Roger Smith (1932 – 2017)
Morreu Roger Smith, ator que estrelou a primeira série de detetives particulares da TV americana, “77 Sunset Strip”, antes que uma doença neuromuscular encerrasse sua carreira de forma precoce. Ele faleceu no domingo (4/6), aos 84 anos. Roger LeVerne Smith nasceu em 18 de dezembro de 1932, em South Gate, Califórnia, e se destacou tanto nos esportes quantos nas artes durante a adolescência. Ele participou do time de futebol americano de seu colégio, ao mesmo tempo em que foi presidente do clube de atuação, o que lhe garantiu uma bolsa de estudos universitária. Após se formar na Universidade de Arizona, Smith serviu à Marinha e, enquanto estava no Havaí, teve um encontro casual com James Cagney. O lendário ator enxergou potencial no jovem e o incentivou a ir para Hollywood. E foi o que Smith fez. Ele iniciou sua carreira aos 24 anos, com a participação num episódio do teleteatro “The Ford Television Theatre”, em 1956. E tudo passou a acontecer de forma acelerada. No mesmo ano, envolveu-se romanticamente e se casou com a atriz australiana Victoria Shaw (“O Quimono Escarlate”), além de conseguir um papel recorrente na série clássica “Papai Sabe Tudo”. Em 1957, a Columbia Pictures contratou Smith, levando-o ao cinema com o drama juvenil “Vidas Truncadas”. E em curto período ele acumulou uma impressionante filmografia, com destaque para a comédia clássica “A Mulher do Século” (1958), na qual interpretou a versão adulta do órfão que vai viver com sua tia avançada (Rosalind Russell). Smith também teve a oportunidade de trabalhar com James Cagney duas vezes. Os dois viveram pai e filho na cinebiografia do ator Lon Chaney, “O Homem das Mil Caras” (1957), e contracenaram no musical “O Rei da Zona” (1959). Mas a popularidade só surgiu quando os produtores de “77 Sunset Strip” enxergaram no jovem o ingrediente que faltava para lançar a primeira série de detetives particulares da televisão americana. Criada por Roy Huggins, “77 Sunset Strip” começou como um episódio especial de 77 minutos da série “Conflict”. Smith não fez parte deste piloto, mas entrou na reformulação da produção, quando ela recebeu encomenda de temporada. Na série, Smith viveu Jeff Spencer, que fazia par com Stu Bailey (Efrem Zimbalist Jr.) numa agência de detetives localizada no endereço de Los Angeles que lhe dava título. Apesar da Sunset Strip não ter números de dois dígitos, o exterior da agência era real, localizado ao lado do restaurante Dino’s, do cantor Dean Martin. Por sinal, o manobrista do Dino’s também era personagem da série, Kookie (Edd Byrnes). Para completar o clima moderno e vibrante, a produção ainda contava com um tema de abertura jazzístico, de autoria de Mack David e Jerry Livingston (veja a abertura clássica abaixo). “77 Sunset Strip” virou fenômeno de audiência, durando seis temporadas de 1958 a 1964. O estilo descontraído e as falas cheias de tiradinhas dos personagens, que tinham uma clientela sofisticada, era algo que os telespectadores nunca tinham visto antes. E a produtora Warner aproveitou este sucesso para lançar a carreira musical de Smith, que gravou um álbum chamado “Beach Romance” em 1960. Smith também escreveu sete episódios da série, incluindo um de seus mais famosos, “The Silent Caper”, gravado inteiramente sem diálogos. Ele ainda assinou capítulos e fez participações especiais em duas séries desenvolvidas pela Warner no mesmo universo de “77 Sunset Strip”, intituladas “Hawaiian Eye” e “Surfside 6”. Mas não pôde aproveitar a boa fase por muito tempo. Em 1963, um exame descobriu um coágulo de sangue em seu cérebro, que foi corrigido com uma cirurgia, e dois anos depois Smith foi diagnosticado com miastenia gravis, o que lhe causava extrema fraqueza. Mesmo enfrentando a doença, Smith se divorciou da esposa e iniciou um namoro com a atriz Ann-Margret. Os dois se casaram em maio de 1967 em Las Vegas, cidade onde a sex symbol sueca viveu um de seus papéis mais marcantes, “Amor à Toda Velocidade” (Viva Las Vegas, 1964). O ator ainda conseguiu estrelar “Mister Roberts”, série naval baseada no filme homônimo de 1955, assumindo o papel-título, um oficial da Marinha que foi interpretado por Henry Fonda no cinema. A atração durou apenas uma temporada de 30 episódios, entre 1965 e 1966. Depois disso, ele só fez mais duas aparições no cinema em 1968. Seu último trabalho foi numa comédia italiana estrelada pela esposa Ann-Margret, “Criminal Affair”. Forçado a se aposentar de forma precoce, Smith passou a escrever roteiros. Ele assinou as histórias das comédias “Pela Primeira Vez… Sem Pijamas” (1969), estrelada por Jacqueline Bisset, e “C.C. & Cia” (1970), com Ann-Margret. Quando os filmes não fizeram sucesso, passou a produzir especiais televisivos da esposa, realizados ao longo da década de 1970. “Roger teve uma tremenda confiança em mim, muito mais do que eu”, disse sua esposa em uma entrevista de 1985. “Eu posso ser machucada muito facilmente, mas ele não pode. Ele gradualmente me tirou da minha concha”. Com o passar dos anos, Smith fez cada vez menos aparições públicas devido à sua falta de saúde. As poucas vezes em que voltou a aparecer foi para acompanhar a esposa no Globo de Ouro e no Emmy, sempre sendo recebido de forma carinhosa pelos colegas, como um pioneiro importante da história da TV.
