duas certezas: não dá para fazer “Halloween” sem Jamie Lee Curtis e a volta Michael Myers embute a consequência de um revival da tendência que ele despertou há 40 anos. Hollywood já prepara a volta de Jason, de “Sexta-Feira 13”, e outros monstros da era slasher devem ressuscitar para o século 21, com a promessa de extirpar à facadas qualquer resquício de originalidade que sobreviver.

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    O Primeiro Homem transforma conquista da lua em drama intimista

    9 de novembro de 2018 /

    “Nós decidimos ir à Lua nesta década e fazer as outras coisas, não porque são fáceis, mas porque são difíceis”, disse o presidente americano John F. Kennedy em 1962, num discurso célebre que deu um novo gás para a corrida espacial e culminou com a pegada do astronauta Neil Armstrong no solo lunar. “O Primeiro Homem”, nova parceria do cineasta Damien Chazelle com o ator Ryan Gosling (ambos de “La La Land: Cantando Estações”), conta a história de Armstrong mostrando que as dificuldades mencionadas por Kennedy vão muito além dos problemas tecnológicos. Escrito por Josh Singer (“The Post – A Guerra Secreta”) com base no livro de James R. Hansen, o roteiro acompanha quase uma década na vida de Neil Armstrong (Gosling), um piloto de testes que, ao pilotar um X-15, teve o seu primeiro vislumbre do espaço. A tranquilidade espacial é substituída pela conturbada realidade terrestre. Após perder a filha, vítima de câncer, Neil decide voltar ao trabalho. Mas quando lhe empurram um serviço burocrático – que lhe daria tempo para pensar na sua perda –, ele enxerga a oportunidade de sair dali e ingressar no programa espacial. Assim, fica estabelecida desde o início a relação trabalho-família, algo que vai ser reforçado ao longo de toda a narrativa. Chazelle explicita isso ao demonstrar como o relacionamento de Armstrong com a sua família melhora quando seu trabalho está indo bem – e como piora quando as coisas vão mal. Além disso, o diretor investe em uma montagem paralela que mostra Neil no espaço e sua esposa, Janet (Claire Foy, de “The Crown”), na Terra, dando igual importância a estes dois eventos. A relação trabalho-família também é um fator determinante para levá-lo a aceitar a missão. Quando questionado sobre os motivos de querer ir até à Lua, Neil fala da possibilidade de poder enxergar as coisas sob outra perspectiva. Sua perspectiva, porém, tem mais a ver com a sua trajetória pessoal para lidar com o luto do que com as mudanças que tal viagem causaria no mundo. Por mais que o personagem de Buzz Aldrin (Corey Stoll, de “Homem Formiga”) ofereça uma opinião dissonante – falando sobre a corrida espacial contra a União Soviética –, fica claro que o filme se posiciona de maneira contrária à opinião pragmática de Aldrin e favorável à motivação emocional de Armstrong. Marcado por um histórico de tragédias, o protagonista parece se afastar de todos como forma de se proteger. Afinal, é na solidão que encontra a segurança para lidar com os seus problemas. Numa determinada cena, Neil vê um balanço na árvore e menciona para o colega Ed White (Jason Clarke, de “Planeta dos Macacos: O Confronto”) que a sua filha tinha um igual. Porém, antes de levar a conversa adiante e expor demais a sua intimidade ao amigo, ele se afasta, retornando à sua escuridão solitária. E Gosling, que não é um ator expressivo, representa bem essa personalidade introvertida justamente pela frieza da sua atuação. Damien Chazelle também opta por uma abordagem intimista. Apostando em planos fechados, o realizador transforma a sua câmera num personagem que acompanha os astronautas, vendo as coisas sob o mesmo ponto de vista deles – os voos são filmados todo no interior dos foguetes, e não por fora, como costumam ser filmes sobre o espaço. Mais do que isso, porém, a câmera parece sentir o que eles sentem, partilhando a tensão deles durante os voos – em muitos casos, a câmera treme tanto que não dá pra identificar o que está sendo mostrado, numa representação subjetiva da visão daquelas pessoas. E é bastante significativo que, quando finalmente chegam à Lua, a câmera seja a primeira a sair. Contando uma história que já é, ao menos em partes, conhecida pelo público, o longa é mais focado nos desafios da viagem, e não no seu destino. E foram muitos desafios. O design de som destaca o ranger dos metais das aeronaves antes da decolagem, apontando para o perigo iminente que aquela tecnologia representa. Trata-se de um perigo real, que custou a vida de alguns astronautas ao longo dessa jornada. Tal insegurança é reproduzida pelo próprio Armstrong quando conversa com a família pouco tempo antes de embarcar e fala da possibilidade de não voltar. Porém, apesar de temer a viagem, ele a aceita, uma vez que, de certa maneira, ele precisa dela. “Este é um pequeno passo para o homem, mas um gigantesco salto para a humanidade” disse Neil Armstrong ao pisar na superfície lunar pela primeira vez. O filme de Damien Chazelle, porém, faz o caminho inverso, diminuindo o salto representado pela humanidade naquele momento e aumentando a importância do passo para aquele primeiro homem.

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