
Divulgação/Toho
Guia | Godzilla ataca cinemas em semana com cinco filmes brasileiros
Volta do monstro japonês divide salas com o representante do Brasil no Oscar 2027, animações, comédias e filmes premiados em festivais
Cinco produções brasileiras estão entre as dez estreias de cinema desta semana, com destaque para “Feito Pipa”, escolhido para representar o país na disputa pelo Oscar 2027. A programação inclui ainda a volta de Godzilla ao cinema japonês, uma nova animação de Dr. Seuss e a tragicomédia de Martin McDonagh que rendeu a John Malkovich o prêmio de Melhor Ator no Festival de Veneza. Confira a lista completa dos lançamentos com detalhes.
🎞️ GODZILLA MINUS ZERO
O monstro mais famoso do cinema japonês retorna numa continuação direta de “Godzilla Minus One”, produção que venceu o Oscar de Melhores Efeitos Visuais em 2024. Takashi Yamazaki assume novamente o roteiro, a direção e a supervisão dos efeitos digitais com uma história ambientada em 1949, dois anos depois dos acontecimentos do filme anterior. A nova produção também marca a primeira vez que um longa japonês foi filmado com câmeras certificadas para IMAX, com cenas especialmente concebidas para as proporções ampliadas desse formato.
Ryunosuke Kamiki (“As the Gods Will”) volta como Koichi Shikishima, antigo piloto militar que enfrentou Godzilla durante a reconstrução do Japão depois da 2ª Guerra Mundial. Minami Hamabe (“Shin Kamen Rider”) retoma o papel de Noriko, agora integrada à família que tentou reconstruir com Koichi e a pequena Akiko. Quando o monstro reaparece, os sobreviventes precisam enfrentar outra ameaça num país que ainda não se recuperou da destruição anterior. Hidetaka Yoshioka (“Godzilla Minus One”) também retorna como Kenji Noda, agora responsável por coordenar as operações contra a criatura, enquanto Min Tanaka (“Kokuho”) interpreta um biólogo marcado pelas experiências da guerra.
Yamazaki amplia a escala das cenas de destruição sem abandonar a perspectiva dos sobreviventes, principal diferença de sua abordagem em relação às aventuras americanas de Godzilla e Kong. O espetáculo dos efeitos digitais permanece associado às consequências humanas dos ataques, enquanto a reconstrução do pós-guerra oferece contexto para questões sobre trauma, responsabilidade e sacrifício. A continuação recebeu 93% de aprovação inicial no Rotten Tomatoes após sua apresentação no Festival de Nova York, com destaque para as sequências de ação e a manutenção do drama familiar que caracterizou o filme anterior.
🎞️ O GATOLA DA CARTOLA
O personagem criado pelo escritor e ilustrador Dr. Seuss ganha seu primeiro longa-metragem de animação para os cinemas, mais de 20 anos depois da adaptação com atores estrelada por Mike Myers. A nova produção da Warner Bros. Pictures Animation tem direção de Alessandro Carloni (“Kung Fu Panda 3”) e Erica Rivinoja (“Tá Chovendo Hambúrguer 2”), e traz Bill Hader (“Barry”) como a voz original do felino de cartola listrada.
Desta vez, o Gatola trabalha para o Instituto para Instituir a Imaginação e a Inspiração, organização encarregada de devolver a alegria a crianças desanimadas. Sua missão é ajudar os irmãos Gabby e Sebastian, que enfrentam dificuldades de adaptação depois da mudança para outra cidade. O problema é que sua maneira de resolver situações costuma provocar ainda mais confusão. Após uma série de excessos, ele corre o risco de perder seu chapéu mágico.
A animação amplia a premissa do livro de 1957, no qual a visita de um gato extravagante transforma uma tarde doméstica numa sucessão de absurdos. A inclusão de uma agência dedicada à imaginação e o enredo com viagem por cenários fantásticos deslocam a história para uma aventura de maior escala. O humor continua baseado no contraste entre a imaginação ilimitada do protagonista e as consequências de sua incapacidade de respeitar regras, com desenhos que procuram reproduzir as formas curvas e exageradas das ilustrações de Seuss.
🎞️ CAVALO SELVAGEM NOVE
John Malkovich conquistou a Copa Volpi de Melhor Ator no Festival de Veneza por sua interpretação nesta nova tragicomédia de Martin McDonagh, diretor de “Três Anúncios para um Crime” e “Os Banshees de Inisherin”. Ambientada no Chile de 1973, pouco antes do golpe militar contra Salvador Allende, a produção acompanha dois agentes americanos da CIA envolvidos nas operações clandestinas que antecedem a derrubada do governo socialista.
