
Instagram/Nikolas Ferreira
Bastidores expõem encenação em vídeo de Nikolas sobre pobreza no Nordeste
Gravação apresentada como espontânea tinha teleprompter, orientação para esconder antena e "pobre" dono de Hilux
Bastidores viram polêmica
Imagens dos bastidores do vídeo “O Nordeste que foi esquecido”, produzido pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) para a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), revelaram nesta quarta-feira (21/10) uma produção cuidadosamente dirigida para apresentar depoimentos de moradores da Bahia contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Direção de cena
As imagens revelam que a gravação foi totalmente dirigida, contou com teleprompter, orientações para esconder uma antena parabólica moderna e ajustes de enquadramento aprovados pelo próprio parlamentar.
As revelações ganharam repercussão junto a denúncias sobre as condições financeiras de um entrevistado apresentado num cenário de pobreza, mas que seria proprietário de uma caminhonete Hilux e de uma residência diferente daquela mostrada no vídeo.
Por que esconderam a antena?
Uma das gravações divulgadas nas redes mostra João Markus, coordenador de comunicação de Nikolas, orientando a equipe a modificar o enquadramento de uma residência para evitar que uma antena parabólica moderna aparecesse nas imagens. O profissional argumentou que “essa antena é mais tecnológica” e sugeriu outro ângulo para preservar a proposta de atraso e pobreza do Nordeste. O cinegrafista concordou e explicou que poderia eliminar o equipamento da composição visual.
Nikolas acompanhou a alteração e aprovou o resultado. “Putz, melhorou mil por cento”, afirmou. A sequência mostra uma escolha deliberada para retirar do cenário um sinal de acesso à tecnologia e realçar uma aparência de precariedade da casa.
Os bastidores foram divulgados originalmente por integrantes da própria equipe e repercutidos pelo Metrópoles.
Quem é o entrevistado apontado como dono de Hilux?
Outra denúncia envolve um homem conhecido como Binha, apresentado entre os moradores que reclamam das condições de vida no Nordeste. O deputado federal Pedro Campos (PSB-PE) publicou um vídeo contestando a representação do entrevistado. Segundo ele, moradores de Luís Eduardo Magalhães reconheceram Binha e revelaram que ele possui uma caminhonete Toyota Hilux e uma residência de classe média com móveis novos. A esposa do homem, identificada como Aline, teria confirmado nas redes sociais que o veículo foi comprado com o dinheiro do trabalho do marido.
Campos também exibiu imagens de uma casa que identificou como a verdadeira residência de Binha, com televisão e sofá novos. O imóvel é muito diferente daquele utilizado na gravação de Nikolas, cuja aparência reforça a mensagem de abandono e dificuldades financeiras. O parlamentar questionou por que o entrevistado foi apresentado em outro ambiente e não teve suas condições de vida identificadas.
Uma terceira suspeita diz respeito à aparência do próprio Binha. Publicações nas redes acusaram a produção de escurecer artificialmente sua pele para acentuar a imagem de um trabalhador castigado pelo sol. Pedro Campos sugeriu o uso de um filtro digital para produzir esse efeito.
Teleprompter e comentários sobre os entrevistados
Os vídeos de bastidores também mostram uma estrutura profissional com câmeras, equipamentos de iluminação, captação de som e teleprompter. A presença do aparelho chamou atenção porque o próprio material de campanha havia apresentado os moradores como pessoas ouvidas “sem roteiro, sem filtro”. O equipamento permite que participantes acompanhem textos escritos enquanto olham diretamente para a câmera.
Outro momento registra um comentário feito por alguém da equipe depois da gravação de uma moradora. “Ela faz uma cara de coitada, que chega a dar dó”, diz uma voz ao fundo. A frase provocou críticas pela maneira como a aparência de sofrimento da mulher foi tratada durante a produção.
