
Instagram/Kleber Mendonça Filho
Brasileiros do Oscar alertam para ameaças à democracia em carta internacional
Wagner Moura, Kleber Mendonça Filho e outros cineastas denunciam suspeitas de interferência eleitoral e temem novo desmonte cultural
Cineastas pedem atenção internacional para eleição
Integrantes brasileiros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos, responsável pelo Oscar, divulgaram neste sábado (10/10) uma carta aberta alertando para ameaças à democracia no Brasil às vésperas do 2º turno presidencial. Entre os signatários estão Wagner Moura (“O Agente Secreto”), Kleber Mendonça Filho (“O Agente Secreto”), Fernando Meirelles (“Cidade de Deus”), Alice Braga (“Eu Sou a Lenda”) e Sônia Braga (“Aquarius”). Publicado originalmente pela revista americana Variety, o manifesto denuncia possíveis interferências estrangeiras, questiona propostas de Flávio Bolsonaro (PL) e pede que a comunidade internacional acompanhe a eleição de 25 de outubro, quando o candidato enfrenta o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Quais são as preocupações dos brasileiros do Oscar?
Os profissionais apontam que a diferença entre Lula e Flávio no 1º turno foi de apenas 1,87 ponto percentual e citam denúncias que consideram especialmente preocupantes. Uma delas envolve a revelação do jornal britânico The Guardian de que o governo de Donald Trump destinou aproximadamente US$ 1 milhão de um fundo de direitos humanos do Departamento de Estado a um programa destinado a combater supostas perseguições judiciais e censura no Brasil pelo STF. O manifesto também menciona restrições ao alcance das publicações de Lula nas plataformas da Meta, anúncios eleitorais favoráveis a Flávio associados à distribuição de criptomoedas e investigações da Polícia Federal sobre possível compra de votos em regiões rurais.
A carta dedica atenção especial à proposta de Flávio Bolsonaro de substituir a Constituição de 1988 por outra, elaborada por um Congresso de maioria conservadora. Os signatários relacionam a iniciativa à tentativa de golpe de Estado pela qual Jair Bolsonaro foi condenado e ao compromisso do filho de conceder anistia ao ex-presidente. Também criticam a cobertura de parte da imprensa brasileira, acusada de normalizar acontecimentos que ameaçam as instituições democráticas e minimizar denúncias relacionadas ao bolsonarismo.
O que a carta diz sobre o futuro do cinema?
Os profissionais recordam as consequências das políticas culturais do governo Jair Bolsonaro, entre elas a extinção do Ministério da Cultura, a paralisação de investimentos do Fundo Setorial do Audiovisual e as tentativas de interferência ideológica na produção cinematográfica. “Tememos um retorno a esse cenário”, afirmam. O documento também manifesta preocupação com os planos de Flávio para reduzir gastos públicos, aproximando sua proposta econômica das medidas de austeridade adotadas pelo presidente argentino Javier Milei.
O alerta surge justamente após dois anos de projeção internacional do cinema brasileiro. “Ainda Estou Aqui” (2024), dirigido por Walter Salles, conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025, enquanto “O Agente Secreto” (2025), de Kleber Mendonça Filho, recebeu quatro indicações em 2026, inclusive a Melhor Filme e Melhor Ator para Wagner Moura. A recuperação do setor audiovisual brasileiro também foi destacada pela Variety em reportagem publicada na quarta-feira (7/10), que apontou os riscos de uma eventual retomada das políticas de desmonte cultural.
A preocupação tem um antecedente concreto no Congresso. O deputado Capitão Augusto (PL-SP) apresentou em março o PL 994/2026, que prevê extinguir a Agência Nacional do Cinema (Ancine) e transferir suas atribuições ao Ministério da Cultura. O projeto permanece parado na Câmara, mas voltou a circular nas redes depois do 1º turno. Durante o governo anterior, Jair Bolsonaro chegou a ameaçar o fechamento da agência caso não pudesse estabelecer filtros ideológicos para os filmes financiados com recursos públicos.
Quem assinou o manifesto?
Além dos nomes de maior projeção internacional, a carta recebeu assinaturas de Petra Costa (“Democracia em Vertigem”), Anna Muylaert (“Que Horas Ela Volta?”), Alê Abreu (“O Menino e o Mundo”), Laís Bodanzky (“Bicho de Sete Cabeças”), Gabriel Mascaro (“O Último Azul”), Karim Aïnouz (“A Vida Invisível”), Daniel Filho (“Se Eu Fosse Você”), Rodrigo Teixeira, produtor de “Ainda Estou Aqui”, e Emilie Lesclaux, produtora de “O Agente Secreto”, entre dezenas de profissionais do cinema nacional.
Embora seja membro da Academia e responsável pelo Oscar conquistado por “Ainda Estou Aqui”, Walter Salles não aparece entre os signatários divulgados. Selton Mello e Fernanda Torres, protagonistas do longa, também não constam da relação.
Apelo à imprensa e às instituições
O manifesto encerra com um pedido para que a imprensa internacional acompanhe o processo eleitoral brasileiro com rigor, enquanto profissionais da indústria cinematográfica ampliam o debate sobre a situação política do país.
Os signatários também solicitam investigações independentes sobre as denúncias de interferência eleitoral e irregularidades mencionadas.