
Divulgação/Go Up Entertainment
Delator relata malas de dinheiro de Vorcaro e repasses a Dark Horse
Mineiro diz que operou remessas ao fundo Havengate, usado no financiamento do filme sobre Bolsonaro
Mineiro entrega Vorcaro
A delação premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, descreve o empresário como um dos operadores financeiros de Daniel Vorcaro e relata entregas de grandes quantias em dinheiro vivo ao ex-controlador do Banco Master. Mineiro também foi responsável por remessas ao fundo americano Havengate Development Fund, usado para financiar “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro.
O que vazou no depoimento?
A existência do acordo foi revelada inicialmente pela coluna de Malu Gaspar e Rafael Moraes Moura, de O Globo, e posteriormente confirmada pela Folha de S.Paulo, que detalhou nesta quinta-feira (3) o conteúdo da colaboração.
Segundo pessoas com conhecimento da delação ouvidas pela Folha, Mineiro relatou que mantinha uma relação antiga de negócios com Vorcaro. Em determinado momento, o banqueiro teria passado a solicitar operações que o empresário classificou como “não ortodoxas”, incluindo remessas sem lastro e obtenção de grandes valores em espécie.
O mecanismo descrito envolvia transferências de bens ou recursos de Vorcaro para empresas de Mineiro. A partir daí, o empresário procurava outros operadores capazes de disponibilizar o dinheiro vivo.
Esses intermediários cobravam uma taxa de 4%. Depois de receber as notas, Mineiro afirmou que colocava os valores em malas e os entregava a Vorcaro. Ele declarou não saber o destino final dado pelo ex-banqueiro ao dinheiro.
Delação chega ao caso Dark Horse
A colaboração também alcança o caminho dos recursos enviados aos Estados Unidos para o Havengate Development Fund. A Entre Investimentos e Participações, empresa de Mineiro, foi usada para fazer remessas ao fundo durante a negociação entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro para financiar “Dark Horse”.
A Polícia Federal já apontava a Entre como um braço operacional de Vorcaro, responsável por viabilizar repasses definidos pelo banqueiro. Mensagens obtidas anteriormente na investigação mostraram que a empresa passou a ser usada quando surgiram dificuldades para realizar pagamentos em dólar diretamente.
Um dos comprovantes revelados pelo Intercept mostrou uma transferência de US$ 2 milhões da Entre para o Havengate em fevereiro de 2025. Posteriormente, um relatório do Coaf obtido pela revista piauí revelou um novo repasse de US$ 1,6 milhão em setembro daquele ano, elevando para US$ 12,3 milhões o total atribuído a Vorcaro enviado ao fundo.
Fundo é ligado a Eduardo
O Havengate é sediado no Texas e administrado por Paulo Calixto, advogado próximo de Eduardo Bolsonaro. Documentos societários já revelados mostram Calixto como administrador da empresa responsável pelo fundo, que recebeu os recursos enviados pela Entre.
A Polícia Federal investiga se todo o dinheiro enviado aos Estados Unidos foi efetivamente usado na produção de “Dark Horse” ou se parte dos valores pode ter financiado despesas de Eduardo ou de outro aliado de Jair Bolsonaro.
Mineiro, porém, não afirma conhecer esse destino. Segundo pessoas com conhecimento da colaboração ouvidas pela Folha, ele não sabe se os recursos que enviou ao Havengate acabaram financiando Eduardo ou outra pessoa ligada ao ex-presidente.
O que a delação pode esclarecer?
Para os investigadores, a colaboração pode ajudar a identificar em quais momentos Vorcaro procurou dinheiro vivo, quem participou dessas operações e a quais pagamentos os valores estavam relacionados.
A relevância dos relatos também depende da documentação apresentada e da possibilidade de cruzar datas, valores, endereços e destinatários com outros elementos já reunidos pela investigação.
No caso do Havengate, a delação pode auxiliar na reconstrução do caminho do dinheiro enviado aos Estados Unidos e em eventuais pedidos de cooperação com autoridades americanas.
Acordo ainda depende do STF
Mineiro fechou o acordo com a Procuradoria-Geral da República em agosto. O material foi encaminhado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, responsável pelo caso Master, que ainda não o homologou até a divulgação das informações.
A colaboração é a segunda fechada pela PGR nas investigações sobre o Banco Master. A primeira foi assinada com João Carlos Mansur, fundador da gestora Reag, que administrava fundos usados por Vorcaro e também entregou informações aos investigadores. O acordo de Mansur igualmente foi remetido a Mendonça para homologação.
Procurada pela Folha, a defesa de Antônio Carlos Freixo Júnior não se manifestou. Os advogados de Daniel Vorcaro disseram que não tiveram acesso à proposta de colaboração e desconhecem seu conteúdo.
Aberto para posicionamentos
O espaço segue aberto para posicionamentos, declarações e atualizações das partes citadas, que queiram responder, refutar ou acrescentar detalhes em relação ao que foi noticiado.