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  • Filme

    Indignação é um belo filme sobre a juventude

    21 de novembro de 2016 /

    James Schamus é um produtor de bom gosto, que trabalhou diversas vezes com Ang Lee e talvez por isso tenha herdado uma sensibilidade especial, de modo a conseguir um resultado muito bom em sua estreia como diretor. Sua principal opção estética ao filmar “Indignação” foram sequências longas, ainda que com muito uso de campo e contracampo, para que dar conta do texto denso de Philip Roth (“Revelações”), autor do romance homônimo lançado em 2008, que serve de base para a trama. A história se passa durante o período de juventude do escritor, na década de 1950, mais especificamente no ano de 1951, quando explodia a Guerra da Coreia e antes do nascimento oficial do rock’n’roll, que se manifestaria como uma forma de extravasar a energia e a intensidade daquela geração. O personagem principal, o jovem Marcus (Logan Lerman, de “As Vantagens de Ser Invisível”), é um garoto bom e aparentemente muito centrado e correto. Mas há algo nele que o deixa particularmente irritado com as regras impostas pela sociedade. E é interessante esse aspecto, pois, por mais que convide o espectador a assumir seu ponto de vista, especialmente a cada cena positiva entre ele e Sarah Gadon (da minissérie “11.22.63”), o filme não o torna dono da verdade. É possível questioná-lo sempre, por mais que a sabatina com o reitor da universidade (grande momento de Tracy Letts) seja um tanto desnorteadora. A trama se inicia nos últimos dias de Marcus com sua família em New Jersey, antes dele passar a morar na universidade de Winesburg, em Ohio. É lá que percebemos sua dificuldade (ou má vontade) de socialização, por mais que, inicialmente, tenha simpatizado com seus dois colegas de quarto. Sua intenção ali é essencialmente estudar. Quem acaba fazendo com que mude de ideia é a bela e aparentemente recatada Olivia Hutton (Gadon), cujo nome ele recita em voice-over com ar respeitoso, de modo a torná-la, desde o primeiro instante, especial. O tímido e inexperiente Marcus resolve convidá-la para sair. E o resultado do primeiro encontro é inesquecível. Tanto que o rapaz, com aquela mentalidade tão conservadora do início dos anos 1950, não sabe como lidar com o comportamento mais ousado daquela moça, que, para nós, espectadores, é uma promessa de felicidade, algo a não se deixar escapar. Tudo bem que Olivia Hutton é uma garota complexa – tem um histórico de problemas mentais em uma instituição psiquiátrica –, mas sua doçura, beleza e encantamento compensam tudo isso. Schamus sabe muito bem quando inserir as poucas intervenções narrativas extraídas do livro de Roth e quando utilizar apenas imagens para compor seu filme, que nos leva junto do protagonista. O trabalho de direção de atores, o cuidado com a montagem das cenas, especialmente as mais longas e tensas (ou intensas), além dos belos enquadramentos em scope, fazem de “Indignação” um dos melhores filmes de estreia dos últimos anos, provavelmente por sua capacidade de criar identificação com esse momento tão conturbado e ao mesmo tempo tão mágico, que é a juventude e seus encantos e dissabores.

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  • Filme

    Sem ser memorável, Snowden consegue entreter, informar e provocar

    18 de novembro de 2016 /

    Apesar de um pouco distante da grande mídia, em comparação com seu destaque nas décadas de 1980-90, Oliver Stone segue ativo e perseguindo ainda mais um tipo de cinema militante de esquerda, numa opção ousada, já que são poucos que manifestam tamanha simpatia por medalhões da esquerda. Os documentários “Comandante” (2003), “Ao Sul da Fronteira” (2009), “Castro in Winter” (2012) e “Mi Amigo Hugo” (2014) são exemplos disso. Mas pouca gente viu esses filmes. Em “Snowden – Herói ou Traidor”, ele tenta voltar a ser relevante, deixando o bajulamento de políticos de lado para voltar a se embrenhar na boa luta contra o sistema. No novo filme, Stone denuncia a capacidade e o poder que o governo americano tem de não só vigiar cidadãos de seu próprio país, mas como também de provocar até mesmo apagões em vários outros países com apenas um clique. Stone encontrou em Edward Snowden, vivido na tela por Joseph Gordon-Levitt (“A Travessia”), um prato cheio para fomentar uma nova controvérsia, e sem poupar o Presidente Barack Obama, que não é apenas cúmplice das armações maquiavélicas do Estado, embora percebamos que isto é parte de algo maior e já instituído. Snowden, ex-empregado da NSA (Agência Nacional de Segurança), e testemunha de segredos de estado chocantes, é mostrado inicialmente em 2013, quando decide contar tudo o que sabe para um grupo de jornalistas. A divulgação cairia como uma bomba, mas o rapaz, então com menos de 30 anos, tinha consciência dos riscos que ele e sua esposa sofreriam. A estrutura narrativa é convencional, através de flashbacks que remontam ao tempo em que Snowden era um simples soldado, que acabou se afastando do exército depois de quebrar as duas pernas em um acidente simples. Neste período, foi recrutado para trabalhar em uma agência de espionagem. E é aí que sua história realmente começa. A narrativa não poupa esforços para elevar o protagonista, de delator/traidor, à categoria de herói. Mas isso não chega a ser um problema. O problema é quando o diretor lança mão de artifícios banais para forçar a situação, como a utilização de uma trilha sonora épica e cafona. A personagem da esposa de Snowden também acaba ficando relegada a segundo plano, embora a atriz Shailene Woodley mostre ser, da turma de garotas que protagonizaram filmes para adolescentes recentemente, a que menos tem problema em fazer cenas de sexo ousadas (quem viu “Pássaro Branco na Nevasca”, de Gregg Araki, sabe do que estou falando). No mais, é um filme que se beneficia bastante de seu elenco de apoio. Um luxo poder contar com Melissa Leo, Zachary Quinto, Tom Wilkinson, Joely Richardson e até Nicolas Cage, em papel bem pequeno. E embora não seja tão memorável quanto gostaria de ser, “Snowden” consegue entreter, informar e provocar. Sem falar que, para o público brasileiro, não deixa de ser interessante ver o nome do país sendo citado em um par de vezes, inclusive sobre o caso da Petrobrás.

