
Divulgação/The Guardian
Netanyahu quer processar militares ouvidos no documentário Naza
Primeiro-ministro israelense exige identificação dos 24 denunciantes do filme premiado em Veneza e ameaça perda da cidadania
Denunciantes de documentário viram alvo
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, exigiu uma investigação criminal contra os 24 militares e agentes de inteligência israelenses que denunciaram a morte deliberada de civis palestinos no documentário “Naza”, vencedor do Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza 2026. O pedido foi formalizado no domingo (11/10), numa nova ofensiva do governo contra o filme dirigido pelos israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, que também enfrentam ameaças de perder a cidadania.
O que Netanyahu exige?
Em carta dirigida à procuradora-geral Gali Baharav-Miara, ao chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, Eyal Zamir, e ao diretor do serviço de segurança interna Shin Bet, David Zini, Netanyahu pediu a identificação dos entrevistados que participaram anonimamente da produção. O premiê exige que sejam processados por supostas violações de segurança, difamação criminal e danos aos interesses diplomáticos e de segurança do país.
“Este filme apresenta uma narrativa falsa, enganosa e tendenciosa, que difama o Estado de Israel e o Exército em todo o mundo”, afirmou Netanyahu. O primeiro-ministro também anunciou a intenção de apresentar um projeto de lei para retirar a cidadania de pessoas que, segundo sua definição, difamarem soldados israelenses.
O que revela Naza?
Produzido pelo jornal britânico The Guardian, “Naza” apresenta depoimentos de integrantes das forças de segurança israelenses que participaram da seleção de alvos e da preparação de bombardeios na Faixa de Gaza. Filmados anonimamente durante a noite, em telhados de Tel Aviv, eles descrevem sistemas de inteligência artificial e vigilância usados para identificar suspeitos de ligação com o Hamas, mesmo quando os ataques poderiam matar grandes quantidades de civis.
O título reproduz uma sigla militar hebraica para “danos colaterais”, utilizada para estimar previamente quantos civis podem morrer em um bombardeio. Entre os casos relatados está a autorização de uma operação contra um integrante do Hamas com previsão de até 500 mortes de pessoas que não participavam dos combates. Os testemunhos também descrevem o monitoramento de comunicações privadas, inclusive celulares de crianças, para localizar alvos militares.
A investigação vai além das 24 entrevistas apresentadas no filme. Segundo o The Guardian, os realizadores ouviram mais de 100 fontes ao longo de três anos, incluindo comandantes envolvidos na autorização dos ataques. A apuração foi complementada por documentos sigilosos e pela verificação de bombardeios específicos, com base em investigações anteriormente publicadas pelo próprio jornal e pelos veículos israelense-palestinos +972 Magazine e Local Call.
Do Oscar ao prêmio em Veneza
Yuval Abraham e Rachel Szor já haviam conquistado o Oscar de Melhor Documentário em 2025 com “Sem Chão”, realizado em parceria com os cineastas palestinos Basel Adra e Hamdan Ballal. A obra anterior denunciava a expulsão de comunidades palestinas na Cisjordânia ocupada. Em “Naza”, eles voltam sua investigação para o funcionamento interno do aparato militar israelense. O diretor de “Zona de Interesse”, Jonathan Glazer, integra a produção executiva.
A estreia mundial aconteceu em setembro, no Festival de Veneza, onde o documentário recebeu uma ovação de 25 minutos, a mais longa da história do evento, e conquistou o Prêmio Especial do Júri. No Brasil, a produção chegou aos cinemas em 1º de outubro, com distribuição da Vitrine Filmes.
Diretores recebem ameaças de morte
A premiação internacional desencadeou uma campanha contra os cineastas em Israel. O ministro da Cultura, Miki Zohar, foi um dos primeiros integrantes do governo a pedir a identificação dos entrevistados e a retirada da cidadania dos realizadores. Abraham e Szor passaram a ser chamados de traidores por autoridades e grupos nacionalistas.
Em Ashdod, imagens dos dois foram pichadas com a palavra “traidores”. Manifestantes também foram à casa dos pais de Rachel Szor, na cidade de Savyon, onde gritaram ameaças de morte contra os cineastas. Os diretores não retornaram a Israel após a repercussão do documentário.
O chefe do Estado-Maior, Eyal Zamir, já havia determinado que autoridades militares examinassem possíveis violações de sigilo pelos entrevistados. Entretanto, o procurador-geral militar Itai Ofir indicou que uma acusação criminal dependeria de provas de divulgação indevida de informações classificadas, embora medidas disciplinares também pudessem ser consideradas.
Exército nega denúncias
As Forças de Defesa de Israel publicaram uma resposta de dez páginas em 1º de outubro, na qual rejeitam as conclusões do documentário. O Exército afirma que os relatos são incompletos, que a escolha dos alvos passa por avaliação humana e que as operações seguem procedimentos destinados a reduzir as mortes de civis.
O The Guardian, por sua vez, defendeu os procedimentos de verificação da investigação e condenou a perseguição às fontes. Em manifestação divulgada nesta segunda-feira (12/10), um porta-voz do jornal afirmou que as ameaças contra os diretores e o pedido de investigação dos entrevistados desviam a atenção das denúncias sobre as mortes de palestinos. “Jornalistas devem poder realizar investigações de interesse público sem ameaças ou assédio”, declarou.
Governo promove filme para desacreditar Naza
A reação israelense também chegou ao cinema. Embaixadas do país passaram a divulgar nas redes sociais um documentário concorrente, chamado “NAZA: The Real Story”, produzido pelo advogado e reservista do Exército Ariel Averbuch. A obra reproduz elementos visuais da produção premiada em Veneza, incluindo entrevistas filmadas em telhados de Tel Aviv, mas apresenta depoimentos favoráveis às ações militares israelenses.
A estratégia provocou outra controvérsia porque o site criado para divulgar o filme inicialmente se apresentava como página oficial de “Naza”, com os nomes de Abraham e Szor como diretores. As informações foram alteradas depois. O Ministério das Relações Exteriores israelense negou participação na produção, mas confirmou que suas representações diplomáticas promoveram o material.