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Rock in Rio registra passagem de eras do metal brasileiro
Sepultura e Korzus dividiram festival com Black Pantera, Nervosa e Malvada, que mostram como a cena mudou em quatro décadas
Quatro décadas no mesmo festival
O Rock in Rio reuniu no sábado (5/9) quatro décadas de metal brasileiro, espalhadas em diferentes palcos da Cidade do Rock. O Korzus, formado em São Paulo em 1983, e o Sepultura, criado em Belo Horizonte no ano seguinte, encontraram uma cena que já não reproduz simplesmente o caminho aberto pelos pioneiros. Black Pantera, Nervosa, Malvada, Rhegia e outras bandas mantêm a circulação internacional do gênero, mas incorporam novas formações, discursos, referências e até uma presença maior do português nas letras.
O que mudou desde os anos 1980?
Sepultura e Korzus surgiram quando ainda não existia uma estrutura internacional consolidada para bandas brasileiras de metal. O inglês acabou se tornando parte importante dessa expansão, principalmente depois que o Sepultura atravessou as fronteiras do underground e alcançou turnês mundiais, grandes gravadoras e festivais estrangeiros.
O próprio Korzus registra essa transformação. A banda estreou em 1985 com “Guerreiros do Metal” e “Príncipe da Escuridão”, ambas em português, na coletânea “SP Metal II”. “Sonho Maníaco” (1987) ainda pertencia a essa primeira fase, antes de “Pay for Your Lies” (1989) e “Mass Illusion” (1991) consolidarem a mudança para o inglês num momento em que tocar fora do Brasil se tornava objetivo cada vez mais concreto.
Pioneiros chegam a momentos diferentes
No Palco Mundo, o Sepultura viveu sua despedida do Rock in Rio. Derrick Green, Andreas Kisser, Paulo Xisto e Greyson Nekrutman tocaram apenas músicas gravadas desde 1998, evitando inclusive “Roots Bloody Roots”, “Arise” e outros clássicos associados ao período com Max Cavalera. A seleção transformou o último show da banda no festival numa defesa dos quase 30 anos de trajetória construída com Derrick… um cantor americano.
No Global Village, o Korzus apareceu numa situação oposta. A banda atravessa uma renovação de formação, revigorando-se com Jéssica Falchi, ex-Crypta, e Jean Patton, ex-Project46, nas guitarras, ao lado dos veteranos Marcello Pompeu e Dick Siebert e do baterista Rodrigo Oliveira. O grupo lançou “No Light Within” neste ano e trabalha em material novo.
As duas bandas chegaram ao sábado como sobreviventes da mesma geração, mas em pontos completamente distintos. Uma prepara o encerramento definitivo da carreira. A outra reorganiza sua formação e planeja novos capítulos mais de quatro décadas depois de surgir.
Black Pantera muda o discurso
O Black Pantera mostrou no Sunset como a expansão internacional do metal brasileiro já não precisa repetir exatamente o modelo criado pela primeira geração. O trio de Uberaba toca no exterior, participa de grandes festivais europeus e construiu uma identidade em que português, questões raciais e referências brasileiras, como uma camiseta do Racionais MC’s, fazem parte do discurso musical.
O show começou com “Hórus”, de “Continental” (2026), e passou por “Padrão é o Caralho”, “Obsoleto” e “Fogo nos Racistas”. Antes desta última, Chaene da Gama usou uma baqueta contra as cordas do baixo para produzir um efeito semelhante ao som de um berimbau.
“Tradução” levou a dimensão política para outra direção. A música, inspirada na rotina de uma mãe consumida pelo trabalho, foi dedicada às mães e à defesa do fim da escala 6×1. Dona Guiomar, mãe de Charles e Chaene da Gama, acompanhou a apresentação do fosso diante do palco, cantando sob a chuva.
Nervosa representa outra internacionalização
A entrada da Nervosa colocou lado a lado duas formas diferentes de projeção internacional. Criada em São Paulo em 2010, a banda construiu uma trajetória extensa fora do país e hoje reúne integrantes de diferentes nacionalidades, com repertório predominantemente em inglês.
Prika Amaral entrou primeiro para dividir os vocais de “Serotonina” com Charles Gama. Depois, Helena Kotina, Emmelie Herwegh e Michaela Naydenova completaram a formação da Nervosa para “Ghost Notes”, “Slave Machine” e “Endless Ambition”.
No fim, as duas bandas se reuniram para uma versão pesada de “Obrigado, Não”, de ninguém menos que Rita Lee. Charles ainda pediu a formação de uma roda punk exclusivamente feminina na plateia, enquanto os sete músicos encerravam um encontro que colocou raça, gênero e identidade brasileira dentro de uma linguagem tradicionalmente associada a outros códigos.