Malkovich interpreta Chris, veterano dos serviços secretos que carrega décadas de operações violentas e segredos políticos. Seu parceiro Lee (Sam Rockwell, de “Três Anúncios para um Crime”) recebe a missão de acompanhá-lo à Ilha de Páscoa, por ordem do chefe MJ (Steve Buscemi, de “Fargo”). Cercados pelos monumentos de Rapa Nui, os agentes passam os dias entre discussões, lembranças e suspeitas sobre as verdadeiras razões da viagem. A aproximação de Chris com duas estudantes chilenas, interpretadas por Mariana di Girolamo (“Ema”) e Ailín Salas (“Lulu”), interfere nos interesses da agência. Parker Posey (“The White Lotus”) e Tom Waits (“O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus”) completam o elenco.
McDonagh retoma o humor ácido e os confrontos verbais entre homens incapazes de reconhecer os próprios sentimentos, características de seus filmes mais populares, “Na Mira do Chefe” e “Os Banshees de Inisherin”. A diferença está no contexto político: os protagonistas participaram da desestabilização de governos estrangeiros e precisam conviver com as consequências de seus atos. O roteiro aproxima a decadência pessoal dos agentes da violência praticada em nome dos interesses americanos, embora dedique mais atenção à relação entre os dois do que ao funcionamento das operações no Chile. A combinação de diálogos corrosivos, melancolia e violência conquistou 93% de aprovação no Rotten Tomatoes.
🎞️ KLARA E O SOL
Jenna Ortega (“Wandinha”) interpreta uma androide programada para fazer companhia a seres humanos na adaptação do romance de Kazuo Ishiguro, vencedor do Nobel de Literatura. O filme tem roteiro e direção de Taika Waititi (“Jojo Rabbit”) e apresenta um futuro em que famílias com recursos financeiros podem adquirir Amigos Artificiais para acompanhar seus filhos. Klara é uma dessas máquinas, alimentada por energia solar e convencida de que sua função é encontrar alguém a quem dedicar toda a sua existência.
A oportunidade surge quando Josie (Mia Tharia), adolescente com graves problemas de saúde, escolhe Klara para morar com sua família. A jovem vive isolada e mantém uma relação difícil com a mãe, Chrissy (Amy Adams, de “A Chegada”), que enfrenta o medo de perder a filha depois de outras experiências traumáticas. Klara tenta compreender o comportamento dos humanos e encontra na amizade com Josie razões para questionar sua própria natureza. O elenco também traz Steve Buscemi (“Boardwalk Empire”) e Natasha Lyonne (“Poker Face”), que interpreta a responsável pela loja de androides.
O romance de Ishiguro trata da consciência artificial, da mortalidade e da possibilidade de substituir relações humanas por simulacros tecnológicos. Waititi aborda essas questões por meio do humor excêntrico e do sentimentalismo que caracterizam parte de sua filmografia, mas a combinação recebeu críticas severas em sua estreia internacional. O tom de fábula infantil enfraquece a ambiguidade moral do livro, enquanto a construção excessivamente ingênua de Klara reduz a complexidade das perguntas sobre sua capacidade de sentir e interpretar o mundo. A produção teve recepção majoritariamente negativa no Rotten Tomatoes, apesar da avaliação mais favorável do público.
🎞️ FEITO PIPA
Escolhido para representar o Brasil na disputa pelo Oscar 2027 de Melhor Filme Internacional, o drama cearense chega ao circuito comercial depois de uma trajetória de premiações. Venceu o Urso de Cristal e o Grande Prêmio do Júri Internacional da mostra Generation Kplus no Festival de Berlim, além de conquistar quatro Kikitos no Festival de Gramado. O longa acompanha Gugu (Yuri Gomes), menino de 11 anos que sonha em jogar futebol profissionalmente e encontra na avó Dilma (Teca Pereira) a liberdade para expressar sua personalidade sem medo dos julgamentos alheios.
Os dois vivem perto de uma barragem no sertão do Ceará, onde a seca começa a revelar as ruínas de uma cidade submersa. A transformação da paisagem coincide com o avanço do Alzheimer de Dilma, que apresenta dificuldades cada vez maiores para preservar suas lembranças. Gugu percebe o agravamento da doença, mas tenta esconder a situação para não ser separado da avó e obrigado a morar com Batista (Lázaro Ramos, de “Ó Paí, Ó”), o pai que não aceita sua maneira de ser. A ameaça de perder seu principal vínculo afetivo obriga o garoto a assumir responsabilidades muito maiores do que sua idade comporta.
