
Divulgação/Globo
Debate: UOL aponta que Flávio mentiu ou enganou em 15 de 18 falas na Globo
Checagem classificou sete declarações como falsas, sete como enganosas e uma como insustentável, sobrando apenas três como verdadeiras
Checagem encontra problemas em 15 de 18 falas
O UOL Confere classificou 15 das 18 declarações verificadas de Flávio Bolsonaro (PL) como falsas, enganosas ou insustentáveis durante o debate presidencial da Globo na sexta-feira (23/10). O levantamento, publicado na madrugada deste sábado (24), identificou sete informações falsas, sete enganosas e uma acusação sem sustentação. Apenas três declarações receberam o selo de verdadeiras. Isso significa que 83,3% das afirmações selecionadas pela checagem apresentaram problemas.
Flávio apresentou informações falsas sobre pandemia e investigação policial
Uma das declarações desmentidas envolveu Jair Bolsonaro e a pandemia de Covid-19. Flávio negou que o pai tivesse debochado de pessoas com falta de ar e afirmou que uma gravação divulgada anteriormente estava fora de contexto. Durante o debate, pediu à equipe que publicasse no Instagram o suposto vídeo completo. Entretanto, o Fato ou Fake, do g1, verificou que a nova publicação estava editada e havia suprimido 30 segundos da transmissão original de 18 de março de 2021. O trecho retirado continha uma defesa do chamado tratamento precoce, sem eficácia comprovada contra a doença.
O UOL também classificou como falsa a afirmação de que a Polícia Federal havia produzido um relatório inocentando o senador de irregularidades no financiamento de “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. A investigação sobre os recursos repassados pelo Banco Master continua em andamento. Documentos obtidos pelo The Intercept Brasil apontam suspeitas de que o dinheiro tenha passado por operações fraudulentas. A Agência Lupa também considerou insustentável a alegação de que a PF tivesse confirmado a legalidade do financiamento.
Quais outras acusações foram desmentidas?
Flávio repetiu uma informação falsa que circula nas redes sociais desde 2017: a de que Lula teria defendido criminosos que roubam celulares para comprar cerveja. A gravação usada para sustentar a acusação reúne trechos diferentes de uma entrevista. A referência à cerveja fazia parte de uma declaração sobre a rivalidade entre torcedores de futebol, não sobre roubos. UOL, Lupa e Aos Fatos rejeitaram a interpretação apresentada pelo senador.
O candidato também acusou Lula de abandonar a população do Rio Grande do Sul durante as enchentes de 2024 e afirmou que menos de 30% das promessas de ajuda haviam sido cumpridas. O UOL classificou a declaração como falsa. Segundo dados do Tribunal de Contas da União citados na checagem, o governo federal autorizou R$ 42,7 bilhões para a recuperação do estado, além de medidas como o Auxílio Reconstrução, de R$ 5,1 mil por família, e recursos para habitação e contenção de cheias. O levantamento não encontrou comprovação para o percentual de promessas descumpridas mencionado pelo candidato.
Outra falsidade identificada foi a afirmação de que o governo de Lula tinha mais de 11.500 obras paralisadas, conforme um suposto relatório recente do TCU. O número citado por Flávio pertencia a um levantamento anterior. A contagem mais recente apresentada pelo tribunal registrava 4.215 obras paralisadas. A mesma informação foi contestada pela Lupa e pelo Aos Fatos.
Ovos, chocolate e Cracolândia também entraram na checagem
Flávio responsabilizou o atual governo pela redução do tamanho das embalagens de produtos como ovos, sabão em pó e chocolate. O UOL considerou a atribuição falsa. A prática conhecida como reduflação já era documentada antes de 2023, inclusive durante o governo Bolsonaro. Em 2021, o próprio Ministério da Justiça editou uma portaria para obrigar fabricantes a informar mudanças na quantidade de produtos embalados.
O senador também afirmou que o governador Tarcísio de Freitas e o prefeito Ricardo Nunes haviam acabado com a Cracolândia, em São Paulo. A checagem classificou a declaração como falsa. Embora usuários tenham deixado um ponto de concentração no centro da cidade em 2025, continuaram circulando por outras ruas e praças. Relatórios públicos registraram a permanência de usuários de crack e o aumento de atendimentos relacionados à dependência química.
Entre as declarações consideradas enganosas estavam a atribuição exclusiva a Jair Bolsonaro do benefício mínimo de R$ 600 do Auxílio Brasil, a acusação de que Lula seria o responsável pela criação dos cassinos online e a afirmação de que Bolsonaro havia concluído toda a transposição do Rio São Francisco. No primeiro caso, o aumento para R$ 600 foi aprovado pelo Congresso com validade inicial até dezembro de 2022. Lula foi justamente quem transformou o aumento transitório em permanente. Já as apostas de quota fixa foram autorizadas em 2018, durante o governo Michel Temer, e deixadas sem regulação por Bolsonaro. Já a transposição permanece com estruturas em construção em 2026.
Acusação sobre dinheiro de Vorcaro não teve sustentação
O UOL reservou a classificação de insustentável para uma acusação de Flávio envolvendo Daniel Vorcaro. O senador cobrou explicações de Lula sobre supostos R$ 30 milhões que o ex-banqueiro teria destinado irregularmente a um documentário do presidente.
A história apareceu numa reportagem da revista Veja baseada numa gravação atribuída a Vorcaro. Entretanto, a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República negaram a existência de depoimento do banqueiro com essa acusação. O material também não foi encontrado nas três propostas formais de delação premiada analisadas pelo UOL. Tampouco há documentação que comprovasse o suposto pagamento, nem mesmo mensagens de Vorcaro sobre o assunto, ao contrário do amplo material disponível sobre os pedidos de dinheiro de Flávio Bolsonaro a Vorcaro.
