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Divulgação/Globo

TV|18 de agosto de 2026

Glória Menezes morre aos 91 anos no Rio de Janeiro

Atriz fez história na TV, no teatro e no cinema, além de formar com Tarcísio Meira uma dos casais mais famosos das novelas


Pipoque pelo Texto ocultar
1 Despedida aos 91 anos
2 Como Nilcedes se transformou em Glória?
3 Da estreia na TV à Palma de Ouro
4 Parceria com Tarcísio entrou pra história da TV
5 Público estranhava quando casal não ficava junto
6 Qual era o segredo do casamento?
7 Teatro permaneceu como base da atuação
8 A perda de Tarcísio Meira
9 Última homenagem veio dias antes da morte

Despedida aos 91 anos

Glória Menezes morreu aos 91 anos nesta terça-feira (18/8), em sua casa, no Rio de Janeiro. A informação foi confirmada pelo secretário da família, Tadeu Lima, que comparou a despedida à da atriz Laura Cardoso, morta horas antes, também em casa. “Faleceu como dona Laurinha”, disse.

Como Nilcedes se transformou em Glória?

Uma das pioneiras da televisão brasileira, Glória construiu uma carreira de mais de seis décadas com um nome artístico escolhido para substituir o incomum Nilcedes Soares de Magalhães. Ela gostava de explicar que Nilcedes não era exatamente “um nome, mas uma coisa”: a junção das primeiras sílabas de Nilo e Mercedes, seus pais. “Tive que trocar. Resolvemos botar Glória, porque Glória é Glória em qualquer idioma. E Menezes, por causa das minhas raízes portuguesas e porque completa 13 letras. Dá sorte”, dizia.

Nascida em 19 de outubro de 1934, em Pelotas, no Rio Grande do Sul, Glória mudou-se com a família para São Paulo aos 6 anos. A paixão pelo palco a levou à Escola de Artes Dramáticas da Universidade de São Paulo, onde criou o grupo amador Jovens Independentes. Em 1959, logo em seu primeiro espetáculo, ganhou o prêmio de Atriz Revelação num festival de teatro amador promovido por Antunes Filho.

Da estreia na TV à Palma de Ouro

A carreira avançou rapidamente. Ainda em 1959, Glória estreou na televisão em “Um Lugar ao Sol” e voltou a ser premiada. No ano seguinte, Antunes Filho a chamou para “As Feiticeiras de Salém”. A montagem lhe rendeu outro prêmio de Atriz Revelação, mas também provocou uma mudança definitiva em sua vida pessoal: foi nos bastidores da peça que conheceu Tarcísio Meira.

O encontro virou amizade durante o teleteatro “Uma Pires Camargo” (1961). Anos depois, Tarcísio recordou ao jornal O Globo como se interessou pela atriz. “Estava ensaiando a peça ‘As Feiticeiras de Salém’ e, de repente, passou aquela coisinha linda. Eu falei: ‘O que é isso?’ Um tempo depois, fomos chamados para fazer um teleteatro, ‘Uma Pires Camargo’ (1961) e ficamos amigos”, contou em 2015. “Quando ela lançou o filme ‘O Pagador de Promessas’ (1962) em Cannes, mandei flores e um cartão escrito ‘volte, volte, volte’.”

Antes mesmo de formar com Tarcísio um dos casais mais conhecidos da televisão, Glória já havia conquistado projeção internacional. Anselmo Duarte a escolheu para o principal papel feminino de “O Pagador de Promessas”, adaptação da peça de Dias Gomes filmada em 1960. O longa chegou ao Festival de Cannes em 1962 e conquistou a Palma de Ouro. Décadas depois, ela ainda se surpreendia com a velocidade daquela ascensão: “As coisas vieram para mim de uma maneira que eu fico pensando: ‘Meu Deus, se acontecesse hoje, com a experiência que eu tenho, seria um horror’. Mas você vai de cabeça nas coisas quando está começando”.

Parceria com Tarcísio entrou pra história da TV

A vida pessoal e a profissional passaram a caminhar juntas. Glória e Tarcísio protagonizaram “2-5499 Ocupado” (1963), primeira telenovela diária da televisão brasileira, exibida pela TV Excelsior. Daí em diante, os dois dividiram dezenas de trabalhos e construíram uma parceria que durou até a morte do ator, 59 anos depois do início da união.

Na Globo, o casal estreou em “Sangue e Areia” (1967) e voltou a dividir cenas em produções que marcaram época, incluindo “Irmãos Coragem” (1970), “O Homem que Deve Morrer” (1971), “Cavalo de Aço” (1973), “O Semideus” (1974), “Espelho Mágico” (1977), “Pai Herói” (1979), “Guerra dos Sexos” (1983), “Brega e Chique” (1987), “Rainha da Sucata” (1990), “Torre de Babel” (1998), “Senhora do Destino” (2004) e “A Favorita” (2008). Em “Irmãos Coragem”, sucesso de Janete Clair, Glória interpretou uma mulher com três personalidades, enquanto a trama ajudou a romper a ideia de que novela era um produto destinado essencialmente ao público feminino.

A imagem pública dos dois como casal acabou se tornando quase inseparável de suas carreiras, mas Glória sempre tratou a parceria profissional como uma relação entre dois atores que preservavam a individualidade. “Existe um respeito mútuo no trabalho de cada um e uma colaboração amiga, porque não existe amigo maior do que o Tarcísio – e eu me considero a melhor amiga dele também. Trocamos críticas construtivas, para que estejamos sempre melhorando”, afirmou ao Memória Globo.