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  • Cinema Novo
    Filme

    Cinema Novo faz ensaio-poesia sobre o movimento mais famoso do cinema brasileiro

    11 de novembro de 2016 /

    A opção de Eryk Rocha de fazer de “Cinema Novo” um documentário em formato de ensaio-poesia, em vez de um filme mais convencional e informativo, é compreensível, inclusive dentro da curta duração – cerca de uma hora e meia. Para se contar a história do Cinema Novo em um projeto audiovisual, o ideal seria mesmo uma minissérie para a televisão com mais tempo disponível. Mas mesmo aceitando a proposta, a falta de identificação nas imagens utilizadas – qual é tal filme em tal cena mostrada – não deixa de ser problemática. O resultado privilegia a edição e a força das imagens de grandes obras – algumas pouco conhecidas do grande público – , mas deve sua existência principalmente aos depoimentos de arquivo da época (anos 1960 e 1970), de cineastas (Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, Glauber Rocha, Leon Hirszman, Arnaldo Jabor, Ruy Guerra e vários outros) que comentam direto do túnel do tempo. Não há depoimentos novos, o que torna o trabalho do filho de Glauber Rocha diferente e interessante. Um dos problemas do filme, premiado no Festival de Cannes deste ano, está no fato de que, se exibido para uma plateia que desconhece totalmente o movimento original, pode até despertar desinteresse. Mas, para quem conhece um pouco, permite rever sequências lindas, como as de “A Falecida”, “Vidas Secas”, “Rio, Zona Norte”, “Terra em Transe”, “Macunaíma”, além de filmes que não são necessariamente do Cinema Novo, mas pioneiros do próprio cinema brasileiro, como “Limite”, de Mário Peixoto, e o trabalho de Humberto Mauro. O que importa é que Eryk, enquanto deixa o público intrigado com certas cenas de filmes menos conhecidos, não deixa dúvidas a respeito da grandeza de nosso cinema. Ele pontua tudo de forma mais ou menos organizada em blocos temáticos, e procura emular o clima de tensão que surge a partir dos eventos políticos ocorridos no Brasil durante o Golpe militar, através de um som e de uma montagem inteligentes. Ainda assim, acaba parecendo estranho quando, no final, entre os créditos de diversos cineastas envolvidos com o Cinema Novo, surge o nome de Walter Hugo Khouri, que não era muito bem-visto pelo movimento e considerado basicamente alienado, distante dos interesses sociais e de natureza revolucionária de Glauber, Diegues e cia. De todo modo, há tanta gente boa envolvida nesse que é o maior movimento cinematográfico da América Latina, que a vontade de ver e rever os filmes apresentados é grande. A admiração que já temos por cineastas como Leon Hirszman e Joaquim Pedro de Andrade, por exemplo, só aumentam, diante de seus depoimentos e trechos de filmes. Há também algo que faz com que “Cinema Novo” dialogue muito bem com o momento atual em que estamos vivendo, tanto do ponto de vista político, como no que se refere à baixa audiência de público para o cinema brasileiro (que importa). Uma cena em particular mostra Diegues e Jabor debatendo sobre a dificuldade de atingir o grande público, que até hoje continua resistente ao tipo de filmes que eles faziam. Mas, ao ver, por exemplo, um trecho de “Terra em Transe”, clássico do pai de Eryck, com dois personagens recitando suas falas de forma poética e teatral, percebe-se o porquê de esses filmes não lotarem salas. O cinema brasileiro dessa época só chegaria nas massas na década de 1970, com o advento das pornochanchadas. Mas isso já é outra história e de outra turma, que seria até bem mais divertida de ser vista em um filme-ensaio desse tipo.

