
Divulgação/BFI
Itália reabre investigação sobre assassinato de Pasolini após 51 anos
Nova testemunha e imagens da televisão italiana podem esclarecer a participação de outras pessoas na morte do cineasta, assassinado em 1975
Justiça volta a investigar assassinato
O Ministério Público de Roma reabriu a investigação sobre o assassinato do cineasta e escritor Pier Paolo Pasolini, morto aos 53 anos na madrugada de 2 de novembro de 1975, numa praia de Ostia, nos arredores da capital italiana. A decisão foi anunciada na segunda-feira (2/11), exatamente 51 anos depois do crime, e considera novos elementos apresentados por um advogado que contesta a versão judicial do assassinato. Entre as novidades estão uma testemunha nunca ouvida pelos investigadores e imagens de arquivo da televisão italiana que podem ajudar a esclarecer a participação de outras pessoas na morte do diretor de “O Evangelho Segundo São Mateus” (1964) e “Salò ou os 120 Dias de Sodoma” (1975).
Nova testemunha pode mudar investigação
O procedimento foi entregue à promotora Silvia Santucci, após um pedido do advogado Stefano Maccioni, que anteriormente representou Guido Mazzon, primo de Pasolini. Atualmente, ele atua em nome da Ordem dos Jornalistas do Lácio, do cineasta David Grieco e do escritor Giovanni Giovannetti. A solicitação foi apresentada em novembro de 2025 e complementada em maio de 2026, com informações obtidas a partir de uma nova análise das provas e de registros jornalísticos produzidos na época do assassinato. Maccioni afirma que o conjunto de evidências aponta para a presença de outros agressores, além de Giuseppe “Pino” Pelosi, único condenado pelo crime.
A principal novidade é a identificação de uma testemunha que ainda não havia prestado depoimento às autoridades. Sua identidade e o conteúdo das informações que poderá fornecer não foram divulgados. “Confiamos que o Ministério Público de Roma finalmente consiga oferecer as respostas que buscamos há tantos anos”, declarou Maccioni, segundo a agência italiana Ansa. O advogado também pediu que outras pessoas com conhecimento sobre o assassinato abandonem o silêncio e procurem os investigadores.
O que aconteceu com Pasolini em 1975?
Pasolini foi encontrado morto no Idroscalo de Ostia, numa área próxima ao litoral romano, depois de sofrer uma agressão brutal. O corpo apresentava numerosos ferimentos e havia sido atropelado pelo próprio automóvel. A polícia prendeu Giuseppe Pelosi, então com 17 anos, que foi encontrado dirigindo o carro do cineasta e acabou confessando o assassinato. O adolescente afirmou que havia reagido a uma suposta tentativa de violência sexual. A versão foi contestada desde o início por amigos e pessoas próximas do artista, que consideravam improvável que um único agressor tivesse provocado tantos ferimentos.
Pelosi foi condenado em 1976 a nove anos e sete meses de prisão. A primeira sentença admitia a possibilidade de participação de outras pessoas não identificadas, mas as decisões posteriores não confirmaram a existência de cúmplices. O jovem obteve liberdade condicional em 1983, e o processo terminou com sua responsabilidade pelo homicídio estabelecida judicialmente.
Em 2005, entretanto, Pelosi retirou a confissão e apresentou uma história completamente diferente. Disse que Pasolini havia sido espancado por três homens que queriam lhe dar uma lição e que teria assumido a responsabilidade pelo assassinato após sofrer ameaças. Segundo seu novo relato, os agressores proferiram insultos contra o cineasta durante a violência. A mudança de versão reacendeu as suspeitas de que o crime pudesse ter motivações políticas ou homofóbicas. Pelosi morreu de câncer em 2017, aos 58 anos, sem que a Justiça esclarecesse as contradições entre seus depoimentos.
