
IA Arte/Pipoca Moderna
Vorcaro controlava Jornalismo da grande imprensa com dinheiro do Master
Mensagens revelam interferência em pautas do Metrópoles, O Globo, Valor, IstoÉ, Vogue, Brazil Journal e outros sites, com pagamentos milionários e vetos editoriais
Escândalo se amplia para outros veículos
O escândalo que provocou a demissão de Frederic Kachar, diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio da Globo, se ampliou nesta quinta-feira (15/10) com o vazamento de novas mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Uma investigação dos jornalistas Renata Agostini e Tiago Dantas, do UOL, revelou que o banqueiro conseguiu interferir no conteúdo de reportagens do Metrópoles, O Globo, Valor, IstoÉ, Brazil Journal, PlatôBR, Diário do Centro do Mundo (DCM) e CartaCapital por meio de contratos publicitários, investimentos e relações diretas com seus dirigentes. Os diálogos mostram que Vorcaro não se limitava a tentar influenciar a cobertura: recebia matérias antes da publicação, exigia alterações, vetava assuntos e encomendava ataques a adversários políticos.
Como Vorcaro interferia no Metrópoles?
A relação com o Metrópoles envolveu um contrato publicitário de R$ 20 milhões, fechado em 2024 e pago pelo Master no ano seguinte. Segundo o levantamento do UOL, CEO do portal, Lilian Tahan, passou a encaminhar reportagens ao banqueiro para sua avaliação antes de publicá-las. O UOL afirma que pelo menos 14 textos foram submetidos a Vorcaro, dos quais 11 sofreram alterações solicitadas por ele. Duas matérias também foram produzidas a seu pedido. Em abril de 2025, ao enviar um perfil do empresário, Tahan informou que não publicaria o material antes de conversar com ele.
A interferência alcançava notícias sobre os negócios do banco e seus adversários. Vorcaro conseguiu retirar referências à Hapvida de uma reportagem, modificar textos sobre Renato Gomes, diretor do Banco Central contrário à compra do Master pelo BRB, e incluir especulações sobre o futuro profissional do funcionário público. Também pediu que o portal reduzisse temporariamente a cobertura do político Ricardo Cappelli, crítico da operação. “Deixa comigo”, respondeu Tahan. As trocas de mensagens continuaram até 17 de novembro de 2025, dia em que Vorcaro foi preso.
Questionada pelo UOL sobre as revelações, Lilian Tahan justificou o envio antecipado das reportagens como uma prática de checagem de informações com fontes e negou interferência do contrato publicitário na cobertura jornalística. “Basta ver a quantidade de matérias publicadas pelo Metrópoles expondo a situação das empresas de Vorcaro, tais como Banco Master, Ambipar, Fictor, Oncoclínicas, dentre outras”, argumentou.
Vorcaro dizia ter controle sobre a IstoÉ
A influência sobre a IstoÉ e a IstoÉ Dinheiro passava pelo empresário Flávio Carneiro, assessor de imagem de Vorcaro e investidor das publicações, controladas por Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro. Em 2024, o banqueiro encomendou uma capa da IstoÉ Dinheiro sobre a farmacêutica Biomm, empresa na qual tinha investimentos. “Na IstoÉ é que controlamos mais”, afirmou ao assessor.
O banqueiro também determinava que notícias envolvendo determinados políticos passassem por seu aval. Em setembro de 2024, enviou a Carneiro uma orientação para que matérias sobre Ciro Nogueira, Arthur Lira e Hugo Motta não fossem publicadas sem seu conhecimento. Os três exerciam influência sobre o Congresso e estavam entre os contatos políticos de interesse do empresário.
No PlatôBR, que tem como sócia a Foone, empresa de Carneiro, a intervenção era ainda mais explícita. O assessor enviava textos completos para Vorcaro aprovar, atendia pedidos de mudanças depois da publicação e recebia ordens sobre quem deveria ou não ser mencionado. Em agosto de 2025, o banqueiro exigiu que o site deixasse de abordar Ciro Nogueira e Antônio Rueda, presidente do União Brasil. Também mandou mobilizar a publicação contra Ricardo Cappelli, do Metrópolis, a quem pretendia atingir com reportagens negativas. Carneiro respondeu que alinharia a ofensiva com o PlatôBR e o Correio.
Brazil Journal submetia textos à aprovação do banqueiro
No Brazil Journal, a relação envolvia o próprio fundador, Geraldo Samor. As mensagens mostram que ele consultava Vorcaro antes de publicar matérias sobre o Master e atendia pedidos de alteração. Em fevereiro de 2024, o banqueiro conseguiu retirar uma expressão de um texto sobre seus negócios no agronegócio. Dias depois, pediu a exclusão do nome do banco Voiter de uma reportagem sobre a compra do Will Bank, solicitação prontamente atendida.
