
Divulgação/MGM
Elke Sommer, estrela de Um Tiro no Escuro e vencedora do Globo de Ouro, morre aos 85 anos
Atriz alemã contracenou com Peter Sellers, Paul Newman e Dean Martin, foi sex symbol e também se destacou como pintora
Morte em Los Angeles
A atriz alemã Elke Sommer morreu na noite de quarta-feira (28/10), aos 85 anos, em sua casa em Bel Air, Los Angeles, nos Estados Unidos. A causa foi insuficiência cardíaca, após um longo período em que permaneceu acamada, segundo informações divulgadas pelo jornal alemão Bild nesta quinta (29). Conhecida pelo papel de Maria Gambrelli na comédia “Um Tiro no Escuro” (1964), com Peter Sellers, Sommer foi uma das atrizes europeias que viram sex symbol em Hollywood na década de 1960. Vencedora do Globo de Ouro de Atriz Revelação, participou de cerca de 100 produções de cinema e televisão, além de desenvolver uma carreira como pintora.
Da Alemanha para Hollywood
Elke Sommer nasceu em 5 de novembro de 1940, em Berlim, com o nome de Elke Schletz. Filha de um pastor protestante, passou a infância na região de Erlangen, para onde sua família se mudou durante a 2ª Guerra Mundial. Perdeu o pai aos 14 anos e inicialmente pretendia trabalhar como intérprete. Chegou a morar em Londres como au pair e aprendeu seis idiomas, uma habilidade que mais tarde contribuiria para sua carreira internacional.
O cinema surgiu por acaso. Durante férias na Itália, em 1958, venceu um concurso de beleza em Viareggio e chamou a atenção do cineasta Vittorio De Sica. Começou a trabalhar em produções italianas e alemãs e, em 1959, assinou contrato com o produtor Artur Brauner. Um de seus primeiros trabalhos foi “O Navio da Morte”, ao lado de Horst Buchholz. Poucos anos depois, conseguiu um contrato em Hollywood, onde faria seus filmes mais conhecidos.
Globo de Ouro e Pantera Cor-de-Rosa
A projeção internacional veio com “Os Criminosos Não Merecem Prêmio” (1963), suspense dirigido por Mark Robson e estrelado por Paul Newman. Baseado no romance de Irving Wallace, o filme acompanha um escritor americano que viaja à Suécia para receber o Nobel de Literatura e acaba envolvido numa conspiração internacional. Sommer interpretou Inger Lisa Andersson, funcionária responsável por acompanhar o protagonista durante sua permanência em Estocolmo. A atuação lhe rendeu o Globo de Ouro de Atriz Revelação em 1964, prêmio dividido com Ursula Andress, por “007 Contra o Satânico Dr. No”, e Tippi Hedren, por “Os Pássaros”.
No ano seguinte, interpretou Maria Gambrelli em “Um Tiro no Escuro”, dirigido por Blake Edwards. A personagem era uma empregada doméstica suspeita de vários assassinatos, que despertava a paixão do inspetor Jacques Clouseau, vivido por Peter Sellers. O filme foi a segunda produção da franquia iniciada por “A Pantera Cor-de-Rosa” (1963) e ajudou a consolidar Clouseau como protagonista de uma série própria de comédias policiais. A produção também incluía cenas de (simulação) de nudez que estabeleceram a fama da atriz como sex symbol internacional.
Sommer guardava boas lembranças das filmagens, apesar dos frequentes desentendimentos entre Sellers e Edwards. Em entrevista ao site Classic Film and TV Café, em 2014, contou que o diretor era rigoroso, enquanto Sellers preferia improvisar e alterar as cenas. Segundo a atriz, trabalhar com o comediante foi uma de suas experiências profissionais mais importantes. Os dois voltariam a contracenar em outra comédia, “O Prisioneiro de Zenda” (1979).
