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Snapchat e Instagram vão ao banco dos réus por vício de adolescentes em redes sociais
Processo aberto nos Estados Unidos pode influenciar milhares de ações contra empresas de tecnologia
Primeiro julgamento contra Snapchat
O Snapchat começou a enfrentar seu primeiro julgamento nos Estados Unidos por acusações de provocar dependência entre crianças e adolescentes. O processo, aberto em Los Angeles, também envolve a Meta, proprietária do Instagram, e pode influenciar o resultado de milhares de ações semelhantes contra empresas de tecnologia. Duas jovens responsabilizam os mecanismos de funcionamento das plataformas por problemas de saúde mental, entre eles depressão, ansiedade, transtornos alimentares e automutilação.
O que está sendo julgado?
As acusações envolvem recursos desenvolvidos para prolongar o tempo de permanência dos usuários nos aplicativos. Os advogados das jovens apontam mecanismos como reprodução automática de vídeos, rolagem infinita de conteúdo, notificações e os chamados Snapstreaks, que incentivam a troca diária de mensagens entre amigos para preservar sequências de interação.
Uma das autoras, identificada pelas iniciais S.J., tem 16 anos e mora em Illinois. Segundo sua ação, o uso compulsivo do Snapchat contribuiu para dificuldades de sono, ansiedade, depressão, transtornos alimentares e comportamentos autodestrutivos. A outra, K.D.B., de 18 anos, vive no Mississippi e atribui parte de seus problemas ao uso excessivo do Snapchat e do Instagram desde a infância.
As duas haviam processado também o TikTok e o YouTube, mas as empresas chegaram a acordos antes do julgamento. A Meta fez o mesmo com S.J., permanecendo como ré apenas na ação apresentada por K.D.B. A Snap continua envolvida nos dois processos, reunidos pelo tribunal da Califórnia para análise conjunta.
Executivos devem depor
A seleção dos jurados começou na quarta-feira (28/10), e a apresentação dos argumentos está prevista para 4 de novembro. O julgamento deve prosseguir até meados de dezembro, com depoimentos esperados de Mark Zuckerberg, presidente da Meta, Evan Spiegel, fundador e presidente da Snap, e Adam Mosseri, responsável pelo Instagram.
A Snap nega que seu aplicativo tenha sido concebido para causar dependência. A empresa argumenta que o Snapchat funciona principalmente como serviço de mensagens e abre diretamente na câmera, ao contrário de plataformas organizadas em torno de um feed de publicações. Também afirma ter implantado ferramentas de proteção para usuários menores de idade.
A Meta contesta a relação causal apresentada na ação e sustenta que a saúde mental dos adolescentes é influenciada por diferentes fatores. A defesa afirma que uma das autoras utilizava o TikTok com frequência superior à de seus aplicativos. As empresas também tentaram obter proteção judicial com base na Seção 230 da legislação americana, que limita a responsabilidade das plataformas por conteúdos publicados por terceiros. A Justiça, entretanto, permitiu o prosseguimento das acusações relacionadas ao funcionamento dos aplicativos.
Bilhões em disputa
O julgamento é considerado um caso de referência para mais de 3 mil ações reunidas no Tribunal Superior de Los Angeles. Embora as indenizações sejam decididas individualmente, o resultado pode influenciar acordos e estratégias jurídicas de outros processos que questionam a responsabilidade das plataformas pelo comportamento compulsivo dos usuários.
Em março deste ano, um júri de Los Angeles condenou Meta e YouTube ao pagamento conjunto de US$ 6 milhões num caso semelhante, após concluir que as empresas foram negligentes no desenvolvimento de produtos que prejudicaram uma jovem usuária. As companhias recorreram da decisão. Snap e TikTok haviam firmado acordos antes daquele julgamento.
A disputa também poderá alterar a interpretação jurídica sobre a responsabilidade das empresas por recursos que elas próprias criam, independentemente do conteúdo publicado pelos usuários. O processo atual chega ao tribunal num momento em que autoridades americanas também investigam e negociam mudanças nos mecanismos de acesso de crianças e adolescentes às redes sociais.