Filme brasileiro O Roubo da Taça é premiado no Festival SXSW
Um dos principais festivais de cinema independente dos EUA, o South by Southwest, mais conhecido pela sigla SXSW, premiou o suspense brasileiro “O Roubo da Taça”, de Caito Ortiz (“Estação Liberdade”) como Melhor Filme da seção Visions, dedicada a cineastas considerados audaciosos pelo risco envolvido nos projetos. A seção não tem júri e a premiação é definida pelo público, que geralmente costuma premiar filmes falados em inglês. Exibido como “Dolores and Jules” no festival, o filme dramatiza o roubo histórico da Taça Jules Rimet, entregue à seleção de futebol brasileira, tricampeão do mundo na Copa de 1970, mostrando como um corretor de seguros endividado conseguiu, com a ajuda de amigos, roubar a estatueta de ouro dos cofres da CBF. Estrelado por Taís Araújo (série “Mister Brau”) e Milhem Cortaz (“O Lobo Atrás da Porta”), e roteirizado por Lusa Silvestre (“Mundo Cão”), “O Roubo da Taça” tem estreia prevista nos cinemas brasileiros para o mês de agosto. Na mostra competitiva principal, o grande vencedor foi “The Arbalest”, escrito e dirigido por Adam Pinney (roteirista de “A Is for Alex”), em que o inventor do brinquedo mais popular do mundo lida com sua obsessão pela mulher que o odeia. Confira abaixo a lista completa dos premiados. Vencedores do Festival SXSW 2016 Prêmios do Júri Melhor Filme The Arbalest, de Adam Pinney Melhor Ator Andre Royo, de Hunter Gatherer Melhor Atriz Lily Rabe, de Miss Stevens Melhor Documentário Tower, de Keith Maitland Prêmios do Público Melhor Filme Transpecos, de Greg Kwedar Melhor Documentário Tower, de Keith Maitland Seção Headliners Demolition, e Jean-Marc Vallée Seção Narrative Spotlight From Nowhere, de Matthew Newton Seção Documentary Spotlight Mr. Gaga, de Tomer Heymann Seção Visions O Roubo da Taça (Jules and Dolores), de Caito Ortiz Seção Midnighters I Am a Hero, de Shinsuke Sato Seção Episodic (Séries) Vice Principals, de Jody Hill, David Gordon Green, Danny McBride Seção 24 Beats Per Second Honky Tonk Heaven: Legend of the Broken, de Brenda Greene Mitchell, Sam Wainwright Douglas Seção SXGlobal Ghostland, de Simon Stadler Seção Festival Favorites Gleason, de Clay Tweel
Os Dez Mandamentos ganhará nova versão nos cinemas, com cenas inéditas para a Páscoa
O filme “Os Dez Mandamentos” vai ganhar uma nova versão especialmente para a exibição durante o fim de semana da Páscoa, que terá duração maior e a inclusão de cenas inéditas da 2ª temporada da novela. A informação foi divulgada durante o programa jornalístico “Domingo Espetacular”, na rede Record, responsável pela produção. A nova versão entra em cartaz na quinta-feira (24/3), véspera da Sexta-Feira Santa. Atualmente, “Os Dez Mandamentos – O Filme” soma 8,3 milhões de ingressos vendidos, consagrando-se como a terceira maior bilheteria do cinema brasileiro em todos os tempos – atrás apenas de “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (10,7 milhões) e “Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro” (11,1 milhões). Dirigido por Alexandre Avancini, o filme condensa a história da novela de 2015, acompanhando Moisés (Guilherme Winter), o órfão judeu que cresce como príncipe do Egito, mas volta-se contra sua família adotiva em favor do sofrido povo de Israel, que ele conduz à libertação, com a ajuda de Deus.
