
Divulgação/Paris Filmes
Guia da Pipoca: “Coyote vs. Acme” e “Ponto sem Retorno” estreiam no cinema
Híbrido de animação e live-action dos Looney Tunes e sci-fi pós-apocalíptica de Ridley Scott são os principais lançamentos da semana
Os cinemas recebem dois títulos de distribuição ampla nesta quinta (27/8), “Coyote vs. Acme” e “Ponto sem Retorno”. O híbrido de animação e live-action é um fenômeno de aprovação crítica, que reúne os personagens clássicos dos Looney Tunes numa comédia ao estilo de “Uma Cilada para Roger Rabbit”, enquanto a sci-fi pós-apocalíptica marca a volta do cinema Ridley Scott ao gênero, acompanhado por atores que vivem momentos de alta na carreira.
A programação ainda destaca o drama vencedor do César, o Oscar do cinema francês deste ano, e o longa brasileiro recém consagrado como vencedor do Festival de Gramado. Confira a lista completa.
🎞️ COYOTE VS. ACME
A comédia híbrida, que combina personagens animados e atores de carne e osso, é a produção do gênero mais elogiada pela crítica internacional desde o revolucionário “Uma Cilada para Roger Robbit”. O clássico de 1988 tem 96% de aprovação no Rotten Tomatoes e a produção lançada em 2026 chegou à mesma pontuação. Por sinal, ambos os filmes se passam no mesmo universo de personagens.
Apesar disso, “Coyote vs. Acme” foi jogado no lixo pela Warner. Concluído por cerca de US$ 70 milhões, foi engavetado após a transformação da Warner Media em Warner Bros. Discovery em 2023 como parte de uma estratégia de abatimento fiscal. A decisão do CEO David Zaslav colocou o longa numa lista de filmes finalizados que nunca chegaram ao público, como “Batgirl” e “Scoob! Holiday Haunt”, do Scooby-Doo. A diferença é que o vazamento de elogios de sessões-testes provocou forte reação de cineastas, artistas e fãs, até que, em 2025, a pequena distribuidora Ketchup Entertainment fez uma oferta de US$ 50 milhões para resgar o filme, abrindo caminho para o lançamento mundial nos cinemas.
Dirigido por Dave Green (“As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras”) a partir de um roteiro de Samy Burch (“Segredos de um Escândalo”), o filme parte de uma ideia genial de ninguém menos que James Gunn (“Superman”) e Jeremy Slater (“Mortal Kombat II”). Depois de décadas fracassando na tentativa de capturar o Papa-Léguas com foguetes, explosivos, molas, armadilhas e outros produtos defeituosos, Wile E. Coyote se revolta e decide processar a fabricante. Ele contrata Kevin Avery (Will Forte, “O Último Cara da Terra”), advogado de pequenos casos que percebe na sucessão de acidentes uma oportunidade real de responsabilizar a Acme pelos equipamentos que sistematicamente explodem na cara de seu cliente.
O problema é que o antigo escritório de Kevin representa justamente a Acme. Do outro lado do tribunal está Buddy Crane (John Cena, “Pacificador”), advogado corporativo disposto a usar dinheiro, influência e as próprias invenções da empresa para impedir a vitória do Coyote. A ação judicial cria uma mistura de live-action e animação em que personagens dos Looney Tunes coexistem com humanos, permitindo diversos ícones do catálogo da Warner, de Pernalonga a Patolino, a aparecerem ao redor do processo.
🎞️ PONTO SEM RETORNO
Ridley Scott (“Perdido em Marte”) volta à ficção científica com uma adaptação do romance “Na Companhia das Estrelas”, de Peter Heller. Após uma pandemia de gripe exterminar quase toda a humanidade, Hig (Jacob Elordi, de “Frankenstein”) sobrevive num aeroporto abandonado do Colorado ao lado do cachorro e de Bangley (Josh Brolin, “Duna”), ex-fuzileiro que transformou o local numa fortaleza. Enquanto Bangley considera qualquer desconhecido uma ameaça, Hig continua procurando sinais de que ainda existe algo além da simples sobrevivência.
A rotina muda quando Hig capta pelo rádio uma transmissão vinda de uma distância maior do que costuma percorrer com seu pequeno avião. Ele abandona a segurança do hangar para descobrir a origem da voz e acaba encontrando Cima (Margaret Qualley, “A Substância”), que vive com o pai num rancho isolado. A possibilidade de reconstruir algum tipo de relação humana entra em choque com um mundo onde sobreviventes armados, conhecidos como Ceifeiros, percorrem as estradas saqueando quem encontram.
