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Guia | Os 10 melhores filmes lançados em setembro em streaming
Lista traz os principais lançamentos do mês com destaques da Netflix, Prime Video, Disney+, HBO Max, Paramount+, Apple TV+, Crunchyroll e Mubi
A relação dos melhores lançamentos do mês coloca em perspectiva os principais filmes disponibilizados recentemente em streaming. A lista contempla desde blockbusters de qualidade até títulos consagrados do circuito de arte, apontando opções para a programação de cinema em casa. Confira os 10 principais destaques de setembro.
🎞️ 1 | TOY STORY 5 | Disney+
A Pixar encontrou um adversário que ameaça os brinquedos de forma mais convincente que qualquer vilão: uma tela. Andrew Stanton (“WALL-E”) transforma o tablet que monopoliza a atenção das crianças no novo conflito de uma franquia que começou em 1995, quando o maior concorrente de Woody ainda era outro brinquedo.
A chegada de Lilypad, tablet em forma de sapo com voz de Greta Lee (“Vidas Passadas”), muda a rotina de Bonnie e coloca Jessie, Woody e Buzz diante da possibilidade de se tornarem irrelevantes. Joan Cusack, Tom Hanks e Tim Allen voltam às vozes originais do trio principal de brinquedos, enquanto o roteiro desloca parte da atenção para a própria criança e sua relação cada vez mais mediada por tecnologia.
O 5º filme poderia facilmente existir apenas porque a marca continua rentável, mas encontrou um conflito que conversa diretamente com a infância atual. A crítica respondeu bem à ideia: 93% de aprovação no Rotten Tomatoes, além de 94% entre o público. A franquia envelheceu bem – e até Woody aparece calvo na história – e continua relevante para as crianças de todas as idades.
🎞️ 2 | SETEMBRO 5 | Paramount+
Poucos filmes sobre jornalismo entendem tão bem que um deadline também pode ser uma cena de ação. Tim Fehlbaum (“Tides”) reconstrói o massacre das Olimpíadas de Munique de 1972 quase sem sair da sala de controle da ABC Sports, onde uma equipe acostumada a transmitir competições percebe que terroristas do grupo Setembro Negro mantêm atletas israelenses como reféns a poucos metros dali. O acontecimento histórico já é conhecido. A tensão nasce de outra pergunta: como transmitir ao vivo uma notícia para a qual ninguém havia criado regras?
John Magaro (“Vidas Passadas”) vive o jovem produtor Geoff Mason, que assume progressivamente o comando da cobertura sob a supervisão de Roone Arledge, interpretado por Peter Sarsgaard (“A Filha Perdida”). Leonie Benesch (“Sala dos Professores”) é Marianne, tradutora alemã que se transforma em fonte indispensável dentro da redação, e Ben Chaplin (“A Escavação”) interpreta Marvin Bader. Telefones, câmeras de 16 mm, monitores e horários de satélite viram peças de suspense à medida que a equipe precisa confirmar informações enquanto milhões de espectadores esperam imagens imediatas.
A grande questão não é apenas quem chegará primeiro à notícia, mas o que significa chegar primeiro quando os sequestradores também podem assistir à televisão. O filme transforma decisões hoje elementares do jornalismo ao vivo — confirmar uma morte, escolher uma palavra, decidir se determinada imagem pode ir ao ar — em dilemas ainda sem protocolo. A precisão desse mecanismo rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Original e 92% de aprovação no Rotten Tomatoes. É um thriller sobre terrorismo em que a arma mais perigosa são câmeras.
🎞️ 3 | NO CAMINHO | HBO Max
O mexicano David Pablos (“O Baile dos 41”) ambienta seu drama nas estradas e paradas de caminhoneiros do norte do México. Veneno, um jovem sem destino fixo que sobrevive entre restaurantes de beira de estrada e encontros com caminhoneiros, consegue uma carona com Muñeco, motorista de comportamento rígido que atravessa uma região marcada por códigos de masculinidade e violência.