Filho de Oscarito procura quem cuide e exiba o acervo de seu pai
Com o apartamento lotado de objetos referentes à carreira do grande comediante Oscarito, seu filho, o músico José Carlos Teresa Dias, está em busca de interessado em cuidar e exibir o vasto acervo herdado de seu pai, informou o jornal O Globo. Desde a morte da atriz Margot Louro, viúva do artista, em 2011, José Carlos e a esposa vivem apertados entre projetores raros, filmadoras a manivela, troféus, instrumentos musicais diversos, rolos de filmes obscuros, cartazes e fotos que pertenceram ao grande ídolo das chanchadas brasileiras – e que completaria 110 anos em agosto de 2016. “Deve haver alguma instituição que possa cuidar desse material para que não fique aqui escondido, que possa torná-lo mais útil. É a memória do teatro, do cinema brasileiro. Veja este violão: antes de ser o ator das chanchadas, como muita gente o conhece, meu pai era um músico espetacular. Ele tocava violão e violino em orquestras no fosso dos cinemas durante a exibição de filmes mudos. O tempo todo em casa estava tocando. É um lado pouco conhecido dele”, disse José Carlos a O Globo. A parte cinematográfica, no entanto, é mais rara: Oscarito tinha projetores que usava para exibir filmes no bairro em que morava, o Méier, para a crianças da vizinhança (“Ele pendurava um lençol no meio da rua, cresci vendo aquilo”, lembra José Carlos), moviolas, filmadoras a manivela, que mandava vir do exterior, e editoras de película 16 milímetros — uma espécie de “cortador” de células fílmicas — que ele mesmo manuseava em filmetes caseiros. Há ainda alguns objetos curiosos, provavelmente sobras de cenários de alguma de suas dezenas de peças e filmes — como um capacete da 1ª Guerra Mundial e um sino de ferro fundido, além de partituras de composições do próprio Oscarito, alguns roteiros em que ele aparece como produtor e não apenas como ator, mostrando seu lado empresarial, alguns manuscritos de peças escritas por ele e muitos gibis, que tiveram edições limitadas e cujos personagens são Oscarito e o seu grande parceiro, Grande Otelo Em dezembro de 2015, a família de Oscarito decidiu procurar o Museu da Imagem e do Som (MIS) para oferecer a guarda de todo o material. A diretora técnica do acervo da instituição, Thereza Kahl, esteve na casa de José Carlos, porém só selecionou itens iconográficos, como fotos de família, imagens de sets de filmagens, cartazes de filmes e 350 documentos civis, como contratos, registros de obras (inclusive o do nome artístico “Oscarito”), roteiros e argumentos de peças, bem como manuscritos em geral. Os objetos, no entanto, ficaram. Ao saber que a família procura quem cuide do acervo, o escritor e crítico teatral Flavio Marinho, autor da biografia “Oscarito, o Riso e o Siso”, fez um apelo: “É fundamental preservar a memória de um dos gênios que o Brasil já teve. Ele surgiu no circo, foi para o teatro de revista, e de lá para o cinema, criando o estilo que convencionou-se chamar de chanchada. Ele pulava, cantava, dirigia, fazia paródias quando ninguém ainda fazia, era o demônio. E, por trás do palhaço, havia o compositor melancólico: ele compunha boleros, sambas-canções. Quem se lembra disto? Seria uma pena se esse material se perdesse. Aliás, por que não temos um busto de Oscarito na Cinelândia? Uma praça chamada Oscarito?”
Mundo Cão faz suspense com Lázaro Ramos assustador
Uma pena que certos lançamentos brasileiros, por não terem um apelo tão popular quanto as “globochanchadas”, estejam sendo tratados como vira-latas: é uma semana em cartaz e rua! Tende a ser o caso de “Mundo Cão”, o retorno à boa forma de Marcos Jorge, até hoje mais lembrado pelo ótimo “Estômago” (2007). No novo filme, Jorge retoma a parceria com Lusa Silvestre, roteirista de seu longa de estreia, numa trama bem construída. Claro que, quem esperar algo tão bom quanto “Estômago” pode se desapontar, mas a força de “Mundo Cão”, sua eficiência como suspense e o desempenho espetacular do elenco são inegáveis. O filme começa apresentando Nenê, personagem de Lázaro Ramos (“O Vendedor de Passados”), um