Allan Deberton, diretor de “Pacarrete”, utiliza as paisagens de Quixadá para relacionar a memória familiar à história de uma comunidade literalmente apagada pelas águas. A cidade que reaparece no fundo da barragem estabelece um paralelo com as lembranças que Dilma começa a perder, enquanto Gugu tenta conservar os pequenos rituais que sustentam a convivência entre os dois. O roteiro de André Araújo aborda o preconceito contra a identidade do menino sem reduzir sua personalidade ao sofrimento, preservando espaço para o humor, o futebol e a liberdade de sua infância.
🎞️ OS FAROFEIROS 3
Depois das férias desastrosas dos dois primeiros filmes, o grupo de amigos da franquia chega ao Caribe para sua primeira viagem internacional. A comédia dirigida por Roberto Santucci (“Até que a Sorte nos Separe”) retoma os personagens de Cacau Protásio (“Vai que Cola”), Maurício Manfrini (“A Praça É Nossa”), Danielle Winits (“Até que a Sorte nos Separe”) e Charles Paraventi (“Cidade de Deus”). Desta vez, o grupo se reúne para o casamento de Anita (Ana Cecília Banal, “Um Tio Quase Perfeito”), filha de Rocha (Charles Paraventi, “Meu Cunhado É um Vampiro”), que convida os amigos para uma viagem ao Caribe com todas as despesas pagas.
A viagem leva todos à ilha fictícia de San Martinez, onde o pai da noiva prometeu hospedagem num resort de luxo com as despesas pagas. Ao desembarcarem, os convidados descobrem que Rocha gastou quase todo o dinheiro para organizar o casamento e os acomodou no hotel mais barato da região. Entre problemas com a imigração, confusões com a moeda local e dificuldades de comunicação, o grupo precisa esconder de Anita a verdadeira situação financeira da família. A possibilidade de a noiva desistir do casamento complica ainda mais os planos.
O roteiro de Paulo Cursino conserva a fórmula de constrangimentos coletivos e conflitos entre amigos que sustentou os filmes anteriores, mas desloca a ação para o turismo internacional. O contraste entre as expectativas de luxo e a realidade econômica dos personagens fornece o principal motor das situações cômicas. Em vez de reinventar a franquia, a produção amplia o cenário das férias fracassadas e aposta novamente no humor físico, nas discussões do grupo e nas tentativas de esconder problemas que se tornam progressivamente mais difíceis de disfarçar.
🎞️ ASSALTO À BRASILEIRA
O assalto ao Banestado de Londrina, em dezembro de 1987, mobilizou centenas de reféns, paralisou o centro da cidade e provocou uma reação inesperada: parte da população passou a torcer pelos criminosos. O episódio real inspira o filme policial de José Eduardo Belmonte (“Alemão”), que combina suspense e comédia para reconstruir um crime marcado pela improvisação dos assaltantes e pela crise econômica brasileira. O roteiro adapta o livro homônimo de Domingos Pellegrini.
Murilo Benício (“O Homem do Ano”) interpreta Paulo, jornalista recém-demitido que vai ao banco retirar o dinheiro de sua rescisão e acaba surpreendido pela invasão de sete homens armados. Ao perceber que os assaltantes não possuem um plano consistente, ele enxerga a possibilidade de conseguir uma reportagem exclusiva e passa a participar das negociações com a polícia. Christian Malheiros (“Sintonia”) vive Moreno, um dos líderes da quadrilha, num elenco que também reúne Robson Nunes (“Carandiru”), Augusto Madeira (“Bingo: O Rei das Manhãs”) e o cantor Paulo Miklos (“O Invasor”).
A reconstituição de época estabelece o ambiente de instabilidade econômica que ajuda a explicar a simpatia dos moradores pelos ladrões. Belmonte faz do jornalista o intermediário entre os diferentes interesses envolvidos e utiliza a incompetência dos criminosos para introduzir humor numa situação de violência real. O contraste entre o aparato policial, os improvisos da quadrilha e a reação popular diferencia o filme dos relatos tradicionais sobre assaltos a bancos. Benício e Malheiros foram premiados por suas interpretações no Festival de Brasília, onde a produção também venceu o prêmio do Júri Popular.
🎞️ VICENTINA PEDE DESCULPAS
Gabriel Martins retorna à direção de longas quatro anos depois de “Marte Um” com outro drama protagonizado por personagens negros de Belo Horizonte. A produção da Filmes de Plástico foi selecionada para os festivais de Toronto e San Sebastián e escolhida para representar o Brasil na disputa pelo Prêmio Goya 2027, principal premiação do cinema espanhol.
