
Ilustração/Gemini
Paramount ameaça deixar Hollywood se não houver fusão com Warner
Plano prevê transferência de milhares de empregos da Califórnia e é chamado de “chantagem”
Paramount considera saída de Hollywood
A Paramount ameaça deixar Hollywood e transferir gradualmente a maior parte de seus empregos de estúdio para outro estado caso não consiga destravar até 1º de outubro a batalha judicial em torno da compra da Warner Bros. Discovery. O plano apresentado pelo CEO David Ellison provocou uma reação imediata do governo da Califórnia e do Sindicato dos Roteiristas, transformando a possível mudança numa nova frente da disputa pela fusão de aproximadamente US$ 110 bilhões.
O que David Ellison pretende fazer?
Segundo informações reveladas pelo Puck, Ellison apresentou a estratégia à cúpula da Paramount na quarta (5/8). Sua prioridade continua sendo manter a futura companhia e cerca de 30 mil empregos no sul da Califórnia, mas o executivo avisou que começará a preparar a saída caso não haja negociação com o procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta.
A sede seria a primeira estrutura transferida. Depois, um plano de aproximadamente cinco anos deslocaria progressivamente grande parte dos empregos ligados aos estúdios. Tennessee, Texas e Geórgia aparecem entre os destinos considerados, e Ellison já teria iniciado conversas com governos estaduais sobre incentivos econômicos.
A mudança também teria forte impacto tributário. Segundo o executivo, a Paramount poderia economizar cerca de US$ 500 milhões por ano em impostos fora da Califórnia.
Por que 1º de outubro virou a data-limite?
A pressão está diretamente ligada ao custo do atraso na compra da Warner Bros. Discovery. Se o negócio não estiver concluído até 30 de setembro, a Paramount começará a pagar aproximadamente US$ 7 milhões por dia à Warner enquanto aguarda o fechamento.
O problema é que o julgamento da ação antitruste foi marcado apenas para março de 2027. Se o impasse chegar até lá, a conta adicional pode ultrapassar US$ 1 bilhão antes mesmo de uma decisão judicial.
O acordo ainda prevê outra penalidade: caso a aquisição seja definitivamente impedida por razões regulatórias, a Paramount poderá ter de pagar US$ 7 bilhões à Warner Bros. Discovery.
Califórnia chama ameaça de “chantagem”
A divulgação do plano elevou a temperatura da disputa. Rob Bonta, procurador-geral da Califórnia e principal nome da ofensiva contra a fusão, classificou a possibilidade de retirada do estúdio como uma tentativa de “chantagem” para pressionar o estado a abandonar ou flexibilizar a ação antitruste.
Makan Delrahim, chefe jurídico da Paramount, respondeu horas depois durante uma conferência da Politico. Ele negou que a empresa esteja tentando intimidar as autoridades e afirmou que permanecer na Califórnia continua sendo a preferência do grupo.
“A intenção dele é continuar comprometido com a Califórnia”, disse Delrahim sobre Ellison. “Mas chega um momento em que existe um dever fiduciário com os acionistas e todos esses fatores precisam ser considerados. Nosso objetivo é ficar aqui.”
Paramount diz que “tudo está na mesa”
Apesar de defender a permanência em Hollywood, Delrahim deixou aberta a possibilidade de negociar qualquer solução capaz de permitir a conclusão da compra da Warner.
“Tudo está na mesa”, afirmou. Segundo ele, a Paramount estaria disposta a discutir um acordo que permita encerrar o processo e concluir a fusão.
O executivo também argumentou que a transação já passou pelo crivo de autoridades em dezenas de mercados internacionais e questionou por que a Califórnia adota uma leitura diferente sobre seus efeitos na concorrência.
Para a empresa, a combinação das duas companhias não criaria domínio no streaming. Delrahim afirmou que, consideradas as plataformas digitais, Paramount e Warner juntas teriam algo entre 7% e 11% do mercado.
Disputa envolve cinema, TV paga e streaming
A ação dos procuradores-gerais argumenta que a união pode reduzir a concorrência na distribuição de filmes de grande lançamento, na produção de blockbusters e no licenciamento de canais de televisão por assinatura.
Os autores sustentam que uma empresa maior poderia elevar preços, diminuir a quantidade de produções e reduzir as opções disponíveis para consumidores e parceiros comerciais.
A Paramount rejeita essa interpretação e afirma que a escala adicional permitiria competir de maneira mais eficiente com Netflix, Disney e Amazon.
CNN também entra no confronto
A disputa ganhou ainda uma dimensão política por causa da CNN, que passaria ao controle de Ellison caso a aquisição seja concluída. O executivo já sugeriu que a resistência da Califórnia poderia estar ligada ao temor de mudanças na linha editorial da emissora.
Bonta negou essa interpretação e afirmou que vender a CNN, por si só, não resolveria as preocupações do processo.
“Não é sobre a CNN. Este é um caso antitruste”, afirmou. Segundo ele, a discussão jurídica está concentrada nos efeitos da operação sobre cinemas e operadoras de TV paga.
Roteiristas usam ameaça contra a fusão
A reação mais dura veio do Writers Guild of America. O Sindicato dos Roteiristas argumentou que a disposição da Paramount de retirar empregos da Califórnia para pressionar o governo reforça justamente o risco de entregar ainda mais poder à companhia.
“Ao ameaçar deixar o estado porque não quer que o governo aplique a lei, a Paramount comprova ainda mais o perigo de seu poder desproporcional sobre a indústria e o que isso significará para roteiristas e para a comunidade criativa”, afirmou o WGA. “Esse tipo de comportamento é exatamente o motivo pelo qual a fusão deveria ser bloqueada.”
O sindicato também tenta impedir judicialmente a compra da Warner. WGA East e WGA West apresentaram uma ação própria para tratar especificamente dos impactos trabalhistas da concentração.
Hollywood vira peça de negociação
A ameaça coloca em jogo uma ligação histórica. A Paramount mantém operações de estúdio em Hollywood há mais de um século, enquanto a Warner também concentra grande parte de sua estrutura na região de Los Angeles.
Ainda não está claro até que ponto Ellison realmente executaria uma transferência dessa dimensão. O próprio executivo demonstrou confiança na possibilidade de vencer a batalha judicial e continua dizendo que prefere concluir a fusão mantendo a companhia na Califórnia.
A partir de 1º de outubro, porém, cada novo dia de espera acrescentará cerca de US$ 7 milhões ao custo da aquisição.