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IA Arte/Pipoca Moderna

Série|15 de setembro de 2026

Apple TV supera Netflix e HBO no Emmy com projeto diferenciado de streaming

Plataforma foi a grande vencedora do Emmy 2026 graças a “O Segredo de Widow's Bay” e “Pluribus”


Pipoque pelo Texto ocultar
1 Liderança inédita
2 O que os números mostram?
3 Menos séries, mais qualidade
4 Virada aconteceu em um ano
5 Apple transforma gênero em identidade
6 A evolução do prestígio no Emmy
7 Concorrentes mudaram de direção
8 Quem construiu a programação da Apple?

Liderança inédita

A Apple TV terminou o Emmy 2026 na liderança entre as plataformas, com 28 prêmios, à frente da HBO Max, que conquistou 21, e da Netflix, com 16. É a 1ª vez que o streaming da Apple ocupa o topo da premiação desde seu lançamento em 2019, resultado ainda mais significativo por surgir de uma operação menor que a de seus principais concorrentes em quantidade de séries e tamanho de catálogo.

O que os números mostram?

A vantagem não veio de um número maior de indicações. A HBO Max liderou essa etapa com 122 nomeações, seguida pela Netflix, com 111, enquanto a Apple somou 89. Mesmo usando essa conta mais ampla, quase um terço das indicações da Apple terminou em vitória. A proporção fica perto de 32%, contra aproximadamente 17% da HBO Max e 14% da Netflix.

O resultado também foi bastante concentrado. “O Segredo de Widow’s Bay” sozinho conquistou 14 prêmios, e “Pluribus” levou seis. Juntas, as duas produções responderam por 20 dos 28 Emmys da plataforma, mais de 70% do total. “Margo Está em Apuros” e “Palm Royale” acrescentaram três troféus cada, enquanto “Slow Horses” e “O Lendário Martin Scorsese” ficaram com um cada.

Menos séries, mais qualidade

A diferença de escala é gritante. No ano passado, a Apple TV teve 37 estreias de temporadas produzidas nos EUA, contra 133 da Netflix. A Netflix lançou, portanto, cerca de 3,6 vezes mais.

O contraste aumenta quando se observa o catálogo. Um levantamento do JustWatch em junho deste ano estimou cerca de 220 programas disponíveis na Apple TV, diante de aproximadamente 3.300 na Netflix.

A diferença também deriva da origem dos serviços. A Apple entrou no streaming em 2019 com uma biblioteca construída praticamente do zero e baseada em produções próprias, sem décadas de acervo de um estúdio ou rede de televisão para incorporar ao serviço. A empresa ampliou o ritmo e anunciou para 2026 a chegada de um original novo por semana, considerando diferentes formatos, mas permanece distante da escala da Netflix.

Esse desenho produz um consumo igualmente concentrado. Dados da Antenna apontaram neste ano que os assinantes mais ativos da Apple tendem a se reunir em torno de poucas séries-âncora, enquanto a audiência pesada da Netflix se distribui por um número muito maior de títulos. É uma estrutura mais próxima do antigo modelo da televisão paga premium, que dependia de algumas produções capazes de definir a identidade do canal, do que da estratégia de volume que consolidou a Netflix.

Virada aconteceu em um ano

A liderança também representa uma inversão em relação ao Emmy passado. Em 2025, a Apple alcançou seu melhor resultado até então com 22 prêmios, impulsionada por “O Estúdio” e “Ruptura”, mas terminou atrás da HBO Max e da Netflix, que empataram com 30 troféus cada. Agora, a Apple subiu para 28, enquanto a HBO Max caiu para 21 e a Netflix para 16.

“O Estúdio” havia estabelecido em 2025 o recorde de comédia mais premiada em uma única edição do Emmy, com 13 troféus. Neste ano, outra produção da Apple superou a marca: “O Segredo de Widow’s Bay” chegou a 14. A plataforma também colocou três séries entre as indicadas a Melhor Série de Comédia — “O Segredo de Widow’s Bay”, “Falando a Real” e “Margo Está em Apuros” — e outras três na disputa de Melhor Série de Drama: “Pluribus”, “Slow Horses” e “Seus Amigos e Vizinhos”.

A liderança de 2026 rompe ainda uma concentração histórica. Foi apenas a 2ª vez em duas décadas que HBO/HBO Max ou Netflix não ficaram no topo da contagem de Emmys. A outra ocorreu em 2024, quando a FX/Disney+ terminou à frente das duas.

Apple transforma gênero em identidade

A diferença da Apple também aparece no tipo de série em que decide investir. Fora da corrida anual pelo Emmy, a plataforma construiu uma das bibliotecas mais consistentes de ficção científica e fantasia do streaming, com produções como “Silo”, “Fundação”, “Matéria Escura”, “For All Mankind”, “Monarch: Legado de Monstros”, “Ruptura” e “Diários de um Robô-Assassino”.