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  • Filme

    Doutor Estranho conjura visual surpreendente em mais um acerto da Marvel

    5 de novembro de 2016 /

    Quem era leitor de quadrinhos de super-heróis até a década de 1990 jamais imaginaria que um dia seus heróis favoritos pudessem se materializariam em grandes produções cinematográficas que fizessem justiça às publicações. Mas, graças aos avanços no uso da computação gráfica, isto agora é corriqueiro. As ferramentas estão à mão. E dinheiro não falta, já que o retorno tem sido muito positivo, a ponto de os filmes de super-heróis se tornarem os grandes blockbusters da atualidade. Ninguém poderia imaginar, há 20 anos, que o sucesso do gênero enchesse a Marvel de coragem para emplacar filmes sobre heróis menos conhecidos do grande público, como “Guardiões da Galáxia” (2014) e “Homem-Formiga” (2015). Muito menos poderia prever uma adaptação do Mago Supremo dos quadrinhos. E dirigido por um especialista em filmes de horror, Scott Derrickson – que nem é dos melhores do gênero, embora tenha alguns bons títulos no currículo. Pois “Doutor Estranho” foi realmente feito. E com um número de acertos bem significativos, que elevam a produção acima de outros filmes de super-heróis, fugindo de lugares-comuns que começam a habitar o gênero. Desde os primeiros trailers divulgados, já se sabia que a abordagem seria diferente, com um tratamento visual mais caprichado, especialmente no uso da tecnologia 3D – e agora também do IMAX – , com a intenção de capturar o clima psicodélico das primeiras histórias do personagem, desenhadas pelo lendário Steve Ditko. E os meninos de antigamente podem arregalar bem os olhos e chorar, porque o filme consegue realizar seu objetivo de filmar o infilmável: a lisergia dos quadrinhos de Ditko. Mas o encantamento causado por “Doutor Estranho” não se resume ao visual. O elenco é um luxo, a começar por Benedict Cumberbatch como Stephen Strange, e sem esquecer Rachel McAdams como a apaixonante médica e interesse amoroso de Strange, a Dra. Christine Palmer, Tilda Swinton como a Anciã, a mulher que apresenta a Strange um novo mundo, Chiwetel Ejiofor como o mago Mordo, Benedict Wong como o Wong, e Mads Mikkelsen como o principal vilão do filme – embora seja também o seu maior problema. É que os embates entre Estranho e o personagem de Mikkelsen, por mais que possam ser apreciados pelos efeitos de desconstrução da realidade, acabam tornando a história um pouco aborrecida em alguns momentos. Afinal, quem não queria mais um pouco de plantão médico com a Rachel McAdams, de tão adorável que é sua personagem? E não é fantástica a Anciã de Tilda Swinton, com suas palavras de sabedoria tão bem construídas e tão pouco usuais em filmes desse tipo? O que dizer da cena que compartilha com Estranho no alto de um prédio, enquanto o corpo dela está sendo operado? Um grande momento do filme, sem dúvida. Assim como é também um grande momento o encontro pessoal do herói com um dos supervilões mais tenebrosos do Universo Marvel, Dormammu, um ser místico que vive nas profundezas de uma dimensão sombria. A cena do confronto com Dormammu é outro ponto alto. Aliás, é interessante notar como “Doutor Estranho” consegue ser ao mesmo tempo compacto e dinâmico, sem parecer apressado em sua condução narrativa – diferente do que se percebe nos filmes dos Vingadores, por exemplo. Isso se deve, em parte, por ser uma história de um herói individual, mas mesmo assim se deve dar o devido crédito ao realizador, aos roteiristas, ao montador. Como é natural nos filmes da Marvel, o humor está presente, muitas vezes até descaracterizando o personagem, que costuma ser bem mais sério nos quadrinhos – para conservar sua aura de mistério. No cinema, na falta de outro personagem que servisse de alívio cômico, o próprio Estranho acabou cumprindo a função. Mas isso não tira seu mérito, até porque algumas cenas de humor funcionam muito bem, em especial as que envolvem Wong, que aqui ainda aparece como o guardião da biblioteca de livros místicos. E nem é preciso dizer que a construção gráfica do herói, com direito a manto de levitação e ao Olho de Agamotto, foi feita no capricho. Que sina da Marvel: acertou mais uma vez no cinema, inserindo agora um personagem que lida com magia para integrar seu universo e participar dos próximos filmes dos Vingadores. Já foi antecipado que o Doutor Estranho voltará para uma breve aparição em “Thor: Ragnarok”, previsto para novembro do próximo ano. Pelo visto, os super-heróis da Marvel continuarão aumentando no cinema até refletir sua superpopulação nos quadrinhos. E isto não é um sonho geek, é o futuro/presente de Hollywood.

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  • Filme

    Estranhos no Paraíso permanece marcante após mais de 30 anos

    5 de novembro de 2016 /

    “Estranhos no Paraíso”, que volta aos cinemas em cópia remasterizada, costuma ser louvado como um dos filmes mais importantes do cinema indie dos anos 1980. O longa de 1984 de Jim Jarmusch marcou época com sua fotografia em preto e branco, cenas paradas e fade to blacks mais demorados do que o normal, passando uma sensação de estranheza e charme bem próprios. Mas em meio ao incômodo, causado também pelo modo como se comportam os personagens naquele cenário um tanto desolado, o filme é muito engraçado. Já foi notado que a situação de seus três personagens se compara a de pessoas vivendo em uma espécie de purgatório, de onde não conseguem escapar. Mesmo Eva (a ótima Ezter Balint), a húngara que chega aos Estados Unidos e se depara com aquele lugar imerso em tédio, não consegue evitar a situação, por mais que tente ter uma atitude mais ativa e positiva diante da vida. O problema é que sua energia parece sugada pelos dois rapazes a seu lado, que mais parecem mortos-vivos, cada um à sua maneira. O filme pode ser visto como uma crítica ao american way of life, mas Jarmusch vai além disso. Até em seus filmes mais recentes, o tédio e a falta de sentido na vida afetam personagens tão distintos quanto o cansado mulherengo vivido por Bill Murray em “Flores Partidas” (2005) e os vampiros existencialistas de “Amantes Eternos” (2013). Portanto, o incômodo de estar vivo parece uma tendência no cinema do diretor. Mas há algo que diferencia “Estranhos no Paraíso” dos demais longas do diretor, que é a forma. A forma dá substância ao conteúdo, ao fiapo de trama. O filme é composto de vários planos-sequência, filmados em preto e branco granulado, em que a câmera quase nunca sai do lugar. E na maioria das vezes fica confinada em espaços fechados, com os personagens assistindo televisão, principalmente. Mesmo quando eles vão ao cinema, o ar de cansaço ou de frustração com a vida está presente – a não ser pelo olhar bobão do personagem de Richard Edson, melhor amigo do protagonista Willie (o músico John Lurie). Poderia falar da tendência que retrata os personagens masculinos como idiotas, na velha tradição das obras de John Cassavetes – e assim como Cassavetes foi o rei do cinema indie americano nos anos 1960-70, pode-se dizer o mesmo de Jarmusch nos 1980-90 – , mas será essa a intenção do diretor? Talvez não. É palpável o carinho do cineasta por esses personagens. O ódio ou o desprezo podem surgir do julgamento do espectador, o que é natural. Faz parte da quebra de expectativas que o filme propõe. Uma subversão com mais de 30 anos e que ainda consegue instigar a imaginação.

