
Divulgação/Warner Bros.
Guia da Pipoca: Cinemas recebem Da Magia à Sedução, Jason Statham e Oasis
Sequência da comédia de bruxas estrelada por Sandra Bullock e Nicole Kidman tem a distribuição mais ampla da semana
As estreias da semana apresentam a continuação de “Da Magia à Sedução”, que volta a reunir Sandra Bullock e Nicole Kidman após 30 anos, uma nova sessão de pancadaria de Jason Statham, o filme da turnê de reunião do Oasis, a adaptação live-action de “Blue Lock”, uma animação adulta sobre cópula, uma fantasia infantil britânica e três documentários nacionais. Confira a lista completa de lançamentos desta quinta (10/9) no cinema.
🎞️ DA MAGIA À SEDUÇÃO: FEITIÇO DE AMOR
A verdadeira magia aconteceu fora das telas: um fracasso crítico de 1998 passou quase três décadas adquirindo status de clássico cult até Hollywood concluir que precisava de continuação. Sandra Bullock (“Gravidade”) e Nicole Kidman (“Big Little Lies”) não apenas retornam como Sally e Gillian Owens, mas produzem a sequência, agora dirigida por Susanne Bier (“Em um Mundo Melhor”). O reencontro preserva o vínculo feminino que acabou sustentando o original muito mais que sua mistura desordenada de romance, comédia, assassinato e bruxaria.
A maldição que condena os homens amados pelas mulheres Owens ainda assombra a família e alcança uma nova geração. Kylie, agora interpretada por Joey King (“A Barraca do Beijo”), encontra um livro capaz de interferir nessa herança e parte para a Inglaterra, arrastando mãe e tia atrás dela. Maisie Williams (“Game of Thrones”) vive Antonia, Lee Pace (“Fundação”) surge como o professor Ian Wright e Dianne Wiest (“Hannah e Suas Irmãs”) e Stockard Channing (“Grease”) voltam como as tias Jet e Frances.
A fonte desta vez é “O Livro da Magia”, último romance de Alice Hoffman sobre as Owens, mas o filme também pertence a uma tendência menos literária: o legacy sequel, construído para devolver personagens, cenários, frases e até as margaritas da meia-noite ao público que envelheceu com o original. A nostalgia consegue reunir Bullock e Kidman com uma química que continua intacta, mas não resolve um roteiro excessivamente ocupado em repetir encantamentos antigos. A recepção inicial refletiu isso: a sequência estreou com apenas 35% de aprovação no Rotten Tomatoes, enquanto críticas divergiram sobre quanto o afeto pelas personagens consegue compensar a trama longa e previsível.
🎞️ CÓDIGO: VINGANÇA
Os filmes de Jason Statham geralmente envolvem o personagem errado acusado e vilões descobrindo, tarde demais, que escolheram o sujeito careca errado para enfrentar. Jean-François Richet (“Alerta Máximo”) troca apenas o meio de transporte e transforma um navio cargueiro num novo cenário para a fórmula. A falta de surpresa pesa, mas o confinamento favorece justamente o que Statham faz melhor: violência física curta, brutal e sem coreografias espalhafatosas.
Cole Reed trabalha como segurança de um bilionário do setor marítimo quando presencia seu assassinato e acaba incriminado pelo crime. A fuga o leva a um cargueiro, onde a conspiração ganha outra dimensão com a descoberta de uma operação de tráfico humano. Annabelle Wallis (“Maligno”) entra na história como Angie, oficial que passa a ajudá-lo, enquanto Roland Møller (“Terra de Minas”) assume o comando do navio e Adrian Lester (“Primary Colors”) integra a rede que Reed tenta desmontar.
Richet repete a especialidade demonstrada em “Alerta Máximo”: pegar uma premissa de filme B, trancar o herói num espaço hostil e não perder muito tempo fingindo que existe algo mais sofisticado em jogo. O problema surge quando o roteiro tenta dar gravidade moral à carnificina com vítimas de tráfico humano sem desenvolver esse assunto na mesma proporção. O resultado funciona melhor como “Duro de Matar” em alto-mar, especialmente quando corredores, escotilhas e passarelas apertadas transformam o navio numa arena para Statham distribuir pancadas.