A aproximação também tinha vínculos empresariais. Em 2023, Samor criou a BJ Conteúdo, empresa de vídeos e eventos ligada ao site, com participação de 49,86% da Foone, de Flávio Carneiro. Conversas posteriores mostram uma preocupação em evitar que a identidade dos investidores comprometesse a aparência de independência da publicação. Em abril de 2024, Samor submeteu a Vorcaro uma reportagem sobre um evento do Master em Londres e acatou orientações relacionadas à menção de encontros entre o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair e os ministros Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. Procurado pelo UOL, o jornalista não respondeu.
DCM recebia pagamentos para não criticar o banqueiro
As mensagens apontam um acordo ainda mais direto com o Diário do Centro do Mundo. Felipe Mourão, responsável pela reputação digital de Vorcaro, negociou pagamentos mensais para impedir a publicação de críticas ao empresário e ao Banco Master. Em outubro de 2024, comunicou que o acerto estava concluído e que o site removeria eventuais matérias negativas. O contrato também permitiria publicar mensalmente um texto favorável aos interesses do banqueiro ou contrário a alguém indicado por ele.
Em maio de 2025, quando o DCM publicou um artigo crítico ao Master, Vorcaro exigiu sua retirada imediata. Segundo Mourão, o texto foi apagado no mesmo dia. A correspondência também registra interferências anteriores, incluindo o veto a uma referência a Henrique Vorcaro, pai do banqueiro. O UOL não conseguiu contato com os responsáveis pelo site para comentar as revelações.
CartaCapital negociou participação societária
Na CartaCapital, a relação financeira começou antes. Em dezembro de 2020, o Banco Máxima, posteriormente rebatizado como Master, adiantou R$ 300 mil à publicação. No ano seguinte, as partes fecharam um contrato de patrocínio de cinco anos. A diretora da revista, Manuela Carta, chegou a solicitar recursos adicionais a Vorcaro para pagar a folha de salários.
Em agosto de 2023, a direção deixou nas mãos do banqueiro a decisão sobre publicar uma reportagem que estava sendo preparada. No mesmo período, Vorcaro e Manuela discutiram sua possível entrada como sócio da revista. As negociações não avançaram, mas a dependência financeira continuou: em 2024, ela voltou a solicitar adiantamento de publicidade, e Vorcaro ofereceu ajuda pessoal, desvinculada do banco. A CartaCapital também não respondeu aos contatos feitos pelo UOL até a publicação da reportagem.
Demissão na Globo antecipou novas revelações
As novas descobertas foram divulgadas no mesmo dia em que a Globo demitiu Frederic Kachar, após as revelações do TV Pop e de O Antagonista sobre suas conversas com Vorcaro. O executivo, que comandava publicações como Vogue, Marie Claire e O Globo, prometeu pautar revistas para promover Martha Graeff, então namorada do banqueiro. Três veículos publicaram reportagens sobre o empreendimento dela na data combinada.
As conversas com Frederic Kachar revelaram ainda a insatisfação de Vorcaro com o trabalho dos jornalistas Malu Gaspar e Lauro Jardim, de O Globo, e com reportagens do Valor Econômico. Em abril de 2024, após Malu questionar o patrocínio do Master a um evento em Londres com integrantes de tribunais superiores, o banqueiro ameaçou cancelar um compromisso publicitário com o Valor. Kachar respondeu que pediria a correção de eventuais erros, mas ressaltou a autonomia da colunista: “A Malu é livre. Ninguém a escala”.
Em abril de 2025, Vorcaro voltou a atacar a jornalista após uma reportagem sobre processos envolvendo gestores do Master. “Isso é sacanagem demais Fred, numa boa”, reclamou. Kachar afirmou considerar a situação “cansativa e desnecessária” e prometeu: “Vou falar com ela”. O banqueiro também acusou Lauro Jardim de publicar informações falsas e perguntou se havia uma “campanha corporativa” contra ele. “Não tem campanha alguma, claro”, respondeu o executivo. As mensagens não demonstram que os dois colunistas tenham alterado sua cobertura em consequência dessas pressões.
O Valor Econômico também provocava atritos. Em setembro de 2024, Vorcaro reclamou de uma reportagem sobre os resultados financeiros do Master e afirmou que precisava de “uma matéria muito boa pra criar gordura de mídia”. Kachar defendeu os jornalistas: “Eles colocaram os dois lados. Não dá pra fazer matéria sem olhar pra todos os fatos”. Em março de 2025, após uma análise crítica sobre a negociação de venda do banco ao BRB, o empresário voltou a cobrar o executivo, classificou o texto como “maldoso” e reclamou de uma parceria que funcionaria em apenas uma direção. Kachar concordou que a análise deveria incluir a posição de Vorcaro e informou posteriormente que o jornalista Álvaro Campos havia acrescentado declarações do banqueiro.
A Globo reconheceu que as mensagens demonstravam uma relação inadequada com um anunciante e reafirmou sua independência editorial.
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