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    Doce Veneno é um filme de outra época, mais divertida e libertária

    30 de outubro de 2016 /

    “Doce Veneno” evoca a época das pornochanchadas brasileiras ou, equivalente, a era de ouro do cinema erótico italiano. Mas também na França das décadas de 1970 e 1980 se produzia filmes mais apelativos, ainda que o cinema do país sempre parecesse tratar a sexualidade com mais naturalidade e menos malícia do que nós e os italianos. A comédia de Jean-François Richet (“Herança de Sangue”) é, na verdade, remake de um desses filmes, que busca fazer graça, mexer um pouco com a libido e também encher os olhos do espectador com a beleza e o viço de sua estrela, a ninfeta que dá em cima do melhor amigo do próprio pai. Para se ter ideia, o cartaz do filme original, traduzido como “Um Momento de Loucura” em 1977, era uma ilustração sacana de Georges Wolinski, o mestre do cartum erótico francês, assassinado no massacre da revista Charlie Hebdo, vítima da repressão e do mau humor contemporâneo. Na trama, dois amigos, Laurent (Vincent Cassel, de “Jason Bourne”) e Antoine (François Cluzet, de “Intocáveis”), levam suas jovens filhas para passar uns dias na praia para se divertirem. Laurent é divorciado e Antoine está passando por uma crise no casamento. O filme já começa com os quatro dentro do carro e a caminho da casa que servirá de local para muitas confusões e intrigas. Mas tudo é visto de maneira bem leve, embora às vezes o diretor pese um pouco a mão, e em ocasiões Cluzet esteja visivelmente exagerado no registro cômico, especialmente quando descobre que um sujeito bem mais velho andou mexendo com sua filha. A cena fica, claramente, parecendo mesmo de um filme de outra década. Curiosamente, a mesma premissa serviu de inspiração para um filme americano bem parecido, “Feitiço do Rio” (1984), que contou com Michael Caine como protagonista e trouxe Demi Moore de topless nas praias cariocas. “Doce Veneno” é um pouco menos apelativo, embora seja generoso em pelo menos uma cena de nudez da lolita estreante, Lola Le Lann. De fato, a cena que os dois protagonistas ficam pela primeira vez juntos, uma cena na praia, é uma das melhores do filme. Mas enquanto a lolita insiste que a vida é pra ser vivida agora, ou algo do tipo, Laurent morre de preocupação, pois estaria se envolvendo com uma menor de idade (17 anos e meio), bem mais nova do que ele e, pior, filha de seu grande amigo. Mas quem espera que o filme prossiga com esse tom de provocação sensual pode até ficar um pouco decepcionado, já que há um interesse maior no modo como essa relação, que nasceu em noite de lua cheia, abalará as estruturas das relações entre amigos e pais e filhas dentro daquele ambiente. Ainda que não se trate de um grande filme, é agradável de ver. E o anacronismo não incomoda. Ao contrário: acaba funcionando a seu favor, por mais que muitos considerem o resultado uma simples bobagem. Enquanto mais bobagens como essa aparecerem nas comédias contemporâneas, mais claro ficará que o cinema de décadas passadas era bem mais divertido e libertário. É como se a culpa que sente o personagem de Cassel tivesse sido incorporada por todas as novas gerações em relação ao prazer.