A viagem aproxima os dois homens à medida que Veneno passa a dividir a rotina da cabine e os riscos da estrada. A intimidade crescente confronta o ambiente homofóbico ao redor dos personagens, até que acontecimentos ligados ao passado de Veneno colocam a relação e a própria viagem sob ameaça. O estreante Victor Prieto Simental assume o papel do rapaz, enquanto Osvaldo Sánchez (“Pedro Páramo”) interpreta Muñeco.
A fotografia de Ximena Amann (“Como Água Para Chocolate”) transforma rodovias, postos e paisagens áridas em parte central da narrativa, que combina road movie, romance e tensão criminal. O longa venceu o prêmio de Melhor Filme da mostra Horizontes de Veneza e também recebeu o Queer Lion, dedicado a obras de temática LGBTQIA+ apresentadas no festival. Para completar, foi indicado a 13 prêmios Ariel (o Oscar mexicano), incluindo Melhor Filme.
🎞️ 4 | SUPERGIRL | HBO Max
A chegada ao streaming é uma chance de redenção para a superprima. O fracasso do filme, que ganhou haters antes mesmo da estreia no cinema, diz mais sobre um fandom dominado por incels e redpills que sobre a qualidade da produção. Divertido e cheio de ação, destaca o talento da jovem Milly Alcock (“A Casa do Dragão”), que alguns gostariam de ver substituída por uma top model de saia no papel.
O segundo filme da nova fase da DC apresenta Kara Zor-El como uma heroína criada entre os destroços de Krypton e marcada por perdas que a tornaram mais cínica e amarga que Superman. A trama adapta a base de “Supergirl: Mulher do Amanhã”, quadrinhos premiados de Tom King e Bilquis Evely, onde a busca de diversão espacial de Kara é interrompida por Ruthye Marye Knoll, vivida por Eve Ridley (“The Witcher”), com um apelo por justiça pelo assassinato de sua família.
A missão se torna pessoal quando Krem das Colinas Amarelas, personagem de Matthias Schoenaerts (“The Old Guard”), envenena Krypto, o supercão e melhor amigo da heroína. A busca pelo antídoto e vingança cria o conflito central: uma heroína quase invulnerável, mas sem paciência para a pureza moral esperada de um símbolo, contra um vilão amoral. Para completar, Jason Momoa (“Aquaman”) aparece como Lobo, caçador de recompensas intergaláctico que ajuda a deslocar o filme para um território mais violento, sarcástico e espacial que “Superman”.
Nas entrelinhas, o roteiro da estreante Ana Nogueira (atriz de “The Vampire Diaries”) ainda embute uma forte crítica social na luta tradicional entre heroína e vilão, que comanda uma rede de tráfico de mulheres. Nas mãos de outro diretor, seria sombrio como um thriller desesperado. Mas Craig Gillespie (“Cruella”) é mais conhecido por comédias leves. E o público conservador aprendeu a palavra “woke” sem perceber que a trama é basicamente um western à moda antiga, como “Bravura Indômita” (1969), estrelado pelo ídolo da direita John Wayne.
🎞️ 5 | DEMON SLAYER: KIMETSU NO YAIBA CASTELO INFINITO | Crunchyroll/Disney+/Netflix/HBO Max
O filme de anime de maior bilheteria da história deixa de ser atração praticamente exclusiva da Crunchyroll e amplia consideravelmente seu público no streaming. Primeiro capítulo de uma trilogia concebida para encerrar “Demon Slayer”, o longa transforma em espetáculo cinematográfico a reta final de uma série que já havia levado multidões aos cinemas com “Mugen Train”.
Para quem perdeu a dimensão do fenômeno, a história acompanha Tanjiro, jovem que se tornou caçador de demônios depois de ter a família massacrada e a irmã transformada numa dessas criaturas. Agora, ele e os principais guerreiros de sua organização são arrastados para uma fortaleza sobrenatural, onde começam os confrontos contra os demônios mais poderosos antes da batalha definitiva contra o responsável pela tragédia de sua família.
