
Divulgação/Ma Villa Real
London vence Leão Queer no Festival de Veneza
Longa de Victor Di Marco e Márcio Picoli divide prêmio com documentário sobre o cineasta Derek Jarman
Prêmio celebra corpo e desejo
O filme brasileiro “London”, de Victor Di Marco e Márcio Picoli, venceu o Leão Queer da 83ª edição do Festival de Veneza nesta sexta-feira (11/9). Exibido na Semana Internacional da Crítica, o longa dividiu o prêmio com o documentário britânico “Queer Edward II”, de Theo Rollason. As duas produções foram escolhidas entre 12 concorrentes com temática LGBTQIA+ apresentados nas diferentes mostras do festival.
O que conquistou o júri?
Criado em 2007, o Queer Lion é um prêmio paralelo do Festival de Veneza dedicado ao cinema LGBTQIA+. Ao anunciar o empate, o júri afirmou que “London” e “Queer Edward II” são obras muito diferentes, mas unidas pela coragem e por uma estética que celebra “o corpo, o desejo e uma sexualidade livre, sincera e descaradamente inconformista”.
A justificativa traçou uma ligação direta entre os dois filmes por meio do New Queer Cinema. “Queer Edward II” recupera imagens inéditas dos bastidores de “Eduardo II” (1991), de Derek Jarman, filmadas pelo diretor de fotografia Seamus McGarvey num momento de forte reação política contra a população LGBTQIA+ britânica. Para o júri, Di Marco e Picoli retomam essa tradição ao levar para a tela aspectos da experiência queer ainda pouco explorados pelo cinema contemporâneo.
Quem é London?
No longa brasileiro, Victor Di Marco também interpreta o protagonista, um jovem com deficiência que trabalha como dominador numa casa de fetiches. Ao lado dos amigos Luke e Lilá, London construiu uma vida baseada em autonomia, sexo e independência até surgir a possibilidade de um exame revelar a origem e a evolução de sua deficiência.
A descoberta cria o conflito central: ele quer compreender o próprio corpo, mas teme passar a ser definido por um diagnóstico. O roteiro evita identificar especificamente sua deficiência e desloca a representação para áreas pouco associadas a personagens com deficiência no cinema, como desejo, prazer, trabalho sexual e fetiche.
O elenco também reúne Jéssica Teixeira, Pedro Bertoldi, Carla Cassapo, Priscilla Colombi, Emilio Farias e Manu Thedy. Rodado em Porto Alegre, o filme foi produzido pela Proa & Popa Produções e pela Balde de Tinta Filmes, com fotografia de Bruno Polidoro e trilha original de Vito O. Azevedo.
Parceria nasceu nos curtas
“London” é o primeiro longa dirigido por Di Marco e Picoli, que mantêm uma parceria artística e amorosa e começaram a realizar filmes juntos em 2019. A trajetória inclui os curtas “O Que Pode um Corpo?” (2020), “Possa Poder” (2022), “Rasgão” (2023) e “Zagêro” (2024), produções que já tratavam de corpo, deficiência, sexualidade e das formas como o audiovisual enquadra pessoas fora dos padrões convencionais.
“O Que Pode um Corpo?” rendeu à dupla uma indicação ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro e percorreu dezenas de festivais. Como ator, Di Marco também fez uma participação em “Sob Pressão” e tornou-se, em 2022, o primeiro ator com deficiência a vencer o prêmio de Melhor Ator no Festival de Gramado. Voltou a ser premiado em Gramado dois anos depois por “Zagêro”.
A conquista em Veneza levou a produtora Proa & Popa a destacar justamente o deslocamento desses corpos para o centro da narrativa. “Esse prêmio é de todos que acreditam que outros corpos e outras histórias não apenas podem, mas devem estar no centro”, afirmou a empresa após o anúncio.
Filmagem enfrentou enchente no RS
A produção também atravessou uma crise fora das telas. A enchente histórica que atingiu o Rio Grande do Sul aconteceu às vésperas das filmagens e provocou perdas de equipamentos e recursos preparados para o longa. Em meio à tragédia gaúcha, a equipe conseguiu reorganizar o projeto e concluir as gravações.
Durante a estreia, Beatrice Fiorentino, diretora da Semana Internacional da Crítica, já havia destacado a segurança do primeiro longa da dupla, definindo “London” como uma obra que recusa rótulos ao tratar sexualidade como força vital. O filme teve sua première mundial no domingo (6/9), na Sala Perla, em Veneza.
Quando o filme chega ao Brasil?
“London” já tem distribuição brasileira acertada com a Retrato Filmes, mas ainda não ganhou data de estreia comercial. Antes disso, seguirá pelo circuito de festivais. Em 24 de setembro, disputa a competição de longas do Queer Lisboa, em Portugal, com presença de Di Marco e Picoli.
Em outubro, o filme volta ao Brasil como um dos dez títulos da competição principal de ficção da Première Brasil no Festival do Rio, onde disputará o Troféu Redentor.