Wendell Burton (1947 – 2017)
Morreu Wendell Burton, que estreou no cinema como par romântico de Liza Minnelli no clássico “Os Anos Verdes” (1969). Ele faleceu de câncer no cérebro na terça-feira (29/5), em sua casa em Houston, no Texas, aos 69 anos de idade. Burton tinha só 21 anos quando foi escalado em “Os Anos Verdes”, uma história de amor juvenil dirigida por Alan J. Pakula, que marcou o segundo papel cinematográfico de Liza Minnelli, então com 20 anos. Ela vivia uma universitária inquieta, ele era um universitário introvertido, e na trama os opostos acabavam se atraindo de forma romântica, mas também trágica. O filme acabou indicado para dois Oscars: Melhor Canção e Melhor Atriz para a jovem Liza. “Então”, diz a biografia do site oficial de Burton, “imaginando que estava evidentemente destinado a tornar-se rico e famoso, ele decidiu se mudar de vez para Hollywood, onde não conseguiu se tornar nem um nem outro, ao menos na medida em que imaginava. Embora, ao longo do caminho, tenha chegado a participar de vários filmes, telefilmes e episódios de séries”. Há quem diga que sua carreira tenha ficado marcada por seu segundo papel cinematográfico, como um presidiário que é estuprado e vira predador sexual no drama “Sob o Teto do Demônio” (1971), considerado muito forte para a época. Seus maiores destaques posteriores foram na TV, onde integrou o elenco do telefilme “Pergunte a Alice” (1974), adaptação de um best-seller juvenil que se tornou famoso como alerta para os perigos das drogas entre os adolescentes, e da minissérie de 1981 baseada no clássico literário “Vidas Amargas”, de John Steinbeck. Seu último filme foi “Encurralado em Las Vegas” (1986), com Burt Reynolds. Mas ele não abandonou a indústria do entretenimento, passando a vender anúncios para a TV a partir de 1988, até lançar um canal independente em Houston, em 1997. Também compôs e gravou músicas cristãs e relatou sua jornada de conversão espiritual num livro, publicado no ano passado. Ele deixa dois filhos: Haven Paschall, voz americana da personagem Serena na série animada “Pokémon”, e Adam Burton, que é músico.
Elena Verdugo (1925 – 2017)
Morreu a atriz Elena Verdugo, que teve uma prolífica carreira cinematográfica antes de se concentrar na TV e ser indicada ao Emmy por seu trabalho na série “Marcus Welby”. Ela faleceu na terça-feira (30/5) em Los Angeles, aos 92 anos. Elena Angela Verdugo debutou no cinema antes de debutar na vida real. Nascida e criada na Califórnia, numa família hispânica, ela conquistou seu primeiro papel aos 6 anos de idade, em 1931, e durante a adolescência encarou a rotina de aparecer em vários filmes por ano. Entre suas dezenas de produções da época, destacam-se muitos musicais, inclusive “Serenata Tropical” (1940) com Carmen Miranda, e clássicos de terror da Universal, que fez bom uso de seu sobrenome – Verdugo significa carrasco ou pessoa cruel – em “A Mansão de Frankenstein” (1944) e “The Frozen Ghost” (1945), ambos estrelados por Lon Chaney Jr. Mas ela também participou de aventuras populares, como “Jim das Selvas – A Tribo Perdida” (1949), “Cyrano de Bergerac” (1950) e “A Princesa de Damasco” (1952), antes de ir parar na TV, assumindo o papel principal da série “Meet Millie”, que durou quatro temporadas, entre 1952 e 1955. Verdugo integrou o elenco de várias outras séries de duração efêmera, até entrar em “Marcus Welby” em 1969. A produção era estrelada por Robert Young, ator conhecido do cinema noir, que já tinha em seu currículo uma atração televisiva de enorme sucesso, “Papai Sabe Tudo” (1954-1960). A trama acompanhava o cotidiano de seu personagem, o médico do título, um exemplo de doutor à moda antiga, atencioso e dedicado, que era capaz de tratar de tudo e com quem todo mundo queria se consultar. Verdugo interpretava sua enfermeira, Consuelo Lopez, e o elenco ainda incluía James Brolin como o médico assistente Dr. Steven Kiley. Sucesso retumbante, “Marcus Welby” se tornou a série médica mais popular de sua época, rendendo 170 episódios, exibidos ao longo de sete temporadas, entre 1969 e 1976. Além disso, venceu o Emmy de Melhor Série Dramática de 1970 e rendeu inúmeras indicações ao seu elenco. Verdugo foi lembrada por dois anos seguidos na categoria de Atriz Coadjuvante, em 1971 e 1972. Curiosamente, ela pensou em recusar o papel, quando os produtores lhe falaram que queriam uma empregada latina. “Eu disse: ‘Esquecam! Eu não vou interpretar uma empregada doméstica, que era o tipo de papel que os latinos recebiam na época”, ela contou em entrevista ao canal PBS. Sua personagem acabou sendo uma das primeiras latinas proeminentes da televisão norte-americana. Após o fim da série, a atriz ainda apareceu no telefilme “A Volta de Marcus Welby”, que reuniu o elenco original em 1984. Mas fez pouquíssima coisa mais. Ela se aposentou no ano seguinte.
Molly Peters (1942 – 2017)
Molly Peters, primeira bond girl a aparecer nua num dos filmes da franquia “007”, morreu na terça-feira (30/5). A atriz estava com 75 anos e a causa da morte não foi informada. Peters interpretou a enfermeira Patricia Fearing e contracenou com Sean Connery em “007 contra a Chantagem Atômica”(Thunderball), de 1965. A participação no filme de James Bond foi seu primeiro longa-metragem, após estrear num curta como modelo de nus artísticos. O diretor Terence Young a descobriu nesse trabalho, intitulado “Peter Studies Form” e lançado um ano antes, em 1964. Mas sua transformação em Bond girl veio acompanhada de muita controvérsia na época. Sua nudez quase levou a produção a ser restrita para maiores no Reino Unido e duas de suas cenas precisaram ser cortadas, por exigência do comitê britânico responsável pela classificação etária. Apesar do frisson em torno de sua presença em “007 contra a Chantagem Atômica”, a carreira da atriz não prosperou, limitando-se a mais três filmes nos anos 1960, sendo um deles para a TV alemã e todos em papéis muito pequenos. O último foi “Um Golpe das Arábias”, que Jerry Lewis filmou em Londres em 1968. De acordo com os extras do DVD de “007 contra a Chantagem Atômica”, lançado nos anos 1990, o fim da carreira de Peters como atriz se deveu a sérios desacordos entre ela e seu agente, mas os detalhes nunca foram conhecidos.
