
Divulgação/Azul Serra
Johnny Massaro vai estrelar primeiro filme de Ailton Krenak
"Wamari Sonha" coloca missionário católico diante de líder espiritual Xavante em história sobre colonização, resistência indígena e o mundo dos sonhos
Estreia de Krenak na direção
Johnny Massaro vai protagonizar “Wamari Sonha”, primeiro longa-metragem de ficção dirigido pelo escritor e líder indígena Ailton Krenak. O ator interpreta Giácomo, um jovem padre salesiano enviado para catequizar o povo Xavante no Brasil Central dos anos 1960. Durante a missão, ele conhece Wamari Tede’wa, líder espiritual indígena vivido pelo cineasta Divino Tserewahú, num encontro que coloca em confronto a visão cristã dos missionários e a espiritualidade dos povos originários. As filmagens começaram em setembro, no Distrito Federal, com previsão de lançamento em 2027.
Uma história entre sonhos e realidade
A trama acompanha o xamã Wamari depois que ele tem uma visão sobre a chegada de religiosos dispostos a destruir o mundo de seu povo. Ao contar o sonho à comunidade, encontra resistência à ideia de abandonar o território e decide se afastar sozinho para viver no Cerrado. Nesse isolamento, passa a transitar entre a realidade e o universo dos sonhos, até receber a visita do padre interpretado por Massaro.
Em entrevista ao jornalista Matheus Leitão, do Metrópoles, Krenak explicou que o religioso aparece ao lado da esteira do xamã e acaba puxado para dentro do sonho. “O padre vai tentar converter o xamã, e o xamã vai mostrar para ele o mundo”, afirmou. A história inverte a relação esperada entre os personagens: o missionário, encarregado de transmitir sua religião, passa a conhecer outra forma de compreender a natureza e a existência.
História nasceu há mais de uma década
Krenak contou que desenvolvia a ideia havia cerca de 12 anos, mas nunca a considerou adequada para um livro. O escritor imaginava uma narrativa construída com imagens, fantasia e experiências espirituais, o que o levou a procurar Mariana Fagundes, documentarista com quem trabalhava no projeto “Fronteiras Fluidas”, realizado em território Yanomami.
A parceria transformou as conversas sobre a história num argumento cinematográfico. O primeiro roteiro tinha 135 páginas e precisou ser reduzido para viabilizar a produção. O projeto acabou estruturado para aproximadamente 20 diárias de filmagens. Quando concedeu a entrevista, em outubro, Krenak já havia concluído 93% do trabalho diante das câmeras.
A estreia no cinema representa outra etapa na trajetória do escritor, autor de “Ideias para Adiar o Fim do Mundo”, “A Vida Não É Útil” e “Futuro Ancestral”. Em 2024, ele se tornou o primeiro indígena a tomar posse na Academia Brasileira de Letras, após sua eleição no ano anterior. A realização de “Wamari Sonha” amplia para a ficção audiovisual as reflexões sobre território, ancestralidade e a relação entre humanidade e natureza presentes em sua obra literária.
Johnny Massaro aceitou papel antes de ler roteiro
Em entrevista à Veja São Paulo, Massaro revelou que aceitou participar do filme antes mesmo de conhecer o roteiro. O ator explicou que sua escolha de projetos está cada vez mais relacionada aos temas e às experiências artísticas que deseja explorar, independentemente do formato.
À coluna Outro Canal, da Folha de S.Paulo, Johnny também destacou a experiência de trabalhar com Krenak, a quem definiu como um dos diretores mais instigantes de sua carreira. “Minha intuição é de que estamos falando de um dos filmes mais importantes da filmografia nacional”, afirmou.
O novo projeto chega após trabalhos em séries importantes como “Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente” e “Emergência Radioativa”. Massaro também foi escalado para interpretar Paulo Coelho em “O Diário de Um Mago”, adaptação do livro do escritor que terá Rodrigo Santoro no elenco e direção de Vicente Amorim.
Filmagens no Cerrado
A produção de “Wamari Sonha” utilizou a Chapada Imperial, em Brazlândia, no Distrito Federal, para recriar o ambiente da história. Cerca de 50 profissionais participaram das filmagens, realizadas numa área de preservação do Cerrado. Sete indígenas Xavante da Reserva Sangradouro, em Mato Grosso, construíram as ocas que compõem a aldeia cenográfica, com características correspondentes ao período retratado.
Divino Tserewahú, que interpreta Wamari, é cineasta Xavante e assume seu primeiro personagem como ator. Luciano Chirolli vive o religioso responsável por supervisionar Giácomo. O roteiro foi escrito por Krenak em parceria com Marcos Lazarini e Mariana Fagundes, que também assina a produção pela Noctua. A fotografia é de Azul Serra, com coprodução da Buriti Filmes, produção associada da Odara Filmes e distribuição da Olhar Filmes.
Krenak manifestou a intenção de apresentar o longa ao público em 2027, mas ainda não anunciou uma data de estreia.