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K-pop leva Rock in Rio à histeria em dia com centenas de atendimentos
Stray Kids faz o show mais cheio do Palco Mundo na edição após alerta de segurança, crises de ansiedade, pânico e desmaios
K-pop muda a plateia do festival
O primeiro dia de K-pop da história do Rock in Rio transformou o Palco Mundo nesta sexta-feira (11/9) não apenas pela música. Lightsticks, photocards, figurinos inspirados nos ídolos e uma plateia formada por muitas crianças e adolescentes criaram um ambiente diferente dos primeiros dias do festival. A intensidade também apareceu no som produzido pelos fãs e na disputa por espaço perto da grade, que levou a organização a interromper os preparativos para o show de Hwasa e pedir que o público recuasse. Horas depois, o Stray Kids encontrou uma multidão que gritou praticamente sem intervalo durante cerca de 1h30 de apresentação.
O que aconteceu na grade?
A concentração começou muito antes do headliner. Fãs do Stray Kids chegaram de madrugada, enfrentaram chuva e ocuparam a frente do Palco Mundo assim que os portões foram abertos. Antes da entrada de Hwasa, às 19h, a pressão na grade já levou a organização a manter um aviso nos telões durante cerca de 15 a 20 minutos. “Enquanto não dermos um passo para trás, não daremos início ao show”, informou o sistema de som. A apresentação só começou depois que parte da multidão recuou.
Os postos médicos também receberam um fluxo incomum. A unidade atrás do Palco Mundo havia atendido mais de 100 pessoas desde a abertura dos portões, muitas após desmaios. Crises de ansiedade, pânico, falta de ar e taquicardia estavam entre as ocorrências. Outro posto, próximo ao Palco Sunset, registrou 96 atendimentos com quadros semelhantes apenas entre 15h e 17h. Os dois recortes somam ao menos 197 casos e nem sequer representam um balanço completo do dia.
NEXZ estreia com repertório curto
O NEXZ teve a responsabilidade histórica de fazer o primeiro show de K-pop do Rock in Rio. O septeto japonês, formado dentro da indústria sul-coreana, abriu o Palco Mundo às 16h40 diante de uma concentração de público muito maior do que normalmente recebe o primeiro horário. A apresentação começou com acrobacias e movimentos de b-boy, enquanto os integrantes usavam camisetas de Ramones, Black Sabbath e Sonic Youth.
O grupo apostou em “Mmchk”, “Beat-Boxer”, “O-RLY?”, “Loco” e “Saucin’”, além de coreografias sincronizadas e pouco uso de playback. As tentativas de comunicação em português também se tornaram parte do espetáculo, com pedidos para o público pular e fazer barulho. Quando houve uma falha na tradução das falas em coreano, os próprios integrantes perceberam a dificuldade e ajustaram a comunicação.
A limitação apareceu no tamanho do repertório. Com apenas dois anos de carreira, o NEXZ não tinha material suficiente para ocupar todo o tempo reservado e repetiu várias faixas no bis. “Saucin’” chegou a aparecer três vezes. Nem isso esfriou a maior parte da plateia, que já demonstrava desde o primeiro show a disposição para transformar qualquer intervalo em gritaria.
Hwasa leva voz e coreografia ao palco
Hwasa encontrou a área diante do Palco Mundo já comprimida quando entrou em cena. A cantora abriu espaço para uma vertente diferente daquela apresentada pelo NEXZ, com banda ao vivo, maior destaque para os vocais e uma performance que alternou coreografias, R&B e pop. O repertório passou por “Twit”, “Maria”, “I Love My Body” e “Good Goodbye”, além de músicas de seu grupo, MAMAMOO.
A cantora também explorou a proximidade com o público. “Meu coração está cheio de amor pra dar pra vocês”, declarou, com auxílio de tradução simultânea. Em outros momentos, falou frases em português, desceu do palco para se aproximar da grade e recebeu a resposta em gritos a cada tentativa de interação.
“Maria” ganhou uma introdução voltada especialmente ao Brasil. Hwasa contou ter ouvido que o nome é comum entre brasileiras e explicou a relação pessoal com a música. No encerramento de “Good Goodbye”, correu pelo palco com uma bandeira brasileira.