Jared Martin (1941 – 2017)
Morreu o ator Jared Martin, que fez sucesso como galã na série “Dallas”. Ele faleceu na quarta (24/5) em sua casa na Filadélfia, vítima de câncer, aos 75 anos. Martin era colega de Brian De Palma, com quem estudou na Universidade de Columbia, e fez sua estreia como ator no primeiro filme do cineasta, “Murder à la Mod” (1968). Ele também fez uma pequena participação em “Festa de Casamento” (1969), que marcou a estreia de Robert De Niro, e na sci-fi clássica “Westworld – Onde Ninguém Tem Alma” (1973), inspiração da atual série da HBO. Mas sua carreira acabou voltada para a TV, onde participou de diversas séries clássicas, com destaque para a produção sci-fi “Viagem Fantástica” (1977), passada no triângulo das Bermudas, na qual tinha um dos papéis principais, e “Dallas”. Ele entrou na 3ª temporada da série dos magnatas do petróleo como o cowboy de rodeio Dusty Farlow, filho adotivo de um dos inimigos da família Ewing, que se torna interesse romântico de Sue Ellen Ewing (Linda Gray). Os planos originais previam uma participação em três episódios em 1979, antes que o personagem morresse num acidente de avião. Mas o desempenho de Martin fez tanto sucesso que os fãs pressionaram os produtores a ressuscitarem seu personagem, o que acabou acontecendo após pesquisas e apostas sugerirem que ele poderia ter forjado sua morte para evitar a suspeita de ter sido o responsável pela tentativa de assassinato de J.R. (Larry Hagman), o marido de Sue Ellen. Diante da popularidade do personagem, os produtores quebraram a cabeça e encontraram uma maneira de fazê-lo retornar. “Meu agente disse: ‘Prepare-se, eles vão trazer você de volta'”, lembrou Martin, numa entrevista dos anos 1990. “Eu disse: ‘Como, eu estou morto’. Meu agente diz: “Oh, isso é Hollywood, eles vão pensar em algo”. No final, não foi Dusty Farlow quem atirou em J.R. Acontece que Dusty tinha sobrevivido, mas seus ferimentos o tornaram impotente, paralisado da cintura para baixo e confinado a uma cadeira de rodas. “Ele acaba recuperando a saúde com a ajuda de uma mulher extremamente bonita, que era algo que a América queria ver na época, não me pergunte por quê”, disse Martin. “Então eu deixei de ser um ator de participação episódica em diversas produções para me tornar parte da série mais bem-sucedida e fabulosa já conhecida pela humanidade.” Dusty faria uma recuperação milagrosa e até mesmo retornaria ao circuito do rodeio. Mas quando isso aconteceu, Sue Ellen decidiu voltar para J.R., encerrando a participação de Martin na série em 1985. Ele ainda apareceu num episódio de 1991, antes de se aposentar da atuação e passar a se dedicar à Big Picture Alliance, uma organização sem fins lucrativos que ele criou para ensinar crianças da periferia a fazer cinema. No ano passado, ele próprio fez sua estreia como diretor, filmando o longa “The Congressman”, estrelado por Treat Williams.
Dina Merrill (1923 – 2017)
A atriz e empresária Dina Merrill, que estrelou clássicos como “Anáguas a Bordo” e “Disque Butterfield 8”, morreu em sua casa na segunda-feira (22/5), aos 93 anos. Seu verdadeiro nome era Nedenia Marjorie Hutton e ela era a única herdeira da fortuna de seus pais, o investidor de Wall Street Edward Francis “E.F.” Hutton e a socialite Marjorie Merriweather Post, que também herdou milhões da fábrica de cereais de sua família. Como se não bastasse, em 1946 ela se casou com Stanley M. Rumbough Jr., herdeiro da Colgate-Palmolive, e ficou com metade dos bens no divórcio, após 20 anos e três filhos. Apesar de bem-nascida e rica, ela não queria ficar sem trabalhar e enfrentou a ira da família para começar a atuar. A rebeldia da jovem logo se tornou uma carreira. Ela participou de diversas peças da Broadway, e antes que sua família pudesse dizer algo, começou a passar mais tempo em Hollywood que em sua casa, em Nova York. Fez mais de 25 filmes, conseguindo destaque em comédias famosas, como “A Canoa Furou” (1959), com Jerry Lewis, e “Anáguas a Bordo” (1959), com Cary Grant, antes de revelar seu talento dramático em “Disque Butterfield 8” (1960), ao lado de Elizabeth Taylor, e “Juventude Selvagem” (1961), com Burt Lancaster. Mesmo com essa variedade de projetos, nunca conseguiu evitar o esterótipo de garota – e, posteriormente, mulher – rica, vivendo reflexos de sua persona na maioria dos filmes e séries em que atuou. O fato de ser praticamente uma princesinha americana levou as colunas de celebridades a chamá-la de nova Grace Kelly, após a loira dos filmes de Hitchcock abandonar a carreira para virar Princesa de Mônaco. E, aos poucos, ela foi alinhavando uma carreira digna de Grace Kelly, trabalhando com diretores de prestígio, como Blake Edwards (“Anáguas a Bordo”), John Frankenheimer (“Juventude Selvagem”) e Vincente Minnelli (“Papai Precisa Casar”). O problema é que, no fundo, Dina não levava a carreira de atriz a sério. Tinha os negócios para tocar e outros interesses. E assim foi redirecionando sua vontade de atuar para a televisão, onde apareceu em mais de 100 episódios de séries