Crítica: Rasga Coração atualiza conflitos de gerações para a era da intolerância


Oduvaldo Vianna Filho, o Vianninha (1936-1974), escreveu em 1970 a peça “Rasga Coração”, que dá origem ao novo filme de Jorge Furtado – com roteiro dele, de Ana Luiza Azevedo e de Vicente Moreno.

O centro de toda a narrativa é a relação pai e filho, permeada pela política, por valores de vida, por estratégias de ação, com o pressuposto de que os jovens querem mudar o mundo e construir algo em que acreditem genuinamente.

A motivação psicológica é clara: os jovens precisam se diferenciar dos pais, ter identidade própria, conquistar autonomia. Para isso, o rapaz terá que “matar o pai”, no sentido simbólico. Negar o pai, rejeitá-lo, tirá-lo da sua vida, momentaneamente. Ou, pelo menos, distanciar-se dele, isolar-se. E buscar os seus caminhos individuais.

Com esse substrato, “Rasga Coração”, a peça, refletindo o momento de ebulição de 1968, em contraponto à opressão da ditadura militar, coloca a alternativa hippie de vida e de política frente à ação típica dos movimentos de esquerda tradicionais, reformista e revolucionário. A revolução agora é outra: passa pela negação da guerra, pela liberdade, mas também pela comida, pela vestimenta, pela busca de novos padrões de comportamento e de vida.

Esse choque geracional, no entanto, não é novo. Repete o que foi vivido pelo pai quando filho, na juventude. Ele fará tudo para, como pai, não repetir o que viveu como filho. Mas conseguirá? É um enfrentamento necessário, difícil e permanente, no sentido de se repetir ao longo da história e nos mais diversos espaços geográficos.

O filme de Jorge Furtado atualiza essa narrativa, trazendo a questão de gênero para os comportamentos. A mãe, Nena (Drica Moraes), reage ao que imagina ser um encontro homossexual porque confunde a namorada do garoto com outro garoto, pela vestimenta “masculina” da menina. Luca, o filho (Chay Suede), acaba pintando as unhas de vermelho e usando uma ampla saia, os novos modos de encarar o sexo estão mais descomplicados. Participa da invasão da sua escola, em lugar das reuniões e ações políticas que visam a toda a sociedade, por exemplo. A tecnologia também se atualiza. As formas de comunicação mais instantâneas geram outro tipo de respostas. Os projetos de longo prazo, como o consultório médico do futuro, já não servem. Novos modelos de atuação médica são valorizados. Mas a rejeição do caminho planejado e acomodado já é um legado daquela era hippie.


Vista hoje, a trama de “Rasga Coração” mantém sua atualidade. Até porque esses confrontos pai-filho, permeados pela dinâmica social e política do país, apresentam atitudes que se repetem e se renovam. Quando os jovens de agora lutam pela preservação do planeta e priorizam questões globais a questões nacionais ou latino-americanas, dá para entender. O que Vianninha talvez não projetasse é que a oposição à esquerda racional e careta poderia se tornar uma juventude de extrema direita, violenta, com traços racistas, misóginos, homofóbicos, intolerantes. Isso não soa como evolução, assusta.

Jorge Furtado, ao falar sobre o filme e perguntado sobre qual seria a revolução do momento, optou pela efetivação do diálogo com quem pensa diferente, combatendo o ódio e em busca do mínimo denominador comum que nos une como brasileiros. Muito lúcido.

O talento de Jorge Furtado como cineasta não deixa margem a dúvidas. Bastaria lembrar de “Ilha das Flores”, de 1989, o curta mais festejado e premiado da história do cinema brasileiro. E ele faz muita coisa há décadas, na Casa de Cinema de Porto Alegre e na TV.

O elenco de “Rasga Coração” é também recheado de talentos. Marco Ricca, o Manguari pai, é sempre um grande ator em cena. João Pedro Zappa está bem no papel de Manguari filho, embora sua caracterização física seja um tanto caricata, não convencendo em relação à figura mostrada do adulto em que se tornou. Drica Moraes, excelente como a mãe Nena, Chay Suede, muito bem como Luca, o filho. Luísa Arraes mostra força e segurança como Mil. Lorde Bundinha é uma oportunidade para o ator George Sauma extravasar seus dotes histriônicos. Enfim, o elenco todo é bem homogêneo, e brilha. O filme envolve, comunica e faz pensar.



Antonio Carlos Egypto é psicólogo educacional e clínico, sociólogo e crítico de cinema. Membro fundador do GTPOS - Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual. Autor de "Sexualidade e Transgressão no Cinema de Pedro Almodóvar","No Meu Corpo Mando Eu","Sexo, Prazeres e Riscos", "Drogas e Prevenção: a Cena e a Reflexão" e "Orientação Sexual na Escola: um Projeto Apaixonante", entre outros. Cinéfilo desde a adolescência, que já vai longe, curte tanto os clássicos quanto o cinema contemporâneo de todo o mundo. Participa da Confraria Lumière, é associado da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e edita o blog Cinema com Recheio



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