🎞️ OASIS: DON’T LOOK BACK IN ANGER
A reunião mais improvável do rock recente terminou produzindo algo ainda mais raro: Liam e Noel Gallagher sentados juntos para uma entrevista. O retorno do Oasis aos palcos em 2025, após 16 anos de separação, virou uma turnê de 41 shows em cinco continentes para mais de 2 milhões de pessoas. Steven Knight, criador de “Peaky Blinders”, percebeu que havia ali uma história maior que o tradicional filme-show e estruturou o roteiro do documentário em torno da reconciliação dos irmãos que passaram décadas transformando ressentimento familiar em entretenimento público.
Os diretores Dylan Southern e Will Lovelace já haviam lidado com mitologia musical em “Shut Up and Play the Hits”, sobre a despedida do LCD Soundsystem, e “Meet Me in the Bathroom”, dedicado à cena nova-iorquina dos anos 2000. Desta vez, tiveram acesso a ensaios, bastidores, shows e conversas privadas da turnê “Live ’25”. A câmera acompanha não apenas Noel, Liam e a banda, mas a reação de fãs que esperaram desde 2009 para ouvir novamente os dois Gallagher no mesmo palco.
O filme exibido fora de competição em Veneza prefere redenção a acerto de contas. Discussões sobre os preços dos ingressos e outras controvérsias ficam praticamente fora de quadro, enquanto a velha animosidade é reorganizada como uma história sobre irmãos que finalmente aprenderam a dividir a mesma sala. É uma escolha parcial, evidentemente, mas existe algo irresistivelmente adequado nisso: depois de construir uma carreira cantando obsessivamente sobre juventude, amizade e nostalgia, o Oasis finalmente ganhou um documentário sobre envelhecer o bastante para parar de brigar.
🎞️ BLUE LOCK
Se o anime clássico “Super Campeões” (1983–1995) ensinou gerações que futebol era amizade, “Blue Lock” parte da tese oposta: para vencer uma Copa do Mundo, o Japão precisa fabricar o maior egoísta do país. O live-action dirigido por Yûsuke Taki (“O País de Tanabata”) abraça justamente a provocação que transformou o mangá de Muneyuki Kaneshiro e Yusuke Nomura num fenômeno mundial. Em vez de união do time, entram competição, eliminação e obsessão individual pelo gol.
Depois da queda japonesa na Copa de 2018, o excêntrico Jinpachi Ego, interpretado por Masataka Kubota (“Tokyo Ghoul”), reúne 300 jovens atacantes num centro de treinamento onde apenas o melhor poderá seguir em frente. Fumiya Takahashi (“Our Secret Diary”) vive Yoichi Isagi, jogador que chega marcado pela decisão de ter passado a bola em vez de arriscar o chute decisivo. Kaito Sakurai (“Oshi no Ko”) interpreta Bachira, Kyohei Takahashi (“And Yet, You Are So Sweet”) aparece como Chigiri e Kota Nomura (“Proposta Perfeita”) completa o núcleo principal como Kunigami.
Traduzir para atores o exagero visual de um mangá esportivo costuma ser receita para constrangimento, mas aqui fugir do absurdo destruiria justamente a identidade da obra. Olhos incendiados, metáforas visuais, rivalidades operísticas e discursos sobre ego permanecem próximos da linguagem do anime. A história continua sendo futebol apresentado como battle royale, um reality de confinamento no qual cooperação só interessa enquanto ajuda alguém a eliminar o próximo adversário. É brega por definição e sabe disso — característica que talvez explique por que funciona melhor quando não tenta parecer um drama esportivo realista.
🎞️ A MARAVILHOSA ÁRVORE ENCANTADA
Antes de “Harry Potter”, gerações de crianças britânicas subiam outra árvore para escapar da realidade. Enid Blyton começou a publicar as aventuras da Floresta Encantada em 1939, criando um mundo fantástico que permaneceu enorme no Reino Unido e curiosamente pouco conhecido fora dele. Quase 90 anos depois, o roteirista Simon Farnaby (“Paddington 2”, “Wonka”) recebe a tarefa delicada de adaptar essa fantasia essencialmente inglesa e, ao mesmo tempo, atualizar valores e comportamentos que envelheceram junto com os livros.