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  • Filme

    Ouija – Origem do Mal é muito melhor que o primeiro filme

    30 de outubro de 2016 /

    Quem diria que a continuação de um grande filme como “Invocação do Mal” (2013) resultaria em um filme tão aquém do que se espera de James Wan, e que a continuação de uma obra tão insignificante quanto “Ouija – O Jogo dos Espíritos” (2014) fosse resultar em um trabalho interessante? “Ouija – Origem do Mal” (2016) não é exatamente uma continuação, mas um prólogo, e não é necessário ver o filme anterior para entender qualquer coisa. Felizmente. Trata-se de uma história independente, que tem um parentesco muito maior com outra obra do mesmo diretor, “O Espelho” (2013), um dos mais inventivos filmes de horror desta década. Mike Flanagan, o diretor, é desses nomes que merecem atenção neste atual cenário de poucas novidades no gênero – pelo menos em comparação com a safra de mestres surgidas nas décadas de 1970 e 1980. Flanagan não traz apenas ideias novas, como faz tudo com uma elegância de tirar o chapéu. Pode até ter derrapado um pouco na conclusão do novo filme, mas ainda assim é difícil negar as qualidades da produção. A começar pelos créditos iniciais, que trazem o logo antigo da Universal, como nos anos 1960, época em que se passa a trama, e depois com o título escrito em letras grandes, como se estivéssemos vendo um filme sessentista. A reconstituição de época é apurada, com um trabalho de direção de arte e fotografia que ajuda a tornar narrativa ainda mais atraente, por mais que o enredo possa parecer, em alguns momentos, requentado ou um tanto previsível. Mas na verdade só parece. Embora haja algumas apropriações de cenas do primeiro filme, como a inevitável brincadeira de olhar pela lente do indicador do tabuleiro ouija e ver alguma coisa que provocará medo na plateia, há muitas surpresas ao longo da metragem. Flanagan sabe lidar muito bem com a expectativa, principalmente nos 2/3 iniciais do filme, que são perfeitos em sua condução narrativa e recursos de câmera que funcionam a favor da trama, como a profundidade de campo – na cena em que a garotinha vai buscar, a pedido de um espírito misterioso, uma bolsa cheia de dinheiro para sua mãe. O jogo com o medo do espectador é feito com muita eficiência, mesmo quando o filme sai do território das sutilezas para mostrar a entidade maligna ou uma expressão assustadora no rosto da garotinha de forma mais gráfica. Mas é no modo como a garota consegue ser sinistra apenas sorrindo, que vemos o quanto este prólogo está longe da vulgaridade dos filmes do gênero. E isso é muito bom de constatar. Na trama, uma família trambiqueira, formada por uma mãe (Elizabeth Reaser, da “Saga Crepúsculo”) e duas filhas (a adolescente Annalise Basso, de “O Espelho”, e a menina Lulu Wilson, da série “The Millers”), que vive de aplicar golpes em clientes fingindo se comunicar com os mortos. Através de combinações prévias com as filhas, ela consegue enganar até mesmo as pessoas mais céticas. Mas, como é de se esperar, brincar com os espíritos – que começam a perturbar a família através do tabuleiro ouija – se provará muito perigoso. Talvez um dos problemas de “Ouija – Origem do Mal” seja a explicação da trama, que acaba sendo convencional. O que importa mesmo é a habilidade de Flanagan em extrair momentos de medo e suspense, não somente com sustos, mas por meio da construção dos personagens, fazendo com o que o público se interesse por eles. Junte-se isso à atmosfera de medo e o tratamento visual sofisticado e o resultado é um pequeno grande filme, muito melhor que o anunciado.

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    O Mestre dos Gênios destaca o pouco incensado trabalho do editor literário

    20 de outubro de 2016 /

    Em cinebiografias voltadas a grandes nomes da literatura, a singularidade de um escritor está sempre atrelada ao seu estilo de vida um tanto conturbado, geralmente encontrando em seus reveses a inspiração para a concepção de um novo livro. No entanto, há um agente intermediário sempre esquecido, aquele que desempenha uma função definitiva para a forma que uma obra literária toma antes de chegar ao público: o editor. A memória pode nos enganar, mas “O Mestre dos Gênios” deve ser o único filme em que um editor tem um nível de importância maior que a de um notável escritor. E esse personagem vem a ser uma figura real: Maxwell Evarts Perkins (Colin Firth), britânico que apostou em nomes como Ernest Hemingway (Dominic West) e F. Scott Fitzgerald (Guy Pearce). Os autores de “Adeus às Armas” e “O Grande Gatsby” seriam escolhas óbvias para assumirem o protagonismo de “O Mestre dos Gênios” ao lado de Maxwell, mas o diretor estreante Michael Grandage (de vasta experiência teatral) preferiu, junto com o roteirista John Logan (dos últimos “007”), se basear em um livro de A. Scott Berg que relata a relação do editor da Scribner com Thomas Wolfe (Jude Law) iniciada em 1929, ano em que entrega a ele centenas de páginas que se transformariam no best-seller “Look Homeward, Angel”. Os biógrafos de ambos afirmam que o convívio foi além do profissional, partindo para uma amizade quase obsessiva. Não se tratava de paixão mútua, mas de admiração por mentes igualmente brilhantes, com Maxwell sabendo exatamente como agir para organizar o tumulto intelectual de Thomas Wolfe. Uma dinâmica na qual “O Mestre dos Gênios” sugere ter quase arruinado o casamento de Maxwell com Louise Perkins (Laura Linney) e de Wolfe com a figurinista Aline Bernstein (Nicole Kidman, em parceria com Grandage continuada em “Photograph 51”, peça apresentada em Londres no ano passado sobre a cientista Rosalind Franklin). Com 43 anos, Jude Law é velho demais para dar vida a um Thomas Wolfe apresentado inicialmente aos 27 anos. Ainda assim, a efervescência que traz ao papel contrabalanceia perfeitamente a discrição a qual Colin Firth se notabilizou ao viver os seus melhores personagens. Essa sintonia, somada ao diferencial de conferir maior importância a alguém sempre eclipsado quando se discute a genialidade de um escritor, favorece o registro de Michael Grandage, que foi sábio ao dar ao seu filme um caráter mais afetuoso e menos deslumbrado.

