
Divulgação/Go Up Entertainment
Coaf contradiz Flávio Bolsonaro sobre repasses a Dark Horse
Relatório registra mais US$ 1,67 milhão de Vorcaro em setembro de 2025, quatro meses após candidato informar que pagamentos tinham acabado
Relatório aponta novos pagamentos
Um relatório do Coaf obtido pela revista Piauí contradiz a versão apresentada por Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sobre quando Daniel Vorcaro deixou de financiar “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Em entrevista à GloboNews, o senador e candidato à Presidência havia afirmado: “Olha só. O último pagamento que ele fez […] foi em maio de 2025”. O documento registra, porém, uma transferência de US$ 1.666.667 em 16 de setembro daquele ano para o Havengate Development Fund, fundo americano usado na administração dos recursos destinados ao filme.
Quanto Vorcaro transferiu?
O pagamento de setembro elevou de US$ 10,6 milhões para aproximadamente US$ 12,3 milhões o total de recursos comprovadamente enviados por determinação de Vorcaro para o projeto. Na cotação daquele período, o montante superava R$ 65 milhões.
A nova parcela foi transferida oito dias depois de Flávio cobrar pagamentos atrasados ao banqueiro. O acordo para financiar o longa previa US$ 24 milhões, e o repasse identificado pelo Coaf representa a 7ª parcela conhecida.
Diálogos indicam possível 8º pagamento
A Piauí também revelou conversas que apontam para a possibilidade de outro repasse em outubro de 2025. No dia 22 daquele mês, já durante as filmagens, Flávio procurou Vorcaro às 8h54. “Bom dia, mermão! Já estamos no terceiro dia de gravação. Estamos no limite.” Nove minutos depois, acrescentou: “Mais uma vez, com toda a liberdade que temos, se não der me fala que procuro urgente outro caminho.” O banqueiro respondeu: “Deixa comigo irmão, vou ver agora.”
Menos de uma hora depois, o publicitário Thiago Miranda, que atuava na intermediação de recursos para o filme, também procurou Vorcaro. “Consegue liberar as parcelas do filme?”, perguntou. “Se não vai parar tudo por lá 😐”. O banqueiro respondeu: “Sim. Liberei mais uma hoje”. Miranda avisou que comunicaria aos responsáveis pela produção e acrescentou: “Flávio disse que iria te ligar também.”
A revista não apresentou registro bancário que confirme a efetivação dessa possível 8ª parcela. Caso o pagamento de mais US$ 1,6 milhão citado na conversa tenha sido realizado, os aportes ligados a Vorcaro chegariam perto de US$ 14 milhões, equivalentes a cerca de R$ 72 milhões na época.
Outras versões de Flávio foram contestadas
A divergência sobre a data do último pagamento se soma a declarações anteriores do senador. Em março, quando seu telefone apareceu na agenda de Vorcaro, Flávio afirmou à colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, que nunca havia mantido contato com o dono do Banco Master.
Mais tarde, ao ser questionado pelo Intercept Brasil sobre o financiamento de “Dark Horse”, respondeu: “É mentira, de onde você tirou isso?”. A divulgação posterior de áudios e mensagens mostrou Flávio tratando diretamente com Vorcaro dos pagamentos para o projeto.
Na GloboNews, o candidato também afirmou que o Havengate Development Fund era fiscalizado pela Securities and Exchange Commission (SEC), órgão regulador do mercado americano, e que o fundo havia sido fechado quando surgiram as primeiras suspeitas contra Vorcaro. A Piauí verificou que o Havengate não está sob supervisão da SEC e continua ativo nos registros empresariais do Texas.
Investigação acompanha caminho do dinheiro
Outro ponto sob investigação é a rota utilizada pelos recursos. O dinheiro ligado a Vorcaro não seguia diretamente para a Go Up Entertainment, produtora americana responsável por “Dark Horse”. Segundo a documentação obtida pela revista, as remessas passavam pela Entre Investimentos e Participações, de Antonio Freixo Junior, conhecido como Mineiro, apontado pela Polícia Federal como possível operador financeiro da rede montada em torno do Master.
A relação entre Freixo e Vorcaro é anterior ao filme. Segundo documentos da PF, empresas do Grupo Entre estiveram envolvidas em pelo menos R$ 614 milhões em operações relacionadas ao Master. A Entre Investimentos emitiu R$ 71 milhões em títulos comprados pelo banco, a Entre Payments recebeu R$ 213 milhões de um fundo ligado ao Master e outros R$ 330 milhões em pagamentos de debêntures. Freixo foi alvo de busca e apreensão na 2ª fase da Operação Compliance Zero, investigação sobre as fraudes atribuídas ao banco.
Relatórios do Coaf também apontaram movimentações consideradas atípicas na Entre. Apesar de ter capital social de R$ 17,4 milhões, a empresa registrava faturamento de R$ 345,5 milhões e recebimentos expressivos de fundos. O órgão identificou ainda transferências para empresas ligadas a operações investigadas na Carbono Oculto e R$ 2,8 milhões enviados a casas lotéricas de maneira compatível, segundo o relatório, com o uso da conta como canal de passagem.
A Entre também movimentou recursos com o Gold Style, fundo administrado pela Reag que aparece em diferentes investigações financeiras. O Coaf identificou R$ 20 milhões em transações frequentes entre os dois e apontou que operações do fundo utilizavam “camadas complexas” para ocultar beneficiários e dificultar o rastreamento. O mesmo Gold Style movimentou valores com a BK Bank, investigada por suspeita de funcionar como estrutura financeira ligada ao PCC. Não há indicação de que esses recursos específicos tenham financiado “Dark Horse”, mas a conexão amplia o interesse dos investigadores pelo percurso adotado pelo dinheiro do filme.
Qual a relação de Eduardo Bolsonaro com o dinheiro?
Foi pela estrutura da Entre que os recursos destinados a “Dark Horse” chegaram ao Havengate Development Fund, no Texas. O fundo é administrado por Paulo Calixto, advogado especializado em imigração e amigo de Eduardo Bolsonaro. A investigação tenta agora reconstruir quanto entrou no Havengate, quanto efetivamente chegou à produtora do filme e se parte dos valores teve outro destino. A investigação quer levantar se parte dos valores pagos por Vorcaro foi desviada para custear a permanência do ex-deputado nos Estados Unidos.
Eduardo declarou anteriormente à CBN que colocou US$ 50 mil de recursos próprios no projeto para garantir a contratação do diretor e recebeu o dinheiro de volta posteriormente. Nos documentos americanos relacionados ao filme, porém, ele aparece em momentos diferentes como “produtor executivo” e “financiador”.
A primeira transferência conhecida ligada a Vorcaro, de US$ 2 milhões, ocorreu em 13 de fevereiro de 2025, mesmo mês em que Eduardo passou a viver nos Estados Unidos.
Aberto para posicionamentos
Procurado pela Piauí sobre o pagamento de setembro e o total destinado ao filme, Flávio Bolsonaro não respondeu diretamente às perguntas. Sua assessoria afirmou que a revista deveria consultar a produtora: “Isso não é com a gente.”
O espaço segue aberto para posicionamentos, declarações e atualizações das partes citadas, que queiram responder, refutar ou acrescentar detalhes em relação ao que foi noticiado.