Malvada assume caminho bilíngue
A Malvada representa uma geração ainda mais recente. Formada em 2020, a banda começou gravando principalmente em português e depois aumentou a presença do inglês ao buscar espaço fora do país. O contrato com a gravadora italiana Frontiers Music abriu novas possibilidades internacionais, e o disco “Malvada” (2025) combinou oito músicas em inglês com três em português.
No Sunset, os dois caminhos apareceram no mesmo repertório. “Dead Like You”, “Yesterday (My End, My Beginning)”, “Fear”, “After” e “RNR GRRRL” dividiram espaço com “Veneno” antes da entrada de Day Limns.
A partir daí, o português ganhou protagonismo com “Aventura Favorita”, “Kálice”, “Castelo de Areia” e “Aversão”. E também teve homenagem a Rita Lee, a rainha do rock nacional, com “Ovelha Negra”, enquanto imagens da cantora apareciam nos telões.
Idioma deixa de ser escolha definitiva
Essa diversidade ajuda a revelar uma diferença importante entre gerações. Para muitas bandas brasileiras dos anos 1980 e 1990, adotar o inglês e tocar covers de veteranos do metal mundial parecia praticamente uma condição de afirmar a própria identidade dentro do gênero. Ser metal também significava demonstrar filiação a Motörhead, Judas Priest, Iron Maiden ou Slayer. Hoje, essa identidade se mostra menos rígida, tanto no idioma quanto nas referências.
A Malvada canta nos dois idiomas. O Black Pantera percorre festivais estrangeiros com músicas como “Fogo nos Racistas” e “Padrão é o Caralho” sem traduzir sua identidade para o mercado externo. E o próprio Korzus, depois de décadas compondo majoritariamente em inglês, já voltou a discutir publicamente a possibilidade de lançar mais material em português.
Amazônia ganha representação
A diversidade também apareceu fora do eixo histórico São Paulo-Minas Gerais. A Rhegia trouxe ao Global Village o metal paraense, com uma obra diretamente ligada à Amazônia, poucos dias depois do lançamento de “The Mirror of Light” (2026), 3º disco e capítulo final de uma trilogia construída em torno de cultura, mitologia e ancestralidade dos povos originários.
Bianca Palheta lidera a formação ao lado de Saulo Caraveo, Naoto Shibata, Michel Machado e Amanda Alencar, que divide vocais e violoncelo. O álbum aborda invasão territorial, inteligência artificial, comunidades amazônicas e transformação ambiental dentro de uma estrutura de heavy metal. O Sepultura estava indo por esse caminho de forma pioneiríssima na época de “Roots” (1996), mas a saída de Max Cavalera acelerou sua generalização.
Assim como o Seputura, Rhegia canta em inglês e mostra que a nova fase do metal nacional não caminha numa direção única.
Geração intermediária ocupa espaço
O Global Village também recebeu o Noturnall com Russell Allen, vocalista americano do Symphony X. Formado em 2013 por músicos que já acumulavam trajetórias anteriores, o grupo ocupa uma posição intermediária entre os veteranos dos anos 1980 e bandas que surgiram na última década.
Sua história está ligada ao metal progressivo e ao power metal, gêneros em que a conexão com o circuito estrangeiro sempre teve peso importante. A presença de Allen reforçou essa tradição de colaboração internacional construída por bandas brasileiras depois que Sepultura e Angra abriram mercados no exterior.
Com Rhegia, Noturnall e Korzus no mesmo espaço, o Global Village funcionou como um terceiro núcleo de metal brasileiro além dos palcos Mundo e Sunset.
Cena já não segue uma única fórmula
O encontro de gerações mostrou que a principal herança de Sepultura e Korzus talvez seja justamente a possibilidade de não existir mais um único caminho obrigatório. As bandas pioneiras precisaram abrir espaço fora do país num cenário em que o Brasil praticamente não fazia parte do mapa internacional do metal.
As gerações seguintes herdaram essa porta aberta e passaram a experimentar outras escolhas. Nervosa construiu uma formação internacional e uma carreira predominantemente em inglês. Black Pantera levou letras em português e questões raciais para festivais estrangeiros. Malvada adotou uma estratégia bilíngue. Rhegia usa metal para tratar da Amazônia. O próprio Korzus reconsidera uma língua que havia deixado para trás.
No mesmo sábado em que o Sepultura realizou sua despedida do Rock in Rio, outras bandas brasileiras ocuparam os palcos sem parecer simplesmente herdeiras de um modelo encerrado. A passagem de eras apareceu justamente nessa diferença.