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    A Maldição da Floresta explora terror pagão com clima onírico

    20 de outubro de 2016 /

    A safra de filmes de horror contemporâneo lançados no circuito anda tão em fraca que, quando surge algum trabalho que seja ao menos diferente, que fuja do lugar comum, já inspira festa. Este é o caso de “A Maldição da Floresta” (2015), produção que se passa na Irlanda, mas que também conta com dinheiro inglês e americano. A história companha um casal com um filho pequeno, que se muda para uma região rural da Irlanda, próxima a uma floresta que é considerada amaldiçoada e cheia de criaturas malignas, como dizem os moradores. Interessante como florestas continuam servindo de inspiração para o gênero, do melhor filme de horror deste ano, “A Bruxa”, ao pior, “A Bruxa de Blair”. Até o Brasil explorou o tema, com “A Floresta de Jonathas” (2012), de Sergio Andrade. Quanto ao filme em questão, seu mérito consiste em saber esconder as criaturas, até certo ponto, e assim torná-las mais assustadoras, mas também na coragem de explicitá-las quando chega a hora, o que acaba aproximando “A Maldição da Floresta” do tipo de cinema de horror que se fazia nas décadas de 1970 e 80, quando se trabalhava pouco ou quase nada com computação gráfica. A estreia na direção de Corin Hardy é muito bem-vinda, cheia de elementos sobrenaturais que fogem dos estereótipos do terror cristão, predominantes hoje em dia. E este tipo de cinema mais pagão ainda causa estranheza, permitindo que ganhe a aparência de uma espécie de pesadelo filmado. O clima onírico predomina e algumas cenas ficam grudadas na memória, como a tentativa do protagonista de dirigir na estrada, o olho na fechadura, ou a busca desesperada da mãe pelo filho capturado pelas criaturas. São cenas que, ainda que numa obra irregular, acabam demonstrando o talento do diretor. Além de alguns curtas-metragens no currículo, Hardy também fez alguns videoclipes antes de se lançar no cinema. Talvez o mais conhecido deles seja o que ele fez para o Keane, para a canção “Somewhere Only We Know”. Por “A Maldição da Floresta”, ele chegou a ganhar alguns prêmios em festivais de cinema fantástico, como o Screamfest e o Toronto After Dark. E embora passe longe de ser um filme perfeito, pareceu razoável o suficiente para chamar a atenção de Hollywood e dar ao diretor um grande orçamento para seu próximo filme – o amaldiçoado remake de “O Corvo” (1994).

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  • O Shaolin do Sertão
    Filme

    O Shaolin do Sertão vai de Tarantino a Didi Mocó em busca do riso fácil

    15 de outubro de 2016 /

    O sucesso popular e o caráter de novidade de “Cine Holliúdy” (2012) fizeram com que Halder Gomes se tornasse um nome quente. Não que o filme tenha sido a estreia dele na direção. Mas é como se fosse: era o seu projeto mais autoral, reunindo duas coisas que muito lhe agradavam: as artes marciais e o humor tipicamente cearense, com intenção, inclusive, de apresentar para os quatro ventos o “cearês”, o linguajar típico regional. “O Shaolin do Sertão” dá seguimento a esse projeto de comédia regional com ambição de ganhar o Brasil, e talvez até mesmo de ser vista com curiosidade por algum espectador estrangeiro. Mas talvez um dos erros de Halder tenha sido entregar o trabalho de roteirização para outra pessoa, em vez de ele mesmo cuidar disso, como fez com “Cine Holliúdy”. Ou talvez o filme tenha partido de apenas uma ideia, um esqueleto, e não tenha conseguido desenvolver tão bem o seu miolo, com as piadas, que são de fundamental importância para que o filme seja bem aceito pela plateia. Não quer dizer que “Shaolin do Sertão” não arranque algumas boa gargalhadas e que funcione melhor do que muitas outras comédias brasileiras, mas é um filme cujo humor vai ficando cansativo pela repetição e por problemas de timing e montagem. Uma das coisas que chama logo a atenção na parte técnica do filme são os créditos de abertura, que emulam uma transmissão de televisão dos anos 1980 de um filme de kung fu de Hong Kong, como aqueles que passavam com imagem espichada no Faixa Preta, programa dedicado a filmes do gênero que fez grande sucesso naquela década. A brincadeira com o fato de os atores aparecerem magos e altos se dava ao fato de a janela original em scope ser esticada para caber na telinha quadrada dos antigos televisores. Daí o personagem de Aluísio Li (Edmilson Filho, também protagonista de “Cine Holliúdy”) acreditar que os chineses eram um povo alto e magro, enquanto que os cearenses eram baixinhos e de cabeça chata. Essa é uma das boas sacadas do filme, aliás. A dicção ruim dos atores mirins em “Cine Holliúdy”, e que acabou por exigir que os filmes fossem apresentados em cópias legendadas, deixou de ser um problema em “O Shaolin do Sertão”. Até porque o garotinho Piolho, interpretado por Igor Jansen, está muito bem, no papel do melhor amigo de Aluísio. Ele é o único que entende a vontade do protagonista de se tornar uma pessoa parecida com aqueles que ele tanto admira nos filmes de artes marciais, muito embora ele só consiga apanhar e ser alvo de chacota de todos os moradores de Quixadá, cidade onde vive. A sua motivação ganha ímpeto na forma de uma disputa que acontecerá em sua cidade, que o leva a se voluntariar para lutar contra o terrível Tony Tora Pleura (Fabio Goulart), campeão de luta livre que vem vencendo e mandando para o hospital seus adversários em cada cidade do interior por onde tem passado. E daí entra em cena o personagem do Chinês, vivido por Falcão, que será, por assim dizer, o treinador de Aluísio. Os momentos de treinamento lembram tanto “Karatê Kid” (1984) quanto “Kill Bill: Vol. 1”, mas com sotaque e piadas cearenses (algumas propositalmente datadas). Pena que boa parte delas não funcione, e algumas parecem apenas grosseiras. Esse traço irregular do humor acaba por fazer de “O Shaolin do Sertão” um filme um pouco cansativo, justamente pela intenção de fazer rir a quase todo instante. Ninguém tem a obrigação de rir de piadas que não funcionam, mas percebe-se o esforço do realizador e daí vem o incômodo. Fazer comédia não é fácil. Pensando nos aspectos positivos, o filme conta com alguns ótimos momentos, e o jeitão meio Chaplin e meio Didi Mocó de Edmilson Filho faz com que ganhe a nossa simpatia. Mas não dá pra negar que se esperava muito mais, após “Cine Holliúdy”.