O roteiro é de Mark L. Smith, de “O Regresso”, e mantém a estrutura de sobrevivência do livro, mas Scott trabalha em escala menor que seus épicos recentes. A paisagem apresentada como Colorado foi filmada nas montanhas e florestas da Itália, fotografadas por Erik Messerschmidt (“Mank”). O resultado tende a decepcionar quem espera um thriller de ação, já que o tom contemplativo do filme é mais interessado em explorar o isolamento e a dificuldade de restabelecer vínculos do que em apresentar uma sucessão contínua de confrontos pós-apocalípticos.
🎞️ PERDIDA NO ÁRTICO
A coprodução entre Finlândia e Grécia acompanha Emily (Thea Sofie Loch Næss, “A Meia-Irmã Feia”), uma patinadora profissional que participa de uma ação promocional no Ártico e acaba presa sobre uma placa de gelo que se desprende e fica à deriva pelo oceano. Sem abrigo adequado e distante das equipes de resgate, ela precisa descobrir como sobreviver enquanto o bloco diminui à medida que avança para águas mais quentes.
A situação limita os recursos de Emily a tudo o que conseguiu manter consigo e transforma frio, fome, sede e a própria instabilidade do gelo em ameaças permanentes. Animais selvagens também passam a dividir aquele território provisório, e a aproximação de um filhote de urso-polar cria uma relação inesperada numa história sustentada quase inteiramente pela solidão da protagonista.
Taavi Vartia assina roteiro e direção e concentra o suspense na deterioração física e psicológica provocada pelo isolamento. O gelo funciona como uma contagem regressiva visível: quanto mais tempo passa, menor se torna o espaço disponível para Emily. A narrativa também relaciona a luta pela sobrevivência a questões não resolvidas do passado da personagem, levando a patinação — inicialmente sua profissão — a assumir outro significado ao longo da experiência.
🎞️ O APEGO
O drama francês gira em torno de Sandra (Valeria Bruni Tedeschi, “A Linha”), uma livreira que vive sozinha e nunca quis ter filhos. Sua relação com a família do apartamento vizinho começa de maneira circunstancial, quando Cécile entra em trabalho de parto e pede que ela cuide por algumas horas de Elliott, seu filho de 6 anos. Cécile morre no hospital ao dar à luz Lucille, deixando o companheiro Alex (Pio Marmaï, “O Acontecimento”) sozinho com a recém-nascida e um menino que não é biologicamente seu. Depois daquela noite, Elliott passa a procurar Sandra em busca de ajuda, e a vizinha antes distante acaba entrando aos poucos na rotina da família.
A aproximação cria uma rede pouco convencional. Alex assume a criação de Elliott apesar de o pai biológico do menino continuar presente, enquanto Sandra se torna uma referência afetiva sem ocupar o lugar da mãe morta. Quando o viúvo começa outro relacionamento, os vínculos se reorganizam novamente, sem que um personagem simplesmente substitua outro. O filme mostra como responsabilidades, afeto e convivência criam vínculos que não dependem necessariamente de casamento ou parentesco.
O filme da cineasta Carine Tardieu (“Os Jovens Amantes”) foi indicado a oito prêmios César (o Oscar francês) e venceu três, incluindo Melhor Filme do ano e Melhor Roteiro Adaptado, baseado no “L’Intimité”, de Alice Ferney.
🎞️ A QUINTA PORTUGUESA
O drama de Avelina Prat (“Vasil”) acompanha Fernando (Manolo Solo, “O Bom Patrão”), professor de geografia cuja vida organizada desaba quando a mulher, Milena, desaparece. Ao descobrir que ela provavelmente voltou para a Sérvia sem avisá-lo, ele abandona casa e trabalho e parte sem destino definido. Durante a viagem, encontra Manuel, jardineiro que se dirigia a Portugal para assumir um emprego num sítio (ou quinta, como falam em Portugal). A morte inesperada do desconhecido oferece a Fernando uma saída extrema: assumir sua identidade.
Apresentando-se como Manuel, ele chega à propriedade de Amália (Maria de Medeiros, “Pulp Fiction”) e começa a cuidar do jardim. A dona do sítio percebe que há algo estranho no novo funcionário, mas permite que ele permaneça. A convivência evolui para uma amizade entre duas pessoas que também escondem aspectos de suas vidas, enquanto Fernando passa a ocupar casa, rotina e relações que pertenciam a outro homem.
Prat constrói a história em torno da ideia de que identidade depende não apenas do passado, mas também dos lugares e relações que uma pessoa passa a habitar. O filme foi rodado entre Barcelona e a Quinta da Aldeia, propriedade real em Ponte de Lima, e transforma a mudança geográfica do protagonista numa experiência de desaparecimento voluntário: depois de ser abandonado pela mulher, Fernando testa até que ponto é possível abandonar também quem ele próprio era.