Rejane Faria (“Temporada”) interpreta Vicentina, professora aposentada de 75 anos que enfrenta as consequências de uma tragédia provocada pelo próprio filho. Wesley (Renato Novaes, de “O Dia que Te Conheci”) trabalhava como motorista de ônibus quando perdeu o controle do veículo ao atravessar um viaduto, provocando um acidente que matou quase todos os passageiros. A análise das câmeras de segurança levanta suspeitas de que ele tenha provocado deliberadamente a queda para tirar a própria vida. Diante das notícias e da hostilidade despertada pelo episódio, Vicentina decide procurar pessoalmente as famílias das vítimas para pedir desculpas. Cada encontro apresenta uma reação diferente, entre a revolta, o sofrimento e a dificuldade de compreender as razões do motorista. Maíra Azevedo (“Sintonia”), Grace Passô (“Temporada”) e Flávio Bauraqui (“Bacurau”) integram o elenco.
O roteiro coloca a protagonista diante de pessoas que também perderam familiares, mas não compartilham necessariamente sua disposição para buscar reconciliação. A repetição dos pedidos de desculpa estabelece a estrutura dramática de uma narrativa com quase duas horas e meia de duração, sustentada principalmente pela interpretação contida de Rejane Faria. O filme encontra sua força no contraste entre o sentimento de responsabilidade da mãe e a impossibilidade de responder pelas escolhas do filho, embora a sucessão de encontros prolongue conflitos que já ficaram claros anteriormente. A fotografia de Leonardo Feliciano, colaborador de Martins em “Marte Um”, utiliza os espaços urbanos de Belo Horizonte como parte do cotidiano social dos personagens.
🎞️ ANA, EN PASSANT
A animação de estreia da diretora Fernanda Salgado reúne Brasil, Portugal e França numa história sobre memória familiar, identidade negra e pertencimento. A produção conquistou o Prêmio Zózimo Bulbul de Melhor Longa-Metragem no Festival de Brasília e o prêmio do público da mostra Vanguard no Festival de Vancouver, além de integrar a programação da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. O elenco reúne Jéssica Pierina, Zezé Motta (“Xica da Silva”) e Carlos Francisco (“Marte Um”).
A protagonista é Ana, jovem franco-brasileira que vive em Paris e perde a avó, uma brasileira que trabalhou como dançarina e professora de dança. Ao organizar os pertences deixados pela idosa, encontra uma carta, fotografias, duas chaves e um endereço em Belo Horizonte. As pistas a levam ao Brasil, onde conhece Alice, mulher que se parece com ela e ocupa o antigo apartamento da avó. O encontro conduz as duas por lembranças, histórias familiares e experiências que ligam diferentes gerações de mulheres negras.
Fernanda Salgado emprega animação 2D, rotoscopia, colagem e stop-motion para construir imagens que alternam diferentes formas de representação. A diversidade de técnicas corresponde à estrutura fragmentada das lembranças que Ana tenta reconstruir, sem limitar a narrativa a uma reconstituição realista do passado. A trilha sonora do grupo Metá Metá acompanha a investigação das origens brasileiras da protagonista, enquanto a relação entre Ana e Alice desloca a descoberta familiar para questões sobre identidade, herança cultural e a maneira como cada pessoa constrói sua própria imagem.
🎞️ GEORGE MICHAEL: THE FAITH TOUR
Imagens inéditas de George Michael durante a turnê mundial de “Faith”, em 1988, chegam aos cinemas numa produção restaurada e remasterizada para exibição em IMAX. O filme reúne registros de dois shows realizados no Palais Omnisports de Paris-Bercy, na França, captados originalmente em película de 35 mm por uma equipe de 14 câmeras. O material permaneceu inédito por décadas e documenta o período em que o cantor consolidava sua carreira solo depois do sucesso com o Wham!.
A produção tem direção de David Austin e Andrew Morahan, este último responsável por alguns dos videoclipes mais conhecidos do artista, incluindo “Faith” e “Father Figure”. Antes do concerto, o público acompanha “Finding Faith”, curta-metragem dirigido pela fotógrafa e cineasta Mary McCartney. O trabalho utiliza imagens e gravações de áudio recuperadas do período entre 1986 e 1988 para apresentar o contexto pessoal e artístico da transformação de George Michael em estrela internacional.
Diferentemente dos documentários biográficos organizados em torno de entrevistas e depoimentos posteriores, a produção concentra sua atenção na apresentação musical e na presença de palco do cantor. A restauração das imagens oferece a possibilidade de observar a turnê em sua escala original, com a montagem de diferentes ângulos e a recuperação do som. O curta de abertura acrescenta contexto àquele momento da carreira, quando o disco “Faith” estabeleceu George Michael como um dos compositores e intérpretes mais importantes de sua época, ultrapassando a identidade pop construída durante os anos de Wham!.