Andrew Garfield (“Até o Último Homem”) e Claire Foy (“The Crown”) vivem Tim e Polly, pais de três crianças arrancadas da vida urbana depois que a mãe descobre que o refrigerador inteligente que criou virou instrumento de vigilância. A família muda para o interior, onde os filhos encontram a árvore que leva diariamente a um mundo diferente. Nicola Coughlan (“Bridgerton”) é a fada Silky, Nonso Anozie (“Sweet Tooth”) interpreta Moonface e Rebecca Ferguson (“Silo”) surge como a autoritária Dame Snap, numa galeria que ainda inclui Jessica Gunning (“Bebê Rena”), Jennifer Saunders (“Absolutely Fabulous”), Michael Palin (“Monty Python”) e Judi Dench (“Harry Potter”) como a voz do eletrodoméstico invasivo.
O diretor Ben Gregor (“Fatherhood”) constrói uma fantasia infantil deliberadamente distante da escala industrial de franquias modernas. Cenários, figurinos e criaturas carregam uma aparência artesanal que combina com a literatura de Blyton, enquanto a atualização troca parte da disciplina e do conservadorismo dos livros por críticas a telas, vigilância digital e famílias que deixaram de conversar. Nem todas as viagens pelo alto da árvore têm o mesmo peso narrativo, mas a simplicidade é também a graça de um filme que prefere recuperar o encanto de uma sessão infantil britânica a disputar território com universos cinematográficos.
🎞️ ESPERMAGEDOM
A comparação inevitável é com “Festa da Salsicha”, mas a animação norueguesa de Tommy Wirkola (“João e Maria: Caçadores de Bruxas”) e Rasmus A. Sivertsen tem uma ideia ainda mais elementar: transformar ejaculação e fecundação numa aventura épica. O que poderia render apenas 10 minutos de trocadilhos sexuais vira um musical de educação reprodutiva sem qualquer intenção de parecer comportado. Exibido originalmente no Festival de Annecy, o longa conquistou uma recepção crítica muito superior à sugerida por sua coleção de piadas sobre sêmen.
Duas histórias correm literalmente uma dentro da outra. Do lado de fora, os adolescentes Jens e Lisa avançam para a primeira relação sexual. Dentro do corpo masculino, milhões de espermatozoides iniciam a corrida até o óvulo, com Simen e Cumilla entre os candidatos a sobreviver a contraceptivos, obstáculos biológicos e concorrentes. A versão brasileira faz uma intervenção própria sobre o original e entrega a dublagem ao núcleo do Porta dos Fundos: Fábio Porchat interpreta Sêmerson, Valentina Bandeira é Semília, Gregório Duvivier dá voz a Jean, Evelyn Castro a Lisa, João Vicente de Castro ao Professor e Ed Gama ao vilão Gozama.
A grosseria é parte do projeto, não um acidente, e às vezes a sucessão de duplos sentidos esgota a própria piada. Ainda assim, existe método sob a baixaria. Hormônios, preservativos, aparelho reprodutor e fecundação entram numa narrativa que trata sexo adolescente sem o moralismo típico de produções educativas. É como se “Divertida Mente” descesse alguns andares na anatomia humana e perdesse imediatamente a classificação livre.
🎞️ VIVA MARÍLIA
Marília Pêra morreu em 2015, mas narra a própria biografia. Zelito Viana (“Terra dos Índios”), com codireção de Esperança Motta e roteiro de Nelson Motta, monta a trajetória da atriz, cantora e bailarina a partir de registros preservados por ela e pela família, em vez de depender apenas da procissão habitual de admiradores explicando a importância de um artista morto. A escolha dá personalidade a uma carreira que atravessou teatro, televisão, cinema e música, acumulando mais de 100 trabalhos e dezenas de prêmios.