🎞️ NOSSO SEGREDO
Primeiro longa dirigido pela atriz Grace Passô (“Temporada”), “Nosso Segredo” acompanha uma família negra de Belo Horizonte que tenta reorganizar a vida depois da morte do pai. Dentro da casa, cada integrante enfrenta o luto de maneira isolada, e a dificuldade de falar sobre a perda produz uma convivência marcada por silêncios, ressentimentos e assuntos que ninguém consegue nomear.
O filho mais novo, Tutu (Efraim Santos), percebe algo que os adultos não conseguem ou não querem enxergar. Manifestações estranhas começam a transformar a casa, e o menino passa a relacioná-las a um segredo da família e a questões de identidade e ancestralidade que atravessam gerações. O fantástico surge gradualmente dentro de uma situação cotidiana, não como ruptura completa da realidade, mas como forma de materializar aquilo que permaneceu escondido.
Além de dirigir, Passô escreveu o roteiro, compartilhando temas que já marcavam sua peça “Amores Surdos”, como os não-ditos dentro de famílias negras e diferentes maneiras de viver e elaborar a própria identidade. Exibido no Festival de Berlim, o longa venceu o troféu de Melhor Filme no Festival de Gramado deste ano.
🎞️ MUITO PRAZER
Jorge Furtado (“Saneamento Básico – O Filme”) retorna à comédia com a história de Rubem (Daniel de Oliveira, “Coração Acelerado”), motorista de aplicativo sem grandes perspectivas que herda do tio um motel decadente. Ao chegar ao local, descobre que Grace (Luisa Arraes, de “Grande Sertão”), ex-funcionária do estabelecimento, continua morando numa das suítes. Sem conseguir vender o imóvel e cercados por dívidas, os dois resolvem reabrir o Motel Pérola.
O negócio continua sem clientes até Nalva (Samantha Jones, “Manhãs de Setembro”), que entende melhor o funcionamento da internet, ajudar os dois a explorar uma fonte clandestina de renda. Câmeras escondidas nos quartos registram os encontros dos hóspedes, e os vídeos são vendidos a sites pornográficos depois que os rostos são ocultados. O esquema cresce rapidamente, até ser descoberto e colocar o trio diante da possibilidade de prisão. Para tentar provar que as gravações eram encenadas, eles precisam começar a fabricar vídeos falsos que pareçam reais.
Furtado usa a operação criminosa como ponto de partida para discutir sexo, intimidade, consentimento e a transformação de desejos em produtos digitais. Ao mesmo tempo, a aproximação entre Rubem e Grace introduz uma comédia romântica num ambiente em que algoritmos prometem identificar e atender fantasias com precisão.
🎞️ UM OLHAR INQUIETO: O CINEMA DE JORGE BODANZKY
Em 1973, Jorge Bodanzky (“Iracema – Uma Transa Amazônica”) sobrevoava a região de Aripuanã, no Mato Grosso, como cinegrafista de uma reportagem para a TV alemã sobre o Projeto Humboldt, iniciativa científica criada durante a ditadura. Do avião, filmou uma grande maloca no meio da floresta e indígenas Cinta Larga tentando atingir a aeronave com flechas. A sequência desapareceu de circulação durante décadas até o material ser recuperado pelo Instituto Moreira Salles.
Esse registro leva Bodanzky de volta à região meio século depois, agora acompanhado pela codiretora Liliane Maia. O reencontro não serve apenas para descobrir o que aconteceu com aquele território, mas para revisar uma relação com a Amazônia que atravessou boa parte de sua carreira. O filme contrapõe a paisagem contemporânea às imagens captadas pelo cineasta desde os anos 1970 e incorpora seus numerosos rolos de Super-8 como memória pessoal e documento histórico.
Mais do que uma retrospectiva convencional, o documentário organiza a trajetória de Bodanzky a partir de seu hábito de observar o país com uma câmera. Fotógrafo antes de se tornar cineasta, ele construiu obras que misturaram documentário e ficção para registrar expansão econômica, conflitos ambientais e populações atingidas pela ocupação da Amazônia. “Iracema – Uma Transa Amazônica”, realizado com Orlando Senna, foi o exemplo mais conhecido desse método, apesar de censurado durante a ditadura.