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  • Magnificent Seven
    Filme

    Sete Homens e um Destino explora a mitologia do western como aventura leve

    15 de outubro de 2016 /

    Nada se cria, tudo se copia. Essa máxima parece cair como uma luva em se tratando de “Sete Homens e um Destino”, seja a nova versão dirigida por Antoine Fuqua, ou até mesmo a original, com comando de John Sturges em 1960. Já naquela época se sabia que a produção era uma versão da história de “Os Sete Samurais”, de Akira Kurosawa. Se a versão de Sturges já não tinha como intuito oferecer um painel da vida no Oeste americano em fins do século 19, mas enfatizar os aspectos heroicos e selvagens e explorar a mitologia e os estereótipos do gênero, o que dizer de uma versão feita no século 21, que já viu a morte e o renascimento do western repetidas vezes, passando inclusive pelo surgimento do western spaghetti na década de 1960? Os dias de hoje, mais que o velho Oeste, refletem-se no novo remake, como mostrar um homem negro como líder do bando (Denzel Washington), além de retratar um dos pistoleiros com síndrome de pânico (Ethan Hawke) e uma mulher disposta a entrar nas trincheiras (Haley Bennett). Também não deixa de ser sintomático que Chris Pratt tenha um dos papéis mais importantes do filme, após estrelar dois blockbusters consecutivos – e se a gente pensar bem, “Guardiões da Galáxia” era meio como um western no espaço sideral, não? Não dá, por sinal, para reclamar da escolha do elenco. Sem falar que a parceria entre Denzel Washington e Antoine Fuqua tem sido bem frutífera, em filmes como “Dia de Treinamento” (2001), que também contava com Hawke, e “O Protetor” (2014). O lado negativo da produção também é reflexo da modernidade, na mão pesada de Fuqua para retratar a violência e na edição apressada das cenas de tiroteio envolvendo muitos personagens. Em alguns momentos, não temos a mínima ideia do que está acontecendo. Mas, no balanço, sobressaem-se os aspectos positivos do trabalho, como a introdução do grande vilão, Bogue, interpretado por Peter Sarsgaard, que exala maldade na cena da invasão à igreja. É um belo prólogo, assim como a apresentação do grande herói Chilson (Washington) e sua primeira conversa com a viúva de uma das vítimas de Bogue. No mais, é aquilo que todo mundo já sabe: a busca por Chilson por seis parceiros para enfrentar o bando de Bogue, que se instalou e toca o terror em uma pequena cidade. A intenção de tornar o grupo bastante eclético já se mostrava na versão de Sturges e aqui ainda é mais radical, reflexo de dias mais politicamente corretos. Além de Washington, Pratt e Hawke, há Vincent D’Onofrio, como um homem meio maluco, Byung-hun Lee, como o asiático especialista em facas, Manuel Garcia-Rulfo, como o representante mexicano, e Martin Sensmeier, como o índio. Em vários momentos, o filme é bem-sucedido em brincar com a xenofobia de alguns membros do grupo em relação ao outro, e nisso vai ficando mais leve e descompromissado. Por outro lado, o humor também diminui o impacto do drama que conduz ao enfrentamento com o grande vilão, produzindo uma aventura leve de tom meramente escapista, com direito a homenagens e referências – inclusive utilizando a música Elmer Berstein citada pelos dois compositores originais do filme.

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    Tô Ryca! recicla história conhecida em busca do grande público