Imagens antigas e vestígios de DNA
Uma das linhas de investigação envolve imagens dos telejornais da Rai, emissora pública italiana, realizadas durante a cobertura do assassinato. A defesa de Maccioni sustenta que esses registros, analisados em conjunto com os documentos e depoimentos reunidos ao longo de cinco décadas, contradizem a hipótese de que Pelosi agiu sozinho. Os materiais foram apresentados ao Ministério Público como parte do pedido de novas diligências.
Outra questão ainda não resolvida envolve vestígios de DNA encontrados em objetos e roupas relacionados ao crime. Exames realizados pelos carabinieri, a polícia militar italiana, identificaram diferentes perfis genéticos, mas não permitiram determinar a identidade de todas as pessoas que deixaram os materiais. A descoberta motivou pedidos de aprofundamento das perícias, especialmente para estabelecer se havia outros indivíduos presentes na cena do assassinato.
As tentativas anteriores de reabrir o caso não prosperaram. Uma investigação complementar foi arquivada em 2015, e novas solicitações, apresentadas em 2016 e 2023, acabaram rejeitadas por insuficiência de elementos. Na última decisão, o Ministério Público considerou que os indícios apresentados repetiam questões já examinadas e não justificavam novas diligências. A inclusão de uma testemunha inédita e a revisão do conjunto de provas contribuíram agora para uma decisão diferente.
Suspeitas de crime político e o último filme
As dúvidas sobre o assassinato alimentaram diversas hipóteses ao longo dos anos. Pasolini era abertamente homossexual, militante de esquerda e um crítico contundente do conservadorismo, do neofascismo e das transformações sociais da Itália. Seus artigos políticos, publicados especialmente no jornal “Corriere della Sera”, denunciavam relações entre poder econômico, instituições e violência política. Parte dos pesquisadores de sua obra e de seus amigos suspeita que ele tenha sido vítima de uma emboscada organizada por adversários políticos, embora essa possibilidade nunca tenha sido comprovada judicialmente.
Outra linha de investigação associa o crime ao desaparecimento de rolos de película de “Salò ou os 120 Dias de Sodoma”, seu último filme. O material teria sido roubado antes do assassinato, e surgiram suspeitas de que o cineasta teria sido atraído a uma armadilha sob a promessa de recuperá-lo. Declarações de Maurizio Abbatino, integrante da organização criminosa romana Banda della Magliana, chegaram a ser examinadas pelos investigadores, mas não resultaram na confirmação dessa hipótese. O filme, inspirado na obra do Marquês de Sade e ambientado durante o fascismo italiano, estreou depois da morte do diretor.
Uma das figuras centrais do cinema italiano
Nascido em Bolonha, em 1922, Pasolini construiu uma carreira que reuniu poesia, literatura, jornalismo e cinema. Seus romances “Meninos da Vida” (1955) e “Uma Vida Violenta” (1959) retrataram a marginalização social nas periferias romanas, tema que também marcou sua estreia como diretor em “Accattone: Desajuste Social” (1961). Em “Mamma Roma” (1962), com Anna Magnani, aprofundou o interesse pelos personagens excluídos do desenvolvimento econômico italiano.
A filmografia avançou por caminhos diferentes, da releitura religiosa de “O Evangelho Segundo São Mateus” à provocação política de “Teorema” (1968), passando por adaptações literárias como “Decameron” (1971), “Os Contos de Canterbury” (1972) e “As Mil e Uma Noites” (1974). Seu último trabalho, “Salò”, deslocou os escritos do Marquês de Sade para a República Social Italiana, regime fascista que existiu durante a fase final da 2ª Guerra Mundial, para estabelecer uma relação entre violência sexual, autoritarismo e poder.
As circunstâncias de sua morte também inspiraram produções cinematográficas. Em “Pasolini” (2014), Abel Ferrara reconstruiu as últimas horas do artista, interpretado por Willem Dafoe. Dois anos depois, David Grieco dirigiu “La Macchinazione”, com Massimo Ranieri no papel principal, concentrando a narrativa na hipótese de uma conspiração por trás do assassinato. Grieco agora integra o grupo que solicitou a nova investigação à Justiça italiana.