clássicas, em participações que não lhe cobravam maior comprometimento. Ela até enfrentou Batman em 1968, como Calamity Jan, ajudante do vilão cowboy Shame, vivido por Cliff Robertson, que se tornou seu segundo marido. Aparecendo cada vez menos no cinema, ela passou a escolher filmes inesperados, e acabou coadjuvando em dois clássicos de Robert Altman, “Cerimônia de Casamento” (1978) e “O Jogador” (1992). Também atuou na comédia cultuada “Diga-me o que Você Quer” (1980), de Sidney Lumet, e no drama político “A Um Passo do Poder” (1991), de Herbert Ross. A partir daí, seus principais trabalhos no cinema foram atrás da câmera. Com seu terceiro marido, o empresário Ted Hartley, ela comprou o antigo estúdio RKO e o relançou como RKO Pictures em 1991. Virou produtora, mas não emplacou muitos sucessos. Seu principal lançamento foi uma coprodução da Disney, “Poderoso Joe” (1998), estrelado por Charlize Theron, no qual também fez uma pequena participação. Como o negócio não deu certo, ela redirecionou a empresa para produzir espetáculos musicais. E aí conseguiu até prêmios, com “Gypsy” (2008) na Broadway e “Top Hat” (2012) no West End londrino. Paralelamente, passou a se dedicar à filantropia, apoiando entidades beneficentes. Quando seu filho David foi diagnosticado com diabetes, Merrill fundou a Fundação de Diabetes Juvenil, dedicada à pesquisa para a cura da doença. Ela serviu como Embaixadora Internacional para ORBIS International, uma ONG dedicada a tratar de doenças oculares ao redor do mundo. E foi fundadora da Coalizão Pro-Choice, de defesa do direito do aborto nos Estados Unidos. Além disso, fazia parte das diretorias de várias organizações artísticas importantes, como o John F. Kennedy Center for the Performing Arts e o Eugene O’Neill Theater Center.
Powers Boothe (1948 – 2017)
Morreu o veterano ator Powers Boothe, um dos grandes vilões do cinema e da TV, que enfrentou Jean-Claude Van Damme, Superman e os Agentes da SHIELD. Ele morreu em casa, em Los Angeles, aos 68 anos, de causas naturais enquanto dormia. Boothe, que cresceu em uma fazenda no Texas, começou sua carreira de ator no teatro, em uma série de produções shakespearianas, e foi fazer sua estréia na Broadway no final dos anos 1970. Por coincidência, foi como um ator numa peça de Shakespeare que ele apareceu pela primeira vez no cinema, durante uma sequência do romance clássico “A Garota do Adeus” (1977), de Herbert Ross. Também teve um pequeno papel em “Parceiros da Noite” (1980), de William Friedkin, antes de se voltar para a TV. Ele conquistou o primeiro reconhecimento da carreira ainda em 1980, ao interpretar seu maior vilão: Jim Jones, o líder de uma seita suicida, no telefilme baseado na tragédia real da morte de seus seguidores. Boothe venceu o Emmy de Melhor Ator pela produção, exibida no Brasil como “Jim Jones: O Pastor do Diabo”. A repercussão do prêmio o levou a conquistar papéis importantes em filmes cultuados, como “O Confronto Final” (1981), de Walter Hill, “Amanhecer Violento” (1984), de John Milius, e “A Floresta de Esmeraldas” (1985), de John Boorman. Este último foi filmado no Brasil, ocasião em que Boothe contracenou com vários atores brasileiros, como Dira Paes e Gracindo Júnior. Paralelamente, ele continuou desenvolvendo trabalhos na TV, como uma série em que encarnava o célebre detetive noir Phillip Marlowe – vivido por Humphrey Bogart no cinema. Sua filmografia ainda destaca os últimos filmes de ação violenta à moda antiga, antes do gênero virar pastiche de si mesmo e passar a alimentar o mercado de vídeo. Em ótimos passatempos da época, enfrentou Nick Nolte como rei do crime em “O Limite da Traição” (1987), foi parceiro do falecido Brandon Lee como policial incorruptível em “Rajada de Fogo” (1992) e cultivou o extremo da canastrice como terrorista em “Morte Súbita” (1995), no qual lutou contra Jean-Claude Van Damme. Graças à voz grave e presença intimidadora, acabou consolidando um perfil de intérprete de malvadões, que explorou de forma caricatural em “Sin City” (2005) e sua sequência de 2014. E também como dublador dos supervilões dos quadrinhos Gorila Grodd, em duas séries animadas da “Liga da Justiça”, e Lex Luthor, no longa animado “Superman: Brainiac Ataca” (2006). Ao mesmo tempo, mostrou versatilidade ao ingressar em diferentes gêneros, como o western em “Tombstone – A Justiça Está Chegando” (1993), o romance em “Céu Azul” (1994) e o drama histórico em “Nixon” (1995), de Oliver Stone. Sua presença também engrandeceu séries premiadas. Um de seus papéis mais memoráveis foi como o implacável dono de saloon Cy Tolliver na melhor série já feita sobre o Velho Oeste, “Deadwood” (2004-2006). Viveu ainda o perigoso vice-presidente dos EUA Noah Daniels na série “24 Horas” e no telefilme “24 Horas: A Redenção” (2008), o juiz Valentine “Wall” Hatfield na premiada minissérie “Hatfields & McCoys” (2012), o pai de Connie Britton em “Nashville” (de 2012 a 2014) e o vilão Gideon Malick na temporada passada de “Agents of SHIELD”, papel também vislumbrado no filme “Os Vingadores” (2012).