sociopata que agencia máquinas eletrônicas de bingo de bar e que usa seus cachorros adestrados para impor medo. E é por causa do que acontece com um de seus cães que Nenê entra na vida de Santana, vivido por Babu Santana (“Tim Maia”), empregado de uma empresa prestadora de serviços ao Centro de Controle de Zoonoses de São Paulo. Nenê quer vingança após um de seus cães, capturado pela carrocinha, ser sacrificado. A história também apresenta a família de Santana, que é um homem simples casado com Dilza (Adriana Esteves, de “Real Beleza”), evangélica que confecciona calcinhas para ajudar nas despesas da casa e que cuida de dois filhos, uma moça surda-muda e um garotinho que quer torcer pelo Palmeiras, para tristeza do pai corinthiano. Toda essa família acabará prejudicada pelo encontro fatídico entre Nenê e Santana. Saber isso da trama já é mais do que suficiente. Como há reviravoltas, qualquer outra revelação pode estragar as surpresas do filme – independente de serem ou não previsíveis. A construção do personagem de Lázaro Ramos é um dos pontos altos da produção. Em alguns momentos, ele beira o grotesco, mas de vez em quando se manifesta com alguns tons de cinza, principalmente nos momentos em que contracena com o filho de Santana, o que permite que deixe de ser meramente um antagonista. É um papel sob medida para Ramos se provar um dos grandes atores do cinema brasileiro contemporâneo. A moça que faz a filha (Thainá Duarte, da novela “I Love Paraisópolis”) também vai ganhando força ao longo da narrativa, configurando-se numa bela revelação. Já a personagem evangélica de Adriana Esteves, por outro lado, é bem caricata. Mas apesar dos desempenhos, fica a impressão de que o filme poderia resultar bem melhor, especialmente após mostrar situações capazes de deixar o espectador paralisado. Em parte por conta de uma indecisão estilística, entre seguir o suspense até o limite ou buscar alívio pela comédia. De todo modo, trata-se de um trabalho eficiente, preocupado em amarrar os menores detalhes que servirão para a conclusão de sua trama.
José Carlos Avellar (1936 – 2016)
Morreu o crítico e curador José Carlos Avellar, que comandou a RioFilme e era responsável pela programação dos cinemas do Instituto Moreira Salles. Ele faleceu na manhã desta sexta-feira (18/3), no Rio de Janeiro, aos 79 anos, por complicações decorrentes da quimioterapia. Avellar estava internado no Hospital São Lucas, em Copacabana, onde tratava um linfoma. Nascido no Rio de Janeiro em 1936, Avellar foi um importante pensador do cinema brasileiro. Formado em jornalismo, trabalhou durante duas décadas no Jornal do Brasil, onde se estabeleceu como um dos críticos de cinema mais importantes do país. Ele também fez filmes. Nos anos 1960 e 1970 dirigiu três curtas, além de ter exercido a função de diretor de fotografia, produtor e editor em outros filmes, como os documentários “Ião” (1976), de Geraldo Sarno, e “Triste Trópico” (1974), de Arthur Omar. Seu principal legado aconteceu entre 1995 e 2000, quando foi diretor da RioFilme, responsável pelo lançamento de dezenas de longas no período, que ficou conhecido como Retomada do cinema brasileiro. Também participou de júris oficiais e de crítica de festivais internacionais como Veneza e Cannes, e foi, por muitos anos, o representante brasileiro da crítica no Festival de Berlim. Avellar lançou seis livros de ensaios sobre cinema, entre eles “O Chão da Palavra: Cinema e Literatura no Brasil” (2007), no qual analisa clássicos nacionais adaptados de livros, e “O Cinema Dilacerado” (1986). Em dezembro de 2006, foi condecorado pelo governo francês com a láurea de Chevalier des Arts et Lettres. Desde 2008, Avellar era responsável pela programação dos cinemas do Instituto Moreira Salles, que se despediu do curador com uma nota que reverencia sua capacidade. “Avellar era capaz de rememorar cenas específicas, descrevendo em detalhes um singelo plano, de um filme assistido décadas atrás. Seus artigos e ensaios exibiam um vasto conhecimento da produção mundial e da história do cinema”, diz o comunicado.