Alok conecta drones ao K-pop
Alok interrompeu a sequência sul-coreana com “Keep Art Human”, espetáculo concebido em torno da defesa da criação humana diante da inteligência artificial. A montagem usou 45 bailarinos e 1.500 drones, que formaram imagens no céu da Cidade do Rock. O número foi anunciado pela organização como recorde para uma apresentação na América Latina.
O DJ também adaptou parte do repertório à plateia que esperava o Stray Kids. Incluiu músicas de Blackpink e Katseye e apresentou uma colaboração inédita com o Twice. A escolha evitou uma ruptura completa entre o espetáculo eletrônico e o eixo de K-pop que dominava o Palco Mundo.
Stray Kids fecha com banda ao vivo
O Stray Kids entrou pela lateral da pista pouco depois da meia-noite e encontrou a maior concentração de público vista diante do Palco Mundo nesta edição até aquele momento. Bang Chan olhou para a extensão da plateia e reagiu com um “Caraca”. Durante o show, o líder também precisou pedir cuidado aos fãs e reforçar a necessidade de evitar empurrões perto da grade.
A apresentação de aproximadamente 1h30 adotou uma estrutura mais adequada ao festival do que os concertos de estádio realizados pelo grupo no Brasil em 2025. Em várias faixas, os oito integrantes reduziram as coreografias contínuas para circular pela passarela e interagir com os fãs. A presença de baixo, guitarra, bateria e teclados também aumentou o peso de músicas construídas sobre hip-hop e eletrônica.
“S-Class”, “Maniac”, “Thunderous”, “God’s Menu”, “Chk Chk Boom” e “LALALALA” estiveram entre os principais momentos do repertório. “Chk Chk Boom” recebeu outro arranjo, enquanto “Do It” e “Ceremony” vieram acompanhadas por fogos e fumaça. Bang Chan ainda repetiu a brincadeira da passagem anterior pelo Brasil ao cantar um trecho de “Ai Se Eu Te Pego”, de Michel Teló.
O grupo também levou referências visuais da cultura coreana para “Divine”. Figurinos remetiam ao hanbok tradicional, dançarinos apareceram com chapéus gat e o cenário reproduziu o irworobongdo, painel associado historicamente ao trono da monarquia coreana. No bis, “Chk Chk Boom” e “This & That” voltaram ao repertório, prolongando a despedida.
Outros palcos seguem outra rota
O domínio do fandom no Palco Mundo não se repetiu da mesma forma no restante da Cidade do Rock. O Jamiroquai encerrou o Sunset com uma sequência apoiada nos sucessos dos anos 1990, entre eles “Space Cowboy” e “Virtual Insanity”. Jay Kay chegou a descer até o público durante a última música, com uma jaqueta nas cores do Brasil.
A diferença geracional ficou evidente até nos intervalos. Parte dos fãs que aguardava o Stray Kids reagiu com impaciência quando imagens do Jamiroquai apareceram no telão do Palco Mundo. Em outros espaços, artistas brasileiros encontraram uma plateia com idade mais diversificada, caso de Os Garotin com Duquesa e de MC Carol com Puterrier.
A gritaria bateu recorde?
O volume das fãs foi uma das marcas mais perceptíveis da sexta-feira, mas ainda não há número que permita transformar a impressão em recorde. O próprio Rock in Rio dispõe nesta edição de uma medição objetiva. A ação “The Loudest Playlist”, da Heineken com o Spotify, instalou decibelímetros e sismógrafos perto do Palco Mundo para registrar volume e vibração da plateia durante as músicas.
Antes do dia de K-pop, o maior pico divulgado era de 110 decibéis, alcançado durante “One Kiss”, de Calvin Harris, e “Best of You”, do Foo Fighters. “One Kiss” liderava o ranking com 99,40 pontos. Até a manhã deste sábado (12/9), ainda não havia sido publicada uma leitura identificável do show do Stray Kids que permitisse saber se a gritaria dos fãs superou essas marcas, mas é praticamente garantido que sim.