Michael Parks (1940 – 2017)
Morreu o ator americano Michael Parks, que era figura constante nos filmes do cineasta Quentin Tarantino. Ele faleceu nesta quarta-feira (10/5) aos 77 anos. Parks nasceu em abril de 1940, na Califórnia, e começou sua carreira no começo dos anos 1960, aparecendo nas séries “Os Intocáveis”, “Gunsmoke”, “Perry Mason” e “Rota 66”, entre outras. Ele estreou no cinema como um jovem rebelde em dois filmes cultuados de 1965, “Na Voragem do Amor” e “Vítima de um Pecado”, pelos quais chegou a ser comparado a James Dean. E até mesmo trabalhou com o diretor John Huston no clássico “A Bíblia” (1966), em que tinha o papel de Adão. Foi ainda um estudante de arte arrogante em “O Ídolo Caído” (1966) e um hippie em “Acontece Cada Coisa” (1967), antes da carreira cinematográfica estagnar. Voltando-se para a TV, acabou estrelando sua primeira série, “Then Came Bronson”, como o repórter desiludido Jim Bronson, que pega a estrada em sua Harley Davidson para se encontrar. A série durou apenas uma temporada, exibida entre 1969 e 1970, mas marcou o jovem Quentin Tarantino, que a descreveu como “a atuação mais naturalista que eu já vi em um programa de TV”. Na época do cancelamento, houve boatos de que uma disputa contratual com a Universal lhe rendeu a fama de ser um ator difícil, o que teria impedido sua carreira de deslanchar, sendo evitado pelos grandes estúdios. Mesmo assim, ele seguiu alternando participações em séries e filmes. Entre as curiosidades dessa filmografia intermediária, destacam-se dois longas de ação de Andrew V. McLaglen com grande elenco, “Missão: Assassinar Hitler” (1979) e “Resgate Suicida” (1980), o thriller “Tocaia no Deserto” (1988) em que fazia parceria com uma policial lésbica, vivida por Denise Crosby, e o terror “A Praia do Pesadelo” (1989), sobre um serial killer motoqueiro que atacava garotas de biquíni, com direção do lendário Umberto Lenzi (“Canibal Ferox”). Mas o renascimento de sua carreira aconteceu pela TV, como o principal antagonista da 2ª temporada de “Twin Peaks”, no papel de Jean Renault, um criminoso charmoso, envolvido em diversas falcatruas da série, que acabava morto pelo protagonista. Logo após este destaque, o diretor Robert Rodriguez o escalou em “Um Drink no Inferno” (1995), filme escrito e coestrelado por Quentin Tarantino, e ambos os cineastas se viram hipnotizados por sua performance como o policial Earl McGraw, à caça de criminosos em fuga, rumo a um desfecho de filme de terror sobrenatural. “Ele sempre foi considerado o ator que deveria substituir James Dean quando James Dean morreu, e seu naturalismo foi incrível de assistir”, chegou a dizer Rodriguez. Quentin Tarantino criou uma continuidade pouco comentada entre “Um Drink no Inferno” e “Kill Bill” (2003), ao escalar Parks no mesmo papel, nos dois volumes de seu thriller de lutas marciais. Além disso, Rodriguez e Tarantino utilizaram o personagem Earl McGraw para estabelecer um universo compartilhado entre seus filmes do projeto “Grindhouse” de 2007, “Planeta Terror” e “À Prova de Morte”. Parks foi, na prática, o responsável por conectar os diferentes filmes do universo cinematográfico de Tarantino. Ele ainda participou de “Django Livre” (2012), de Tarantino, seu segundo western indicado ao Oscar, após se destacar em “O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford” (2007). Entre um e outro, encontrou outro fã cineasta, Kevin Smith, que o escalou como o líder homofóbico de uma seita religiosa, no polêmico thriller “Seita Mortal” (2011), e como um louco sádico, que transforma cirurgicamente um homem numa morsa, em “Tusk” (2014). Graças à sua interpretação em “Seita Mortal”, Parks ganhou o prêmio de melhor ator no Festival de Cinema Fantástico de Sitges, na Espanha, em 2011. Em um tributo no Instagram, Kevin Smith acrescentou: “Ele elevou qualquer filme ou programa de TV em que esteve e elevou cada diretor para quem atuou. Eu foi tão… abençoado por ter trabalhado com esse gênio de boa-fé”. Entre seus últimos trabalhos, incluem-se ainda o vencedor do Oscar “Argo” (2012), o elogiado terror canibal “Somos o Que Somos” (2013) e o thriller “Herança de Sangue” (2016), com Mel Gibson.