Zootopia é a maior e melhor estreia em semana repleta de bons lançamentos no cinema
Numa semana repleta de bons lançamentos, o mais amplo é “Zootopia – Essa Cidade É o Bicho”, nova animação da Disney, que chega em 950 salas (600 em 3D e 12 em Imax). O estúdio de Walt Disney, que tem como símbolo um animal falante que se veste como gente, trouxe a premissa antropomórfica à sua maturidade com “Zootopia”, uma obra repleta de intertexto, capaz de lidar com preconceitos e estereótipos, e trazer uma mensagem relevante de inclusão, enquanto diverte como poucas. Não só a coelha Judy Hopps e o raposo Nick Wilde são ótimos personagens, mas o ambiente elaborado em que vivem, repletos de coadjuvantes hilários, vira do avesso a história dos desenhos antropomórficos, gênero que, no passado, serviu para perpetuar inúmeros preconceitos raciais. Ágil, esperta, vibrante e bastante engraçada, a produção é simplesmente a melhor animação de bicho falante da Disney desde que os curtas do Mickey Mouse se tornaram falados. Não há como elogiá-la mais que isso. O épico “Ressurreição” tem a segunda maior distribuição da semana, ocupando 470 salas no vácuo do sucesso de “Os 10 Mandamentos”. Entretanto, apesar de sua narrativa estar fortemente ligada à origem do cristianismo, a produção é menos estridente em sua pregação religiosa. Na verdade, opta pela abordagem oblíqua, como “O Manto Sagrado” (1953), “Ben-Hur” (1959) e “Barrabás” (1961), clássicos do gênero sandália e espada que incluem histórias de Jesus. Na trama, Joseph Fiennes (que já foi “Lutero”) vive um centurião romano cético, que tem a missão de averiguar a ressurreição de Jesus e desmentir o boato do milagre. O resultado é uma aventura bem melhor que o esperado, com direito a um Jesus finalmente retratado como (Yeshua) um homem de pele mais escura e sem olhos azuis (o maori Cliff Curtis, da série “Fear the Walking Dead”). Em 86 salas, o suspense brasileiro “Mundo Cão” marca o reencontro do diretor Marcos Jorge com o roteirista Lusa Silvestre, que fizeram juntos o ótimo “Estômago” (2007). Mas os clichês de gênero e a dificuldade com que o clima tenso se encaixa no início mais leve e cômico deixam o filme nas mãos do elenco, que impressiona por sua capacidade de fazer o espectador embarcar na sua história de vingança setentista, sobre um homem violento, em busca de justiça pela morte de seu cachorro nas mãos de um funcionário do Departamento de Controle de Zoonoses (a popular carrocinha). Lázaro Ramos (“O Vendedor de Passados”) e Babu Santana (“Tim Maia”) estão ótimos como protagonistas, Adriana Esteves (“Real Beleza”) perfeita como a esposa evangélica, mas a surpresa fica por conta da jovem Thainá Duarte, em sua estreia no cinema, poucos meses após debutar como atriz na novela “I Love Paraisópolis” (2015). O circuito limitado destaca mais dois filmes brasileiros, ambos documentários. “Eu Sou Carlos Imperial” resgata uma figura histórica, fomentador da Jovem Guarda e cafajeste assumido, que escreveu hits, estrelou pornochanchadas e foi jurado de calouros do Programa Sílvio Santos. Repleto de imagens de arquivo e entrevistas exclusivas com Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Eduardo Araújo, Tony Tornado, Dudu França, Mário Gomes e Paulo Silvino, o filme tem direção da dupla Renato Terra e Ricardo Calil, que já havia realizado um ótimo resgate da história musical brasileira em “Uma Noite em 67” (2010). Chega em apenas três salas do Espaço Itaú, no Rio e em São Paulo. Por sua vez, “Abaixando a Máquina 2 – No Limite da Linha” é desdobramento de um documentário anterior sobre a ética do fotojornalismo, do “uruguaio carioca” Guillermo Planel. Com imagens muito potentes (de fato, sensacionais) e tom crítico, o filme mergulha nos protestos que se seguiram à grande manifestação de junho de 2013, questionando a cobertura da mídia tradicional, ao mesmo tempo em que abre espaço para a autoproclamada “mídia ninja”, buscando refletir o jornalismo na era das mídias sociais – que, entretanto, é tão ou até mais tendencioso. Desde que o filme foi editado, por sinal, aconteceram as maiores manifestações de rua do Brasil, que, além de historicamente mais importantes, politizaram