Comédias, espionagem e terror
A popularidade levou Sommer a trabalhar com outros astros de Hollywood. Participou de “A Arte de Amar” (1965), com James Garner, “A Tentação do Dinheiro” (1965), com Glenn Ford e Rita Hayworth, e “Enganei-me no Número” (1966), ao lado de Bob Hope. Também estrelou “Confidências de Hollywood” (1966), drama sobre os bastidores da indústria cinematográfica, com Stephen Boyd e Tony Bennett.
Em 1968, integrou o elenco de “Arma Secreta contra Matt Helm”, aventura de espionagem com Dean Martin e Sharon Tate. A produção marcou um encontro entre duas atrizes que haviam desenvolvido uma amizade próxima. Na entrevista de 2014, Sommer afirmou que Tate havia se tornado a irmã que nunca teve. A colega, assassinada em 1969 por integrantes da seita de Charles Manson, também foi responsável por apresentá-la à música de Leonard Cohen, de quem se tornou admiradora.
A carreira passou por uma mudança de gênero nos anos 1970, quando Sommer trabalhou com o diretor italiano Mario Bava em dois filmes de terror. O primeiro foi “Baron Blood” (1972), seguido por “Lisa e o Diabo” (1973), no qual interpretou uma turista envolvida em acontecimentos sobrenaturais numa mansão espanhola. A atriz descrevia Bava como um diretor afetuoso e chegou a chamá-lo de pai.
Também participou de “Carry On Behind” (1975), comédia da franquia britânica “Carry On”, interpretando uma professora de arqueologia. Paralelamente, trabalhou em programas de televisão, peças teatrais e apresentações musicais, incluindo participações no programa de Dean Martin. Nos palcos, destacou-se em montagens de “Born Yesterday”, peça com a qual conquistou reconhecimento da crítica teatral americana.
Pintura e disputa com Zsa Zsa Gabor
A pintura foi outra atividade importante na vida de Elke Sommer. Interessada em artes plásticas desde a infância, realizou sua primeira exposição aos 24 anos, em Beverly Hills. Desenvolveu um estilo marcado por contornos escuros e cores intensas, que comparava aos efeitos dos vitrais. Durante os anos 1990, reduziu gradualmente as atuações para dedicar mais tempo às telas.
Nesse período, também protagonizou uma disputa judicial com a atriz Zsa Zsa Gabor. O desentendimento começou nos bastidores do especial televisivo “Circus of the Stars”, em 1984, depois de um comentário envolvendo Gabor e um cavalo. As duas apresentaram versões diferentes sobre o episódio, que se transformou numa troca pública de acusações. Sommer processou Gabor e seu marido, Frédéric von Anhalt, por difamação e obteve uma decisão favorável em 1993, com indenização fixada em US$ 3,3 milhões.
A atriz continuou a receber propostas profissionais, mas passou a selecionar os trabalhos com maior rigor. Na entrevista de 2014, afirmou que gostaria de abandonar os personagens glamourosos que haviam definido sua imagem em Hollywood e interpretar uma idosa feia e pobre. Entretanto, encerrou a carreira logo em seguida sem conseguir realizar o desejo, deixando eternizada a imagem de loira estonteante.
Últimos anos e vida pessoal
Elke Sommer foi casada inicialmente com o jornalista e escritor Joe Hyams, de quem se divorciou nos anos 1980. Em 1989, conheceu o empresário do setor hoteleiro Wolf Walther, quando trabalhava numa peça em Nova York. Os dois se casaram em agosto de 1993, na cidade alemã de Marloffstein, e passaram décadas dividindo a vida entre a Alemanha e Los Angeles.
Em 2025, o casal se estabeleceu definitivamente nos Estados Unidos para acompanhar o tratamento de câncer de Walther. O empresário morreu em 22 de julho deste ano, aos 77 anos. Após a perda, Sommer declarou à imprensa alemã: “Meu coração está partido”. Sua saúde também se deteriorou nos meses seguintes.
O enteado da atriz, Sebastian Walther, havia deixado a Alemanha para cuidar do pai e permaneceu em Los Angeles para acompanhar Sommer. A família informou que pretende atender ao desejo da artista de ser sepultada no jazigo familiar em Marloffstein, onde estão enterrados seus pais. Wolf Walther também deverá ser levado ao mesmo local.