Nelson Xavier (1941 – 2017)
Grande ator brasileiro, Nelson Xavier morreu na madrugada desta quarta-feira (10/5) aos 75 anos, em Uberlândia, Minas Gerais. Ele vinha fazendo tratamento de um câncer em uma clínica na cidade e faleceu após o agravamento de uma doença pulmonar. Na ocasião do falecimento, estava acompanhado por amigos e familiares. Nelson Agostini Xavier nasceu em São Paulo, em 30 de agosto de 1941. Em mais de cinco décadas de carreira, marcou época na TV e no cinema, especialmente nos papéis de Lampião e Chico Xavier – que lhe renderam experiências quase transcendentais, conforme costumava dizer. Mas a carreira começou no teatro, ainda nos anos 1950. Ele participou do Teatro de Arena, um dos mais importantes grupos de artes cênicas de seu tempo, atuando em peças históricas, como “Eles Não Usam Black-Tie” (1958), de Gianfrancesco Guarnieri, “Chapetuba Futebol Clube” (1959), de Oduvaldo Vianna Filho, “Gente como a Gente” (1959), de Roberto Freire, e “Julgamento em Novo Sol” (1962), de Augusto Boal. Com o golpe militar de 1964, a ditadura passou a censurar o tipo de teatro político que ele desenvolvia. Isto o levou a buscar outras vias de expressão. Ao começar a fazer TV, chegou a acreditar que sua timidez não lhe permitiria sucesso. “Eu tive muita dificuldade em começar a fazer televisão. As máquinas eram enormes, eu tinha pavor, até tremia”, ele contou ao site Memória Globo. Sua primeira participação na Globo foi como o personagem Zorba, na novela “Sangue e Areia” (1967), de Janete Clair. Ao mesmo tempo, desenvolveu uma carreira prolífica no cinema. Fez mais de 20 filmes até o fim da ditadura, no começo dos anos 1980, entre eles os clássicos “Os Fuzis” (1964), de Ruy Guerra, “A Falecida” (1965), de Leon Hirszman, “O ABC do Amor” (1967), de Eduardo Coutinho, Rodolfo Kuhn e Helvio Soto, “É Simonal” (1970) e “A Culpa” (1972), de Domingos de Oliveira, “Vai Trabalhar Vagabundo” (1973), de Hugo Carvana, o blockbuster “Dona Flor e seus Dois Maridos” (1976), de Bruno Barreto, “A Queda” (1978), que co-escreveu e co-dirigiu com Ruy Guerra, vencendo um Urso de Prata no Festival de Berlim, e a versão cinematográfica de “Eles Não Usam Black-Tie” (1981). Nessa época, também foi jornalista. Com o diretor Eduardo Coutinho, trabalhou como revisor na revista Visão, onde passou a colaborar também como crítico de cinema e teatro. Seis anos após estrear na TV, conseguiu seu primeiro grande papel, em “João da Silva” (1973). Mas foi apenas em 1982 que sua carreira televisiva decolou, ao estrelar a primeira minissérie da Globo, “Lampião e Maria Bonita”, dirigida por Paulo Afonso Grisolli e baseada nos últimos seis meses de vida do mais lendário criminoso da história do Brasil, Virgulino Ferreira da Silva, e seu grande amor trágico. A adaptação reimaginava Lampião e Maria Bonita como Bonnie e Clyde tropicais. O desempenho brilhante o consagrou como o melhor intérprete do líder do cangaço já visto em qualquer tela, a figura definitiva de um personagem icônico, a ponto de levar o personagem ao cinema, estrelando logo em seguida a comédia “O Cangaceiro Trapalhão” (1983) com os Trapalhões. Nelson também participou das minisséries “Tenda dos Milagres” (1985) e “O Pagador de Promessas” (1988), textos famosos que já tinham sido levados ao cinema. E fez diversas novelas, entre elas “Sol de Verão” (1982), “Voltei pra Você” (1983), “Riacho Doce” (1990), “Pedra sobre Pedra” (1992), “Renascer” (1993), “Irmãos Coragem” (1995), “Anjo Mau” (1997), “Senhora do Destino” (2004) e “Babilônia” (2015). Seu prestígio o levou a trabalhar em produções de Hollywood, integrando os elencos de “Luar Sobre Parador” (1988), de Paul Mazursky, comédia sobre uma republiqueta de bananas, estrelada por Sonia Braga, Richard Dreyfuss e Raul Julia, e “Brincando nos Campos do Senhor” (1991), de Hector Babenco, drama passado na Amazônia, com Tom Berenger, John Lithgow, Daryl Hannah e Kathy Bates. Apesar da visibilidade conseguida na TV, as novelas invariavelmente o escalavam para viver coadjuvantes, ainda que marcantes. Por isso, nunca negligenciou o cinema, construindo uma filmografia eclética, que não parou de acrescentar filmes importantes, como “Lamarca” (1994), “O Testamento do Senhor Napumoceno” (1997), “Narradores de Javé” (2003) e “Sonhos Roubados” (2009). Na tela grande, alternou seus coadjuvantes com papéis de protagonista, que lhe renderam muitos prêmios e reconhecimento da crítica. Quando muitos já considerariam a aposentadoria, Nelson atingiu novos picos de popularidade ao estrelar “Chico Xavier” (2010), cinebiografia do médium mineiro dirigida por Daniel Filho. Fenômeno de bilheteria, o longa acabou se tornando o mais importante de sua carreira. “Finalmente fiz o meu maior papel. Fui invadido por uma onda de amor tão forte, tão intensa, que levava às lágrimas”, afirmou à imprensa na época do lançamento do filme. “Nenhum dos personagens que fiz mudou minha vida. O Chico fez uma revolução”. Assim como acontecera com Lampião, três décadas antes, o ator se tornou tão identificado com o papel que o retomou em outro filme, “As Mães de Chico Xavier” (2011). O reconhecimento da comunidade espírita lhe rendeu ainda participação em “O Filme dos Espíritos” (2011), enquanto a Globo tratou de escalá-lo como um guru na novela “Joia Rara” (2013). Muito ativo no fim da vida, Nelson voltou a trabalhar com um diretor estrangeiro em “Trash: A Esperança Vem do Lixo” (2014), filmado no Rio pelo inglês Stephen Daldry, e estrelou “A Despedida” (2014), de Marcelo Galvão, como amante de Juliana Paes. O desempenho dramático deste filme lhe rendeu o troféu de Melhor Ator no Festival de Gramado, além de prêmios internacionais. Ele ainda fez “A Floresta Que Se Move” (2015), o papel-título de “Rondon, o Desbravador” (2016) e “Comeback”, que estreia dia 25 nos cinemas brasileiros. Em seu último papel, viveu um matador que não consegue se aposentar. O nome do personagem é Amador. Mas Nelson foi um profissional como poucos. Tanto que foi premiado pelo desempenho derradeiro: Melhor Ator no Festival do Rio do ano passado. Melhor Ator até o último trabalho. O ator deixa a mulher, a também atriz Via Negromonte, e quatro filhos. Em seu Facebook, a filha Tereza fez a melhor definição da passagem do pai. “Ele virou um planeta. Estrela ele já era. Fez tudo o que quis, do jeito que quis e da sua melhor maneira possível, sempre”.