o país com um debate que escapou da reflexão filmada – e que a tal “mídia ninja” faz de tudo para menosprezar. Será exibido em apenas uma sala, no Cine Odeon no Rio. Entre os filmes de arte que pingam nos cinemas, o que chega mais longe é “Cemitério do Esplendor”, nova obra climática do tailandês Apichatpong Weerasethakul, que venceu a Palma de Ouro em 2010 com “Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas”. Ocupa oito salas – quatro no Rio e as demais em Niterói, Maceió, Porto Alegre e São Paulo. A trama se desenvolve em torno de um hospital na Tailândia que recebe 27 soldados vítimas de uma estranha doença do sono. O drama francês “A Linguagem do Coração”, de Jean-Pierre Améris (“O Homem que Ri”) faz o público chorar em apenas seis salas (quatro em São Paulo, mais Porto Alegre e Campinas). Passada em 1885, mostra a dedicação de uma freira para ajudar uma menina nascida surda e cega a ter convívio social. A história é baseada em fatos reais. Por fim, a comédia dramática argentina “Papéis ao Vento” ocupa uma única sala, o Cine Belas Artes em Belo Horizonte. Trata-se da mais recente adaptação do escritor Eduardo Sacheri (“O Segredo dos Seus Olhos”), que a direção de Juan Taratuto (“Um Namorado para Minha Esposa”) transforma em filme sensível e envolvente, comprovando a qualidade atual do cinema argentino. A história gira em torno de três amigos que decidem recuperar o investimento do quarto integrante da turma, recém-falecido, que apostou tudo o que tinha num jogador de futebol decadente. Divertido e humanista, pena o lançamento ser invisível pra a maioria dos brasileiros, pois é questão vital aprender como o cinema de nuestros hermanos consegue ser popular e artístico simultaneamente. Estreias de cinema nos shoppings Estreias em circuito limitado
Vencedor do Festival de Berlim vai abrir É Tudo Verdade em São Paulo
Primeiro documentário a vencer o Festival de Berlim, “Fogo no Mar” (“Fuocoammare”, no original), de Gianfranco Rosi, vai abrir o Festival É Tudo Verdade, em São Paulo, dia 7 de abril. O longa de Rosi aborda o impacto da onda de refugiados sobre o cotidiano da pequena ilha mediterrânea de Lampedusa, visto pelos olhos do pré-adolescente Samuele. O cineasta italiano já havia vencido o Festival em Veneza, em 2013, com outro documentário, “Sacro GRA”. A edição carioca do É Tudo Verdade começa um dia depois, em 8 abril, com a exibição de outro filme: a estreia mundial de “As Incríveis Artimanhas da Nuvem Cigana”, de Paola Ribeiro e Cláudio Lobato. O longa resgata o movimento de “poesia marginal” do coletivo de poetas Nuvem Cigada, da Zona Sul do Rio nos anos 1970, em plena ditadura militar. Por meio de livros mimeografados e encontros híbridos, entre “happenings” e saraus, batizados de “Artimanhas”, uma nova geração lançou-se na literatura nacional: Bernardo Vilhena, Chacal, Charles, Ronaldo Santos, além do próprio diretor Cláudio Lobato, entre outros. “O festival deste ano não poderia ter aberturas mais cativantes, ainda que em estilos e por razões muitos distintos”, observou o fundador e diretor do É Tudo Verdade, Amir Labaki, em comunicado. “”Fogo no Mar’ trata com incrível delicadeza e notável talento narrativo a crise humanitária dos refugiados na Europa. É uma enorme honra apresentá-lo em pré-estreia na abertura paulista e agradecemos profundamente a Gianfranco Rosi e a JeanThomas Bernardini da Imovision por este privilégio”. Já ‘As As Incríveis Artimanhas da Nuvem Cigana` é uma festa”, prossegue Labaki. “Paola Vieira e Claudio Lobato fizeram um filme colagem, divertido e amoroso, em extraordinária harmonia com o espírito daquele coletivo que marcou época na poesia marginal dos anos 1970. O festival é imensamente grato a eles por confiá-lo a nosso público da abertura carioca”. Após as sessões de abertura para convidados, os dois filmes serão exibidos em projeções abertas ao público dentro da programação do festival, que vai até o dia 17 de abril em São Paulo e Rio. Criado em 1996 pelo crítico Amir Labaki, o festival chega a sua 21ª edição já devidamente consagrado como o principal evento dedicado a documentários do Brasil – e há quem diga até de toda a América Latina.