Público estranhava quando casal não ficava junto

A identificação de Glória Menezes com Tarcísio Meira se tornou tão forte que a Globo chegou a enfrentar resistência quando tentou separá-los na ficção. Depois de “Sangue e Areia” (1967), a emissora escalou Glória com Carlos Alberto em “Passos dos Ventos” (1968), enquanto Tarcísio formava par com Yoná Magalhães em “A Gata de Vison”. “Não deu muito certo. Evidentemente, o público estava acostumado a ver a Yoná com Carlos Alberto, e o Tarcísio comigo”, contou Glória ao Memória Globo. No ano seguinte, ela voltou a contracenar com o marido em “Rosa Rebelde” e assim seguiram por vários anos.

Isso não impediu a atriz de construir personagens marcantes longe do marido. Em “Pai Herói” (1979), viveu Ana Preta, dona de uma casa de samba que entrou para o grupo de papéis mais populares de sua carreira e disputava Tony Ramos com Elizabeth Savalla. A própria Glória lembrava que roupas e flores usadas pela personagem passaram a ser copiadas nas ruas. Mas o público não aprovou Gloria com Tony, fazendo a escritora Janet Clair mudar seus planos originais para encaminhar o final com Tony e Elizabeth, casal anteriormente consagrado por “O Astro” (1977).

A inversão mais curiosa aconteceu em “Guerra dos Sexos” (1983). Glória e Tarcísio voltaram a integrar a mesma novela depois de seis anos sem contracenar, mas Silvio de Abreu não os reuniu como casal romântico. Ela interpretava Roberta Leone e ele, Felipe. Embora os personagens tivessem cenas juntos, Roberta terminou a trama com o motorista Nando, vivido por Mário Gomes. A novela ainda rompeu outra expectativa associada a Tarcísio ao colocá-lo pela primeira vez num papel abertamente cômico, distante da imagem de galã dramático que havia consolidado na televisão.

Qual era o segredo do casamento?

O casamento despertou curiosidade durante décadas, e Glória rejeitava a ideia de possuir uma fórmula para explicar sua duração. “Não tem receita para um casamento longevo. Se tivesse, eu estava trilionária (risos). Eu me considero uma privilegiada por ter um amor verdadeiro ao meu lado. A nossa convivência funciona para nós dois. Para outras pessoas, pode não dar certo. Cada casal é diferente do outro. Tendo amor e respeito, todo o resto vai bem.”

A parceria ganhou até uma produção própria em 1988. No seriado “Tarcísio & Glória”, os atores não apenas protagonizaram a história como participaram da produção, numa experiência que transportou para a ficção a força comercial de uma dupla que já fazia parte do imaginário da televisão brasileira.

Glória teve três filhos. Maria Amélia e João Paulo nasceram de seu primeiro casamento, com Arnaldo Brito. Com Tarcísio Meira, teve Tarcísio Filho, que também seguiu a carreira de ator.

Teatro permaneceu como base da atuação

Apesar da extensa presença na televisão, Glória nunca abandonou os palcos. Entre seus trabalhos estão “Tudo Bem no Ano Que Vem”, de Bernard Slade, que permaneceu em cartaz de 1976 a 1981; “Navalha na Carne” (1981), de Plínio Marcos; “Um Dia Muito Especial” (1988), de Ettore Scola; e “Jornada de um Poema” (2000), em que interpretou uma paciente com câncer em estágio terminal, e “Ensina-me a Viver” (2007), adaptação do filme americano homônimo lançado em 1971 e dirigido por Hal Ashby.

Para ela, a experiência teatral sustentava todo o restante da profissão. “O teatro me ensinou o que preciso para fazer televisão e cinema. Ele dá o conhecimento necessário para interpretar qualquer personagem diante das câmeras, porque nos projetamos muito mais. Quem faz teatro, faz qualquer outra modalidade”, afirmou.

A perda de Tarcísio Meira

A parceria de quase seis décadas terminou em 12 de agosto de 2021. Tarcísio Meira morreu aos 85 anos por complicações da Covid-19 depois de ser internado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Glória também contraiu a doença e estava internada na mesma instituição, mas apresentou um quadro mais leve e recebeu alta quatro dias depois da morte do marido.

A atriz passou os anos seguintes mais próxima da família e afastada das novelas. Seu último trabalho no gênero havia sido “Totalmente Demais”, exibida entre 2015 e 2016, embora ela ainda tenha realizado participações posteriores na televisão.

A carreira, no entanto, continuou a ser revisitada. Em 2025, Glória foi o centro de um episódio de “Tributo”, produção da Globo dedicada à trajetória de artistas que ajudaram a construir a história da emissora.

Última homenagem veio dias antes da morte

Glória recebeu uma de suas últimas grandes homenagens apenas seis dias antes de morrer. Em 12 de agosto, seu nome ganhou uma estrela na Calçada da Fama dos Estúdios Globo. Ela não compareceu à cerimônia, e Tarcísio Filho recebeu a homenagem em seu nome. Na mesma ocasião, o ator também representou o pai, homenageado postumamente.

Ao falar de sua trajetória no programa “Tributo”, Glória rejeitou a ideia de que o sucesso fosse o objetivo central da profissão. “Ao longo da minha carreira, as pessoas sempre me perguntaram muito sobre o sucesso, como se ele fosse o objetivo final da atividade do ator, quando, na verdade, ele é apenas uma consequência possível. Claro que é bom você conseguir o reconhecimento daquilo que faz, mas melhor ainda é você ter o privilégio de trabalhar uma vida inteira com o que você ama profundamente.”

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