Mary Tsoni (1987 – 2017)
A atriz grega Mary Tsoni, que se tornou conhecida ao estrelar o cultuado drama “Dente Canino” (2009), foi encontrada morta no apartamento onde morava em Atenas. Ela tinha apenas 30 anos e a causa da morte só será revelada após a realização de uma autópsia, informaram as autoridades. Segundo a imprensa grega, ela sofria de depressão profunda. “Dente Canino” foi uma sensação no circuito dos festivais e recebeu indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O sucesso projetou a carreira do diretor Yorgos Lanthimos, que neste ano voltou a disputar o Oscar, mas na categoria de Melhor Roteiro Original por “O Lagosta”, sua estreia na língua inglesa. O filme de 2009 contava a história bizarra de um pai que criou os três filhos como se fossem cachorros, vivendo enclausurados em sua casa, tendo apenas o quintal para brincar na periferia de uma cidade. A casa é isolada por uma alta cerca que os filhos nunca podem ultrapassar e que os mantém isolados do mundo externo. Mary Tsoni vivia a filha mais nova e recebeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Sarajevo. Em sua curta carreira, a atriz também estrelou dois filmes da franquia de zumbis “Evil” (To Kako) e mais dois longas, o pseudo-documentário “Atherapy” e o drama “The Fruit Trees of Athens” (Ta Oporofora tis Athinas), ambos em 2010 e todos inéditos no Brasil. Ela não filmava há sete anos.
Michael Mantenuto (1981 – 2017)
O ator Michael Mantenuto, que estrelou o filme “Desafio no Gelo” (2004), da Disney, foi encontrado morto em seu carro, na cidade de Des Moines, informou a imprensa americana nesta quinta (27/4). Segundo a revista People, a morte foi oficialmente considerada um suicídio. Um médico legista afirmou à publicação que Mantenuto atirou contra si mesmo com uma arma de fogo. Ele tinha apenas 35 anos. Mantenuto atuou ao lado de Kurt Russell (“Guardiões da Galáxia Vol. 2”) no filme esportivo da Disney sobre a vitória da equipe de hóquei dos Estados Unidos contra o time da União Soviética em 1980, durante as Olimpíadas de Moscou. No longa dirigido por Gavin O’Connor (“O Contador”), ele interpretou o atleta americano Jack O’Callahan. O filme fez bastante sucesso, mas o ator só trabalhou em outros duas produções: “Dirtbags”, feito para TV, e na comédia “Profissão Surfista” (2008), como mero figurante. O ator deixa a mulher, Kati, e dois filhos, Ava e Leo.
Jonathan Demme (1944 – 2017)
Morreu o diretor Jonathan Demme, vencedor do Oscar por “O Silêncio dos Inocentes” (1991). Ele faleceu nesta quarta (26/4) em Nova York, aos 73 anos, vítima de um câncer no esôfago e de complicações cardíacas. O cineasta foi diagnosticado com a doença em 2010, quando passou por um tratamento bem sucedido. Infelizmente, o câncer retornou em 2015 e sua saúde se deteriorou, até seu estado se tornar grave nas últimas semanas. Com mais de 40 anos de carreira, Demme integrava a brilhante geração de cineastas que deu seus primeiros passos sob a tutela do produtor Roger Corman nos anos 1970, da qual também fazem parte Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, James Cameron, Ron Howard e Curtis Hanson. Seu primeiro trabalho foi como roteirista do filme B de motoqueiros “Angels Hard as They Come”, produzido por Corman em 1971. A estreia como diretor aconteceu logo em seguida, com “Celas em Chamas (1974), que explorava a vertente sensacionalista dos filmes de presídios femininos, exemplar típico das produções de Corman. A partir daí, alternou thrillers, comédias e documentários, uma rotina que o acompanhou por toda a carreira. Não demorou a chamar atenção, eletrizando com o suspense “O Abraço da Morte” (1979) e encantando com a comédia “Melvin e Howard” (1980), sobre um suposto herdeiro da fortuna de Howard Hughes. Mas o trabalho que lhe trouxe mais atenção foi um documentário musical, que registrava a banda Talking Heads ao vivo. Com trechos transformados em clipes, “Stop Making Sense” (1984) acabou espalhando o nome de Demme. E ele passou a fazer clipes, assinando vídeos de The Pretenders, UB40, New Order e Bruce Springsteen, entre outros. Um dos trabalhos mais importantes desta fase foi o vídeo de protesto “Sun City” (1985), que reuniu uma multidão de artistas contra o Apartheid da África do Sul. Toda essa experiência foi vertida na confecção de seu filme-síntese, “Totalmente Selvagem” (1986), em que uma mulher fatal “rapta” um yuppie para um fim de semana de loucuras. Estrelado por Melanie Griffith, Jeff Daniels e o praticamente estreante Ray Liotta, o filme começava como comédia e terminava como suspense, e pelo meio do caminho enveredava por cenas musicais. Cultuadíssimo, foi escolhido para lançar a revista Set, de cinema, no Brasil. Demme retomou a alternância de seus três gêneros prediletos com o documentário “Declarações de Spalding Gray” (1987), a comédia “De Caso com a Máfia” (1988) e, claro, o suspense “O Silêncio dos Inocentes” (1991). O filme que introduziu o serial killer Hannibal Lecter no imaginário popular tornou-se icônico, com cenas referenciadas até hoje. Mas tão fantástica quanta a interpretação de Anthony Hopkins, vencedor do Oscar pelo papel do psicopata canibal, foi a direção de Demme, criando tensão absurda em simples diálogos e estabelecendo um vocabulário cinematográfico que se tornaria muito imitado. “O Silêncio dos Inocentes” venceu merecidos cinco Oscars: Melhor Filme, Direção, Roteiro, Ator e Atriz (Jodie Foster). Mas não foi a obra mais relevante do diretor. O