Não se trata apenas de quantidade. Essas séries ajudaram a criar uma identidade para um serviço que não possui o enorme acervo herdado dos grandes estúdios. Em vez de tentar reproduzir a diversidade quase ilimitada da Netflix, a Apple passou a ser reconhecida por produções de gênero com alto investimento, elencos conhecidos e continuidade por várias temporadas.

O Emmy deste ano levou essa característica para o centro da premiação. “O Segredo de Widow’s Bay”, uma mistura de comédia e horror sobre uma comunidade assombrada, tornou-se a produção mais premiada da edição. “Pluribus”, ficção científica de Vince Gilligan, recebeu 18 indicações e venceu seis categorias, entre elas Melhor Atriz de Drama para Rhea Seehorn. Duas produções de gênero responderam, portanto, pela maior parte da campanha que levou a Apple ao topo.

A evolução do prestígio no Emmy

A situação marca uma mudança importante na definição do que é uma série de prestígio. Durante décadas, produções de ficção científica, fantasia e horror foram relegadas às categorias técnicas do Emmy. Essa barreira começou a ceder com títulos como “Lost”, “Game of Thrones” e “The Handmaid’s Tale” e se ampliou em paralelo à renovação geracional dos votantes da Academia da Televisão.

“O Segredo de Widow’s Bay” e “Pluribus” mostram que séries de gênero já não precisam aparecer como exceção dentro da programação considerada prestigiosa.

Concorrentes mudaram de direção

A estratégia da Apple vai na contramão das decisões de seus rivais. Os dados de audiência de 2026 ajudam a mostrar a diferença. Entre os títulos mais populares de streaming do 1º semestre aparecem o drama médico “The Pitt”, o jurídico “The Lincoln Lawyer”, o suspense “Dele & Dela”, o thriller de espionagem “Agente Noturno”, o western “The Madison” e o drama romântico “Virgin River”. A própria Luminate observa que o streaming começou a se parecer cada vez mais com a televisão aberta americana, depois de uma fase dominada por séries ousadas e grandes produções de gênero.

A Apple seguiu na direção oposta.

Quem construiu a programação da Apple?

A estratégia da Apple TV é comandada desde sua origem por Jamie Erlicht e Zack Van Amburg, atuais chefes mundiais de vídeo da empresa. Os dois foram contratados em 2017, antes mesmo do lançamento do streaming, depois de mais de uma década como presidentes da Sony Pictures Television. Sob a gestão da dupla, a Sony viveu sua era de ouro, ampliando em mais de três vezes sua produção de séries para o horário nobre com o lançamento de títulos consagrados como “Breaking Bad”, “Better Call Saul”, “The Crown”, “The Shield”, “Justified”, “Damages” e “Preacher”.

Matt Cherniss, atual chefe de Programação e Desenvolvimento Doméstico da Apple TV, chegou no mesmo ano. Antes, presidiu a WGN America e a Tribune Studios, onde comandou a transformação de um canal sustentado principalmente por reprises em produtor de séries originais. Foi durante sua gestão que surgiram “Salem”, série de horror sobrenatural, “Manhattan”, sobre o Projeto Manhattan, além de “Underground” e “Outsiders”. Cherniss também havia trabalhado no desenvolvimento de produções originais do FX.

A programação europeia tem outra executiva com longa experiência em curadoria. Jay Hunt, diretora criativa da Apple TV para a Europa, comandou anteriormente três grandes canais britânicos. Foi diretora de Programação do Channel 5, controladora da BBC One e, durante quase sete anos, chefe criativa do Channel 4. Na BBC One, esteve à frente das encomendas de “Sherlock” e “Luther”. No Channel 4, sua gestão produziu “Humans”, “Catastrophe”, “Gogglebox” e “First Dates”, entre outros títulos. Na Apple, seu trabalho está ligado a produções europeias como “Slow Horses”, “Bad Sisters” e “Hijack”.

Outro nome importante na construção desse catálogo foi Morgan Wandell, que comandou o desenvolvimento internacional da Apple TV até maio deste ano. Ele veio da Amazon Studios, onde era chefe de Séries Internacionais e trabalhou com produções como “The Man in the High Castle”, “Goliath”, “Jack Ryan” e “The Marvelous Mrs. Maisel”. Na Apple, supervisionou títulos como “Monarch: Legado de Monstros”, “Teerã”, “Disclaimer”, “Mestres do Ar” e “The New Look”. Após sua saída para criar uma produtora própria, parte de suas atribuições passou para Cherniss, enquanto Hunt ampliou sua atuação internacional.

Esse histórico ajuda a explicar por que a Apple investe em projetos ousados, enquanto boa parte do streaming privilegia formatos mais amplos, baratos e previsíveis. A premiação da plataforma não reflete, portanto, um caso acidental. Ela consagra uma política de programação que prefere diferenciação a volume.

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