José Mojica Marins planeja filmar terrores de verdade que viu durante sua vida
Prestes a completar 80 anos de idade no domingo (13/3), José Mojica Marins, mais conhecido por seu personagem Zé do Caixão, confirmou que planeja rodar mais um filme, dedicado às coisas terríveis que viu ao longo da vida. “E será o meu filme mais assustador”, ele afirmou, em entrevista ao UOL. Sua vida já foi recentemente transformada em minissérie, numa produção do canal pago Space, que, por sinal, reprisa os seis episódios no domingo. Mas o novo projeto não será focado nos bastidores de suas realizações cinematográficas, como a série. Mojica planeja contar experiências que viveu e terrores que testemunhou, e que o assombram até hoje. “Vivi coisas que ninguém pode sequer imaginar. Por exemplo, o período do esquadrão da morte, na década de 1960. Pegavam pencas de gente inocente e jogavam no mar para os tubarões. Foi uma época de muita violência e mentira”, ele contou, dando um teaser do novo projeto. Mais: “Vi uma vez uma amiga sendo torturada e não pude fazer nada. Na Boca do Lixo [região central em São Paulo], tinha mãe vendendo a filha para produtores para que elas, as mães, aparecessem no filme. São histórias reais que vi com meus próprios olhos, um terror que jamais seria possível imaginar, é isso que quero filmar, e será meu filme mais assustador”. Se a saúde permitir – depois de duas paradas cardíacas e cinco meses na UTI em 2014, ele tem de encarar atualmente três hemodiálises semanais – seu plano é filmar esse longa em 2017. Por enquanto, os fãs podem se contentar em rever seus clássicos, que, também a partir de domingo, ganham retrospectiva semanal no Canal Brasil, com a exibição de seis longa-metragens, entre eles “À Meia-Noite Levarei Sua Alma” (1964) e o “O Despertar da Besta” (1990). Além disso, a Cinemateca Brasileira, em São Paulo, também vai celebrar a vida e a obra de Zé do Caixão com uma mostra especial de 20 filmes em sessões gratuitas, durante quatro semanas, até dia 3 de abril.
Apaixonados – O Filme é mais um exemplar de humor televisivo nos cinemas brasileiros
É tanto lançamento de filme brasileiro com o subtítulo “O Filme” que já parece piada pronta. “Apaixonados – O Filme”, de Paulo Fontenelle (“Se Puder… Dirija!”), por exemplo, parece usar o termo para justificar sua ida ao cinema. Deve se ver cinematográfico por imitar a estrutura da comédia romântica hollywoodiana com tramas paralelas, mas acaba televisivo ao imprimir ao formato um “humor brasileiro”, saído de programas tipo “Zorra Total” – caso, principalmente, do gringo assediado por duas mulheres. A trama paralela que poderia render um filme centra-se numa porta-bandeira de escola de samba, vivida por Nanda Costa. Trata-se de uma atriz que costuma surpreender quando bem aproveitada, como demonstrou em “Febre do Rato”, de Cláudio Assis. E seu romance com um médico consegue despertar algum interesse, pelos desencontros que acontecem e pela ambientação carnavalesca. Assim como a história do rapaz rico e da moça pobre, que também produz algum interesse. Mas ambas acabam reduzidas a um fiapo narrativo, sem nenhum desenvolvimento, sobrepostas por histórias que não despertam a mesma simpatia. O filme é claramente uma perda de tempo. De fato, a produção poderia muito bem ser realizada como um especial da Rede Globo e não ocupar espaço precioso no circuito cinematográfico. Mas “Apaixonados – O Especial Televisivo” não soa tão bem como título.