maior legado de Demme, em termos de impacto cultural e social, veio logo a seguir. A consagração da Academia o inspirou a enveredar pela primeira vez pelo drama adulto. E seu filme seguinte, “Filadélfia” (1993), tornou-se pioneiro no registro da luta contra o preconceito sexual e o estigma da Aids. O Oscar vencido por Tom Hanks, pelo papel do aidético que processa a empresa que o demitiu, ajudou a mudar a visão do mundo sobre a Aids. Assim como a escalação de Denzel Washington, como o advogado homofóbico que defende sua causa, humanizou o questionamento de intransigências antiquadas. Os dois sucessos consecutivos de público e crítica renderam a Demme o status de cineasta de grandes produções. Mas nenhum de seus filmes seguintes teve a mesma repercussão. De fato, foram decepcionantes, como a adaptação do best-seller “Bem-Amada” (1998), com Oprah Winfred, e os remakes “O Segredo de Charlie” (2002), nova versão da trama de “Charada” (1963) com Mark Wahlberg, e “Sob o Domínio do Mal” (2004), com Denzel Washington. Frustrado, Demme voltou aos documentários. Filmou, entre outros, três longas sobre o cantor Neil Young e um registro do trabalho social do ex-presidente Jimmy Carter. E ao recarregar as baterias, mostrou que ainda sabia ousar, voltando à ficção com um drama de estrutura indie. “O Casamento de Rachel” (2008) combinou sua experiência em documentários com uma narrativa esparsa, num registro quase improvisado. O fio narrativo era a desconexão sentida pela personagem de Anne Hathaway, uma ex-viciada que sai de uma clínica para comparecer ao casamento da irmã. Estranho de assistir, o filme se provou hipnótico, rendendo a primeira indicação ao Oscar da atriz, ex-estrela da Disney. Apesar dos elogios da crítica, “O Casamento de Rachel” (2008) fracassou nas bilheterias (fez apenas US$ 16 milhões em todo o mundo) e distanciou ainda mais o diretor da ficção cinematográfica. Ele seguiu fazendo documentários e enveredou pela TV, usando seu nome para lançar “A Gifted Man” (em 2011), série espírita estrelada por Patrick Wilson, que teve apenas a 1ª temporada produzida. Também assinou o piloto de “Line of Sight” (2014), que não foi aprovado, e dois episódios de “The Killing” em 2013 e 2014. No cinema, sua adaptação da peça de Ibsen “A Master Builder” (2013) passou em branco, graças ao elenco de atores pouco conhecidos, a maioria vindo do teatro. A crítica adorou, mas ninguém viu. O filme fez apenas US$ 46 mil nas bilheterias dos EUA e não teve lançamento internacional fora do circuito dos festivais. Por conta disso, Demme fez exatamente o contrário com sua obra seguinte, a comédia “Ricki and the Flash – De Volta pra Casa” (2015), chamando a atriz mais famosa de Hollywood, Meryl Streep, para viver a protagonista, uma roqueira veterana que reencontra a família após vários anos, para ajudar sua filha depressiva. Foi também uma forma de voltar a trabalhar com música no cinema. Um fecho sonoro para sua filmografia. Demme ainda dirigiu o documentário musical “Justin Timberlake + the Tennessee Kids” (2016) e um episódio da série “Shots Fired” (2017). Como lembrou seu colega Edgar Wright no Twitter, “ele podia fazer qualquer coisa” que tivesse imagens em movimento. E sempre com qualidade, mesmo que o público não visse.
Don Rickles (1926 – 2017)
Morreu Don Rickles, uma lenda da comédia americana e dublador da franquia “Toy Story”. Ele faleceu nesta quinta-feira (6/4) aos 90 anos, devido a uma falha renal, em sua casa na cidade de Los Angeles. Rickles participou de muitos filmes e séries desde os anos 1950, mas geralmente em papéis pequenos, como consequência do sucesso de suas apresentações em clubes de stand-up. Ele se especializou na chamada comédia de insulto, dedicando-se a ofender o próprio público de suas performances e os apresentadores de talk show que se arriscavam a convidá-lo para um bate-papo. A princípio, foi considerado escandaloso para a sociedade americana, mas seu sucesso foi tão grande que ser insultado por ele logo se tornou motivo de orgulho. Apesar de não ter sido o primeiro a explorar este estilo de humor, Don Rickles foi o mais bem-sucedido e imitado, tornando-se uma atração recorrente na televisão, clubes e cassinos de Las Vegas. Sem papas na língua, conquistou a simpatia de Frank Sinatra e até se tornou um membro honorário da Rat Pack, a turma estilosa dos lounges, participando de shows da trupe em Vegas – que, além de Sinatra, também incluíam Dean Martin e Sammy Davis Jr. No auge da popularidade, ele até se juntou a Jimmy Olsen e Superman numa história em quadrinhos escrita e desenhada pelo lendário Jack Kirby, na qual era clonado e dava vida a seu oposto, Rickles, o Bondoso. A publicação aconteceu em 1971, após Rickles já estar bem estabelecido na cultura pop, tendo aparecido em três filmes da Turma da Praia, em “Os Guerreiros Pilantras” (1970) e em séries clássicas como “Os Monstros”, “A Família Adams”, “A Família Buscapé”, “James West” e “A Ilha dos Birutas”. Apesar de se tornar menos visível nas décadas seguintes, ele nunca interrompeu suas atividades, participando inclusive de “Cassino” (1995), de Martin Scorsese, no qual contracenou com Robert De Niro. Para as novas gerações, sua voz é lembrada por frases mais doces, graças a seu trabalho como o Sr. Cabeça de Batata dos desenhos da franquia “Toy Story” Mas para os mais velhos, ele é o humorista mal-humorado sem o qual não existiria Louis CK, Larry David, Jerry Seinfeld ou Howard Stern.