O estúdio Ufotable leva ao limite a combinação de animação tradicional e recursos digitais que tornou a franquia famosa, transformando o próprio castelo num labirinto em constante movimento. Com mais de duas horas e meia e anos de histórias convergindo para os combates, o filme definitivamente não é uma boa porta de entrada para “Demon Slayer”. Para quem acompanhou a jornada, porém, funciona como recompensa visual e emocional acumulada ao longo de várias temporadas.
🎞️ 6 | CUCKOO | Netflix
O alemão Tilman Singer (“Luz”) constrói um terror ambientado em um resort isolado nos Alpes alemães. Hunter Schafer (“Euphoria”) vive Gretchen, adolescente de 17 anos que deixa os Estados Unidos para morar com o pai, a madrasta e a meia-irmã Alma. O proprietário do local, Herr König, interpretado por Dan Stevens (“Godzilla e Kong: O Novo Império”), demonstra um interesse incomum pela menina mais nova e tenta integrar Gretchen à rotina do empreendimento.
A aparente tranquilidade desaparece com ruídos inexplicáveis, ataques e visões que começam a perseguir a adolescente, enquanto a investigação conduz Gretchen a experiências realizadas na região e a um segredo diretamente ligado à nova família de seu pai. O desenho de som ocupa função narrativa central, com repetições e distorções que antecipam a presença da ameaça antes de sua manifestação visual.
Exibido inicialmente no Festival de Berlim, o longa trabalha horror corporal e paranoia sem abandonar a estrutura de um mistério familiar. O Rotten Tomatoes registra 79% de aprovação entre os críticos, com destaque recorrente para a direção de Singer e para as atuações de Schafer e Stevens. O elenco também destaca participação de Jessica Henwick (“Silo”).
🎞️ 7 | MAYDAY | Apple TV
A comédia de ação se passa no auge da Guerra Fria e traz Ryan Reynolds (“Deadpool & Wolverine”) como um piloto da Marinha americana enviado para uma missão secreta em território soviético. A operação dá errado e o deixa isolado atrás das linhas inimigas, sem apoio e com poucas possibilidades de escapar do país.
A saída aparece na figura menos provável: Nikolai Ustinov (Kenneth Branagh, “Assassinato em Veneza”), ex-agente da KGB fascinado pela cultura americana. Em vez de entregar o piloto, o russo decide ajudá-lo, transformando a fuga numa parceria entre dois homens treinados para considerar o outro como inimigo. Maria Bakalova (“Borat: Fita de Cinema Seguinte”), Marcin Dorociński (“O Gambito da Rainha”) e David Morse completam o elenco.
Roteiro, direção e produção são de John Francis Daley e Jonathan Goldstein. A dupla é conhecida pelos ótimos “A Noite do Jogo” e “Dungeons & Dragons: Honra Entre Rebeldes”, além de ter escrito “Homem-Aranha: De Volta ao Lar”, em “Mayday” presta homenagem aos filmes dos anos 1980, com direito a inclusão de imagens de “Top Gun” autorizadas por Tom Cruise.
🎞️ 8 | SCARLET | HBO Max
O cineasta Mamoru Hosoda (“Mirai”, “Belle”) volta à animação com uma fantasia de ação inspirada em “Hamlet”. A trama acompanha uma princesa medieval consumida pela vingança após a morte do pai. Derrotada em sua tentativa de acertar contas com o responsável pelo crime, ela desperta gravemente ferida em um mundo intermediário entre a vida e a morte.
Nesse espaço, a guerreira encontra um jovem idealista do presente, cuja intervenção altera sua relação com a violência e com o desejo de revanche. O conflito ganha dimensão maior quando o assassino de seu pai reaparece e a coloca diante da possibilidade de perpetuar o mesmo ciclo de ódio que orientou sua jornada.