Meu Amigo Hindu traz doença ao cinema de Hector Babenco
Ver “Meu Amigo Hindu” leva a questionar o que aconteceu com Hector Babenco, aquele cineasta fantástico que fez tantas obras inspiradas e de conteúdo relevante e rico. Afinal, sua obra dita mais pessoal, em que lida com sua experiência de quase morte, na luta contra a leucemia, é um filme cheio de falhas, ainda que denote resquícios do talento de seu diretor. O atrativo de “Meu Amigo Hindu” reside na curiosidade mórbida. Não porque se trata de um filme sobre doença – nem chega a ser um bom filme sobre doença, na verdade -, mas porque possui tantas sequências constrangedoras que vira uma espécie de registro do declínio do cineasta. Por mais que as filmagens tenham sido conturbadas e o projeto tivesse que ser encenado em inglês, devido à escalação de Willem Dafoe (“Anticristo”) como protagonista, o filme atesta o quanto trabalhar numa língua estranha contribui para gerar incômodo numa produção. No começo, é até interessante ver aquele monte de rostos conhecidos da televisão brasileira (Maria Fernanda Cândido, Reynaldo Gianecchini, Bárbara Paz, Dan Stulbach, etc) falando em inglês, mas, logo após a estranheza inicial, verifica-se que isso trava as interpretações e contribui para os problemas de ritmo do longa. Como se Babenco, que não filma desde “O Passado” (2007), tivesse perdido o gosto pela condução narrativa caprichada. Mas isto logo se revela o menor dos problemas, que são amplificados pelas “citações” do roteiro, escrito pelo próprio Babenco. Entre os equívocos, há uma cena da personagem de Bárbara Paz, ex-mulher do cineasta, que remete a “Cantando na Chuva” (1952), com um detalhe: ela dança nua. Em outra, Selton Mello, encarnando a Morte, emula “O Sétimo Selo” (1957), mas em vez de um debate metafísico trata de elogiar o diretor. Para completar, o título mal se justifica dentro do conteúdo geral da obra, já que o personagem aludido, além de pouco aparecer na história, não faz nenhuma contribuição afetiva, nem quando o cineasta procura resgatá-lo para concluir sua história semiautobiográfica. Por outro lado, Maria Fernanda Cândido consegue passar dignidade a sua personagem, o que chega a ser admirável diante de tantos momentos embaraçosos. Suas cenas íntimas com Dafoe são os pontos altos do filme. Claro que, aqui e ali, surgem belas sequências e Dafoe, particularmente, também está bem no papel, mas isso é pouco para o diretor de “Pixote – A Lei do Mais Fraco” (1981), “Brincando nos Campos do Senhor” (1991) e “Coração Iluminado” (1998). Aliás, este último já lidava com a sombra da morte, depois de o cineasta enfrentar sua luta contra o câncer linfático. Ao final, ficam mesmo as curiosidades sobre o que é biográfico e o que é fictício. Mas talvez isso não seja importante, já que o próprio cineasta tratou de afirmar que muito do filme é invenção. Talvez para resguardar a própria privacidade.
Trailer e cenas de Nise: O Coração da Loucura trazem Glória Pires revolucionando a psiquiatria
A TVZero divulgou o trailer e duas cenas impactantes de “Nise: O Coração da Loucura”, cinebiografia da psiquiatra Nise da Silveira, estrelada por Glória Pires (“Linda de Morrer”). As prévias mostram a atitude desafiadora e o pioneirismo da médica, que confrontou os padrões desumanos vigentes nos anos 1940 para revolucionar o tratamento psiquiátrico no Brasil. Com ela, saíram o eletrochoque e a violência dos enfermeiros e entraram a pintura e os passeios lúdicos – a chamada “terapia ocupacional”, referenciada até hoje. Tudo isso é bem retratado nos vídeos, que, por outro lado não evitam um tom de docudrama televisivo. Filmado durante dois meses no Instituto Nise da Silveira, no Engenho de Dentro, local onde ficava o Hospital Psiquiátrico Pedro II, “Nise: O Coração da Loucura” tem direção de Roberto Berliner (“Júlio Sumiu”), até então mais bem-sucedido como documentarista do que como diretor de ficção. O filme foi exibido no Festival do Rio, onde venceu o Prêmio do Público, e ainda conquistou destaque no Festival de Tóquio, rendendo troféus para Glória Pires e Berliner no Japão. A estreia está marcada para 21 de abril.