🎞️ NEM TUDO É PAZ E AMOR
“Nem Tudo É Paz e Amor” observa a contracultura brasileira dos anos 1960 e 1970 pelo ponto de vista de quem cresceu dentro dela. Em vez de reconstruir diretamente as trajetórias de Tropicalistas, Novos Baianos e outros artistas que romperam padrões de comportamento durante a ditadura, Betão Aguiar procura seus filhos para perguntar como era viver numa infância em que liberdade sexual, drogas, comunidades alternativas, perseguição política e criação artística faziam parte da rotina doméstica.
Moreno Veloso, Nara Gil, Beto Lee, Anelis Assumpção e Sarah Sheeva estão entre os entrevistados que revisitam os pais não como ícones culturais, mas como adultos responsáveis por criar crianças enquanto reinventavam as próprias vidas. As lembranças alternam fascínio e dificuldade: a ausência de regras podia representar liberdade, mas também insegurança; a convivência com artistas célebres não anulava separações, conflitos familiares ou as consequências da repressão política.
O próprio Betão é filho de Marília Aguiar e Paulinho Boca de Cantor, integrante dos Novos Baianos. A ideia original do projeto, porém, partiu de Jasmin Pinho, amiga do diretor e filha de uma família ligada à contracultura, que morreu em 2020 antes de realizá-lo. Betão e Minom Pinho, irmã de Jasmin, levaram a proposta adiante, preservando a pergunta que orientava o filme: o que ficou para os filhos depois que a geração dos pais transformou sua maneira de viver em parte da história cultural brasileira?
🎞️ PHOTOCHART: NASCIDO PARA VENCER
O documentário usa a trajetória de Jorge Ricardo para atravessar parte da história recente do turfe brasileiro. Conhecido como Ricardinho, o jóquei acumulou mais de 13 mil vitórias e chegou ao recorde mundial da modalidade sem abandonar as pistas depois dos 60 anos. Sua formação começou ainda na infância sob a influência do pai, Antônio Ricardo, também jóquei e antigo recordista de vitórias na América do Sul.
Entre os episódios recuperados está a rivalidade com Juvenal Machado da Silva, que durante os anos 1980 e início dos 1990 transformou as corridas no Hipódromo da Gávea em disputas acompanhadas como clássicos esportivos. O documentário também passa pela experiência internacional de Jorge Ricardo, pela batalha contra um câncer em 2009 e pela corrida em que alcançou a marca de 13 mil vitórias, em 2020.
Luis Erlanger e Wagner de Assis (“Nosso Lar”) dirigem o longa combinando depoimentos de familiares e profissionais do turfe com imagens das corridas. O título faz referência ao photochart, registro fotográfico usado para determinar a ordem de chegada quando cavalos cruzam praticamente juntos a linha final, uma tecnologia ligada diretamente à obsessão estatística por vitórias que acompanha a carreira de Ricardinho.
🎞️ AKIRA
O anime mais influente do cinema volta às telas em edição remasterizada. Lançado originalmente no Japão em 1988, “Akira” teve papel decisivo na popularização do gênero entre o público adulto. No Brasil, chegou aos cinemas em 1991, quando levou mais de 250 mil espectadores às salas e se tornou um marco da distribuição de animação japonesa no país. O relançamento apresenta restauração em 4K e cópias dubladas e legendadas, recuperando para a tela grande a obra que ajudou a estabelecer visualmente o cyberpunk nas décadas seguintes.
A trama se passa após uma explosão destruir Tóquio e desencadear a 3ª Guerra Mundial. Três décadas depois, Neo-Tóquio é uma metrópole reconstruída sob autoritarismo, protestos políticos e violência de gangues. Kaneda lidera um grupo de motoqueiros até seu amigo Tetsuo sofrer um acidente ao encontrar uma criança envolvida em experimentos secretos do governo. Levado pelos militares, Tetsuo começa a desenvolver capacidades psíquicas cujo crescimento ameaça repetir a catástrofe associada ao misterioso Akira.
O próprio autor do mangá, Katsuhiro Otomo, dirigiu a adaptação enquanto ainda escrevia e desenhava a sci-fi, cuja publicação só terminaria em 1990, dois anos depois do lançamento do longa. Por isso, as duas versões começam com os mesmos personagens e conflitos, mas seguem caminhos diferentes. O longa cria uma conclusão própria para a transformação de Tetsuo e sua relação com Kaneda, enquanto o mangá posteriormente ampliou a história para além dos acontecimentos mostrados no cinema.
O filme condensou personagens e acontecimentos, misturando ficção científica, horror corporal, revolta juvenil e uma visão distópica de um futuro construído sobre trauma político e destruição. A animação detalhada de Neo-Tóquio, as perseguições de motocicleta e o uso de luzes, sombras e movimento continuam entre os elementos mais reconhecidos da produção e da história dos animes.