    7 de outubro de 2016 /

    Há filmes que funcionam mais como um estudo antropológico do que para serem apreciados por suas qualidades. É mais ou menos o caso de “Tô Ryca!”, de Pedro Antonio, que se assume popularesco mais do que popular, que pretende dar voz a uma parcela pobre da sociedade que vai ao cinema e vai gostar de se ver na tela, nem que seja nos pequenos dramas de não ter crédito para colocar no celular ou de só poder ligar para alguém da mesma operadora. Dá para ficar pensando como esse tipo de situação será visto daqui a dez anos. Herdeiro das comédias que tratam de pessoas pobres em contraste com pessoas ricas ou mais sofisticadas, “Tô Ryca!” remete às chanchadas dos anos 1950. Mas ultimamente essa obsessão pelo dinheiro aparece cada vez mais presente, em filmes como “Até que a Sorte nos Separe” (2012), “Vai que Cola” (2015) e “Um Suburbano Sortudo” (2016). Diz muito sobre a nossa sociedade. Ou nosso cinema. Refletindo como as pessoas parecem mais interessadas em futilidades que conteúdo. Na trama extremamente simples, que funciona mais como um jogo, Selminha (Samantha Schmütz) é uma moça humilde que trabalha como frentista e vive reclamando da pobreza com sua melhor amiga Luane (Katiuscia Canoro). Até o dia em que ela recebe uma proposta de herança de um velho familiar. Ela teria que gastar R$ 30 milhões em um intervalo de um mês sem dizer a ninguém sobre isso e sem adquirir nenhum bem. A tarefa se mostra mais difícil do que ela imagina, como bem sabe quem já assistiu “Chuva de Milhões” (1985), que é basicamente a mesma história – inclusive no numerário e na parte política. “Tô Ryca!” quase consegue atingir um certo grau de decência graças à presença de Marcelo Adnet, que interpreta o político da linha conservadora desta “versão”, um “homem de bem”. Como Adnet é muito inteligente na criação dos mais variados tipos, ele se mostra muito à vontade no papel. É pequena a sua participação, mas é marcante, especialmente no terço final. É possível dar boas gargalhadas na cena do debate para prefeito do Rio de Janeiro entre ele e Selminha, a tal moça que tem a possibilidade de ficar milionária. O filme não é tão feio quanto aparenta, com seu elenco do programa “Zorra Total”, nem é uma tortura como muitos possam imaginar. É um filme que tem agradado ao grande público, que sai da sessão feliz. Além do mais, é uma das últimas vezes em que se poderá ver Marília Pêra no cinema. Ainda que por pouquíssimos minutos.

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    Lembranças de um Amor Eterno exacerba romantismo melodramático

    2 de outubro de 2016 /

    Alguns filmes têm uma pegada tão sentimental que é até compreensível que cheguem a irritar alguns espectadores. Ainda mais os de hoje, que são menos tolerantes a sentimentalidades. Pode ser muito bem o caso de “Lembranças de um Amor Eterno” (2016), novo trabalho de Giuseppe Tornatore (“O Melhor Lance”). O filme é um exemplar perfeito de um cinema canceriano por excelência (algo que não se via desde “Rocky Balboa”, de Sylvester Stallone), derramando romantismo exacerbado por todos os lados e com personagens trocando juras de amor, ainda que a situação em si seja bastante complicada para os dois. Até o símbolo do caranguejo aparece em pelo menos duas vezes no filme, seja isso uma coincidência ou não, intenção ou não do diretor. Mas há também a questão do guardar, da força das palavras de afeto, seja em cartas, seja em vídeo. Com a impossibilidade do amor físico dos personagens, o que sobra são as cartas – no caso, ou principalmente, os e-mails recebidos numa tentativa de enfrentar a morte até o último respiro de vida. Outra coisa que pode incomodar, até mesmo para aqueles que curtem a proposta estética do filme, é o clima carregado que fica no ar, como um luto prolongado. Tornatore leva o tema do amor impossível – pelo menos o amor carnal e presente – a um novo patamar. Aqui não é exatamente uma família que impede o amor do casal, como em Romeu e Julieta, para citar um exemplo clássico, mas algo maior. E esse algo maior é desafiado pelos personagens. E embora seja um filme que fala sobre questões existenciais ligadas à física, à ciência, há também uma carga de mistério e de espiritualidade, ainda que apareça de maneira quase sutil. É especialmente tocante a primeira sequência, quando o casal de amantes vivido por Jeremy Irons (“Batman vs. Superman”) e Olga Kurylenko (“Oblivium”) está se beijando e se abraçando calorosamente antes de se despedirem. Há, naquele momento, um descompasso entre os dois discursos. Ele quer que ela lhe conte um segredo; ela quer focar no amor físico, fala que quer uma camisa dele para sentir o seu cheiro quando dormir. Aquele amor adquire um tom de urgência poucas vezes impresso no cinema recente. Lembremos que a atriz ucraniana já esteve em uma espécie de filme-ensaio sobre o amor, no arriscado “Amor Pleno” (2012), de Terrence Malick. E ela tem uma aura de beleza e um olhar que passa uma melancolia que combina com esse tipo de papel. No caso do filme de Tornatore, vemos Amy, sua personagem, quase sempre desolada, em busca de migalhas deixadas pelo amor de sua vida. Pequenas mensagens, pequenos e-mails rápidos, mas que demonstram uma paixão intensa daquele homem por ela. O fato de ele saber tudo sobre ela, onde estaria em determinado momento, é um indicativo de que o mundo dele girava em torno dela, por mais que os encontros fossem escassos para tão grande amor. Pra completar, o filme ainda conta com trilha sonora do grande Ennio Morricone, este senhor de quase 90 anos que ainda está ativo e fazendo temas tão lindos. A presença da música do maestro é fundamental para a construção deste melodrama que não tem medo de ser melodrama. Algumas notas até lembram o que o músico fez em parceria com Tornatore em sua obra mais conhecida, “Cinema Paradiso” (1988). São dois artistas mais uma vez tratando da saudade. Mas muitos cinéfilos vão sentir é saudades de “Cinema Paradiso”, após o novo trabalho.

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