Pesquisa revela que cinema brasileiro tem pouca diversidade racial
A falta de diversidade no cinema não é um problema exclusivo de Hollywood. A questão racial, colocada em evidência no último Oscar, foi escancarada numa nova pesquisa sobre o cinema brasileiro. E o resultado desse levantamento mostra que o panorama é muito mais grave no Brasil. Realizada pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Geema), da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), a pesquisa mostra que as maiores bilheterias da última década foram escritas, dirigidas e estreladas por homens brancos. Nenhuma mulher negra escreveu ou dirigiu qualquer longa no período. E os negros são minoria absoluta em todas as funções criativas do cinema brasileiro. Separados por gênero e raça, os dados revelam que os homens brancos dominaram 45% dos papéis mais relevantes dos filmes lançados entre 2002 e 2014 no país. Depois vêm mulheres brancas (35%), homens negros (15%) e, por último, as mulheres negras (apenas 5%). Em 2002, 2008 e 2013, simplesmente nenhum filme analisado pelos pesquisadores foi protagonizado por uma mulher negra. A discrepância é ainda mais gritante quando se avalia os diretores e roteiristas do cinema nacional: 84% dos cineastas são homens brancos, 14% mulheres brancas, 2% homens negros e nenhuma mulher negra dirigiu uma produção sequer de destaque nos 13 anos analisados pelo estudo – 2002 a 2014. Também não assinou roteiro algum. Já os homens brancos foram responsáveis por 69% dos textos. “O que saltou aos olhos é que não é só uma problema racial, mas mais ainda de gênero”, disse Márcia Rangel Cândido, coautora do estudo, em entrevista ao jornal O Globo. “Vimos nos debates que a pesquisa suscitou que o problema é sério e pouco discutido, praticamente um tabu”, completou. Para piorar, a participação de negros no cinema brasileiro pode ter sido superdimensionada pela própria pesquisa, que considerou pardos e mestiços entre os negros. Este critério permitiu, por exemplo, o diretor Fábio Barreto (“Lula, o filho do Brasil”), de pele visivelmente clara, ser considerado negro. Além disso, a lista ainda confunde nacionalidades, listando o uruguaio Enrique Fernández (“O Banheiro do Papa”). Assim, os cinco diretores negros listados, na verdade, resumem-se a três: Jeferson De (“Bróder”), Estevão Ciavatta (“Made in China”) e Joel Zito Araújo (“Filhas do Vento”). Entrevistado por O Globo, Joel Zito Araújo ainda alertou que, se é difícil conseguir financiamento como diretor negro, mais difícil ainda é ser um diretor negro interessado em filmar artistas negros. Por isso, ele não conseguiu rodar mais nenhuma ficção desde que “Filhas do Vento” (2004) venceu sete prêmios no Festival de Gramado, inclusive de Melhor Direção, Ator, Atriz e Coadjuvantes, todos negros. Mas Zito concorda que o panorama tem mudado para melhor nos últimos anos, por causa de ações afirmativas e de discursos de celebridades proeminentes, como Lázaro Ramos (“O Vendedor de Passados”) e Taís Araújo (“Filhas do Vento”), que além de estrelarem novelas e séries têm ocupado protagonismo também no cinema. É o caso ainda de Cintia Rosa, protagonista de “O Fim e os Meios” (2014). Para a atriz, que interpretou uma jornalista negra, o fato da cor da pele ter sido irrelevante para a trama mostrou um caminho diferente, que precisa ser mais trilhado pelo cinema brasileiro. “Fui uma das poucas atrizes negras que protagonizaram um filme, além de não ter feito um papel estereotipado, como empregada ou bandida. A pele sequer era mencionada no roteiro. Portanto, considero esse trabalho um marco na minha carreira profissional”, ela disse ao jornal carioca. “E que fique de alerta para que os diretores escalem mais mulheres negras”, conclamou.
Para Minha Amada Morta: Suspense brasileiro premiado ganha fotos e seu primeiro trailer
A Vitrine Filmes e a Grafo Audiovisual divulgaram as fotos, o pôster e o trailer do suspense nacional “Para Minha Amada Morta”, primeiro longa de ficção de Aly Muritiba (documentário “A Gente”). Com clima tenso e inquietante, a prévia gira em torno de um viúvo (Fernando Alves Pinto, de “A Floresta que se Move”), que cuida de seu filho pequeno e ainda sente saudades de sua esposa, vendo e revendo gravações em vídeo da amada morta. Até que encontra um VHS desconhecido, em que a mulher aparece transando com outro homem. A descoberta lhe desperta ódio, sentimento de traição e desejo de vingança, levando-o rapidamente a descobrir a identidade do estranho e a se infiltrar em sua família, planejando seduzir a esposa e a filha do rival. O elenco também inclui Giuly Biancato (“Gol a Gol”) como a filha mais velha e o estreante Lourinelson Vladmir como o amante, ambos premiados como coadjuvantes no Festival de Brasília do ano passado. “Para Minha Amada Morta” venceu ao todo seis prêmios oficiais do Festival de Brasília, incluindo Melhor Direção, além do troféu Silver Zenith (segundo melhor filme de estreante) no Festival de Montreal de 2015. A estreia está marcada para 31 de março.