Imagens domésticas feitas pelo pai de Marília quando ela ainda era criança convivem com apresentações, entrevistas e documentos de diferentes fases profissionais. O material também recoloca sua carreira no Brasil que existia ao redor dela, especialmente entre as décadas de 1960 e 1980. Sua participação em “Roda Viva”, de Chico Buarque, por exemplo, pertence tanto à história do teatro quanto à violência política da ditadura, período em que o espetáculo foi atacado por integrantes do Comando de Caça aos Comunistas.
Depoimentos e arquivos de Hebe Camargo, Marco Nanini, Jô Soares, Marília Gabriela e outros nomes ampliam esse retrato, mas a principal atração continua sendo a própria Marília, artista de uma geração em que televisão comercial e experimentação teatral ainda circulavam de forma harmônica. O documentário abriu a edição de 2025 do festival É Tudo Verdade e funciona também como registro de um tipo de estrela brasileira cada vez mais difícil de reproduzir: formada no palco, popularizada pela TV e respeitada no cinema sem tratar nenhuma dessas áreas como carreira secundária.
🎞️ PRK-30 – O RÁDIO PELO AVESSO
Existe uma dificuldade óbvia em fazer cinema sobre um fenômeno criado para ser ouvido. Eduardo Albergaria (“Nosso Sonho”) encontrou a solução para seu documentário sobre um programa clássico de rádio quando a Cinemateca Brasileira localizou dentro de “Abacaxi Azul”, filme de 1944, o único registro conhecido em imagens de Lauro Borges e Castro Barbosa diante dos microfones. O material restaurado dá corpo a uma atração que sobreviveu principalmente em gravações, bordões e na influência exercida sobre várias gerações do humor brasileiro.
Criado por Borges e Barbosa, o programa simulava uma emissora clandestina e satirizava tudo o que o próprio rádio oferecia: novelas, jornalismo, publicidade, auditórios, música e transmissões esportivas. Os dois interpretavam dezenas de vozes e chegaram a dominar 52% da audiência radiofônica do Rio de Janeiro. Cláudio Mendes e Tim Rescala reconstituem a dupla em algumas passagens, enquanto o documentário combina entrevistas e registros de arquivo de Chico Anysio, Ziraldo, Boni, Luiz Carlos Barreto, Joaquim Ferreira dos Santos e pesquisadores da história do rádio.
Mais que nostalgia por uma mídia que perdeu centralidade, a reconstrução expõe uma genealogia da comédia brasileira. O falso improviso, a paródia de formatos, a multiplicação de personagens por poucos intérpretes e até a brincadeira com a própria linguagem do veículo aparecem décadas antes de formatos semelhantes dominarem televisão, podcasts e internet. O pequeno rolo encontrado na Cinemateca transforma-se, assim, numa espécie de prova arqueológica de que muita coisa apresentada hoje como novidade já estava no ar quando televisão ainda era ficção científica no Brasil.
🎞️ FORA DO ROTEIRO
Marcelo Serrado construiu boa parte da carreira interpretando personagens expansivos, como o Crô de “Fina Estampa” e “Crô: O Filme”. O contraste entre essa imagem pública e uma vida marcada por timidez, gagueira, ansiedade e ataques de pânico fornece o ponto de partida do documentário de Edu Felistoque (“400 Contra 1”). Não se trata de uma biografia completa, mas de um recorte em que o ator abandona o personagem profissional para falar sobre episódios que durante anos permaneceram fora de cena.
A experiência já se desdobrou em outras linguagens. Serrado transformou parte de suas crises no monólogo “Terapia” e também no livro “Fora do Roteiro: Minha Luta pela Saúde Mental nos Palcos e na Vida”. O filme acompanha essa revisão pessoal, relacionando carreira, insegurança e episódios de pânico sem separar artificialmente o artista da pessoa que precisa entrar em cena apesar deles.
Documentários confessionais com celebridades correm sempre o risco de virar extensão de uma campanha de imagem. Aqui, o assunto oferece uma fricção mais interessante: um ator cuja profissão depende de exposição pública descreve justamente a dificuldade de controlar o corpo quando ele se torna o centro das atenções. A celebridade deixa de ser o tema e vira ferramenta para uma discussão mais ampla sobre ansiedade, vulnerabilidade masculina e o esforço cotidiano de manter uma aparência de controle.