Produzido pelo Studio Chizu, o longa combina aventura fantástica, ficção científica e referências shakespearianas dentro da estrutura de uma história sobre luto e vingança. O elenco de vozes originais chama atenção por incluir astros do cinema japonês. Mana Ashida (“Círculo de Fogo”) dubla a protagonista na versão original, ao lado de Masaki Okada (“Drive My Car”) e Kōji Yakusho (“Dias Perfeitos”).
🎞️ 9 | O ANIVERSÁRIO | Prime Video
Jan Komasa (“Corpus Christi”) dirige um thriller político que acompanha a desintegração de uma família diante do crescimento de um movimento autoritário chamado The Change. Diane Lane (“Liga da Justiça”) e Kyle Chandler (“Lanternas”) interpretam Ellen e Paul Taylor, casal cuja rotina é alterada quando o filho Josh apresenta a nova namorada, Liz, uma antiga aluna de Ellen.
Vivida por Phoebe Dynevor (“Bridgerton”), Liz mantém ligação direta com o movimento, que começa a ganhar influência política e social no país. Dylan O’Brien (“Amor e Monstros”) interpreta Josh, enquanto Zoey Deutch (“Nouvelle Vague”), Madeline Brewer (“The Handmaid’s Tale”) e Mckenna Grace (“Ghostbusters: Apocalipse de Gelo”) completam a família. O conflito doméstico passa a reproduzir a polarização externa conforme alianças, convicções e relações pessoais se tornam inseparáveis da expansão do novo regime.
O roteiro de Lori Rosene-Gambino concentra a transformação política na experiência cotidiana dos Taylor, acompanhando as consequências do extremismo sobre parentes que deixam de compartilhar uma mesma leitura da realidade.
🎞️ 10 | 100 NOITES DE DESEJO | Mubi
Shakespeare encontra Sherazade nesta fantasia britânica de Julia Jackman (“Bonus Track”). A história é baseada na graphic novel de Isabel Greenberg, por sua vez inspirada em “As Mil e Uma Noites”: Hero, interpretada por Emma Corrin (“The Crown”), usa histórias como arma para proteger Cherry, vivida por Maika Monroe (“Corrente do Mal”), durante as 100 noites em que ela fica à mercê do sedutor Manfred, papel de Nicholas Galitzine (“Mestres do Universo”). Mas a aposta feita pelo marido sobre a fidelidade da esposa também remete diretamente a “Cimbelino”, enquanto o nome Hero evoca “Muito Barulho por Nada”, outra peça de Shakespeare em que homens transformam a reputação sexual de uma mulher em questão de honra.
O jogo acontece num mundo de fantasia dominado por uma religião patriarcal, onde mulheres são julgadas pela capacidade de gerar filhos e mantidas longe do conhecimento. Jerome, interpretado por Amir El-Masry (“Limbo”), precisa engravidar Cherry, mas prefere apostar com o amigo que ele não conseguirá seduzi-la durante sua ausência. Hero interfere contando histórias noite após noite, numa inversão queer de Sherazade: em vez de salvar a própria vida adiando uma execução, ela tenta salvar a mulher que ama. Charli XCX aparece numa das narrativas internas, enquanto Richard E. Grant (“Can You Ever Forgive Me?”) encarna o deus Birdman, personificação literal da ordem masculina que governa aquele universo.
Jackman transforma a fábula em um desfile de cenários artificiais, figurinos elaborados e humor deliberadamente anacrônico, mas a beleza do livro ilustrado nem sempre se converte em força dramática. O filme é mais interessante quando brinca com histórias que atravessaram séculos para mostrar como os mecanismos de controle sobre mulheres continuam reconhecíveis. A tese feminista e queer é explícita, porém existe uma boa ironia em usar Shakespeare e “As Mil e Uma Noites”, pilares de uma tradição literária antiga, para desmontar a ideia de que discussões sobre gênero, desejo e poder sejam invenções contemporâneas.