A investigação sobre o financiamento de “Dark Horse” identificou repasses de R$ 61 milhões para a produção da cinebiografia de Jair Bolsonaro, de um total de R$ 134 milhões solicitado por Flávio ao banqueiro. Os valores também foram abordados pelas reportagens que examinam as relações entre o senador, o Banco Master e os responsáveis pelo filme.
Flávio também apresentou dados corretos
Das 18 declarações avaliadas pelo UOL, três foram classificadas como verdadeiras. O senador acertou ao mencionar a inflação argentina de 211,4% em 2023 e a taxa básica de juros de 100% registrada naquele período. Também citou corretamente a dívida bruta do governo geral brasileiro, que atingiu R$ 11,1 trilhões em agosto, e os números de instalação de 21,3 mil pontos de acesso à internet pelo programa Wi-Fi Brasil até o fim de 2022.
Lula errou ao diminuir problemas herdados de Bolsonaro
Lula também apresentou informações incorretas no debate. Uma delas acabou minimizando a dimensão de um problema herdado do governo Jair Bolsonaro. O presidente afirmou que havia recebido o país com 6 mil obras paralisadas, mas os dados do Tribunal de Contas da União registravam 8.674 empreendimentos nessa situação em agosto de 2022, ainda durante a gestão anterior.
A diferença supera 2.600 empreendimentos. Portanto, a situação deixada pelo governo Bolsonaro era consideravelmente pior do que Lula afirmou. O UOL e a Agência Lupa classificaram o número apresentado pelo presidente como subestimado. Curiosamente, o Fato ou Fake, do g1, atribuiu o selo de fato à declaração, embora sua própria explicação mencionasse as 8.603 obras paralisadas.
Outro erro de Lula envolveu o crescimento econômico. O presidente afirmou que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro não havia crescido acima de 3% desde sua saída do Planalto, em 2010. O UOL classificou a informação como falsa. A economia cresceu 3,9% em 2011, durante o governo Dilma Rousseff, e 4,8% em 2021, durante a gestão Bolsonaro, após a retração provocada pela pandemia em 2020.
Lula também errou ao afirmar que o jogo conhecido como Tigrinho havia sido criado durante o governo Bolsonaro, em 2022. O Fato ou Fake e a Lupa lembraram que a autorização federal das apostas de quota fixa aconteceu em 2018, na presidência de Michel Temer. Bolsonaro deixou a lei sem regulamentação, permitindo a proliferação de apostas e a popularidade do Tigrinho. A regulamentação posterior do mercado ocorreu durante o atual governo.
No balanço do UOL, das 12 declarações de Lula selecionadas para verificação, sete foram consideradas verdadeiras, uma falsa, uma enganosa, duas exageradas e uma subestimada. Entre as afirmações confirmadas estão a existência de cerca de 33 milhões de brasileiros que passavam fome antes de seu retorno à Presidência, o recorde das exportações brasileiras em 2025 e a abertura de aproximadamente 700 novos mercados para produtos agropecuários desde 2023.
O que apontaram as outras agências?
A Agência Lupa publicou mais de 40 verificações sobre o debate. Entre as declarações de Flávio classificadas como falsas estão a defesa do vídeo de Jair Bolsonaro imitando pessoas com falta de ar, a acusação sobre o roubo de celulares para comprar cerveja e a afirmação de que os juros reais do Plano Safra chegavam perto de 20%. Segundo a agência, as principais linhas de financiamento agrícola tinham juros nominais entre 8% e 12,5% ao ano, percentuais que ficam ainda menores quando descontada a inflação.
O Aos Fatos também checou as declarações dos candidatos em parceria com o Terra. Entre os episódios examinados estavam os números de obras paralisadas, o aumento do Auxílio Brasil, a criação das apostas online e a atribuição a Bolsonaro da conclusão da transposição do São Francisco. As verificações foram publicadas individualmente, com explicações e referências documentais.
Já o Fato ou Fake mobilizou mais de 30 jornalistas do Grupo Globo para verificar as afirmações. A checagem foi disponibilizada no g1 e em outros veículos do grupo, sem interrupções da transmissão televisiva para corrigir informações falsas. A decisão manteve os esclarecimentos fora do programa, apesar de um abaixo-assinado com mais de 1,1 milhão de adesões que cobrava correções durante o debate.
As classificações não formam um índice único de veracidade do confronto. Cada veículo escolheu um conjunto de declarações e utilizou critérios próprios para distinguir informações falsas, enganosas, exageradas ou parcialmente corretas.
Desmentido ao vivo após o debate
A ausência de correções durante o debate contrastou com a postura de Renata Lo Prete logo após o confronto. Ao entrevistar Flávio Bolsonaro ao vivo, a jornalista corrigiu o candidato quando ele afirmou que o governo Lula não combatia o desmatamento e citou uma possível alta recorde dos focos de incêndio na Amazônia. Renata esclareceu que queimadas e desmatamento são indicadores diferentes e lembrou que os dados mais recentes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontavam uma queda de 41,8% na área desmatada da Amazônia entre agosto de 2025 e julho de 2026.
O índice de 3.335 km² é o menor da série histórica, iniciada em 1988. Foi uma correção factual feita diante do próprio candidato, em plena transmissão da Globo.
Aberto para posicionamentos
O espaço segue aberto para posicionamentos, declarações e atualizações das partes citadas, que queiram responder, refutar ou acrescentar detalhes em relação ao que foi noticiado.