O contraste entre os bastidores e o vídeo final expõe o trabalho de construção da imagem utilizada pela campanha. A escolha dos ambientes, a direção das câmeras e os comentários sobre os personagens mostram que os depoimentos foram organizados para produzir determinado efeito visual.
A mesma cidade era exemplo de prosperidade
Há outra contradição na construção da narrativa eleitoral. Os depoimentos foram gravados em Luís Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia, município que Nikolas havia apresentado três dias antes como exemplo de prosperidade econômica. Em vídeo divulgado no sábado (17), o deputado exaltou a produção agrícola, a geração de empregos e os investimentos privados da cidade, que possui mais de 20 mil empresas.
Na terça-feira (20), publicou “O Nordeste que foi esquecido” com cinco moradores do mesmo município reclamando da pobreza, do desemprego e de dificuldades no acesso a serviços públicos. Entretanto, não identificou a cidade das gravações. A contradição foi apurada pelo Poder360, que confirmou o local com a assessoria do deputado. Luís Eduardo Magalhães deu 62,03% dos votos válidos a Flávio Bolsonaro no 1º turno, a maior votação proporcional do candidato entre os 417 municípios baianos.
Vídeo acumula audiência fora do comum
A repercussão ocorre depois de a publicação ultrapassar 159 milhões de visualizações no Instagram na noite de quarta-feira (21). O vídeo já havia provocado uma disputa por direitos autorais após a Meta remover o áudio da música “Grão de Areia”, composta por Rubel, Ana Caetano e Tó Brandileone e gravada por Rubel com Xande de Pilares. Nikolas, que poderia usar qualquer trilha de seus apoiadores sertanejos, acusou Rubel de solicitar a retirada e apresentou o bloqueio como uma tentativa de silenciar os nordestinos. A Meta confirmou uma reivindicação autoral, mas não identificou o solicitante.
Causou estranheza que o vídeo, mesmo sem som, continuou acumulando visualizações.
O alcance passou a ser questionado por organizações de direitos digitais. Um relatório do Sleeping Giants Brasil comparou 300 vídeos publicados por 30 perfis e identificou números atípicos nas publicações de Nikolas. Seus dez Reels analisados somaram 410,5 milhões de visualizações, com mediana de 38,25 milhões por publicação. O desempenho superou o de celebridades internacionais com bases de seguidores muito maiores, entre elas Selena Gomez, Kim Kardashian e Beyoncé.
O Sleeping Giants, a Artigo 19 e a CTRL+Z encaminharam uma representação ao Ministério Público Eleitoral para investigar a possibilidade de amplificação algorítmica dos vídeos. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou que a empresa prestasse informações sobre medidas aplicadas ao perfil de Nikolas desde agosto.
Aberto para posicionamentos
Procurada pelo Estado de Minas, a assessoria de Nikolas não havia respondido sobre as polêmicas até a publicação da reportagem.
O espaço segue aberto para posicionamentos, declarações e atualizações das partes citadas, que queiram responder, refutar ou acrescentar detalhes em relação ao que foi noticiado.
Veja parte da repercussão.
Nikolas Ferreira se irritou com produtores que vazaram cenas dos bastidores do vídeo falso sobre o Nordeste. A produção utilizou atores e as gravações mostram diretor orientando a equipe a não exibir uma antena parabólica https://t.co/LT3B7YvvL4
— Pragmatismo Politico (@Pragmatismo_) October 21, 2026
O vídeo do Nikolas Ferreira colocando nordestinos como miseráveis sendo exposto com os bastidores da gravação, onde o diretor do clipe pede pra nao focalizar a antena parabólica da casa "porque é modernidade". https://t.co/gRlADhYBkd
— Sérgio Santos (@ZAMENZA) October 21, 2026
@pedrocampospe E a mulher do video nem da cidade que ela diz ser, pq ninguém de lá a conhece. https://t.co/N0EIBw4Buy
— Amanda (@Amanda_Braga) October 21, 2026